Regime, prefere doce ou Salgado?

"Continuei a privar com Ricardo Salgado."

Marcelo Rebelo de Sousa, 13 de Dezembro de 2015

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A notícia de que o trajecto dos indícios sólidos para os indícios robustos, num périplo de 3 ou 4 anos exposto ao detalhe na indústria da calúnia, tinha finalmente conseguido ligar Sócrates a Salgado não entusiasmou a direita decadente que tem dominado PSD e CDS desde meados dos anos 80. Uns patos-bravos do Interior, apenas se distinguindo dos pedreiros porcalhões pelos Mercedes e pelas inflacionadas baselgas, isso sim. Uns escroques da ralé inglesa e seus envelopes, como no Freeport, mesmo fixe. E um sucateiro, cujo dinheiro tresanda a lixo e mijo, maravilha (é escarafuncharem mais um bocadinho que ainda o vão conseguir enfiar na “Operação Marquês” sem dificuldade). Essa tipologia dos putativos corruptores do odiado, porque temido até ao pavor, Sócrates está em perfeito acordo com a cosmogonia e teodiceia dos pulhas em versão direitola. Agora, o BES? O Espírito Santo mais espírito santo é que se lembrou de comprar um primeiro-ministro? Eh, pá… Então, mas o BES e o GES não alimentaram tantas bocas, e durante tantos anos, dos senhoritos (e suas famílias) que têm pululado nos quadros partidários e dirigentes do PSD e CDS? Atão mas, bá lá ber, será que agora vai-se também saber quem mais é que o santo Salgado comprou ou ajudou a comprar? Quer-se dizer, e isto sim é que é importante: a Comporta, afinal, não era um santuário ao ar livre só com gente séria e melgas em ininterrupto bacanal?

Como está claro desde o início, um processo judicial que leva à prisão de um ex-primeiro ministro por suspeita de corrupção torna-se, acto contínuo, uma questão de regime. Podemos até separar a exploração política do caso que foi e é insistentemente feita através de alguns órgãos de comunicação social, o que permanece incontornável é a gravidade do que está em causa: é impossível que a eventual corrupção, qualquer que se conceba, tenha sido concretizada apenas pela acção de um único indivíduo então no Governo, mesmo que esse indivíduo fosse o chefe do Executivo; aliás, por estar nesse cargo, a realização dos actos corruptos – dada a sua permanente exposição burocrática, política e mediática – implicaria uma logística cuja complexidade está absolutamente ausente em tudo o que foi vertido publicamente até à data e que acabaria necessariamente por envolver o próprio Partido Socialista e sua elite dirigente. Por outro lado, esta é uma questão de regime pela qualidade da investigação e dos actos judiciais que foram assumidos pelo Ministério Público e pelo juiz de instrução. Tal como não queremos viver numa sociedade onde após se deterem suspeitos de crimes, quaisquer crimes, eles sejam humilhados pela turbamulta e espancados pelos polícias só porque parece que cometeram ilegalidades, assim ficará por fazer a história deste processo onde desde o primeiro momento condicionador da liberdade de um cidadão, a detenção de Sócrates no aeroporto acabado de chegar a Portugal, tudo tem sido feito para condenar na praça pública um ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do PS sem que ele se possa defender de ataques criminosos. Estes actos têm responsáveis, se depois o País se dará ao respeito de os expor e julgar é o que veremos – mas não veremos, né?

E como temos descoberto nas últimas semanas, tocar em Ricardo Salgado é abraçar o regime. Um regime onde até Marcelo Rebelo de Sousa aparece na berlinda como um dos seus mais influentes e poderosos maestros. Perante a magnitude do que está implícito nas acções e omissões do Banco de Portugal e do Governo de Passos, este miserável caso onde ainda nem sequer se conseguiu acusar o bode expiatório da Nação seja do que for é agora uma fonte de luz apontada às mãos, e cabeças, escondidas na escuridão oligárquica.

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32 comentários a “Regime, prefere doce ou Salgado?”

  1. Sócrates vai ser condenado. Atrás dele vão outros, com prisão efetiva. Sócrates tem falado com razão quanto aos procedimentos, mas isso não afasta a informação documental que aparentemente existe e que o condena.
    O “processo Marquês” tem sido chamado a outros processos de corrupção, onde há arguidos em comum.
    O padrão é sempre o mesmo: corruptor X ( é o mesmo nalguns), corrompidos ( pessoas ambiciosas…) e advogados. O polvo que o MP está a delinear é até simples, os braços é que se enrolam…sendo que algumas braçadas podem ganhar a corrida por causa da IGNORÂNCIA da investigação.

