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No debate surgido aqui sobre o galego e o português, interveio «Alexandre». Como a sua intervenção apareceu assinada num debate paralelo no Portal Galego da Língua, não nos parece indiscreto informar que se trata de Alexandre Banhos, conhecido sindicalista galego, destacado membro do Bloco Nacionalista Galego, hoje no poder em Compostela, e também Presidente da Associaçom Galega da Língua. Aqui segue uma reacção.

Caro Alexandre Banhos,

Escreve você que a nossa língua nasceu no eixo Compostela-Guimarães, e que por isso chamar «português» à actual língua dos galegos não é forçar grandemente as coisas.

Compreendo o seu ponto de vista. Ele exprime uma percepção das realidades em que ambos concordamos: a de que, qualquer nome que ele tenha, o seu idioma e o meu são, ainda hoje, o mesmo. A ortografia é divergente, bastantes formas são divergentes, mas as estruturas mantêm-se fundamentalmente as mesmas. Partilhamos uma morfologia, uma sintaxe e um léxico únicos na Latinidade. Por isso, e usando a nossa mais exacta expressão local, entendemo-nos sem grande dificuldade de Faro à Corunha, uma das maiores distâncias – se não a maior – de intercompreensão de toda a Europa Ocidental.

As particularidades exclusivas a galego e português são ainda hoje de tal ordem que só uma possibilidade resta: a de que, no momento em que começa a haver «Portugal», o idioma está em muito adiantada fase de desenvolvimento (não registada nos escassos documentos escritos que restam), e isso pressupõe largos séculos de evolução. Em todo esse processo, de «Portugal» nem sombra. Simplesmente, quando foi preciso dar nome à língua, os portugueses ignoravam quase tudo disto (até os principais documentos faltavam), e chamaram-lhe, nessas condições, o óbvio: «português». Mas os criadores desse portentoso idioma tinham sido o que havia: galegos.

Aqui está por que não adiro à sua proposta de se chamar «português» à língua da Galiza. E digo-lhe mais. Se a questão é um nome de internacional prestígio, que tenha em conta as actuais proporções de falantes, então só esta conclusão se impõe: que é uma incomensurável parvoíce não chamarmos, hoje já, à vossa e nossa língua, «brasileiro». Em matéria de população e de prestígio estamos falados.

Conheço as vossas vantagens de a língua da Galiza passar a usar um nome internacionalmente sonoro. Isso pode funcionar como valente açoite nas almas dos galegos que, em número crescente, e já alarmante, educam os filhos em castelhano. E é uma bofetada no rosto de Madrid, que há-de ter de reconhecer que uma das suas constitucionais «lenguas españolas» extravasa para o Atlântico e se espalha por continentes. O Estado Espanhol vai tremer nos seus alicerces, e você sabe que não estou a brincar.

Mas exactamente aqui está já um problema. A chance de o seu Estado aceitar uma balbúrdia interna, com a fragmentação territorial então mais visível do que nunca, e isso para dar à sua Comunidade Autónoma Galega o gosto de ter, para o idioma, um nome pomposo, essa chance é tão mínima, que das duas uma: ou esse seu sonho é lúdico, e vamos deixá-lo assim, ou ele é mesmo a sério, um real desafio a Madrid, e você pode ir pondo as barbas de molho.

Esse seu sonho malandro, esse saboroso desafio, que digo eu, essa directa provocação ao conjunto de Espanha, eles incluem a esperança de que Portugal – lisonjeado – diga logo: «Eh pá, porreiro, man, bué da fixe, vamos a isso, mèrmão».

Aqui, o seu sonho, que já era tramado, entra em pleno delírio. É que, assegure-se disso, nunca Lisboa – nem pelos, sem ironia, lindos olhos dos galegos – mexerá um dedo para colaborar naquilo que Madrid logo chamará o começo do estilhaçar do seu belo Estado. A sério: nem a Galiza, nem ninguém, ganhará com que Portugal se meta no atoleiro político que é Espanha. Se a Galiza for esperta, nunca aliciará Portugal para isso. Além do mais, exactamente por ser a língua a mesma, e portanto nossa também, não poderá admitir-se que ela sirva de instrumento político intra-espanhol.

Uma coisa parece, pois, clara: a tentativa de convencer Espanha e Portugal de que a língua dos galegos deve chamar-se «português» é dum êxito tão remoto, está tão fora de toda a triste realidade, que persistir nisso é um irresponsável gasto de energias, vossas e nossas. Que bem merecem um objectivo melhor.

