Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Manuel María, poeta galego contemporâneo, termina assim a sua “Balada ós meus pequenos enemigos”:     

            Meu querido enemigo: agradecido estou

            a túa incompreensión, ó teu pequeno odio

            inofensivo, a tua língoa en miniatura,

            ó teu cativo leite que non coalla:

            así vas ben, tí descansas i eu tamén.

            Dificilmente conseguimos alcançar a perfeição de oferecer a outra face a quem nos bate, mas o desprezo teria quase o mesmo efeito. O orgulho, porém, é muitas vezes mais forte que o nosso desejo de paz. Ou até nos apetecem mesmo algumas guerras, para provarmos que somos capazes de enfrentá-las ou de atiçá-las. No entanto, e à semelhança do que de outro modo disse o poeta galego, as palavras do ódio não são nunca proferidas por uma língua eloquente.


  1. 1 Inês Leitão

    Muito, muito, muito bom :)

  2. 2 Zapatairo

    Como seria possivel aos teus colegas neste blogue meterem as cabeças de fora sem o buraco providencial da tua braguilha com éclair traiçoeiro? Fecha o buraco ao menor sinal de coalho ou requeijão nos leitinhos das suas eloquências. Não vale guilhotinar sem chorar depois.

  3. 3 rvn

    Daniel, meu amigo:

    Sempre em forma, pelo que vejo.
    E oportuno, no que me diz respeito. Perdoarás mas hoje mesmo te vou citar, mai-lo teu galhego que sabe das coisas dos ódios.
    Bom rapaz e respeitador que sou, citar-vos-ei, pressupuesto.
    Boas linhas.

    rvn

  4. 4 fmv

    Ó RVN,

    E se te dissessem que «galhego» e «pressupuesto» [por supuesto?] é tão estranho ao galego como é ao português?

    Porque hás-de espanholar o que não o é, nem quer sê-lo?

    Abraço na mesma.

  5. 5 rvn

    fmv:
    Começando pelo fim: provavelmente porque me soou bem aos dedos, em primeiro lugar. Coisas que a gente faz quando não está com a preocupação de ajeitar a gravata, que o tio culto está a olhar..

    Mas, indo ao princípio, se me dissessem o que reza a tua pergunta, provavelmente pararia para pensar nas figuras tristes que faço de quando em vez, quando me atiro ás graças como gato a bofe sem olhar em volta. Matutada a coisa, escreveria finalmente umas linhas compostinhas e sem sal ao meu amigo Daniel e só despia a roupinha de ver-a-deus em casa, longe dos olhares da família.

    Mas aí, querido amigo, teria perdido eu a oportunidade de aprender contigo e tu a oportunidade de constatar e corrigir a minha ignorância. O que, diga-se, empobreceria bastante esta nossa noite de sexta feira. Não achas?

    Quanto aos abraços é pacífico: aceita também um dos fortes. Préçupuéstu.

    rvn

  6. 6 Daniel de Sá

    Inês Leitão: muito, muito, muito obrigado.
    Zapatairo: uma das diferenças entre os animais irracionais e os seres humanos é que aqueles não costumam voltar aos lugares de que não gostam. Por isso sei que não lerá esta minha resposta.
    RVN e FMV: Este diálogo entre vocês foi mesmo a prova de que tenho alguma razão no meu pequeno texto.
    Obrigado.

  7. 7 rvn
  8. 8 vaga-lume

    Lindo poema. Boa reflexão. Mas melhor assim:

    Meu querido inimigo: agradecido estou

    à tua incompreensão, ao teu pequeno ódio

    inofensivo, à tua língua em miniatura,

    ao teu cativo leite que não coalha:

    assim vais bem, tu descansas e eu também

    Perdeu-se o espírito, a alma, a intenção, o miolo, o fundamento, a língua, a música, o objetivo, a função galeg@s? Não, Manuel Maria também escreveu (e editou) assim:

    TERNURA

    Pouco importa que a ave da esperança
    ou a faísca amarela do desejo
    cruzem por nós como um salouco
    para converter-se em névoa
    ou sombra esvaída na lembrança.
    O que de verdade importa,
    amada e irrenunciável companheira,
    é a chama delicada da ternura
    coa que acendemos o lume
    no que queimamos a monótona
    tristura dos dias e onde arde,
    serena e mansamente, a árvore
    fiel e rumorosa da nossa própria vida.

    «A Luz Ressuscitada» AGAL 1984 I.S.B.N. 84-398-2305-3

  9. 9 Daniel de Sá

    Boa tentativa de tradução, meu caro Vaga-Lume, mas com um mais que provável erro. Há dias eu disse ao FV que talvez voltássemos ao tema do Galego, por causa das influências no desenvolvimento da língua. É que duvido muito de que Manuel María tenha usado aquele “cativo” com o sentido que tem em Português. Tal como em Italiano (neste caso só há um significado), o primeiro significado de “cativo, em Galego, é “ruim”. Ora veja:
    “cativo -a adx. 1. De mala calidade, que vale pouco ou non ten boas calidades. Unha froita cativa. Un escritor cativo. SIN. malo, ruín. É cativa, non é moi guapa. 2. Privado da liberdade, que foi feito prisioneiro. Estivo tres anos cativo nos alxubes do castelo. Tamén s. Pedían a liberdade dos cativos. SIN. preso. 3. fig. Sometido a unha paixón, ós encantos de alguén, etc. Cativo do amor dunha fermosa dama. // s. 4. Rapaz de pouca idade. Xogos de cativos. SIN. neno, pequeno, pícaro. CF. meniño.”

  10. 10 rvn

    É por isso que eu defendo convicto que a dobragem em televisão e cinema é um dos maiores atentados que se podem fazer à cultura de um povo, qualquer povo. Sem beber na fonte não se conhece água pura. O mesmo assunto, meus amigos. Mesmo que possa parecer que não.

  11. 11 Zé Pincél

    “Afinal o Coelho confessou que recebeu várias prendas do Américo: garrafões de 5 litros de Azeite de Estremoz. Já é um indício. Mais tarde irão chegar ao xadrez e ao apartamento!” R.I.A.P.A.

  12. 12 bastonada

    Alguns não vêem o mar nem desde o faro…

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