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Rapto na Venezuela: a pessoa errada a apear um ditador corrupto com a finalidade errada

Maduro já devia ter ido embora há muito. Perdeu claramente as últimas eleições, escondeu os resultados e manteve-se no poder. Com o apoio do Kremlin e seus amigos.

Agora, irónico e decepcionante é ser Trump, um ditador com aversão à democracia e às suas regras, corrupto, prepotente, debochado e megalómano (muito igual a Maduro – menos o deboche -, só mais rico e poderoso), a depô-lo. Trump não pretende restaurar a legalidade e a democracia na Venezuela. Nem sequer pretende que sejam os vencedores das últimas eleições a governar. Pretende apropriar-se das riquezas do país e, verdade seja dita, não esconde esse objectivo. Calhou bem que Maduro fosse um ditador e odiado por grande parte dos venezuelanos, que agora festejam. Mas a intervenção e a intenção não são de todo de aplaudir, à luz do direito internacional.

Teve piada Zelensky ao lembrar que, se Trump abriu a caça aos ditadores, então saberá o que fazer a seguir. Não é porém essa a política da actual Casa Branca, infelizmente para a Ucrânia. Na verdade, Trump quer lá saber se o Maduro era um ditador corrupto e ilegítimo (ele é igual, apenas legítimo, por enquanto). Só quer saber que a Venezuela tem riquezas que lhe interessam e não tem o seu poderio militar, ao contrário da Rússia. Baiden dizia que Trump até admirava Maduro. Não tenho dúvidas de que, pelo menos o invejava. Aconteceu que, provavelmente após acordo/negociata com a Rússia, teve luz verde para se apropriar do país e das suas riquezas. A ver vamos o que Trump faz com a Gonelândia, onde não existe qualquer ditador corrupto, nem narcotraficantes, nem influência russa, existindo em vez disso disponibilidade para negociar por parte de um histórico e agora suposto aliado.

E a União Europeia? Reagiu bem? Seria impossível reagir de outra maneira. Toda a comunidade venezuelana exilada festejou o derrube do ditador Maduro. Condenar apenas veementemente a ingerência num país estrangeiro seria interpretado como dando legitimidade a Maduro, o que seria muito errado. Dizer claramente que Trump fez muito bem, legitimaria o acto como um precedente aceitável para todas as interferências que se seguem. Assim sendo, resta constatar o acto consumado, ficar na expectativa e desejar que se instaure um governo que tenha o apoio da população. Os tempos são desafiantes, quando a política internacional se torna num “reality show”, onde todos os dias acontece alguma coisa escandalosa.

Ainda há dúvidas de que a PGR está nas mãos do PSD?

Algum dia a Justiça, quando se trata de políticos, será verdadeiramente eficaz, isenta e imparcial neste país?

É inevitável pensar que Marques Mendes, “apertado” pelas acusações de Gouveia e Melo em directo na TV de que é opaco em relação à sua actividade profissional passada, decidiu contra-atacar usando os contactos que tem na PGR para prontamente desenterrar e mandar para as redacções um caso de inquérito aberto há oito anos sobre ajustes directos na Marinha. Verificamos, mais uma vez, que o caso tem estado a marinar até melhores dias (oito anos!), sem que o principal visado tenha sequer sido ouvido ou tenha sabido das acusações. Os “melhores dias” chegaram, pelos vistos, agora. Este PGR não falha. Sempre a favor dos mesmos.

Tudo isto me parece escandaloso, quando o caso Spinumviva, que implica um conflito de interesses mais do que evidente (o primeiro-ministro esteve a ser pago por privados durante o exercício da sua função, e continua, tendo os pagamentos sido transferidos para os filhos; privados esses, como a Solverde, que acabam de ver as suas concessões renovadas), nem um inquérito suscitou, ficando-se por uma averiguação entretanto arquivada sem que os fundamentos das respectivas conclusões nos tenham sido dados a conhecer, num secretismo totalmente suspeito e inaceitável.

Dito isto, eu escandalizo-me e indigno-me e voto contra, mas tenho perfeita noção de que, tal como com Trump, é certo a um nível muito mais grave, se os eleitores, por uma margem determinante como indicam as sondagens, preferem a AD no governo a qualquer das alternativas, esta espécie de corrupção é ignorada e tolerada, se não mesmo incompreendida. Nem mesmo o Ventura, que elegeu a palavra corrupção como a palavra do ano e de todos os anos até chegar ao poder, fala nesta promiscuidade clara,  muito menos a denuncia.

Em suma, está tudo bem com esta direita, tudo sob controlo, maioria relativa dos eleitores contentes, uma Justiça amiga, um candidato a PR com fortes apoios na PGR. Quem se importa? Espero que o tiro saia pela culatra ao Marques Mendes. A este propósito, ler o professor Vital Moreira.

A grande confirmação de 2025: Putin, conselheiro da Casa Branca

Cabrão, pá, tu insiste na Gronelândia”. Eventual sugestão dos russos ao compincha Trump no Alaska e na Florida.

Com um megalómano narcisista, ignorante, corrupto e chanfrado na presidência dos EUA, rodeado de gente racista e belicosa, o mundo está muito mais perto de explodir em conflitos que conduzam a uma guerra mundial do que de eleger um prémio Nobel da paz.