E há, de facto, um objectivo óptimo, em que podemos começar a trabalhar amanhã de manhã: é o de aproximar estes dois magníficos povos que habitam o Ocidente Peninsular e tão lindamente se entendem. Sem agendas políticas secretas, sem golpes baixos. Só com esse, já ambicioso, programa de participar numa cidadania alargada.

E, quanto a picante, ele não faltará. Você saberá, e eu saberei que, em tudo isso, o seu e o meu idiomas são o mesmo. Alguns portugueses sabem-no, sabem-no alguns galegos (até dentro do establishment) e mesmo outros espanhóis. Deixamo-lo assim. É o nosso grande segredo. Tão grande que até em Madrid podem sabê-lo.


  1. 1 W. Sobchak

    Gostei muito do post.
    Umha analise muito lucida.
    Saudaçoes

  2. 2 Ramón

    Também eu gostei muito. Faz falta algo desse “sentidinho” do Fernando cá por estas terras galegas.
    Abraço

  3. 3 Valupi

    Pois é uma pena. Teria dado um belíssimo país, da Galiza ao Algarve. E ilhas. Perfeitamente equilibrado e vário. O nome, o que a História quisesse.

  4. 4 Leão

    A bem dizer tudo isto devia ser o País de Asturias. De San Vicente de la Barquera até Lisboa, passando por Leão.

  5. 5 Portugalego

    De facto, na costa ocidental da península temos duas nações:
    A Portugaliza ou Galécia, que deve incluir a Galiza e o Norte de Portugal até ao Mondego.
    O Centro e sul Portugal que constituem a Lusitânia.

  6. 6 fv

    Ó Portugalego,

    As nações são, a gente sabe, invenções das elites, a que nós, paisanos, nos vamos acomodando, e onde às vezes acabamos por sentir-nos bem.

    Suponho que você seja de alguma elite algures dominante. Diga lá então, essa sua Portugaliza e essa nossa Lusitânia – isso está para quando?

  7. 7 Mouro lusitano

    Parabéns ao Fernando Venâncio. Análise com um sentido lógico irrepreensivel, politicamente esperto e o pragmatismo de quem sabe do que fala.
    Só uma achega: Deixe tudo como está, não force soluções e uniões linguísticas ou outras. Continuo a ser Mouro e não me sentia bem como Galego. Feitios…

  8. 8 Daniel de Sá

    Meu Caro Fernando
    Bem dito, bem argumentado. Mas é possível um contraditório. Talvez um dia voltemos a falar disto. É que há por aí um provençal e um catalão que viajaram até às cantigas de Afonso X e de D. Dinis e que provavelmente têm uma palavra a dizer…

  9. 9 alexandre banhos

    Caro Fernando:

    Gostei muito do seu texto. Olhe, eu no nome (da língua) não percebo nenhum perigo para a Espanha, por mais voltas que lhe dou, e tamém estou seguro que dizer português da Galiza = galego, não é nenhuma revolução, só aclaração.

    Pode que esteja tacticamente errado (e não som dos que não mudam quando olham as cousas claras bem ao contrário, souche pragmático), e tu no certo; mas não sei se percebe que entrementres falamos nisto nadamos contra corrente, contra a forte corrente da naturalização absoluta dum castelhano simples como língua da Galiza ao norte do Minho.

    Não é que Portugal nos necessite ou que nos necessitemos a Portugal e que nos cumpre respirarmos o mesmo ar, eu não acredito muito num Portugal como diriam os ilgueiros “de seu” numa península com uma Galiza Castelhana. A Galiza é a grande Olivença de Portugal.

    alexandre

  10. 10 Ramón

    Para uma Espanha ideal entendida como um Estado formado por cidadãos de origens, línguas e culturas diversas, alheio à ideia de nação (neste caso, da Nação espanhola), a identidade galego-portuguesa não é problema nenhum.

    Para a Espanha, entendida como Nação Espanhola, o reconhecimento de que a Galiza fala português é uma patada no cu monumental. Aonde vai a unidade da Pátria se os galegos falamos uma língua estrangeira?

    Mas em Espanha somos quatro gatos os que opinamos que mais vale esquecer-se das nações espanhola, galega, basca e catalã e falarmos só de cidadãos, concelhos, comunidades autónomas, Estado e União Europeia. O resto dos espanhóis acham que a sua nação, seja esta qual for, tem direitos históricos irrenunciáveis.

  11. 11 Zé Pincél

    “Deus não pôs os ceptros nas mãos dos príncipes para que descansem, senão para trabalharem no bom governo dos seus reinos”
    Testamento Político de D. Luís da Cunha ao futuro Rei D. José I.

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