Objectividade gastronómica

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Diz a sabedoria popular que os “homens conquistam-se pelo estômago”. Analisando esta longa campanha eleitoral, parece que aos jornalistas acontece o mesmo: quanto mais têm o rei na barriga, melhor. Não digo isto para arranjar uma classificação que me favoreça, longe disso. É a mera experiência e análise científica que me leva a tão prosaica conclusão.
Longe vão os tempos em que aos jornalistas pedia-se que relatassem e compreendessem o que viam, para fazerem notícias e reportagens. Hoje, todos os factos estão na periferia de qualquer notícia e no centro está aquilo que importa: o jornalista com as suas gracinhas, conclusões e, claro está, com o seu estômago.
Para aferir a importância crescente de tal órgão, fiz uma experiência: li, com enlevo, as classificações das campanhas (as famosas setinhas) feitas pelos jornalistas dos jornais de referência cá do burgo. É preciso esclarecer que tal secção acompanha as reportagens dos diversos candidatos e serviria para o jornalista, em poucas palavras, sintetizar os factos jornalísticos mais relevantes dessa jornada eleitoral. Desenganem-se aqueles que pensam encontrar desnecessárias e supérfluas considerações políticas e noticiosas; aqui revela-se em todo o seu esplendor o que importa no bom jornalismo: como é que os candidatos tratam os grandes jornalistas!
Pegando no diário Público, do dia 16 de Janeiro, temos o seguinte relato circunstanciado:
A jornalista Helena Pereira classifica positivamente a campanha de Jerónimo de Sousa, dando uma seta para cima ao seguinte facto relevante: “os almoços e jantares, muitos deles confeccionados por militantes devotados, como ontem, não têm nada que ver com o menu habitual das campanhas”. Já a voluntariosa Maria José Oliveira dá a sua seta negativa à candidatura de Manuel Alegre, para a seguinte situação: “as horas tardias que começam os jantares e discursos e as acções matinais são extenuantes. A comunicação social começa a mover-se a vitaminas.” A jornalista Fernanda Ribeiro, que faz para o Público a cobertura da campanha de Mário Soares, não fica atrás dos seus camaradas (será que no jornal de Belmiro de Azevedo se tratam assim?) e dá uma seta ascendente e gulosa ao seguinte facto da campanha: “o almoço na Quinta do Paço, que além de cabrito teve direito a lareira, foi a melhor refeição dos oito dias de campanha.” Sempre rigoroso, Nuno Sá Lourenço dá a sua seta negativa a este aspecto transcendental da campanha de Cavaco Silva, neste dia fatídico para o estômago dos repórteres: “serviço de catering com excesso de zelo, com refeições a serem servidas durante o discurso”.
A minha teoria é que esta deriva gastronómica da classe revela um processo muito mais profundo. Os jornalistas acham que estas minudências são importantes porque eles são muito importantes. Muitos profissionais pensam que não são pagos para relatar, segundo as regras do jornalismo, mas para julgar. E o mais grave é que, como acham que o estatuto do jornalista está acima do comum dos mortais, a maioria dos jornalistas defende, segundo o inquérito feito à classe, durante o Congresso dos Jornalistas, que os profissionais da comunicação social não podem ser militantes de partidos, nem terem uma qualquer participação cívica e política, o que consubstancia uma ideia positivista de que os jornalistas estão acima da vida comum e como tal o que pensam e escrevem não é a sua opinião, mas “a verdade”.
Qualquer jornalista devia-se lembrar, como escreve Regina Guimarães (oportunamente citada pelo José Mário Silva), que come, caga, devaneia, dorme, sonha, sua e trabalha como quase toda a gente.

6 thoughts on “Objectividade gastronómica”

  1. Outra interpretação possível remete para o facto de os portugueses comerem cada vez pior (será devido à crise?). Como tal, uma boa refeição assume para eles cada vez maior importância. Os jornalistas passam o dia famintos, atrás dos candidatos, à espera que eles lhes sirvam uma boa refeição a hora apropriada.

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