Concordo a 300% com a Guida: a melhor segunda volta possível é Seguro-Gouveia e Melo. Mendes-Ventura, Cotrim-Ventura, Mendes-Cotrim, seriam experiências traumáticas. Seguro contra outro qualquer da direita, é apenas triste. O confronto interessante, com potencial para ser fascinante, seria entre o fulano com dificuldade em se dizer de esquerda, apoiado por passistas e com excelente imprensa entre os direitolas, e o outro fulano que promete, que lança uns fogachos, mas que continua a ser uma incógnita.
Seguro conseguiu recuperar votos no PS e consolidar quem vota PSD pragmaticamente porque não se comprometeu com nada que tivesse alguma importância para a República. Disse merdas convencionais, inanes, e isso agrada a quem vê nele a escolha sem risco. Seguro é conhecido, faz parte da fauna política, pode ficar em Belém a brincar aos estadistas corta-fitas. Já o almirante não foi carne nem peixe, mostrou muita dificuldade em perceber qual era o seu papel (talvez ainda assim continue) e para as pessoas que não querem perder tempo com a política aparece como um tipo esquisito. Se fosse só uma farda a salvar-nos do virus, poderia ter colhido o fervor messiânico. Tendo que tomar posição sobre a miséria institucional que atravessamos, perdeu o voto dos borregos.
Vai acontecer? Não, infelizmente.
Ao ler isto, fico com uma pergunta que ultrapassa estas eleições: se os Estados e as elites políticas dizem agir em nome de valores republicanos, direitos humanos e estabilidade institucional, porque é que esses critérios são tão seletivos? Porque é que se boicotam países, se isolam governos e se fazem sanções “exemplares” por muito menos, mas nunca se coloca sequer a hipótese de um boicote ao Mundial de futebol ou de um isolamento político sério dos EUA, apesar de uma violência global estrutural?
Talvez porque, tal como na política interna que aqui descreves, o que vence é sempre a escolha sem risco, a neutralidade confortável. A coragem esgota-se no twitter, enquanto as ações que realmente perturbariam o poder são adiadas, diluídas ou simplesmente abandonadas por medo.
Portanto, a questão que coloco para decidir o meu voto é simples: qual deles teria a coragem de defender um boicote ao mundial de futebol
Os homens preferem geralmente o engano, que os tranquiliza, à incerteza, que os incomoda.
Frase do Marques de Maricá
Dando razão ao Eduardo e ao ‘A bem da noção’ acima, algo que li ou ouvi há algum tempo: a maioria das pessoas, incluindo muitas que se dizem de esquerda, são ‘small c conservatives’.
Isto pode significar coisas um pouco diferentes em cada país ou cultura; algumas são mais conservadoras em temas económicos e outras em temas ditos sociais, mas há um traço comum: não querem a mudança; evitam abanar o barco. Querem estabilidade. Previsibilidade. Conforto. Segurança.
Isto é, naturalmente, compreensível: temos embutido em nós o instinto de autopreservação, e atrás de nós vastos milénios de existência difícil, curta e brutal que nos fazem apreciar o que é certo e seguro. Daí um choninhas como Seguro ter hipóteses, ou o Centrão continuar a ganhar eleições.
O 1º problema é o egoísmo disto: abaixo do conforto das classes médias, burguesas e ‘aspiracionais’ que mantêm esta partidocracia podre e este capitalismo obsceno e desigual, como a xuxaria deste blog, está um nº crescente de pobres e, pelo mundo fora, milhares de milhões de miseráveis.
O 2º problema é que, além do egoísmo e da hipocrisia, este modelo é insustentável: a gula dos mamões continua a aumentar, jamais irá parar, e as contradições do capitalismo rebentam por todos os lados. Mas a carneirada anti-mudança faz de conta que tudo pode continuar assim. Até um dia.
Vês Valupi como nestes casos a vaselina ajuda bastante!