Arquivo da Categoria: Valupi

Exactissimamente

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NOTA

Uma fraude política e cívica, este almirante. Nem na cultura castrense exibe medalhas. Contudo, continua a ser o mal menor tamanha a tragédia em curso.

Que Portugal seremos se, quatro anos depois de darem uma maioria absoluta ao PS, os eleitores colocarem na segunda volta Marques Mendes e Ventura? Das presidenciais — ou seja, depois de 20 anos das desgraças Cavaco e Marcelo, estando a governar o degradante Montenegro montado no Chega.

Ainda não foi desta

O debate presidencial que me desperta mais expectativa é o de Gouveia e Melo com Ventura. Mas o debate que me deixou mais esperançoso antes de ocorrer foi o de Ventura com António Filipe. Isto porque tive familiares muito próximos que foram militantes do PCP, e porque tenho amigos que são militantes do PCP. Ao crescer, pude dar sentido a episódios de resistência à ditadura a que assisti sem entender, antes do 25 de Abril, e descobri a importância decisiva, patriótica e heróica de milhares de portugueses ligados ao PCP, de múltiplas formas, para que eu pudesse passar a maior parte da minha vida num regime democrático.

Assim, se o destino me tivesse feito militante ou sequer simpatizante do PCP, desejaria ardentemente poder estar frente ao Ventura, ainda para mais num estúdio televisivo com a certeza de ter uma audiência maximizada. E para quê? Para falar com ele de Salazar. Só de Salazar. Nada mais, e nada menos, do que Salazar. Que o mesmo é dizer, iria pedir a Ventura que explicasse, na minha cara, o que ele pensa que foi, e fez, e não fez, e deixou fazer, Salazar enquanto era o principal responsável político pelo Estado Novo. E depois a conversa desenvolver-se-ia a partir daí.

Não gostaria que o PCP fosse Governo maioritário, porque não gostaria de ser governado por fanáticos. O fanatismo que, por exemplo, explica o seu actual putinismo. Como fanáticos, estão impossibilitados de chegar às melhores soluções para os problemas complexos inerentes à governação de um país (ou que fosse de uma mercearia). Todavia, festejei o fim do bloqueio de décadas à esquerda, quando o PCP admitiu viabilizar um Governo socialista em 2015. Deu origem a quatro dos melhores anos da nossa democracia, seja qual for o critério de análise.

António Filipe frente a Ventura exibiu-se como o político digno, o cidadão valioso, o português honrado por que é conhecido por todos os que com ele convivem, privada e publicamente. Infelizmente, não se apresentou como comunista. Teve um lampejo sanguíneo que pareceu ir buscar essa alma, quando deu um responso a Ventura a propósito de Álvaro Cunhal, sem continuação. Esse absentismo transformou-se em escândalo (provavelmente, só para mim nesta galáxia e galáxias vizinhas) quando Ventura resvalou para a sua gula rapace e começou a defender que os polícias devem disparar primeiro e perguntar depois. São inúmeros os ângulos por onde é não só possível como necessário de imediato confrontar esse discurso com tolerância zero. Exige-se a outros políticos, e também aos jornalistas presentes, que tenham uma resposta implacável perante quem está a promover a desumanização absoluta não só dos cidadãos como também dos agentes da autoridade e de todo o sistema judicial e político. É o culto da guerra civil, onde desaparecem os direitos, liberdades e garantias, para ficar a mandar quem tiver a pistola maior. Quem matar mais e mais rápido.

Ora, vir para um debate com um comunista — portanto, um representante de uma história de sofrimento em prisões arbitrárias e prolongadas de dezenas de milhares de pessoas, na tortura sistemática como método de interrogatório e neutralização, de assassinatos por execução direta ou morte lenta em prisões insalubres, na destruição de vidas e famílias através de décadas de encarceramento, e no terror de Estado destinado a silenciar toda a oposição — saracotear-se como o super-xerife que vai dar ordens à bófia para aniquilar a escumalha é de uma estultícia que merecia uma estátua comemorativa. A resposta de António Filipe, sendo correcta, não esteve à altura da ocasião. Porquê? Porque ele, como os outros candidatos, não se preparou para tratar Ventura como ele merece.