    Não adianta a instrução criminal. O pensamento é comum…é julgamento, com contestações e questões prévias e desancar na prova recolhida. Até lá, só tinham e teem que se calar e não alimentar procedimentos que na prática ou são inconstitucionais de raíz ou violam a CRP.

    Infelizmente, Sócrates tem feito ruídos desnecessários…como conferências de imprensa perante uma comunicação social, mediótica, que ele próprio processa e condena!

    Agora venham os comunas ou quem quer que seja REFUTAR o que acabo de escrever com a maior souplesse porque estou a comer laranjas….yawn.

  2. Pois Marcelo …privou…e eventualmente deu pareceres jurídicos…não sei, digo eu de que….

    É que como a fita métrica sherlockiana do MP é tão grande…e entusiasta, e a PJ anda tão motivada…a acordar as pessoas às sete da manhã e a usar material do Staples….quer dizer, digo eu de que, portanto, teem que escrever nalgum suporte, não é…?
    Ah! Se os indiciados fizessem como Mr. Trump e usassem o twitter…

  3. Tudo isto é um N O J O

    mas no final, tal como em Outubro de 2 015,

    O TIRO VAI-LHES SAÍR BEM PELA CLOACA!

    Só que, desta vez, não vai ser “parto” sem dor, desenganem-se os espíritos (e bem podem começar desde já a rezar a todos os santinhos…).

  4. «Sócrates vai ser condenado.»

    Finalmente concordamos nalguma coisa, éstrampa!
    Tb a mim não me restam dúvidas disso. Com tanta trampa recolhida e respectivas cascatas de inferência, claro que só pode ser condenado. A “Justiça” sabe há muito que ao ponto a que as coisas chegaram se ele não for condenado, será ela. Portanto a coisa é simples. Para todos os efeitos passou a ser irrelevante se o homem é inocente de alguma coisa. Bom, talvez o absolvam da culpa de ter nascido. Portanto, que se foda a instrução, o julgamento, essa farsa toda! Vamos directos à sentença: 25 anos de efectiva, que é o máximo previsto na lei . Ou tb será meramente indicativo ?! .

  5. O diarreia mental é adepto de partir a espinha, comer, calar e ainda agradecer por ser enxovalhado durante 2 anos.
    É pena o próximo não seres tu.

  6. Só falta saber quem ordenou ou incentivou este processo contra o ex P. Ministro?
    Quem escolheu ou sugeriu para a função a actual PGR? Porquê a designação do
    inspector tributário de Braga? Quem lidera o inquérito o procurador ou o juíz de
    instrução? Quais a provas e indícios tão fortes que alguns desembargadores vi-
    ram para dar, de cruz, razão às posições do M.Público? Alguns com tanta elevação
    que colocam a Justiça nas ruas da amargura … como o soneto dos cabritos !
    Quando se apurarem as questões acima talvez, se faça alguma luz sobre o que es-
    tá em marcha pois, já foi ultrapassado o vulgar justicialismo nos possíveis atropelos
    ao que a Lei consigna para lá de ser ou não, meramente indicativo!!!

  7. è uma espécie de “lava jacto” : começa-se a puxar pelo cordel e vai-se a ver estão todos atados uns aos outros :) não há por aí nenhuns “arrependidos” que a troco de imunidade botem tudo cá para fora?

  8. Giorgio
    1 DE FEVEREIRO DE 2017 ÀS 23:19

    […]
    Nota, outra. Se encontrarem por aí o João Araújo ele que não leve a mal mas tentem por favor convencê-lo disto, pois a ritualização que seguramente existirá num mega-julgamento com a presença de ilustres arguidos exigirá técnica e mais técnica e mais técnica numa dialéctica permanente (e “em silêncio”!) tanto com o MP, como com o colectivo de juizes e com as outras defesas. Lá no fim um momento de fulgor quando e se tal for oportuno, e não o contrário.

    Disse.

    _____

    Breve ponto da situação, hoje.

    Vi há pouco, nas TV’s, a chegada e a partida de Sofia Fava com uns quilinhos a mais durante o breve interrogatório que decorreu nas novas instalações do MP.