Já se percebeu que a Venezuela está a ser trocada pela Ucrânia como zona de influência russa no quadro das “negociações para a paz na Ucrânia”. Entretanto, interessa a Putin que a Europa se distraia mais para Oeste, se apoiar a Dinamarca e a Gronelândia na sua defesa após a declaração de intenção de conquista deste território autónomo da Dinamarca pelos MAGA admiradores e cúmplices de Putin que tomaram de assalto a Casa Branca. Com isso, a frente Leste europeia pode bem desguarnecer-se com este desvio de atenções, tornando tudo mais fácil para o ex-KGB candidato a imperador e as suas ambições de conquista. Uma teoria que, assim de repente, considero não estapafúrdia.

Nem as razões do arquivamento nem o apurado nas “averiguações” são para o povo conhecer?

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Começa a haver vários imitadores de Trump um pouco por todo o lado. Fazem o que querem e entendem que não têm que prestar contas a ninguém. Não sei , nesta fase, se isto é escandaloso ou não. Os juristas que se pronunciem. Diria que sim e que esta decisão do PGR é tomada expressamente para resolver o berbicacho que é a Spinumviva para um PGR escolhido pela dupla Montenegro/Marcelo. Não querem claramente que se saiba o que se apurou. Ou porque se apurou demasiada ilegalidade e isso seria um problema político sério, ou porque não se apurou nada mas, neste caso, ainda menos se compreende que não saibamos por que razão foi tudo uma invenção. Uma invenção ou tudo perfeitamente legal. Mas o que é que foi legal, não podemos saber?

Pergunto-me se o PGR pode tomar decisões desta natureza. A lei não obriga à transparência? O Ministério Público funciona sem qualquer tipo de controlo. São uns reis.

Feministas legalistas e anti-feministas

Ronaldo, Khamenei e o ferro de engomar

Tudo certo neste artigo, excepto a posição da própria jornalista sobre o uso da burqa. Sobre isto, ver um artigo anterior, onde as considerações jurídicas elencadas apenas visam complicar o que, na realidade, é bem mais simples e fundamentar as suas dúvidas incompreensíveis em raciocínios de homens de direito à nora com a política. Na prática, entende que as mulheres devem ser livres de usar ou não usar, pois ninguém tem o direito de proibir o teu direito a não ser visto. E fala em totalitarismo. (“É, na verdade, de um peculiar e paradoxal totalitarismo que se trata: o de, a pretexto de salvar as mulheres da imposição da invisibilidade, determinar que não têm direito (ninguém tem) a não ser vistas/identificadas.”). Esta posição parece-me indefensável perante as críticas que faz às debatentes, pois nessa perspectiva as mulheres (críticas do feminismo, mas não vi o debate) que escolherem ficar em casa a tratar dos filhos e do marido e na total dependência deste, também devem poder fazê-lo, sem julgamentos. Portanto, estaria tudo bem. Nada a criticar. Nota-se, porém, que a jornalista critica muito mais do que a incongruência.

É verdade que elas, as mulheres antifeministas, estão erradas ao manifestarem-se contra a burqa, pois, para serem congruentes, deviam defender que uma mulher ser dependente economicamente do homem e, devido a isso, submissa e de contemplação exclusiva, não devia ser problema, mais trapo menos trapo, seria lá com elas. Mas a jornalista está igualmente errada ao criticá-las pela incongruência, quando ela própria, apesar de considerar a submissão das fêmeas ao macho inaceitável e a separação de funções muito criticável, no que respeita ao uso da burqa, uma fatiota que é o paradigma da submissão e do machismo, já considera totalmente aceitável, alegando que pode ser uma escolha e um direito. Bullshit, não?

Não vou ao ponto de dizer que estão bem umas para a outra, até porque o meu lado é o do feminismo (não atormentado). Mas quase. De facto, do lado das tradicionalistas há assuntos que se podem discutir sobre o acompanhamento das crianças. Pode uma mulher ser paga (pelo marido ou pelo Estado) para ficar em casa, quando existem creches para as crianças? Em princípio não, e deveria ser proibido em nome da igualdade e da dignidade. Mas se a mulher que fica em casa, sem outro emprego que não o de tratar da casa e dos filhos, tem bens próprios, pode considerar isso uma profissão, remunerada por ela própria, portanto um investimento. Ou então a relação contratual com o marido poderá, por lei, ficar plasmada num acordo nupcial (ou equivalente, para quem não for casado). Ou poderá haver um contrato com o Estado, no caso de não haver creches. Claro que nunca estas pessoas põem a hipótese de ser o homem a ficar em casa, o que é de lamentar. Mas, lá está, são antifeministas. São anti-igualdade e anti-equiparação. Umas tontas. De certo modo, são como as mulheres mais velhas do Irão, que pertencem às brigadas dos costumes contra as “liberdades” das mais jovens de mostrarem o cabelo.