E daqui a um bocado, irá Gouveia e Melo, finalmente, colocar o chunga no seu lugar? Altamente improvável que tal aconteça. Mas neste país há milagres, dizem, pelo que tudo é possível.

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Dominguice

Pacheco Pereira escolheu o lançamento de um livro sobre Marques Mendes, escrito por Luís Rosa, para declarar publicamente o seu apoio a este candidato presidencial. Afiançou ser quem melhor poderá defender a democracia, caso venha a ser o próximo Presidente da República. Surpresa? Vejamos. Luís Rosa é um justiceiro pago para perseguir Sócrates e o PS, nessa actividade cometendo crimes e sendo cúmplice de magistrados criminosos. Marques Mendes, em canal televisivo aberto, e já depois de ter sido designado Conselheiro de Estado, afirmou ter existido uma rede mafiosa em Portugal que durante 20 anos actuou a partir do PS. Marques Mendes e Luís Rosa são dois dos mais influentes protagonistas dos processos de judicialização da política e de politização da Justiça.

Pacheco Pereira, a avaliar pelo seu silêncio acerca dos abusos e crimes perpetrados no Ministério Público em conluio com juízes, aprova o que aqueles dois fazem no espaço público. O seu passado de sabujo do Cavaquistão e de pide da Marmeleira não deixam espaço para surpresas.

Oásis ou tendência?

A incompetência liberta traficantes de escravos — mas com a “fuga do Sócrates” se enganam os tolos
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Texto notável por se limitar a indicar evidências correlacionadas entre si com lógica acessível a maiores de 15 anos. Imita os doutos e ilustres juízes dos nossos tribunais, indo buscar os por eles tão usados critérios das “regras da experiência comum” e do “padrão do homem médio” com que despacham sentenças.

Texto notável por não temer a pulharia e os broncos que perseguem quem ouse criticar o Ministério Público — com medo que o linchamento de Sócrates não se consume numa pena eterna.

Texto notável por aparecer no âmago do editorialismo que tem sido cúmplice do tal Ministério Público incompetente e criminoso.

Ainda não foi desta

Tinha muitas expectativas para o debate de Jorge Pinto com Ventura, depois de ele ter estado bem nos debates anteriores. A minha curiosidade remetia para a esperança de ser este candidato estreante o primeiro a mostrar como se lida com Ventura. Não foi.

Jorge Pinto, pese alguma verdura atrapalhante, confirmou ser uma fonte de salubridade e decência no espaço público, tendo conseguido reduzir Ventura à miséria política que o caracteriza. Só que isso não chega, pois o porco adora resfolegar na porqueira. A estratégia de lhe dar uns açoites, com sorte uma murraça no focinho, é inútil porque nivela por baixo o espectáculo. E nessa lógica dá a vitória ao feirante no sentido em que este ganha sempre desde que não perca.

Ora, qual a perda em causa, tratando-se de um profissional debochado da chicana? Curiosamente, o debate com Jorge Pinto teve vários momentos em que Ventura se revelou transparente nos mecanismos de defesa que o levam para as cassetes chungas do seu reportório. Infelizmente, ainda não apareceu ninguém que consiga utilizar essas fragilidades para ser eficaz neste objectivo: encurralar o pulha na sua pulhice. Exemplo mais óbvio, a temática da corrupção. Que sabe Ventura acerca do fenómeno da corrupção em Portugal? Provavelmente, quase nada. Como não sabem os profissionais da calúnia estrelas na indústria da mesma. Porque, se soubesse, não se arriscaria a fazer desse assunto uma das principais bandeiras da sua retórica. Alguém que lhe comece a pedir números, registos ao ano e à década, instrumentos policiais e judiciais para o seu combate, condenações transitadas em julgado, tipologia dos corruptores e corrompidos, sectores com mais ocorrências, valores calculados dos prejuízos e ganhos ilícitos, e o Ventura de imediato tentaria fugir do aperto. Essa fuga seria desesperada, em pânico, e essa seria uma real perda de poder político. Como isto não acontece, ele só tem que falar de corrupção e de imediato agitar o papão Sócrates. Os jornalistas que calhem estar presentes calam-se e riem, porque comungam do mesmo passatempo.

