Todos os artigos de fmv

Sucedeu no Sheraton

Sheraton.jpg

Há-de julgar-se que não, mas as coisas passaram-se exactamente assim.

Eu queria escrever uma charla (esta mesma) sobre um texto contido num site que descobri, do jornalista Joel Neto (o link vai aí não tarda), onde ele reúne trabalhos que publica, e onde vi referido «NS», que supus (e bem) ser a revista onde ele agora escreve. Não tendo ainda a certeza disso, digito no Sapo «joel neto ns», e que vejo eu logo a oferecer-se? Isto do Nuno Ramos de Almeida, a cuja leitura o destino me havia poupado.

Tinha agora uma certeza que não tivera, a de que «NS» era a revista onde o Joel Neto actualmente escreve, e tinha também um problema: a opinião sobre ele do meu prezado colega aspirínico. Como acho o Joel um magnífico jornalista (mas eu sou suspeito, porque não sou do métier, e sou ainda por cima amigo dele), fiquei desolado com o que o Nuno escreveu e em que vocês entretanto ficaram (e bem) entretidos, deixando-me aqui a falar sozinho.

Tudo isto é tortuoso? É. E porquê? Porque eu não queria falar da «NS» (que nunca vi, de resto, pois não chega cá tão longe), nem do Nuno, nem propriamente do Joel, nem sequer, imagine-se, do site dele que aduzi. Que queria eu então? Só isto: recomendar-lhes o texto «Lisboa vista de cima», um retrato de Vasco Graça Moura como tão depressa não o verão, já que, em entrevistas, ele diz só o que pretende passar e, quando retratado, fascina o jornalista.

Ora, pela primeira vez, alguém, o Joel, faz a VGM um retrato despido de reverência. Resultado: saem os dois a ganhar.

A América não era outra coisa?

BrokebackMountain_h2.jpg

Fui ver o filme. Nele fuma-se (muito), bebe-se (muito), matam-se a rifle veados (veados tipo Disney), comem-se veados (tipo Disney, claro), grita-se «Jesus Christ» como variante de «fuck you», brinca-se com os Pentecostais e com os Metodistas. E com o Papa. Ah, e há dois homens que não aguentam quietos juntos.

Se isto é a América, começa a ser muito, mas muito correcto gostar da América.

Eu edito-me, tu editas-te

O João Pedro George informa, no Esplanar, que valter hugo mãe (assim, sempre com minúsculas e sem acento), um dos fundadores da Quasi, criou recentemente uma nova casa editorial, a Objecto Cardíaco. Óptimo. Queremos editoras. E valter hugo mãe fez, na Quasi, um magnífico trabalho.

Mas, que vemos? Que a Objecto Cardíaco acaba de editar o «Livro de Maldições» de… valter hugo mãe. Quer dizer: um dos primeiros livros, possivelmente o segundo, da juvenil editora é do próprio responsável da casa.

Trata-se, ainda assim, de um exemplo de discrição, já que conhecemos editores (pequenos, mas que julgávamos sérios) que oferecem ao mundo, antes de quaisquer outros, um livro próprio. Dão a desconfortável (ou descarada…) impressão de terem fundado a casa para se darem, a si mesmos, em repasto.

João Pedro George, que sabe fazer levantamentos, bem poderia ir mapeando os auto-editores portugueses. Bom proveito.

Dá Deus o talento a quem não tem tempo

capa02.jpg

A Periférica acabou. Como nos anos 90 acabou a Kapa, como nos anos 70 acabou A Mosca, como nos anos 60 acabou o Almanaque. Deixando-nos a aguar por mais. Aguando eternamente. Há um mito para isto, não me recordo qual.

A Periférica era a nossa melhor revista literária? Quem o saberia afirmar, sem ofender demasiado a Ler, ou a Colóquio Letras? Mas não acabou também a Ler, metamorfoseada em volume anual? E a Colóquio Letras não se está fazendo bela e etérea? Chega de perguntas, vamos às lamentações.

Durante quatro anos, Trás-os-Montes trouxe encantado o resto do rectângulo. Produziu, num enternecedor papel reciclado, um objecto cultural que queimava nas mãos. Vinha ele das forjas de Rui Ângelo Araújo, de Carlos Chaves, de Paulo Araújo, de Vítor Lamas, de José Ferreira Borges, de Fernando Gouveia, que ainda varavam o país, arregimentando para a empresa qualquer arrojo ou não-alinhamento que se lobrigassem. Tudo benfeitores da cultura.