As ditas feministas, por seu lado, como a jornalista, são incapazes de condenar a burqa apesar da luta e da repressão por vezes brutal das jovens mulheres do Irão por causa do mero hijab. Exigir-se-ia, digo eu, no mínimo mais solidariedade. Toda a solidariedade. Nem todas as proibições são más. Nem sempre deve ser proibido proibir. A proibição da excisão genital feminina é mais do que bem-vinda e urgente, pouco importando se as miúdas a querem fazer para não desafiarem a família, ou se são poucas a fazê-lo. As vinganças de honra familiares também são proibidas. Se for proibido, essa proibição acaba por ser absorvida e as coisas mudam. Para melhor. Se não for proibido, mantêm-se. Assim é com a burqa no Ocidente. Se for proibida, as pessoas adaptam-se. E não, as mulheres não vão deixar de sair à rua por não poderem fazê-lo com burqa. Isso é uma tolice. Aos poucos, ou no imediato, tirarão a burqa e circularão sem que ninguém lhes ligue. Deixam apenas de ser bichos, e os homens ficarão um pouco ou bastante menos trogloditas. Ou então, se fizerem muita questão, regressam às origens para se sentirem melhor. Não haverá problema nenhum com isso. Nenhum mesmo. Pode é acontecer que “as origens” também já tenham evoluído mais do que as feministas da liberdade de ocultação do corpo debaixo de trapos para os outros machos não as verem e cobiçarem. Seria bom e far-me-ia rir.

 

Senhores doutores, então?

Como 99% dos portugueses, não gosto da actual ministra da Saúde. É incompetente, errática e, suspeito, pouco entusiasmada com a utilidade do SNS. No entanto, o grande problema que é para os médicos do hospital do Barreiro (por exemplo) prestarem também serviços no hospital de Almada ultrapassa o meu entendimento.

Não sabia que a “burqa” estava na ordem do dia, mas a posição do PS surpreende-me

Não deve haver em Portugal muitas mulheres que enverguem a burqa. Eu ainda não vi. O niqab sim, já vi, e fiquei bastante impressionada com o conformismo e o estoicismo que aquelas mulheres revelam, sobretudo no Verão. Mas hoje, as notícias dizem que foi votada, assim de repente, uma proposta do Chega na Assembleia da República que visava a proibição (ao que parece apenas da burqa!)  no espaço público invocando razões de segurança e de igualdade.

Evidentemente que, vinda do Chega, esta proposta tem todas as intenções e mais alguma menos a de garantir a igualdade entre os sexos. No entanto, expurgando a proposta dos seus autores do momento*, todos devíamos concordar que a burqa ou o niqab, pelo que representam de opressão das mulheres (e as iranianas que o digam), não podem ser aceites no espaço e nas instituições públicas de um país ocidental civilizado. Fora de casa, as mulheres não devem transformar-se em vultos, sem identidade, sem personalidade, sem corpo, por força de princípios de insegurança masculina, ou de convicções sobre a inferioridade feminina, ditados sabe-se lá por que tarados há não sei quanto tempo.

Antecipo já as idiotices que irão ser ditas sobre a liberdade de cada um de escolha da indumentária, a liberdade religiosa, a comparação com as freiras católicas, a tolerância e por aí fora. Não me convencem. Nunca me convencerão. A burqa e o niqab são mais do que uma indumentária, são um símbolo de uma civilização oposta à nossa (inferior mesmo, arrisco dizer) em matéria de costumes e não só, não são uniformes de uma congregação restrita que, só por si, não representa a posição do catolicismo em relação às mulheres, e só são impostas às mulheres. Além disso, considero o voto contra  um desrespeito por todas as corajosas raparigas e mulheres que foram presas ou mortas em determinados países por quererem desenvencilhar-se de tais trapos e deixar o cabelo ao vento. A posição do PS é incompreensível. O que é que acontecia se tivessem votado a favor? Nada de mal e tudo de bom, assim tivessem querido ao mesmo tempo subalternizar o Ventura e sus muchachos (machistas e boçais) e defender os valores da dignidade, da igualdade, da liberdade e distanciar-se de vez dos retrógrados da geringonça, que se borrifam para todas as religiões (e bem), menos a islâmica. Mas está difícil. O argumento de que, assim, as pobres mulheres não vão sair de casa é risível, além de ridículo. Pelo contrário, se a perspectiva é a de não poderem sair de casa, talvez façam qualquer coisinha para sair dessa escravidão. Estão em Portugal, afinal.

*A propósito do asterisco lá atrás, deixo aqui a lista dos países europeus que proibiram ou restringiram o uso da burqa ou do niqab em locais públicos, instituições de ensino, hospitais, etc., sem que tivesse sido o André Ventura, demagogo e populista execrável, a propor:

França, Bélgica, Áustria, Bulgária (proibição total); Países Baixos, Dinamarca, Alemanha, Suíça, Itália, Espanha (Catalunha), Noruega (proibição parcial ou localizada); Bósnia e Herzegovina, Kosovo, Rússia (proibição em certos locais/regiões).

As razões foram várias, mas não certamente o racismo. Se tiver sido a islamofobia, a culpa é deles? Deve haver sequer culpa?

Em Lisboa, perdeu o Pedro Nuno e… a flotilha

O PS tem que esquecer de vez a geringonça. Teve o seu momento, em circunstâncias muito específicas (depois dos anos negros da dupla Troica/Passos Coelho), mas acabou. Por duas razões: o PCP, sobretudo desde que começou a guerra na Ucrânia, passou para um nível de contradição, desadequação e repúdio que jamais tivera, o que se soma à morte do comunismo enquanto ideologia política. E que não se pense que os 10% que a cara laroca do João Ferreira conquistou passariam directamente para a coligação, caso se tivesse querido juntar. Não passariam, e a Alexandra Leitão também não ganharia.

