A propósito do recente ataque ao Irão (e de outros acontecimentos), ouve-se muitas vezes “E a Europa? Não diz nada, não faz nada, não condena, não defende o direito internacional?” A essas pessoas eu digo “E o que querem que diga, que faça?”. Que é inadmissível alguém querer acabar com o regime do país do mundo que mais desestabiliza o Médio Oriente e mais além e não respeita ele próprio, nem de perto nem de longe o direito internacional nem os direitos humanos? Que discorda do método utilizado (quando não parece haver outro), depois das dezenas de milhares de mortos nas ruas das cidades persas por decisão do tal regime?
Como saberão os que aqui vêm dar uma vista de olhos, Donald Trump provoca-me asco e revolta. Narcisista nojento, ignorante e má rês. É uma besta a nível interno, corrupto até dizer basta, mentiroso e inqualificável na sua amizade com o assassino Putin. No entanto, eventualmente disruptor a outros níveis. Por exemplo, a Faixa de Gaza: a minha visão para a paz naquele canto do mundo seria transformá-lo num parque temático sobre as religiões “do Livro”, com hotéis de apoio, financiado por milhões de visitantes como os que visitam as pirâmides do Egipto ou os sítios arqueológicos mexicanos, vestígios de um passado ou glorioso ou cruel, mas passado e História. Claro que ainda não estamos aí, infelizmente. Talvez quando nos visitarem alguns extraterrestres. Mas a “Riviera de Gaza” do Trump e dos promotores imobiliários que o apoiam não anda muito longe disso. Seria bem mais útil que as pessoas de Gaza, permanecendo ali em casas novas e decentes, começassem a trabalhar no turismo do que passarem a vida a queixar-se dos judeus, a escavarem túneis para prepararem ataques e esperarem ajuda eterna da comunidade internacional. É evidente que, para isso, o Hamas, os Houthis e o Hezbollah terão que mudar de vida. Coisa que só pode acontecer se a torneira do financiamento se fechar e o sectarismo/fanatismo religioso violento secar em consequência.
Mas no que toca à Europa: é ou não é do seu interesse que o regime teocrático de Teerão mude e deixe de financiar os movimentos terroristas que pululam não só pelo Médio Oriente, mas também em células na Europa? E que deixe também de apoiar o regime russo? Se é do seu interesse, não seria de uma suprema hipocrisia, como parecem querer muitos, cortar relações com Washington ou levantar-se em peso, indignada com o que está a acontecer, como se isso não fosse sinónimo de solidariedade com o regime de Teerão e como se o ataque fosse também uma declaração de guerra à Europa? E os milhões de iranianos que anseiam e morrem pela queda do regime? Não merecem solidariedade?
Alguns dirão: Ah se assim é, então por que razão a Europa não se junta à causa americano-israelita e participa no ataque? Ora, porque não pode. Em primeiro lugar, ninguém lhe pediu ajuda e, segundo consta, nem conhecimento lhe deram. As relações Europa-EUA andam azedas, como sabemos, e com boas razões. Por outro lado, não possui forças militares e financeiras suficientes para se meter em mais outra guerra. Já basta a da Ucrânia. Em terceiro lugar, a rua árabe presente na Europa (culpa própria, eu sei) incendiar-se-ia num ápice. Sem força, por enquanto, resta à Europa o tempo. O que não interessa nem a Israel nem ao Trump (que não tarda morre). Pode correr muito mal esta operação “Fúria épica”? Não sabemos, mas compreendo que para Israel esta é uma oportunidade quiçá única.
Para concluir, é um facto que alguns conflitos recentes foram incentivados pelos Estados Unidos e que a União Europeia acaba a pagar as favas. Mas eu não diria mal. A Europa é um “work in progress”. E o belicismo há anos que está afastado da sua agenda, para nosso grande bem-estar.