Trump provou que o seu eleitorado realmente aceita que ele dê um tiro em alguém na Quinta Avenida, caso de repente lhe apeteça, sem que isso o leve a perder votos. Quem vota Ventura está na mesma alienação, são imunes a qualquer exibição de força dos adversários no campo dos factos e da racionalidade. Já não resistirão se virem o líder gabarolas e chico-esperto como um cobarde atarantado.

Admirável Garcia Pereira

No Expresso da Meia-noite conseguiram passar os meses de Outubro e Novembro sem gastarem um segundo com as questões da Justiça — ou seja, censuraram por omissão o que se passou, e passa, com Ivo Rosa. Mas eis que entra Dezembro e tornou-se impossível continuarem calados sobre essa desgraça nacional, tamanho o escândalo, de dimensão inaudita, que atinge o Ministério Público e outros órgãos policiais e judiciais conexos. Vai daí, Sócrates.

Ninguém é obrigado a consumir produtos jornalísticos da Impresa. E quem paga as despesas da coisa tem o privilégio de cagar d’alto no código deontológico do jornalismo e demais princípios que apelem à isenção, rigor e serviço público na profissão de jornalista. Certo. Mas não deixa de surpreender o sectarismo — se não for obsessão persecutória — às escâncaras que produzem contra Sócrates. É como se ele continuasse a ser uma ameaça política aos interesses que os fulanos que regem o editorialismo da SIC e do Expresso têm por função promover. Ou então é apenas canalhice nascida da inveja e do ressentimento, agora exuberante por se exibir como linchamento de uma vítima.

Atente-se neste título: “Sócrates e escutas Influencer: isto é Justiça?”. A intenção é dupla, transmitindo uma equivalência negativa (se as escutas a Costa são motivo de crítica, o facto de Sócrates continuar a usar os seus direitos para se defender também merece crítica) e conseguindo desvalorizar o caso Influencer (ficando nivelado pelas maldades de Sócrates, portanto não justificando especial indignação nem alarme). No texto do programa, escreve-se algo tão pérfido que chega a ter o mérito de se assumir ingénuo: “Entretanto, o julgamento de Sócrates vai-nos fazendo corar de vergonha, de tantas manobras e atrasos.” A lógica é sempre, sempre e sempre a de atribuir a Sócrates a responsabilidade da “demora” em ser levado para o calabouço por estar a cometer algum tipo de ilícito moral carimbado como “manobras”. Manobras que os tribunais, coitados, não conseguem impedir visto estarem a respeitar a lei, chatice do caralho. A lei, no que toca a Sócrates, devia ser suspensa em nome da urgência popular em vê-lo destituído de direitos e de defesa por qualquer advogado, eis o sentimento içado como bandeira pela enésima vez no editorialismo “de referência”.

Assim, espanta que tenham chamado Garcia Pereira para o programa. Ângela Silva foi rápida a mostrar que o desprezava, pelo que não terá vindo dela o convite. A martelo, conseguiram meter Sócrates na conversa só para o título não acabar absurdo. Ao minuto 38, ao ouvir a Ângela clamar contra a “vergonha” de se ver Sócrates a defender a sua inocência e a pedir que o Zé Manel afiasse o dente contra os direitos e garantias dos cidadãos, Garcia Pereira explodiu de impaciência e asco. E então, finalmente, ouviu-se no Expresso da Meia-noite a denúncia do gravíssimo atentado contra o Estado de direito ocorrido na devassa a Ivo Rosa por causa do Processo Marquês. Pela honrada e corajosa boca de Garcia Pereira.

O Zé Manel, falando logo de seguida por pressão dos serviçais do mano Costa que não queriam ouvir falar em Ivo Rosa, vingou-se. Foi buscar o Face Oculta para caluniar Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento usando uma das mais estúpidas teorias da conspiração bolçadas pela direita decadente: as “escutas destruídas” onde Sócrates falava com Vara como amigos íntimos a gozarem com o quotidiano político de 2009. Só um poço sem fim de ódio mesquinho e torpe se presta a esta desamparada figura. As tais escutas apenas no plano formal foram destruídas, como a lei impunha visto terem nascido de espionagem política. Não só foram publicadas ao tempo como foi notícia que em Aveiro havia (e há) cópias integrais do que foi registado na mão de procuradores e juízes. Finalmente, tanto Pinto Monteiro como Noronha do Nascimento, nos anos seguintes, por diversas vezes disseram em entrevistas que Sócrates devia ter permitido a publicitação oficial das escutas visto elas não terem qualquer indício de crime. Mas tinham muito sumo da sua privacidade mais pícara, pelo que terá sido esse o motivo para não aceitar tamanha exposição para a história.