O Bloco tem-se afundado lentamente por falta de objectivo, pelo definhar do esquerdismo e porque a liderança da Mariana Mortágua só veio agravar a situação: nada empática, pose rígida, fraca oradora, mais à vontade em salas de interrogatório. Ultimamente, o grande objectivo de ser presa pelas autoridades de Israel, a exibição de tal acontecimento como troféu e prova da maldade dos judeus e a ideia mítica de Gaza contribuíram para a sua descredibilização. Oh, que imbecil, então não és sensível à vontade de levar ajuda a quem sofre? Neste caso, perdoem, mas não. Se a Mariana não tivesse sido detida, a viagem teria sido uma desilusão e um flop para ela (já que os “alimentos” eram apenas um pretexto). A situação naquela parte do mundo não é classificável na simples dicotomia de “os bons e os maus”. A dita ajuda, a existir, era tão insignificante que nem a Sofia Aparício (que vi em entrevista num canal) sabia bem em que consistia nem onde seguia. Depois, o sonho daquela gente de “ver Gaza e morrer” (salvo seja), como testemunhei ao ouvir uma inglesa da flotilha num outro canal, era tão alucinado que só provoca dó ou o riso. Gaza é uma situação demasiado séria para ser tratada por poetas. Poetas à distância, pois se penetrassem naquele antro e sobrevivessem depressa se deixariam de romantismos. Por isso, não,  a Mariana junto à Alexandra Leitão não foi bonito de ver e, pior do que isso, não lhe deu votos.

Seja como for, a Alexandra Leitão não foi boa escolha e eu própria teria dúvidas sobre o meu voto não fora o Moedas ser a tamanha incompetência que é. Continuo a não perceber, porém, mesmo com o handicap da Geringonça, por que razão se votou maioritariamente naquela incompetência. Vão ser mais quatro anos de estagnação, que muitas freguesias da capital preferem à coligação “das esquerdas”. Dá que pensar e o José Luís Carneiro, que até me está a surpreender pela positiva, pela sua vitalidade e simpatia, tem algumas arrumações  e revisões de estratégias a fazer no partido.

Apresenta-se o orçamento na véspera de eleições autárquicas (e uma nota sobre outro tema)

Primeira observação: não se percebe por que razão o Ministério Público não abriu ainda um inquérito crime a Luís Montenegro por causa da Spinumviva, da casa de Espinho, etc., quando estão em causa conflitos de interesses, fraude fiscal, abuso de poder e recebimento indevido de vantagem. O facto de António Costa se ter demitido por causa da existência de um inquérito à sua pessoa (e com base na mera menção do seu nome em telefonemas, num caso que não deu em nada, como se previa) não devia ser critério para a opção por uma averiguação preventiva que pouca investigação permite no caso de Montenegro. E a esperteza-saloia de que todos desconfiamos no que toca à sua empresa não é aceitável. Nem jurídica nem politicamente.

Do que veio à luz ontem, deduz-se que os procuradores com o caso nas mãos consideram imprescindível a abertura de um inquérito, mas o PGR, Amadeu Guerra, tem receio de enveredar por aí. E porquê? Por achar que o que está em causa não o justifica? Como assim? Por causa da instabilidade política que tal decisão suscitaria? Por “lealdade” para com Montenegro, que foi quem o escolheu para o cargo? Perguntas legítimas. Até porque falta documentação (pedida há muito) e nem tudo cabe no âmbito de uma averiguação preventiva, como o PGR decerto sabe. Espera pelo fim das autárquicas? O Dr. Amadeu Guerra prometeu não desiludir em matéria de isenção, integridade e transparência. Estamos atentos, mas preocupados, para não dizer “estupefactos e revoltados”. Mas não tranquilos.

Segunda observação: o Passos Coelho anda por aí na campanha a espalhar charme… que horror, desculpem, não sou a Helena Matos nem o Miguel Pinheiro, eternos carentes. Charme nenhum, credo. Espalha sim, mas uma única ideia desde que começou a abrir a boca: a aproximação ao Chega de André Ventura seria algo extremamente positivo para o PSD e para o país. Aliás, ele próprio foi quem lançou o André Ventura na política e, pelos vistos, está a amar as suas poses nazis, o seu discurso violento, as suas mentiras, o seu elogio ao salazarismo, a má educação dos seus apoiantes. Se o Montenegro for à vida, teremos não um, mas dois Venturas nos palcos. Novamente, que horror.

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Sobre Gaza: Contente, muito contente, com o alívio que o acordo representa para a população de Gaza e para os reféns israelitas e suas famílias, assim como para os prisioneiros palestinos libertados. Espero que desta vez seja de vez e considero que só uma solução radicalmente diferente das que têm sido aplicadas até agora tem alguma hipótese de vingar. Chega de mortes. Que se construa algo de positivo e produtivo em Gaza. Chega de dependência de ajudas humanitárias. As pessoas de Gaza são tão capazes como quaisquer outras.

Espero que o problema da Cisjordânia também conte com a colaboração de todos os interessados (árabes, judeus, palestinos, turcos, jordanos, europeus) para a sua resolução, que, a meu ver, tem que implicar o fim dos colonatos, também de uma vez por todas, mesmo que tal implique causar apoplexias nos judeus ortodoxos radicais, fanáticos e alucinados.

Mariana Mortágua está contra o plano de paz para Gaza, mas o Hamas não. E agora? Junta-se à Irmandade Muçulmana? Busca refúgio no Hezbollah?

