Em duas palavras

Pegava no currículo de Direito e deixava lá uma única cadeira, “Das Cadeiras em Geral”, com sebenta em dois vastos volumes, editada de preferência pela Almedina e escrita por algum antigo ministro do Prof. Oliveira Salazar (no final do quinto ano, para assinalar cinco anos de puro desperdício, haveria um único exame, um exame-súmula, um caldeirão jurídico que consistiria na prova de um hábil manejo dos códigos por parte do examinando, o mestre pedir-lhe-ia um artigo difícil e ele, de olhos fechados, encontrava-o logo à primeira com os seus dedinhos lestos).

Acabava com as bandas todas e mandava o R. saltar para o palco imitar o vocalista, o guitarrista, o baterista & o baixo, sem som nem nada, e depois ficava a gozar o prato à distância, até o produto acabar, o R. desmaiar de exaustão ou alguém desligar a electricidade e ficar tudo calado e às escuras (o público que interpretasse então o silêncio, se quisesse: como a música anda de péssima qualidade, só pode ganhar com uma dieta assim, este silêncio são as cinzas de que poderá renascer um dia).

(Isto na música; no desporto, atacaria em primeiro lugar, por causa do irritante high moral ground que reivindicam, os jogos olímpicos, que, mesmo se apenas de quatro em quatro anos, são sempre uma maçada e uma despesa:) Acabava com as modalidades todas e ficava só uma, a “pose olímpica”, ganhava o mais garboso e pronto, era o único que verdadeiramente merecia, uma só medalha, um só hino, uma só cerimónia, le tout vite fait, uma tremenda economia.

Sonho com um futebol parado, onde nunca nada aconteça, ninguém perca, ninguém se magoe, onde os campeonatos não comecem nunca, nem muito menos cheguem ao Natal, onde todos sejamos campeões, tomba-gigantes de gigantes que nunca tombaram. Sonho com um futebol falado, uma conversa sem fim e sem propósito, recordado em vez de visto, descrito em vez de jogado, o futebol de senhores que devia haver no lugar do futebol de carroceiros que há. Se eu mandasse (ai, se eu mandasse!…), se eu mandasse (mas quem disse que eu queria mandar?), se eu mandasse (apenas, sem excessos, como um bom pai de família), suspendiam-se os jogos, dissolviam-se os clubes, depurava-se o público e acabava-se com o futebol de vez, sempre por amor ao futebol. As vitórias morais da minha infância confundir-se-iam assim com as vitórias propriamente ditas, que sempre invejaram, em cujo encalço sempre seguiram e cuja sombra sempre habitaram; subversivamente, os campeões passariam a ser sempre justos; e enfim, vasto como a vida, o futebol confundir-se-ia em definitivo com ela, deixaria de ser a chatice de desporto que alguns aindam teimam que ele é para passar a ser a musa, o mote, a filosofia que sempre será.

Em duas palavras, a crescente complexidade do real requer uma redução drástica da nossa disponibilidade mental; em duas palavras, é preciso apreender menos para perceber melhor (no further comments, j’en peux rien pour vous, quem ainda não percebeu que meta explicador).

6 thoughts on “Em duas palavras”

  1. Sim, ela foi ingénua… e depois? O que é que as pessoas têm a ver com isso?
    Sim, ela estava apaixonada e sentia-se culpada, em vez de se direccionar para o lugar certo virou-se para o errado. A brincadeira foi longe de mais, essa é que é a verdade! Todos aqui usaram e abusaram… (Nem sequer percebem nada de psicologia!)Podem todos, no entanto, ficar felizes, o objectivo foi o pretendido.

  2. citando Boaventura Sousa Santos – de um Conhecimento Prudente para uma Vida Decente.

    ps
    pois é menino pedro – podias ter ficado calado em vez de teres passado por grunho.

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