Que pena não se poder votar no Garcia Pereira para presidente de uma coisa qualquer, nem que fosse uma junta de freguesia ou um grupo excursionista e almoçarista.

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Dominguice

Quando até o Manuel Carvalho dá palco a perigosos socráticos como Paulo Mota Pinto, podemos ter a certeza de que algo está a mudar no que tem sido um reinado de impunidade e crime por obra e desgraça de magistrados do Ministério Público. Mas toda esta gente continua do lado do problema, mesmo os que estão do lado da solução, por falta de coragem. Se tivessem nas hostes quem praticasse a parrésia, então já se teria dito o óbvio: Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República, é o principal cúmplice (ou coisa pior) no golpe de Estado que levou ao derrube de um Governo com maioria absoluta — e ainda, o que prova a intenção, ao impedimento de o partido maioritário poder indicar um substituto de António Costa sem dissolução da Assembleia da República. Esse substituto poderia ter sido Centeno, mas, fosse quem fosse, a governação nos dois anos de mandato socialista que restavam teria sido de distribuição de riqueza, apaziguando alguns conflitos sociais à data ainda na fase de negociação. Os resultados eleitorais no fim desse ciclo teriam sido completamente diferentes daqueles que levaram Montenegro para o poder e deram a proto-fachos e arruaceiros o segundo lugar no Parlamento. Marcelo, supostamente um dos portugueses com mais conhecimentos no campo da jurisprudência, uma vida inteira na política ao mais alto nível relacional, quis a queda de Costa após ter reunido com a procuradora-geral da República; num processo que é mais um escândalo histórico de abuso de poder e violação do Estado de direito democrático por exclusiva responsabilidade de quem jurou defender a Constituição.

O sistema partidário, a comunicação social, a sociedade, o bom povo têm sido aliados dos criminosos do Ministério Público e dos tribunais quando o alvo foi e é Sócrates. Agora, reclamam contra os seus outrora heróis. A dissonância cognitiva que grassa neste país é visível a olho nu da galáxia de Andrómeda.

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Dominguice

No debate entre Catarina Martins e André Ventura, ao minuto 15, o chunga agitou uma folha A4 com uma notícia acerca de uma rusga contra a imigração ilegal. A imagem mostrava uma fila de supostos imigrantes ilegais que teriam sido identificados pelas autoridades. Indo em crescendo de exaltação, esticando o braço e agitando o papel na direcção de Catarina Martins, acabou a berrar que ela era culpada pela presença dos ilegais no País, e que eles deviam ir para a sua casa. E depois mandou-lhe a folha à bruta. Não é preciso queimar as pestanas num curso superior de Psicologia para reconhecermos na cena a linguagem verbal e corporal de uma ameaça física. Noutras ocasiões, ao longo dos anos, Ventura tem ensaiado este tipo de ameaças a pessoas de esquerda sem que ninguém de ninguém se oponha, sequer que o registe. Catarina Martins chamou-lhe “momento Tiktok” e desvalorizou, o jornalista presente nada disse. Quanto ao resto, sendo a única candidata na corrida alguém que tem méritos políticos e merece respeito, a sua estratégia para o debate resultou num fracasso. Lutar com o porco na pocilga, mostrando quão porco ele é, deixa o porco feliz da vida.

Haverá alguém capaz de reduzir Ventura à sua abjecção? Não se consegue com argumentos, nem com factos, nem com insultos. O tempo do debate tem de ser quase todo dedicado ao próprio Ventura enquanto fraude ambulante. Só no fim, na estocada, é que se deverá falar do papel que um Presidente da República patriota pode ter no nosso futuro imediato.