Estou a ser injusta. Na verdade, há um ponto do plano de paz em que  o Hamas partilha a opinião com a Mariana – não pode ser um governo internacional transitório chefiado por Tony Blair (que ela considera um criminoso de guerra, pelo apoio à invasão do Iraque) a liderar a pacificação e o período de transição. O Hamas (que não disse nada sobre o Tony Blair) defende que essa liderança seja entregue a “tecnocratas palestinos”. Quais e se existem, não sabemos. Mas espero que o Hamas no-los apresente em breve, entregue os reféns e saia de cena. Mariana é mais radical do que o Hamas ao rejeitar liminarmente tal plano, mal ele viu a luz. Basta ler o que publicou. Possivelmente nem a entrega dos reféns lhe agrada. Folgo em saber que o Hamas não lhe deu ouvidos.

A população de Gaza está a passar horrores entre as garras e sobre os túneis do Hamas e as bombas do Netanyahu. Toda a gente que vive fora dali gostaria que o horror acabasse.  Mas a flotilha nada adianta e nada adiantou. Pelo contrário. Se os seus membros, como a Mariana, recusam liminarmente o plano de paz que está em cima da mesa e o Hamas o aceita, só podem querer a continuação da guerra e assim lá se vai o pacifismo e a compaixão por quem sofre. No dia em que o Hamas ou os palestinos reconhecerem o Estado de Israel, a Mariana morre de desgosto ou atira-se da ponte.

É estranho o que acontece, para quem usufrui de toda a liberdade que o mundo ocidental lhe oferece: nunca por nunca ser se vê esta mulher e as alminhas da sua índole a manifestarem-se contra alguma coisa, uma coisinha qualquer, referente aos países muçulmanos, aos islamitas radicais ou aos muçulmanos presentes na Europa que são violentos ou simplesmente rejeitam os nossos padrões de vida. Estes são sempre uns desgraçadinhos, vítimas de discriminação ou do tenebroso Ocidente, onde ela alegremente vive e onde os outros já vivem ou gostariam de viver. Esta esquerda bacoca anda definitivamente do lado errado da História e não admira que se afunde aos olhos do eleitorado. Deixou de atribuir importância à democracia e à liberdade, a não ser para poder defender causas perdidas, não percebe que não há causa mais nobre neste mundo do que defender o que levou séculos a conquistar e é inveja de todos e lutar contra os seus inimigos. Mariana devia ter orgulho de ser ocidental e livre. Mas não. Provavelmente, as pessoas que se manifestam nas ruas pela Palestina “from the river to the sea” são mais um joguete nas mãos dos russos, para os quais todos os meios são bons para desestabilizar o Ocidente – a extrema-direita, a extrema-esquerda, não importa, tudo o que possa desestabilizar é bom. Estão a ter algum sucesso.

E depois entram em cena os movimentos como o Chega (a imitar os MAGA), que visam resolver tudo à força. Donde lhes vem a atractividade? Uma boa parte virá do excesso de compreensão da esquerda para com os desmandos e os crimes de quem não quer deixar a Idade Média e a quer impor aos outros e do seu ódio ao Ocidente, esquerda essa que, ao mesmo tempo, quer ser hiperavançada em matéria de costumes. Tem que se decidir.

Yes! Foram detidos

Socorro! Irão ser interrogados, cabeça dentro de água e…? Não. Nada. Amanhã ou depois estarão de volta, cabeças secas. Só espero que não se venham queixar de não poderem largar a carga em Gaza. Seria o cúmulo. Que piada é que teria chegarem à praia, largarem a comida e virem embora? Giro, giro é serem parados, irem presos, passarem dois dias do Yom Kipur a comer sanduiches de recheios Kosher e acusar os israelitas de selváticos genocidas.

Enfim, não sou insensível. Mostraram compaixão pela população devastada de Gaza e quiseram levar-lhe alimentos. Foram longe e alguém (igualmente solidário(?)) pagou. Uma boa acção, sem ironia. Eu acho que os alimentos serão entregues e, nesse particular, podem ficar descansados. Agora, o benefício para os habitantes de Gaza foi grande? Não foi. Terá sido isto um acto de coragem? Não, de todo. O desfecho era mais do que conhecido e, se temessem mesmo a morte, o fuzilamento, a decapitação e outros horrores normalmente cometidos pelos islamitas, nem sequer teriam ido. Como é que eu sei? É fácil. Alguém vê manifestações dessas mesmas pessoas (e já nem digo viagens, meras manifestações) contra a opressão inqualificável dos talibãs em relação às mulheres (mortas para o mundo em vida)? Ou contra a repressão no Irão, não só contra os opositores, mas mais uma vez contra a liberdade das mulheres? Eu não vejo. Se calhar compreendem os dramas, se calhar, porque também é possível que considerem os talibãs o fruto do colonialismo ocidental, desculpando-os, como ao Hamas, mas não querem ser vistos e mais tarde esfaqueados ao virar da esquina. Pois é. A coragem é falsa e a solidariedade é selectiva. Valeu o passeio.

E Mariana em cruzeiro pelo Mediterrâneo

Não sei se, dentro do género, não teria sido mais heroico fazer um rali Paris-Dakar na versão Ceuta-Gaza, em camiões pelo norte de África, para levarem qualquer coisinha à população palestina em fuga permanente para lado nenhum. Mas tenho a noção de que seria mais exigente, com mais obstáculos (nomeadamente diplomáticos) e muito menos prazenteiro, já que todos os países do norte de África se têm mostrado pouco interessados em acolher palestinos e facilitar ajudas, além de hostilizarem as pessoas LGBT. De barco acaba por ser mais poético e mais livre de muçulmanos bizarros. E há convívio e tal.