    Um ponto prévio, no entanto.

    A acompanhá-la vinha o seu defensor, o advogado Paulo Cunha e Sá. E deve começar-se por sublinhar este facto porque o sôtor participou em múltiplos programas televisivos (nos canais generalistas, e no cabo) onde foram dissecadas as várias fases da Operação Marquês. Não me recordo de ele se ter apresentado, alguma vez, como uma parte interessada no assunto (ou, se quisermos, como defensor de uma das arguidas). De resto, sê-lo-ia na altura? Recordo-me, isso sim, de que o mencionado advogado sempre se refugiou no jargão profissional segundo o qual «não me vou pronunciar sobre casos em concreto». Esta frase, bem entendido, faz parte dessa espécie de processo de iniciação para se entrar neste original (?) universo jurídico-mediático português que, como sabemos, está ao alcance de poucos e que constitui um filão bastante lucrativo que tem vindo a ser, ao longo dos anos, bem explorado por outros colegas seus: Arrobas da Silva, João Nabais, José Maria Martins (!), Marinho e Pinto (!), Garcia Pereira (|!), Dias Ferreira, Rogério Alves, Ricardo Sá Fernandes, Magalhães e Silva, menos o Artur Marques, etc. Sabe-se que este filão tem contornos vários (desde presenças nas revistas do jet set ou seis nacional, políticos, futebolísticos, bronquismos vários e outros) e parece ser sempre declinado no masculino, diga-se passagem.

    No entanto, e para além de o assunto poder vir a ser do domínio de um qualquer órgão deontológico na Ordem dos Advogados, o que é interessante assinalar é que mais ou menos ilustres arguidos da Operação Marquês sem excepção (Sofia Fava, no caso) jogaram a mão a uma ilustre plêiade de advogados portugueses. Outrossim, que o exemplo parece vir a confirmar que um «mega-julgamento com a presença de ilustres arguidos exigirá técnica e mais técnica e mais técnica numa dialéctica permanente (e “em silêncio”!) tanto com o MP, como com o colectivo de juízes e com as outras defesas» (eu o disse, oportunamente). Ou, dito de outra forma, torna evidente a forma errática da defesa de… José Sócrates.

    O último exemplo, como se viu, passou por uma nocturna (?) conferência de imprensa dos sôtores Delille e Araújo (aparentemente num vão de uma casa de pasto, vi bem?), mais uma vez a propósito da dilatação dos prazos de inquérito permitidos ao MP até ao momento em que será deduzida uma acusação. Desde ontem, para os mais entusiastas e desmiolados “defensores” do ex-PM (entre os quais se inclui a troupe do Aspirina B, obviamente) noto que a posição dos seus advogados mereceu contestação em que tomaram parte livremente outros advogados. Nada de novo, portanto.

    Dito isto, e voltando ao advogado Paulo Cunha e Sá e à sua inusitada presença de hoje no DCIAP, o facto veio separar as águas e meter em cima da mesa três aspectos pelo menos:

    1. Tornou mais denso o universo das defesas, qualificando-o;

    2. Qualificando-o, demonstrou que as estratégias antes e em julgamento serão diversas e ainda bem («O advogado de Sofia Fava, ex-mulher de José Sócrates, afirma que não está preocupado com os prazos da Operação Marquês porque não afectam a validade dos actos praticados no inquérito. Paulo Cunha e Sá falou à saída do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, em Lisboa, onde Fava foi ouvida hoje.», síntese no site da SIC Notícias);

    3. Sendo diversas as defesas, o facto por si só confirmou a forma errática da defesa de… José Sócrates e, ao mesmo tempo, clarificou-a: como se entrevia, perante a dedução da acusação do MP por corrupção passiva, fraude fiscal e branqueamento de capitais, a sua defesa fará dos incontáveis recursos, “incidentes” e pedidos de clarificação o seu leit motiv adiando o final do processo.

    Nota, explicando-me. Se, no fim da linha, existir ou não uma condenação absoluta, ou mesmo que parcial, o facto será sempre indiferente já que o objectivo final da estratégia de José Sócrates (faça-se-lhe justiça!) sempre casou na perfeição com as reiteradas teses intelectualmente indigentes sobre o “amiguismo” com Carlos Santos Silva e os empréstimos, as tentativas de enfraquecimento de todas as acções do Ministério Público (sublinhado, tudo!) e do contuio com o juiz Carlos Alexandre e a imprensa popular, uma nunca provada e/ou delirante cabala de contornos políticos, ou, ainda, a cada vez mais escaldante vitimização perante um estado de carácter alegadamente Orwelliano.