Como começou a coisa? Sabemo-lo agora. Foi a mais singela prenhez auditiva. «A ideia de criar uma revista de âmbito nacional», diz o editorial de despedida, «foi deixada pelo Divino Espírito Santo no voice mail do telemóvel de um de nós». E os chamados largaram tudo – remanso, carreiras, mulheres e crianças – para lançarem ao Mundo, em catorze tremendos números, o melhor que tinham e que nós não merecíamos.

Hoje perguntam-se: «Que estruturas abalámos?» E, para nos cortarem qualquer devaneio, eles próprios respondem: «Não evitámos que a “cultura” da metrópole ficasse tantas vezes contentinha-da-silva e auto-satisfeita com as palmadinhas dos amigalhaços». Assim mesmo. Com assassinas aspas e puídos clichés. Era isso o que merecíamos, com isso se nos deixa.

A Periférica acabou. Pelas mais respeitáveis razões. «Fazer uma boa Periférica», confia-se-nos, «exige talento, tempo, dedicação, atenção, treino – uma redacção em forma e altamente disponível. De todos os requisitos apenas nos sobra o talento». O talento. Para nós, o talento não era um ‘requisito’. Era tudo o que sabíamos que por ali existia.

[ Mais e melhor no site da Periférica ]

O número 14, o último, acaba de ser posto à venda. Numa boa livraria perto de si.

Dubai on the Algarve

palm_jebel_ali.jpg

Sou um leitor do «Metro». Falo do «Metro» neerlandês, um bocado melhor do que o nosso. Tem um trabalho redaccional sério e fama de simpatias à direita. Mas leio também o concorrente, «Spits», ‘Hora de Ponta’.

E que se soube pela «Spits» de hoje? Que um multimilionário holandês, Sander van Gelder, projecta criar uma ilha ao largo do Algarve para receber gente discreta, para quem € 2.000 por uma noite de hotel não é avaria de maior. O senhor, que já é dono do luxuoso complexo turístico de Vale do Lobo, inspirou-se na península que o Dubai está a construir, a tal em forma de palmeira, que até da Lua é visível.

A ‘nossa’ ilha terá forma de vieira. Nela haverá hotéis, um court de ténis, um restaurante subaquático (sim, os dois mil pacotes são para se tomar o pequeno-almoço entre os peixinhos), e vai chegar-se até lá de monorail e teleférico.

«Com o crescente número de milionários, há uma maior procura de coisas invulgares», afirma o senhor Van Gelder. Pode ser. Mas não faz grande impressão aos nossos ecologistas, que já se perguntam sobre os efeitos da ilha artificial.

Ah, e uma vivendazita modesta, algures nos rebordos da vieirinha, ficará por uns 4 milhões de euros.

Qualidade portuguesa

truca_3d-1.JPG

Saber falar é uma arte. Saber ler também. Luís Gaspar, «locutor de publicidade», tem-nas, uma e outra. Podem ouvi-lo no seu audioblog ESTÚDIO RAPOSA (www.estudioraposa.com), eventualmente pela ligação no TRUCA (www.truca.pt).

Aí se percebe como o nosso idioma – apesar do fechamento sonoro dos últimos séculos, que se vem acelerando – ainda tem sonoridades fortes e maviosas. Aí se aprende a ler aos outros: aos amigos, aquele poema que nos saiu esta tarde no café, aos miúdos, aquela história antes de adormecer. O efeito é o melhor. Os amigos ficam boquiabertos. As crianças não. Mas ficam crendo, para a vida, que o meu papá, a minha mamã, são os maiores.

A qualidade nunca esquece.

Esta pergunta não é parva

E se…

E se os brilhantes espíritos, os inefáveis artistas que decidiram misturar religião com política de maneira desnecessária e ofensiva, tivessem reflectido duas vezes antes de criar a confusão e interferir com a existência e a segurança de outras pessoas, tinha-se perdido alguma coisa? O que é que se ganhou, em todo o caso? Quem é que ganhou alguma coisa com esse exercício fútil da “liberdade de expressão”?

João Camilo no seu blogue blueeverest.blogspot.com

Uma Esquerda limpinha de cima a baixo

A Esquerda é muito sensível, muito consciente e muito exemplar. Tão sensível, tão exemplar e tão consciente, que toma sobre si todo o peso do Mundo. Por isso a vemos por aí intimamente encurvada, vergastando-se, pedindo penitência. A Esquerda assusta-se à ideia de que haja havido algum grande crime que não denunciou, alguma grande injustiça de que não lavou expressamente as mãos. E assim se dispõe a pagar por todos: por quanto o filho faz, por quanto fez o pai. Onde a Direita é uma balzaquiana vendendo frivolidade, a Esquerda sofre cronicamente de má consciência. Só a santidade a satisfaz. Resultado: tão entusiasmada anda no caminho da perfeição que qualquer chantagem fundamentalista terá nela uma presa feliz. E aí anda ela, pronta a entregar-se a quantos integrismos, locais ou mundiais, lhe apareçam. Para qualquer azar, a menina anda sempre limpinha de cima a baixo.