Entretanto, certo é que o Bloco ficou sem líder por tempo indeterminado, o que, no plano político nacional, não aquece nem arrefece, mas fica mal. Mariana anda em passeio. A flotilha vai até lá para ser corrida, já se sabe, ou numa hipótese mais remota e altamente improvável, afundada, podendo ou não descarregar a comida. O afundamento não vai acontecer, com pena de alguns membros mais excitados da flotilha, que vai apenas regressar.

Gaza está na boca do mundo inteiro e não vai ser a flotilha a chamar a atenção para o problema. Pelo que não se pode descartar a hipótese de tudo isto constituir um divertimento de fim de Verão. Eventualmente alguns membros serão presos e depois libertados, só para dizerem com conhecimento de causa que os judeus são uns cães, insensíveis e genocidários. Não esperam com certeza que, no meio desta guerra, o Governo de Israel os receba e os leve a fazer um tour por Telavive, Jerusalém ou Gaza. Se, numa de ousadia, desembarcarem e decidirem “invadir” Gaza e ir lutar ao lado do Hamas são idiotas, porque, na realidade, o Governo de Israel pode estar a levar a violência a níveis inqualificáveis, mas o Hamas é um bando de assassinos, incapaz de suscitar simpatia, muito menos de trazer progresso, bem-estar e tolerância a qualquer local ou população que seja. O seu core business é outro.

Em Portugal há, neste período, uma campanha eleitoral e a verdade é que a Mariana já desistiu do Bloco, não havendo bandeiras da Palestina que lhe valham. Por mim, o fim do Bloco é um desfecho mais do que natural. A Mariana foi um erro de casting: tem postura de inquisidora, não de líder. Mas o Bloco também se tornou inútil. Se é preciso agarrar-se à causa de grupos muçulmanos violentos e obscurantistas, que vêem nas mulheres fábricas de produção de mártires e penduram os homossexuais de guindastes, para ter protagonismo, é bom que o partido desapareça de vez. Nunca vejo pessoas como a Mariana protestar contra o Hamas. Talvez o considerem uma vítima.

 

Nota: É um facto que a população de Gaza está encarcerada e sofre de uma maneira inimaginável. Sem casa, quase sem comida, sem terra. Gostaria de viver em paz, mas a inveja e o ódio ao vizinho instigados pelos radicais que a controlam sobrepuseram-se a tudo o resto, culminando no “festim” e nos festejos do 7 de Outubro de 2023. O medo do próprio Hamas também impera. Ao ponto de toda a gente parecer ter pactuado com a construção da gigantesca rede de túneis para fins militares em todo o território, desviando com isso milhões de ajuda que poderiam ter sido empregues no desenvolvimento daquela sociedade.

O Hamas, como outros grupos extremistas muçulmanos, não luta apenas contra um “colonizador” específico, segue uma cultura de morte, nomeadamente contra os seus próprios cidadãos. Sendo intrinsecamente violento, existe, como os outros, sobretudo para exterminar judeus e os chamados “infiéis”. Porém, não existisse Israel, e a luta seria a mesma e igualmente violenta, contra o Ocidente e os seus valores (ver o ISIS, a Irmandade Muçulmana, o Hezbollah, etc.) ou simplesmente contra seitas rivais (ver Síria). O que fazer com tudo isto? Nem destruir Israel nem matar todos os gazenses são soluções viáveis. Os países ricos do Golfo são os únicos que podem fazer de Gaza um sítio habitável. Mas para isso é preciso 1) acordarem com o Irão o reconhecimento do Estado de Israel, 2) gostarem dos palestinos e 3) imporem o fim do Hamas. Tudo difícil.

O manicómio vai bem, por definição

O puto Donald quer tanto imitar o amigo Vladimir e mostrar-se grande como os grandes que agora inventa uma guerra com a Venezuela para poder ter um Ministério da Guerra e exibir o seu poder de fogo. Problemazinho: a Venezuela é um país cujo regime ditatorial e corrupto é fortemente apoiado pela Rússia, que forneceu as técnicas de falsificação e as garantias para que o Maduro se mantivesse no poder apesar de ter claramente perdido as últimas eleições. Neste momento de grande confusão, em que os exilados do regime de Maduro estão a ser corridos dos Estados Unidos, não posso dizer se há aqui algum tipo de perigo ou se o Donald anda apenas a divertir-se sem consequências, ou até se tem autorização do Putin para brincar nesta zona. Mas no seu narcisismo patológico nem vê que quem se está a divertir à grande são outros com as figurinhas que faz e o poder que lhes atirou subitamente para o regaço.

O actual presidente dos Estados Unidos sente-se mais seduzido pelos grandes ditadores e autocratas do que pela geopolítica, de que não percebe nada nem quer perceber. E assim pensa que convidando para sua casa na Florida os membros do G20 formará uma amizade global de ricos e poderosos para lustrar o seu ego e pensar que lhe prestam vassalagem. O suicídio em directo e a conta-gotas da América.

