Bits, filtros e bruxas

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O “24 Horas” de hoje, umas páginas antes de mais uma crónica da mulher de Carlos Cruz, continua a clamar que “os procuradores tinham todas as condições para desvendar o conteúdo das disquetes do escândalo”. Isto porque terão recebido ajuda de uns “peritos informáticos”.
É mais um esforço para implantar a ideia de que as intercepções da polémica terão sido mesmo ordenadas por “alguém”. Apesar de o curso dos acontecimentos parecer perfeitamente explicado: um técnico da PT, ao elaborar a lista das chamadas pedidas, optou por ocultar as restantes em vez de as apagar.
Mas a simplicidade nunca satisfaz os amantes das conspirações. No sábado, José Manuel Fernandes angustiava-se: “os investigadores olharam para todas essas chamadas, ou eram tão analfabetos do ponto de vista informático que nem repararam que estavam lá registadas?”
O inefável Ferreira Fernandes, do “Correio da Manhã”, dá “de barato” que os magistrados não pediram a informação no cerne do “escândalo”; mas “sabe” que os dados só se tornaram públicos porque “esses magistrados foram uns irresponsáveis”. Apesar de se tratar de documentos sob segredo de justiça e apenas consultados oficialmente por advogados de defesa de alguns dos acusados no processo Casa Pia.
António Barreto, mais uma vez a leste, exclama: “duzentos números de telefone vigiados”; “mais de oitenta mil chamadas telefónicas detectadas e registadas”. Esquecendo que os números não estavam “vigiados” na altura das chamadas e que o tal registo é rotina obrigatória em qualquer operadora de telecomunicações; ou nunca terá recebido uma factura detalhada?
Depois, claro que a defesa de Carlos Cruz tratou logo de lançar mais uma cortina de fumo sobre o pandemónio geral.
Mas, a bem da verdade, importa perguntar: quem terá o hábito de vasculhar folhas de Excel, em busca de informação suplementar à esperada? E porque deveriam os tais peritos fazê-lo? Julgo que nunca de tal me lembrei, a não ser quando sabia que havia algo a procurar. Mas vou começar a tratar disso; não quero que amanhã me possam acusar de ter informação indevida no meu computador.

Quanto a Souto Moura, não me admira nada que atribua esta nova desgraça a uma célebre busca em demanda de um valioso tabuleiro de xadrez que até nem apareceu… é a velha história das bruxas inexistentes.

6 thoughts on “Bits, filtros e bruxas”

  1. O que é isto? Teorias da conspiração, links em branco, a destoar da prática de fartar, bruxas inexistentes, etc., etc.. Santa Maria!, parece o relatório do castelo a limpar o D. Pedro de ter mandado tirar o coração pelas costas aos assassinos da D. Inez. Na mouche? Au contraire: quelle mouche t’a piqué, Luis?

  2. Os referidos documentos não estão sob segredo de justiça. 2) Os referidos documentos não estão sob segredo de justiça. 3) Mesmo que 1) e 2) não fossem verdade, e são, quando acaba o julgamento, acaba o segredo de justiça. 4) Mesmo que 1), 2) e 3) não fossem verdade, e são, o que é o segredo de justiça em Portugal?… Daí que me preocupe a irresponsabilidade de alguém que, sendo autoridade, teve à sua guarda mais informações (e teve-as porque fez por isso) do que aquilo que sabia guardar e, por essa sua irresponsabilidade, prejudicou 200 e tal cidadãos que não eram tidos nem achados na questão. Simples. Eu não gostaria que se tornasse pública a lista detalhada dos meus telefonemas, caso não houvesse indícios criminais para que essa lista fosse investigada. Não gostaria por 36 razões das quais aponto a principal: porque sim. Por isso me preocupei com o sucedido. Se calhar, esse é um vício dos inefáveis. Seja, prefiro sê-lo a armar-me em Pina Manique da Brandoa.
    Ferreira Fernandes

  3. Pois é; mas se a tal disquete foi consultada pelos advogados de alguns dos acusados, como é que se aponta logo o dedo aos “magistrados”?
    Eles só deixariam de ser “irresponsáveis” se proibissem os advogados de consultar esses documentos informáticos? Impossível, não é?
    E porque é que os “magistrados” teriam, sob pena de serem “irresponsáveis”, de espiolhar todos os recantos de um documento de Excel, quando ninguém, mesmo que muito habituado a lidar com esse programa, o faz no seu dia-a-dia?
    Diz que esse sinistro “alguém” ficou na posse da informação porque “fez por isso”? Fez o quê e como, afinal?

  4. Na minha crónica que citou, e está disponível na net (“correio da manhã”, domingo), respondo às suas dúvidas.
    Ferreira Fernandes

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