A prosperidade em Viseu

A gente não se pode zangar por causa de tudo. Isso deixa-se aos profissionais da indignação. No terreno do idioma, por exemplo. E, assim, a gente deve fechar os olhos a «entrada proíbida», a «retire o titulo», a «SAIDA», a «POLICIA» nos carros dela. Deve, porque não valem uma úlcera em qualquer parte.

Mas abro uma excepção [em versão anterior estava excessão, eu não sou melhor que os outros, embora mo diga] ao que hoje se ouviu na SIC-Notícias. Era uma peça sobre a visita de Jorge Sampaio a uns concelhos de Viseu, aonde ele ainda não tinha ido no decurso dos dez anos. E mostrava-se a nova (o novo?) Viseu, longas avenidas, centro regurgitante. Em suma: Sampaio visitava um distrito de «aparente prosperidade».

Aparente? Parece prosperidade, mas não é? Nassenhora: é próspero, tá-se a ver. Então em que ficamos?

É assim. O autor do comentário sabe o seu inglês, língua onde «apparent» quer dizer «aparente», portanto «enganador», mas também «nítido», «visível». Mas que em inglês haja confusão não justifica que a importemos.

Eu sei que é bradar no deserto. Hoje, pergunta-se a alguém «O fulano é rico?», e respondem-nos «Aparentemente». E a gente fica sem saber se é ou não é. Se é, «como tudo indica», «pelos vistos» («apparently», «apparemment»), ou se não é, como sempre se quis dizer entre nós. Bradar no deserto, repito. Ninguém percebe, e não quer perceber. Não é com eles, claro.

Mude-se a língua, amigos. A nossa língua é viva da costa. Mas, por favor, não se instale a confusão.

Fumigações e enigmas

Quando se tem um jornal e algum tempo pela frente, lê-se qualquer coisa. Quando se tem um jornal e muito tempo pela frente, lê-se bastante mais. Imaginem o que sejam dois jornais e muito, mas mesmo muuuito tempo pela frente. Sucedeu-me isso hoje.

Eu tinha já despachado o Público, quando o meu companheiro do assento adjacente deu por vasculhado o seu Correio da Manhã. Ah tempo, ah um jornal! suspirei. E, valente, sem a intelectualidade portuguesa o olhar-me por cima do ombro, fui indo, indo, e cheguei até ao «Desporto».

Num impulso de temeridade, li uma crónica desportiva. Era sobre o Pinto da Costa e a sua draconiana claque. E falava do treinador, o meu compatriota Adriaanse. Ora, e aviso, não vai ser questão nem do presidente nem do seu (se bem percebi) periclitante técnico. É pura questão de língua portuguesa, esta sagrada minha.

O autor da crónica, Rui Santos, exprimia-se assim:

«O problema é que Adriaanse não está nem na Holanda nem em Inglaterra. Co Adriaanse está em Portugal, num campeonato fraco, de pequena exigência…»

Até aqui percebo. Mas leiam comigo.

«…em que os jogadores não projectam uma cultura técnico-táctica e físico-atlética capaz de assimilar uma nova e fracturante conceptualidade».

Perceberam?

E depois, Valupi, a ti me queixo, a crítica literária do Expresso é que se exprime em enigmas e fumigações.

Aviso (amigo) para Virginal George

Começo por declarar que admiro João Pedro George. Direi mais: sinto-me feliz por ele existir. Se isto parecer uma declaração de amor, perceberam mal. Mas é uma declaração de amor à vida, que nos fez coincidir nesta zona e neste tempo de um tão vasto planeta.

Dito isto, direi também que a felicidade não é total, e que começou já a abrir gretas. Se é verdade divertirem-me as suas leituras de Filomena Mónica ou de Rodrigues dos Santos (fico pelos últimos visitados pelo doce olhar do lince), causam-me calafrios os seus organigramas da crítica literária. Já fui objecto de um deles, na Periférica, e pude apor-lhe um circunstanciado embora contido comentário (obrigado, Luís, por lembrá-lo).

Sejamos singelos: há um elemento de intromissão policial nesses divertimentos georgianos. Não é por alguém escrever sobre a obra de um conhecido, ou mesmo amigo, que se abre a porta à desonestidade. Lembrou-o já o Pedro Mexia. O efeito dos atidos controlos de George poderá ser, até, o criar de agora autênticas injustiças.