Ah, o alargamento da NATO. Que perigo

En direct, guerre en Ukraine : Vladimir Poutine estime que la question de l’élargissement de l’OTAN doit être abordée pour parvenir à la paix

 

C’est à dire: nenhum país mais pode entrar na NATO e alguns dos que lá estão e que interessam ao Czar devem sair e, de preferência, desarmar-se. Só assim haverá paz. Pax Vladimira. O Vladimir quer mandar na NATO.

Mas… mais devagar. Há perguntas a fazer. A NATO, por acaso, tem por objectivo, declarado ou oculto, invadir a Rússia? Quando, como, porquê? Sequer algum país no mundo tem por objectivo invadir a Rússia? A Geórgia, a Chechénia, o Cazaquistão, o Azerbaijão, a Ucrânia ou, já agora – os Estados Unidos, a Polónia – sonham invadir a Rússia? Ameaçam a Rússia? A mim parece-me que o Napoleão e o Hitler já se tramaram o suficiente.

Este disparate alardeado pelo Putin e seus porta-vozes serve para quê? A resposta é óbvia: dar ao mundo e aos cidadãos russos (em geral desligados, mas enfim, alguns estão a morrer) a impressão de que a Rússia está sob enorme ameaça e assim justificar os seus actos de agressão sobre os vizinhos, num ataque de possessividade imperialista (claro que os colonialistas eram e são os outros). Dizer que a NATO é um perigo à sua porta e o seu alargamento uma ameaça dá para rir quando olhamos para Kaliningrado e todo o arsenal nuclear russo nas fronteiras com a Europa. Então, perigo porquê? Quem está em perigo é quem não pertence à NATO (e a ver vamos, com o agente laranja ao comando). Portanto, ainda por cima estando a NATO num “tem-te não caias” devido ao louco do outro lado do Atlântico, este argumento do alargamento da NATO como ameaça à paz e eventual causa da guerra faz ainda menos sentido. Sentido nenhum. Por isso, arranja lá outra, ó Vladimir. Mais vale dizeres que a Ucrânia é tua e que tem que te ser fiel ou morre. “Ou me amas ou te mato”. Que tirania e que insegurança aí vai. Se fosses atraente e cavalheiro tudo seria diferente.

Se bem me lembro, a Rússia vivia tranquilamente lá na sua imensidão gelada e menos gelada, sob um regime execrável, é certo, mas instalado e aceite, trocava de cadeiras cadenciadamente entre Medvedev e Putin, vendia o seu petróleo e o seu gás a quem queria, principalmente aos europeus, a prole mais jovem do chefe bem confortável na Suíça, os seus oligarcas a circularem pela Europa, passeando os iates pelas ilhas mediterrânicas, filhos a estudarem na Europa ou nos Estados Unidos, atletas a competirem em todo o lado, enfim, ricas vidas, não incomodadas. Será que a Ucrânia, um país soberano, mas com o qual a Rússia poderia interagir e com vantagem se o quisesse fazer civilizadamente, vale a mudança de hábitos, a destruição e a carnificina? Caramba. Tinha que ser um ex-KGB a chegar ao poder?

É, pois, mais do que legítimo que a Ucrânia, atacada só porque sim, peça ajuda para se defender.

E aqui estamos. Mortes e mais mortes. A Rússia é um gigante militar, mas a maioria dos ucranianos não quer subjugar-se ao regime que lá vigora. É mais do que natural que os antigos Estados da ex-União Soviética se queiram defender contra um destino semelhante, em vez de assistirem impávidos aos apetites do senhor Putin. O alargamento da NATO não é perigoso para ninguém, e tem justificação. O desejo dos seus novos membros de ameaçarem ou de invadirem a Rússia não é de certeza. É o contrário.

Ainda falta muito?

Quando é que o PCP vem dizer que Trump, o presidente da, desde sempre, “única potência imperialista, militarista, agressora e capitalista do mundo”, é um grande pacifista e que, com ele, a América está finalmente a apresentar alguma sanidade e a aproximar-se do lado bom da Galáxia, aquele em que os cidadãos são carneiros mudos e os dirigentes vitalícios, eternos, por serem os únicos detentores de sabedoria, como o Xi, o Vladimir e o Kim, enquanto a Europa e as suas democracias só atrapalham?

 

Mas quem sabe os novos tempos de amor do casal Donald-Vladimir os deixem desnorteados e incrédulos, sem inimigo útil, e, envergonhados de aplaudir, prefiram o silêncio. Eu aguardo.

Drama existencial para a Europa: impedir a todo o custo que o empreiteiro de Washington caia de vez para o lado de Moscovo

Mas porque é que a Europa não manda o Trump passear? Esta é a pergunta que toda a gente faz, mas que nenhum líder europeu democrata e responsável quer ou pode concretizar.

Hostilizar Trump neste momento ao ponto de uma incompatibilização grave deixaria, por um lado, a Ucrânia sozinha e aniquilada e, por outro, a Europa encurralada entre dois blocos liderados por tiranos autocratas amigos e sem capacidade militar para se defender de um, quanto mais de dois. Demasiado mau, demasiado perigoso, dado o carácter vingativo dos personagens em causa. Trump não é um democrata nem um líder respeitador do direito (nacional e internacional). Não conhece nem quer saber desses conceitos. É um empreiteiro e pato-bravo, além de showman televisivo, sem conhecimento algum quer de política quer da História. Aprecia, porém, como é típico, a fidelidade cega.

