Mas quem ia adivinhar?

Este post recordou-me, vá lá saber-se porquê, o período que se seguiu às eleições de 2005 em que Sócrates esmagou o Flopes e o Marques Mendes assumiu a chefia do PSD e da oposição. Fui ler umas velharias pela imprensa da época e aconselho os meus amigos a fazerem o mesmo.

Eleito o governo Sócrates, foi pouco depois adoptado um pacote de medidas de saneamento das finanças públicas e de combate ao défice, que os governos do Barroso e do Flopes tinham deixado em 6,7% do PIB (2004). Quando em Maio de 2005 o IVA foi aumentado de 19 para 21%, Marques Mendes atacou de imediato essa e outras medidas, considerando-as “erradas” e acusando Sócrates de faltar à sua palavra de não aumentar os impostos (Sócrates referira-se aos impostos sobre o rendimento). A direita juntou-se assim desde muito cedo à esquerda irresponsável para denunciar e combater todas as medidas que durante o ano de 2005 se começaram a aplicar e a agendar para reduzir o défice das contas públicas.

Em Setembro de 2005, MM era já obrigado a reconhecer a eficácia dessas primeiras medidas, pois o défice previsto para esse ano indicava uma descida de mais de dois pontos percentuais relativamente ao ano anterior. Contudo, MM não deixou de atacar as “medidas dolorosas” e os “cortes orçamentais” (aquilo que hoje se diz que Sócrates não fez…), pois aproximavam-se as eleições autárquicas de Outubro de 2005, que foram o primeiro teste eleitoral do pequeno político empertigado. MM tentou então alarmar o eleitorado com acusações a Sócrates de estar a esconder medidas de austeridade e de contenção orçamental (sobretudo cortes nas verbas do OE para as autarquias) que, segundo ele, o governo iria adoptar após as eleições autárquicas. Nunca se ouviu um aplauso desse filho da mãe às medidas de contenção orçamental do governo de Sócrates que entre Abril de 2005 e princípios de 2008 beneficiaram claramente o país. MM sempre aproveitou essas medidas do governo para fazer demagogia barata em coro com os irresponsáveis do costume.

A demagogia do MM não conhecia limites. Qualquer meia décima de crescimento sasonal da taxa de desemprego (então um terço da actual) lhe servia para fanfarronadas “social-democráticas”, com piscares de olhos lúbricos a Louçãs e Jerónimos. A coligação negativa medrava a olhos vistos, infelizmente para ela ainda sem maioria no parlamento.

Em 2006 deu-se um episódio interessante, quando Sócrates, antecipando-se cinco (5) anos a outras entidades e aos dirigentes do PSD nacional, acusou MM de “apoiar a indisciplina financeira” na Madeira e de dar cobertura “à resistência ao cumprimento da lei” por parte de Alberto João Jardim (Público, 7 de Novembro de 2006). Compreende-se bem a sanha peçonhenta do velho bananeiro madeirense contra Sócrates, que foi o primeiro a denunciar alto e bom som aquilo de que Jardim é hoje finalmente acusado por Bruxelas e pela troika.

Se MM por acaso tivesse chegado ao poder em 2005, que teria feito? Em matéria de saneamento das contas públicas, teria – no melhor dos casos – feito algo de semelhante ao que os socialistas fizeram, ou seja, tudo aquilo que MM censurou no governo de Sócrates…

Em relação à Madeira o cobardola do MM teria feito 100 vezes pior do que Sócrates.

No ano de graça de 2008 o preço do petróleo passou para o dobro, rebentou o maior escândalo financeiro português de sempre (BPN) e começou a crise financeira internacional cujas consequências ainda estamos a viver. Suponhamos que em 2008 MM ainda não tinha sido largado borda fora pelos seus correligionários e que era PM. Que teria acontecido? Como teria MM lidado com a maior fraude da nossa história, cometida por dezenas de amigos e colegas do seu partido, e com os escândalos do BCP, BPP, etc? Creio que a primeira medida teria sido culpar Constâncio (coisa que a oposição da direita e da esquerda irresponsável realmente fizeram) e colocar gente de sua total confiança no B de P, para abafar as escandaleiras quanto fosse possível.

O resto nem o consigo imaginar, apenas lamento que o PSD não tivesse estado realmente no poder, pois teria sido um espectáculo imperdível. Com a chegada em 2009 e 2010 das consequências da crise a sério, dobrada de crise das dívidas soberanas na Europa, MM ou quem ainda estivesse no lugar teria levado um chuto tal que ainda hoje não teria voltado a aterrar. O PSD teria implodido com grande estrondo e desaparecido do mapa, de preferência para sempre. A direita teria levado a maior tareia desde 1974.

Pelos vistos, Sócrates não devia ter ganho as eleições de 2005. Devia ter deixado os PSDs ganhar. Devia tê-los deixado pousar. Devia ter esperado pela crise, para então dar cabo deles sem dó nem piedade, como eles merecem. Mas quem ia adivinhar?

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5 thoughts on “Mas quem ia adivinhar?”

  1. Muito bem Observado!

    E daqui a uns anos, ou mesmo meses, dir-se-á por sua vez que ainda bem que o PS perdeu as Eleições de 2011, apesar da batotice colossal que as maculou, para de uma vez por todas se voltar a pôr esta canalha incompetente e rasca no (des)governo e, cumulativamente, na presidência, de forma a que todos percebam que o Poder em Portugal não pode nunca mais ser entregue a saudosistas do 24 de Abril e a ressabiados da Descolonização, só devendo voltar às mãos da Direita quando ela der, finalmente, provas de ter sido totalmente desintoxicada desta patologia ideológica e tiver passado em todos os testes de ética e moral, que lhe garantam o acesso à plenitude dos direitos democráticos!

    E só mediante este espalhanço nacional gigantesco, ainda que nos leve a todos de volta ao fundo do abismo, é que o nosso Povaréu aparvalhado conseguirá perceber, mínimamente, o que (ainda) está em jogo neste País cívicamente sub-desenvolvido. E olhem que já faltou mais para lá chegarem todos, não duvidem.

  2. nem vale a pena ir a 2005. há pouco mais de um ano toda a oposição (psd, cds. bloco, cdu) se uniu para aumentar as transferências para a a madeira (para aquele que escondia dívidas, à grega). e laranjas poupadinhos andavam com outras pérolas: o mixed 1/3 2/3, os abatimentos no irs que eram inamovíveis …

  3. Entre 2002-2005 foi muito diferente sim, ó palerma!

    O País “estava de tanga”, mas o Governo da altura, PSD-CDS, ia NU! Ou já esqueceste o Burroso (cherne), a Manela, o Bagão, o Isaltino, o Santana, o Telminho, o Jacinto Leite Capelo Rego (e o seu émulo Abel Pinheiro), o outro palhação dos sobreiros “Portucale” e tantas outras nódoas que mancharam este País?

    Tens falta de memória? Toma “Sargenor” e vai cagar ao Sol, que à sombra fazes mole…

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