Vamos a um caso pessoal. Eu sinto-me inibido para escrever sobre José Rentes de Carvalho. Já o fiz há uns anos, no Expresso, e gostaria de voltar a fazê-lo. Os seus livros (depois de retumbantes sucessos em neerlandês), começaram a aparecer com mais regularidade em Portugal. Acontece que Rentes de Carvalho é um prosador primoroso e um efabulador de imensa força. E isso é raro – acreditem, por favor – entre autores portugueses actuais.

Ora, porque me proíbo eu de dizê-lo mais vezes e mais publicamente? Por isto: Rentes e eu vivemos na mesma cidade, a longínqua Amsterdão, e calha sermos dois de muito poucos escritores portugueses locais. Há-de ter-se a medida da minha frustração sabendo que não nos damos particularmente bem e que em 30 anos não tomámos um só café juntos.

Declaro-me, pois, vítima, e vítima consciente – portanto, e ainda por cima, vítima solidária -, do terror de observadores como João Pedro George. E considero que seria lamentável, seria péssimo, que o espaço literário português ficasse ensombrado pelas medonhas asas de uma harpia assim.

João Pedro George é muito mais interessante, e muito mais útil, quando não nos observa por esquemas. Quando só mostra a forma bizarra, ou monstruosa, de alguns microclimas da nossa realidade. Logo que esquematiza, torna-se um aparelho de observação, algures num outer space. Asséptico e realmente virginal. E frio e inabitável.

O desassombro

Nunca tinha visto falar José Pacheco Pereira. Tinha-o avistado, há uns anos largos, em Vila Franca de Xira, num colóquio em que fui dizer umas coisas, já não recordo quais, sobre o neo-realismo. Mas só ontem o tive mais por perto e o ouvi.

Foi na livraria Bulhosa do Campo Grande, em Lisboa. Aí foi apresentada a mais recente obra de JPP, Quod erat demonstrandum, Diário das Presidenciais (Julho 2005 – Janeiro 2006), da Alêtheia Editores.

E gostei do que ouvi. JPP fez ele próprio a apresentação do livro e fê-lo de modo comunicativo, despretensioso, respeitando-nos a nós que o ouvíamos. E o respeito estava sobretudo na simplicidade com que se expôs, a si, e àquilo que pensa da política portuguesa e que prefere nela. «A política portuguesa é interessantíssima», afirmou a certo momento. A quem é que já ouvimos isto? A ninguém. O que é ‘correcto’ é chamá-la uma chachada, nunca um terreno de surpresas. Ora ela revela-se feita por medida para divertimento de JPP, e depois nosso. De vários temas o ouvimos afirmar: «Ninguém se lembra de dizer isto», «Está debaixo dos olhos e ninguém vê». Dir-se-ia parvoíce, mas é verdade: este país parece feito de gente que se recusa a ver, e acha muito mais engraçado congeminar, extrapolar, sonhar, enfim.

Encantou-me (não adoço o termo) aquele imenso desassombro, aquela nenhuma preocupação com a conveniência do que dissesse, a desarmante ausência de calculismo. Via-se que estaria disposto a levar o seu comentário até ainda mais inóspitas paragens, assim houvesse quem o estimulasse.

Um dia, haverá três anos, queixei-me da escrita de José Pacheco Pereira. Achei-o vago, confuso, desmazelado. Seguramente porque se deu, ele próprio, conta de que o seu público merecia melhor, a expressão revigorou-se-lhe e é hoje agradável, translúcida e feliz.

Três ou quatro indivíduos assim, e este País será logo outro.

Olha um livro!

Históriasemorais.JPG

São narrativas curtas, argutas, maliciosas, estas Histórias e Morais, de JOSÉ ANTÓNIO FRANCO (Pé de Página Editores). Metem bichos mais ou menos domésticos, animais da selva, mouras encantadas, assassinos e ladrões. Acontece as personagens recusarem-se a entrar em cena, ou saírem dela deixando em grande atrapalhação o contador.