As técnicas de liderança do ditador russo são-lhe, por isso, atractivas: exercício da liderança sem contestação, prisão para os adversários, silenciamento da oposição, falsificação das estatísticas, órgãos de comunicação social que apenas reproduzem a propaganda do governo, sentimento de superioridade (do próprio – infundadíssima – e do país), repressão sobre quem contraria os seus interesses, militarização do regime, perpetuação no poder, enriquecimento pessoal e partilha da riqueza só com quem o reverencia, etc., etc. Tudo o que Putin faz (excepto atirar adversários políticos de janelas abaixo e envenenamentos. Por enquanto). Porque haveria Trump de hostilizar Putin, se quer ser como ele? Aliás, quando está cada vez mais perto de o conseguir?

 

O drama de tudo isto não é só para os ucranianos. É-o em quase igual medida para os europeus, para a Europa democrática em particular (e resta saber se seria diferente com uma Europa não democrática, assunto para outro artigo). Perante esta situação inédita e assaz inesperada de entendimento entre a Rússia e os Estados Unidos com base em princípios ditatoriais, de agressão e imperialistas comuns e em amizades pessoais (ou poder de chantagem) entre malfeitores, temos visto a Europa, infelizmente, mas realisticamente, a fazer a única coisa possível: tentar a todo o custo “puxar” o empreiteiro de Washington para o seu lado, entre outras coisas chamando-lhe “aliado” e enfatizando o poder da NATO.

Sempre me perguntei se o chamado “agente laranja” dá sequer um “dime” por esta aliança. Ele não quer saber da Ucrânia para nada (a não ser para lhe dar o Nobel da Paz, ideia que me engasga) e, da Europa, apenas lhe interessam os campos de golfe que ainda cá tem, os empreendimentos do genro, o Papa por causa dos seus eleitores beatos e as decorações imponentes dos seus palácios e catedrais, que pretende copiar. De resto, é demasiada História, demasiada intelectualidade para a sua cabeça. Admirando Putin, o que é que a NATO lhe diz quando poderia fazer acordos bilaterais para bases militares e armamento? Quase nada.

Estamos então neste drama do artigo 5.º. Temos o nosso poder militar disperso e inferior ao dos Estados Unidos e da Rússia. O vizinho do flanco Leste tomou o gosto de mandar mísseis para os vizinhos sem o mínimo gesto hostil da maior potência militar do mundo, seu principal adversário de há décadas e nosso aliado. A ida dos líderes europeus a Washington é, sim, desesperada. Não vale a pena os comentadores de serviço mencionarem este facto como lamentável. É o que é. A cimeira do Alasca foi um erro tremendo do ponto de vista da segurança europeia. De cada vez que se encontra com Putin, Trump fica mais apaixonado e solidário. Agora há que reverter os estragos. Votos de bom sucesso. Mas a coisa está preta, como se constata pelo vídeo acima.

Curiosidade(s)

 

  1. No Alasca, na próxima semana, teremos frente a frente um homem que ordenou a invasão militar de um país vizinho e outro homem que declarou, há apenas alguns meses, a sua intenção de anexar um país vizinho, o Canadá, e ainda a Gronelândia. Este segundo, alegadamente, a tentar pôr fim à guerra iniciada pelo primeiro só porque, enfim, só porque lhe disseram que seria o maior se o fizesse.

A minha curiosidade prende-se com o tipo de diálogo que poderá ter lugar. Vamos especular?

Então, Vladimir, vamos acabar com isto?

– Oh p´ra ele. Então já desististe do Canadá, pá?

– Vamos esquecer isso, pá. “Tariffs are great”. Chega de mortandade?

– Mas como é que tu ias conquistar o Canadá sem matar ninguém, ó seu grandessíssimo Nobel da Paz?

– Vladimir, “my man”, estou tão rico como tu. E olha que tenho mais força do que tu.

Ai tens? Queres apostar?

– Calma, pá. Queres deixar de vender petróleo?

– Agora digo eu, calma, pá. Eu dou-te o Nobel da paz se desmilitarizares o palhaço. Depois é cá comigo.

– Palhaço? Eh eh, boa! “You got it”. Vou tentar, pá. Mas só se concordares com um cessar-fogo. “You know, that’s what folks are expecting back home. And I could build so many beautiful, gorgeous towers in Moscow! So, deal?”

 

Não enveredei propositadamente por um tipo de diálogo mais picante, envolvendo vídeos ou fotos comprometedoras, porque nada se sabe sobre essa possibilidade de chantagem, embora seja sempre uma possibilidade (de modo nenhum a única) perante a bonomia e a camaradagem com que o tirano de Moscovo tem sido tratado.

2.

O major-general Agostinho Costa, um verdadeiro admirador, mais do que isso, um apaixonado pela pátria russa, pela estratégia do regime russo e pelas capacidades intelectuais dos seus dirigentes, sempre que exprime as suas opiniões fá-lo em nome de um “nós” assaz bizarro. Se repararem, diz sempre “Nós achamos”, “Nós entendemos que”, “Nós confirmámos”. A minha curiosidade é a seguinte: quem é “Nós”? Repito, ó Agostinho, estou intrigada, quem é “Nós”?

 

  1. Terceira curiosidade: há ou não militares nos Estados Unidos revoltados com o rumo que a democracia americana está a tomar e com a Kim Jong-un..nização do regime e da nação? Às tantas não há mesmo.