Ele há os fala-baratos e ele há os fala-caros

O senhor chefe das finanças da minha repartição teve a amabilidade de me dirigir uma missiva de inegável qualidade literária que podia ser poste em blogue de altíssima categoria. A certo ponto pode ler-se:

“Fica Notificado, nos termos do disposto no artigo 7º do Regime Geral das Infracções Tributárias, aprovado pela lei nº15/2001, de 5 de Junho, de que contra si foi instaurado o processo de contra-ordenação supra indicado, por violação às normas acima referidas, em face dos factos sumariamente descritos no quadro ao lado, puníveis entre o mínimo e o máximo assinalado no quadro anterior.”

Reparem pois neste suculento naco de prosa literária “contra si foi instaurado o processo de contra-ordenação supra indicado, por violação às normas acima referidas, em face dos factos sumariamente descritos no quadro ao lado”. Notável. Portantos o processo é supra, a violação é acima e os factos estão ao lado. Ou seja, não está naquele parágrafo nada que seja realmente importante. O resto do texto, garanto-vos, acompanha sempre esta notável capacidade de não dizer nada em muitas palavras.

Sem o auxílio de um dicionário português-finanças finanças-português, um marialva fica engasgado com tanto léxico pomposo. Calculo que o homem não se empenhe assim para qualquer um. A verdade, é que finda a leitura das letrinhas a ponto seis senti-me um bandido. Mas, caramba, um bandido muito importante. RMD

12 thoughts on “Ele há os fala-baratos e ele há os fala-caros”

  1. Vá. conta lá à malta com que fortunas é que te locupletaste. É para fazermos as contas e vermos quantos velhinhos não terão hoje sopa à conta da tua contumaz fuga aos impostos…

  2. O macarronismo do português tabeliónico com que a administração pública ainda hoje nos presenteia é directamente proporcional ao seu atraso cultural: está tão longe do esprit du temps, das administrações abertas e ao serviço dos cidadãos, como está perto do ancien régime (o do Senhor D.João VI, não o de Marcelo Caetano), com o hábito que tinha de falar obscuramente para marcar bem a sua superioridade em relação à plebe…

  3. Aqui temos comprovada a elevada taxa de iliteracia funcional no nosso país. O cómico é exporem-na, ufanos da sua ignorância.
    Só dá para fazer uns “posts” não é ? Ler e compreender uma coisa mais elaborada é inalcançável.

  4. Claro que nas Finanças só podia ser um fala-caro… :-)
    Mas quanto a correcção e a verborreia, experimentem também os excelsos bancos e as seguradoras… A «coisa» não é exclusiva da Administração Pública…

  5. O agente da autoridade agiu em conformidade com a factualidade descrita (ver ao lado), tomando conta da ocorrência e informando o cidadão incauto das diligências prosseguidas (cf. infra). Da subsunção da factualidade apurada no normativo pertinente resulta que o cidadão RMD cometeu um ilícito contraordenacional, incorrendo na estatuição prevista nos arts….do Código de Estrada.

    Ps: isto será assim tão simples se não tiver havido acidente. Se houver acidente, haverá croquis e, havendo croquis, todo um mundo de possibilidades se abrirá diante do senhor agente da autoridade..

  6. Boa prosa, ó RMD, como sempre. E o não dizer nada num post é sempre mais divertido do que o não dizer nada num ofício da repartição de finanças. Com a vantagem de que se a gente não lhe responder na caixa de comentários, não incorre em juros de mora. Já agora, distrai-te a ver o dicionário e a fazer posts, e vais ver se o ofício diz ou não coisas importantes. Ai, mas também eu queria que os ofícios da repartição de finanças viessem em forma de soneto, ou tipo quadra do Aleixo, que era mais simples. ;)
    p.s. “supra”, que dizer, mais ou menos, “olha lá pra cima, onde está a referência ao processo, mais, mais, aí mesmo!”

  7. Boa prosa, ó RMD, como sempre. E o não dizer nada num post é sempre mais divertido do que o não dizer nada num ofício da repartição de finanças. Com a vantagem de que se a gente não lhe responder na caixa de comentários, não incorre em juros de mora. Já agora, distrai-te a ver o dicionário e a fazer posts, e vais ver se o ofício diz ou não coisas importantes. Ai, mas também eu queria que os ofícios da repartição de finanças viessem em forma de soneto, ou tipo quadra do Aleixo, que era mais simples. ;)
    p.s. “supra”, que dizer, mais ou menos, “olha lá pra cima, onde está a referência ao processo, mais, mais, aí mesmo!”

  8. Deixa-te de parvoices rapazote e paga isso e vê lá se para a próxima não perdes uma oportunidade de estar calado.

    com os melhores cumprimentos

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