Um muito sumário aparelho gráfico dá, logo de entrada, um recado de descontracção e de jogo. E de vulnerabilidade. Veja-se esta versão muito apócrifa do «Capuchinho Vermelho».

o bosque e o jornalista

uma rapariga de saia castanha curta ia um dia num passeio pela floresta quando de repente um lobo alto e espadaúdo lhe saltou ao caminho uivando que nem um louco esfaimado assustada a rapariga escondeu-se atrás de uma árvore mas o lobo saltou para junto dela e perguntou-lhe quantos anos tens dezoito onde vais ao centro comercial comprar uma saia quem te deu o dinheiro ninguém é meu tu trabalhas não então onde o arranjaste foi a tia isaura que mo deu pelo natal então alguém to tinha dado para que queres tu a saia se já tens uma tão linda esta está muito velha e não tens mais nenhuma tenho muitas mais mas também estão muito usadas
estiveram assim a conversar durante algum tempo e acabaram por seguir cada um o seu caminho depois de uma cordial despedida
entretanto um homem que fazia reportagens e que andava por ali perto quando viu de longe os dois a conversar telefonou imediatamente para a equipa de segurança da floresta que apareceu momentos depois num veloz jerico treinado para perseguições
no dia seguinte a notícia no jornal era assim adolescente de saia castanha impedida de visitar a avó por lobo esfaimado e de ombros largos mais à frente dizia ainda não fosse a pronta intervenção acidental de um repórter do nosso jornal e a imediata reacção das forças de segurança e o caso poderia ter tido um desfecho bem trágico

moral no bosque ande sempre com a avó

República Socialista dos Países Baixos

Holland-2.jpg

Há perguntas bizarras, e facilmente irritantes. Na Holanda perguntam-me, há mais de trinta anos: «Não trouxeste casaco?» E por ‘casaco’ querem dizer muita coisa: blusão, gabardina, sobretudo, samarra, capote alentejano. Quase nunca tenho, pois não sou friorento. Ou sou só descuidado.

Em Portugal, a pergunta irritante é outra: «Como está a Holanda?». E eu digo «Fria» ou «Tranquila» ou «Na mesma». Mas, agora, descobri uma variante para ‘Na mesma’. É mais longa, faz mais conversa e pode ajudar a mudar o mundo. Eu explico.

O chefe de estado holandês é uma senhora. A profissão da senhora é ‘rainha’. Não governa, existe só. Sabe-se que tem influência política, mas tecnicamente é ‘irresponsável’: é o governo que responde por ela. Da mãe dela se sabia que era socialista, desta supõe-se que ande no centro-direita. Por coincidência (deveras, por uma mão-cheia de votos), o governo actual é, desde há uns anos, de centro-direita também. Em suma: a senhora tem as atribuições do presidente português, só está no lugar algum tempo mais. Pensando bem, ela é uma presidente e este país é uma república.

A câmara faz, agora, um travelling do palácio para a choupana.

Num bairro pobre da chique Haarlem (a holandesa, a original), vive uma jovem senhora com o rendimento mínimo garantido. Cursou direito, mas detesta o foro e as secretarias, e ficou por ali. Faz uns biscates, umas coisas. Periodicamente, tem de apresentar contas ao município dos seus parcos réditos. Para a controlarem? Longe disso. Para lhe oferecerem cursos, todos gratuitos, cada um deles mais atraente. Para lhe perguntarem se não estará precisando duma nova máquina de lavar, ou de uns agasalhos melhores para o inverno. Que eles lhe oferecem, claro. Eu soube isto há dias, e fiquei fascinado. Se isto não é socialismo, então sou eu que sou parvo.

Está visto. Daqui em diante, quando me perguntarem «Como vai a Holanda?», vou mostrar-me um melhor apóstolo do paraíso terreal, e passarei a dizer: «Qual? A república socialista? Lá se vai arrastando».

O castelo de Palmela e a felicidade

Uma vez, entrei em casa de uma amiga minha. Já era amiga há uns tempos, mas não lhe conhecia a casa. Era uma zona chique de Lisboa oriental, com vista para o rio, e ela vivia ali há mais de vinte anos. Cheguei-me a uma das janelas e disse, excitado: «Olha o castelo de Palmela». E era um facto: ele recortava-se, nesse fim de tarde, com uma nitidez que feria. A minha amiga veio até à janela, num desassossego: «O castelo de Palmela? Onde?»

Fiquei sem palavras, é bem de ver. A minha amiga, que não é parva, até escreve livros e assim, nunca se tinha perguntado o que pudesse ser aquele acidente, de recorte estranho, na paisagem dos seus dias. Ora, para mim, num segundo, aquilo havia-se tornado numa completa topografia, num discreto GPS a orientar-me o corpo no vasto mundo.

Sou mais feliz eu? É mais feliz ela? Eu sinto-me feliz assim. Tenho a certeza de que ela o era já também. Não entendo nada da felicidade dela. E ela não perceberá jamais o que o castelo de Palmela, a vinte quilómetros, pode fazer feliz.

Isto da felicidade é um mistério.