É por isso

Gouveia e Melo foi apanhado de surpresa com a pergunta de José Alberto Carvalho sobre o apoio de Sócrates à sua candidatura, reagindo contra o jornalista. Às tantas, nem sequer sabia dessa declaração por ter sido feita poucas horas antes. Se sabia, não contou que aparecesse no debate com Jorge Pinto. Seja qual for a explicação, revelou amadorismo e insegurança. Do lado do jornalista, a interrogação era perfeitamente legítima.

No dia seguinte, em Barcelos, voltou ao caso para manifestar o seu repúdio, agora contra o próprio Sócrates. O grau de amadorismo e insegurança aumentou, dado que teve tempo para ouvir a sua equipa estratégica (se é que existe) ou, no mínimo, dormir sobre o assunto. Ter alinhado com o vox populi parece lógico, pois, como Sócrates na sua entrevista igualmente reconheceu, receber o apoio do mais odiado e perseguido dos portugueses é indesejável, é tóxico, é azar. Ao mesmo tempo, Gouveia e Melo desperdiçou uma oportunidade de ouro para se revelar o líder moral (portanto, o líder político enquanto Presidente da República) de que precisamos como comunidade.

Acontece que Sócrates está coberto de razão neste imbróglio das presidenciais em 2026. Há sectarismo, partidarite ou fragilidades em Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto. Há ameaças, repulsa ou asco em Marques Mendes, Seguro e Ventura. Há inanidade em Cotrim. E depois há um balão cheio de ar que pairava dominante enquanto era só uma farda na moldura. Ao começar a falar, a densidade do que foi revelando a seu respeito levou o balão a perder altura, não sendo já possível garantir que passe à segunda volta — embora seja o cenário mais provável. Por várias razões, directamente ligadas ao seu recente posicionamento como protector da Constituição, o almirante justifica o voto daqueles que pretendam eleger quem defenda o Estado de direito democrático e reintroduza no Palácio de Belém a decência de lá ausente desde Cavaco até Marcelo.

Ventura, certamente, e Marques Mendes, provavelmente, irão usar a cartada Sócrates ao debaterem com ele. Se repetir o embaraço defensivo manifestado, vai parecer frágil. Se atacar Sócrates para se tentar safar, vai parecer vil. A beleza da situação consiste em se saber que tal desafio irá fatalmente acontecer. Gouveia e Melo vai ser confrontado por um ou dois adversários por causa do apoio daquele que continua a ser um inimigo a perseguir e abater pela direita e corporações da Justiça. Pode preparar a melhor resposta, tem tempo de sobra. Terá inteligência estratégica para tal? Não apostava os 10 euros que tenho no bolso nisso.

Está em causa, assim que os cães se aproximem com a bocarra aberta, dizer heroicamente o seguinte:

"Senhor Ventura/Mendes, o engenheiro Sócrates é um cidadão com liberdade política. Lamento não me ter ficado por esta declaração quando primeiro tomei conhecimento das suas palavras a meu respeito. Errei ao reagir sem pensar. E agradeço-lhe dar-me agora a oportunidade de me corrigir em público. O senhor está a falar para aqueles que odeiam o engenheiro Sócrates ou que não precisam dos tribunais para saber se alguém é inocente ou culpado de algum crime. Esse é o seu rebanho. Eu quero falar para aqueles que precisam dos tribunais para protegerem os direitos de todos. O engenheiro Sócrates faz parte destes todos, é nosso concidadão, tem direitos iguais aos seus e aos meus. Se vier a ser condenado por corrupção cometida enquanto primeiro-ministro, num processo justo, e transitando essa sentença em julgado, será trágico para o Partido Socialista, trágico para a democracia portuguesa. Mas se vier a ser absolvido de corrupção, ou se a Justiça, por qualquer razão, não conseguir sentenciá-lo condenado ou absolvido, essa será uma tragédia muito maior, uma das páginas mais negras da nossa História. Porque então a vítima da acção do Estado deixaria de ser apenas o engenheiro Sócrates, e demais cidadãos acusados na Operação Marquês, passaria a ser o próprio Estado — isto é, a nossa comunidade, a nossa capacidade para vivermos juntos em paz, com ordem, livres. O senhor, pelos vistos, não está preocupado com esta segunda possibilidade. O cidadão e a pessoa Sócrates só lhe interessam para atiçar o ódio, para colher a ignorância em seu proveito. É por isso que o senhor não merece ser o próximo Presidente da nossa República."