    Pairando sobre tudo isto, há o aroma inebriante de um poder real ou imaginário. Tudo ou quase tudo estará errado, ver-se-á.

  9. Sabemos agora, na célebre entrevista do “não tenho amigos ricos…” o juiz xinga os outros daquilo que é e acusa os outros daquilo que faz. Um clássico.

  10. O advogado “Fava” vai fazer o que Sócrates lhe mandar…e ele faz…

    Mas atenção às nortadas, ou monções, que são pesadas. E ele é um excelente advogado, ele até defende El Carrilho Guimarães…

  11. éstrampa, larga as pedras, aprende alguma coisa com o Giorgio e deixa o Sóbebo Chá que ele é hetero.

  12. «Seja à esquerda ou à direita, Sócrates é temido e desejado. Temido porque desejado, e desejado porque temido.»
    12.9.2009

    [ http://4.bp.blogspot.com/_kycDYo27yQ0/SuoL8OkvAHI/AAAAAAAACqc/1EN6Ldk3uJM/s1600-h/Cheia+de+1947.jpg ]

    «Essa tipologia dos putativos corruptores do odiado, porque temido até ao pavor, Sócrates está em perfeito acordo com a cosmogonia e teodiceia dos pulhas em versão direitola.», …?
    14.3.2017

    Legenda:
    Muita água correu por debaixo da ponte.
    Ponte sobre a Ribeira Grande, cheias de 1947.
    Submersa.

    _______

    Valupi, larga o vinho.

  13. Ou o MP consegue fazer de Salgado um “denunciante premiado” (ou ilibado como o outro), ou as incomodidades vão atingir muita, mesmo muita mais gente que o Presidente Marcelo.

  14. 1324 dias é muito tempo? É. Não é.

    É: justiça lenta não é justiça, por prolongar o peso da suspeita sobre aqueles que investiga e afastar do tempo dos factos a consequência dos atos. A justiça está feita quando há absolvição ou condenação. Tendo em conta a visibilidade deste caso, e a natureza dos arguidos, pior ainda, a presunção de inocência é abalroada pelo julgamento público.

    Não é: este é um caso muitíssimo complexo, passa por vários países e offshores, numa investigação que tenta destecer uma rede de transferências suspeitas que inclui testas-de-ferro, malas de dinheiro e supostos favores não documentados. Tudo isto com uma equipa de oito procuradores, o que é muito para o que é costume mas é pouco para o que é preciso. Basta ver outros casos: a investigação à Operação Furacão demorou mais de dez anos

    Como sublinhava o Rui Gustavo e o Micael Pereira, “o próprio diretor do DCIAP, Amadeu Guerra, está envolvido no processo final de elaboração do despacho, o que não é normal nem vulgar.” O “faltam meios” não é uma reivindicação corporativista. É um facto. […]

    Pedro Santos Guerreiro na newsletter do Expresso, hoje.

  15. O pedro santos guerreiro, ou o micael pereira…de facto são referências…não há duvidas…então o micael…que diz que não prescinde do ato de perceber…uh…uh….o problema é que o tipo nem se dá ao luxo de conhecer…

  16. Não era a namorada do clown Marcello que participava nas reuniões do conselho de administraçâo do Ges ou do Bes, ou lá do que es?
    Isto é tudo uma palhaçada, bastava um qualquer jornalista pedir as gravações dos programas de Marcello ao domingo e fazer o contraditório com o que diz agora para haver um programa de comédia com alguma seriedade. Os Portugueses merecem palhaços melhores. Muito melhores;
    https://www.youtube.com/watch?v=E4i3bAtEuJE

  17. Aeiou –
    Eu cá por mim gosto do blog restosdecolecção .
    Pena não haver lá material sobre Marcelo e Salazar . Gente inteligente e, sobretudo, séria, é outra coisa .

  18. pimpampum, mantém o registo de ontem (deixa de ser hooligan que fica-te mal, nomeadamente) e, nessa tua cabecinha ou recorrendo a uma edição anotada que tenha sido publicada pelo Rei dos Livros, tenta perceber o porquê de não haver e já agora, de caminho, deixa de ser fascista.

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