Manifestem-se, então

O Manifesto para uma esquerda livre tem o grande mérito de enfrentar a besta logo à cabeça dos seus objectivos principais:

UMA ESQUERDA MAIS LIVRE, com práticas democráticas efetivas, sem dogmas nem cedências sistemáticas à direita, liberta das suas rivalidades, do sectarismo e do feudalismo político que a paralisa. Uma esquerda de cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o país recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária.

Sem dúvida que o vocábulo mais importante dos 51 que constituem o parágrafo é este: sectarismo. Donde vem o sectarismo? Quem o cultiva? Quem depende dele para manter a sua identidade? As respostas vão dar todas ao BE e ao PCP. Recorde-se o patético do BE a querer antecipar-se ao PCP na moção de censura em 2011, depois do BE ter feito o mesmo ao PS com Alegre para as presidenciais e já antes para o desgaste do Governo maioritário. Um líder desvairado, ofuscado pelas luzes do palco e a imaginar-se o grande comandante da esquerda grande sem ter ninguém no partido para lhe fazer frente, sequer chamá-lo à terra. Recorde-se o conservadorismo religioso do PCP, absolutamente imune a qualquer tentativa de aggiornamento e, como consequência, cristalizando o discurso nas barricadas de um patriotismo reactivo e fóbico. Recorde-se o encontro do BE com o PCP no período eleitoral de 2011, depois de terem contribuído para as condições em que a vitória da direita seria inevitável e com os futuros aproveitamentos da crise que se anteciparam à exaustão, e de como essa reunião não passou de uma triste farsa que nem os próprios se esforçaram para esconder.

De facto, não será sensato esperar das cúpulas do PCP e BE, e sua legião de fanáticos, qualquer ponte com o PS, sequer entre si. É aqui que o parágrafo, como o Manifesto ele próprio, entra em imediata contradição, pois a expressão “cedências sistemáticas à direita” é a fórmula pela qual a retórica da esquerda verdadeira trata o socialismo democrático. Como é que os proponentes e signatários pretendem resolver o imbróglio? Quem é que vai definir os limites das cedências legítimas ou assistemáticas? Aliás, o que será exactamente uma cedência? Lendo e relendo o Manifesto, olhando para o elenco pensante, rigorosamente ninguém saberá responder a estas perguntas. Estamos tão-só perante um conjunto de lugares-comuns do que seja a esquerda enquanto largo território ideológico, generalidades que não resistem a uma primeira discussão sobre qualquer acto governativo concreto sem que tal cause fatal dissensão no maralhal.

Inútil, então, esta iniciativa? Para começar, por ousar colocar o problema do sectarismo no centro do impasse da esquerda em Portugal, não. Mas se contemplamos apenas um fogacho saído da frustração e cansaço de alguns ou se testemunhamos o começo de um movimento onde a inteligência e coragem dos seus líderes seja capaz de reunir cidadãos dispostos a trabalhar em conjunto para que o País recupere a esperança de viver numa sociedade próspera e solidária, isso só o tempo poderá revelar. Tendo em conta o modo como várias das vedetas signatárias alinharam no boicote e demolição dos Governos socialistas, juntando-se a campanhas de assassinato de carácter produzidas pela escória dos direitolas, os prognósticos são muito, muito, mas mesmo muito reservados.

24 thoughts on “Manifestem-se, então”

  1. Parece-me a mim que a Esquerda portuguesa, neste momento, precisa muito mais de responsabilidade e de lucidez, do que própriamente de liberdade.

    A Esquerda, aliás, não pode ser mais livre do que já é e estar agora a manifestar-se por isso significa que, embora o sendo, não se sente livre.

    Então, mas pronto, nesse caso, antes de passarem à fase adulta, da lucidez e da responsabilidade, resolvam lá primeiro o problema adolescente da identidade e matem o pai Marx, como sugere o tio Freud, e depois apareçam…

  2. Com o advento da “globalização”, o grande salto nas “tecnologias de informação”,
    quando em cima da hora estamos no acontecimento, em qualquer lugar do mundo,
    é manifesta a incapacidade das chamadas esquerdas, em propor ou liderar transfor-
    mações necessárias para uma maior justiça social!
    É evidente que, o PCP vive para dentro de si mesmo, não há festa do Ávante que
    possa esconder esse facto…pior, recusa entrar no séc. XXI o seu comportamento
    e discursos são dos tempos do PREC dos anos 80 do séc. passado. Se analisarmos
    o comportamento dos sindicatos tidos como afectos, será a confirmação!
    Quanto ao BE e as suas variadas tendências nunca chegarão a qualquer proposta
    que seja exequível. São um agrupamento que, apreciam “surfar” nos casos do dia e,
    na denúncia dos casos embaraçosos…dos grandes títulos. Para esta função basta
    terem meia dúzia de deputados!
    Em última análise, terão que ser os eleitores a punir estes comportamentos, com
    isto, não quero dizer que os chamados partidos do arco do poder, estejam isentos
    de responsabilidades nas suas práticas!!!

  3. Não consigo entender como é que a “esquerda” que apoiou os actuais (des)governantes no seu acesso ao pote, pode querer colaborar com a esquerda que saiu derrotada e que nunca quis ver no poder este radicalismo-liberal que pretende, custe o que custar, destruir qualquer hipótese, mínima que seja, de Estado Social.

  4. “Como é que os proponentes e signatários pretendem resolver o imbróglio? Quem é que vai definir os limites das cedências legítimas ou assistemáticas? ” Simples resposta:uma esquerda que não cede, é uma esquerda que não privatiza( que não é o mesmo que nacionalizar) uma esquerda que recuse a poltiica dos aumentos de impostos e o discurso politicon dominante na europa da austeridade e dos sacrificios.Uma esquerda que não liberelize.São essas as fronteiras da esquerda com a direita, no plano económico pelo menos.

  5. Se nâo me engano, o comportamento do PCP e do BE para com os dois últimos governos-PS com Sócrates significou o “fim da festa” do 25 de Abril. Os direitolas manobraram a seu belprazer bloquistas, comunistas e socialistas soaristas, alegristas e carrilhistas. Enterraram de vez os sonhos de uma esquerda de preocupações sociais. Esperam-nos anos a fio de governação de uma direita rancorosa e canhestra que soube montar-se na burrice secular e analfabetizada de um povo a quem cinco séculos de Santa Inquisição puseram “de quatro” diante de Deus e da Pátria dos Senhores.
    Tomaram de assalto os pilares da república, cavalgando com extrema facilidade a iliteracia de um povo menorizado e esquerdiastas alucinados ou oportunistas. Os nossos melhores estão a emigrar como podem. Ficam os reformados, os conformados, os medianos e os mediocres. Os mesmos que peregrinam às centenas de milhares para Fátima, rezando e cantando o fado da sua humilhção centenária.
    Falta levar ao pelourinho todos os ex-governantes PS e condecorar os cavaquistas triunfantes.

  6. BE e PCP, são, têm sido, objectivamente aliados tácticos da direita. Toda a sua actuação pós 25 de Novembro tem sido o combate sem tréguas que têm feito ao PS. Preferem a direita pura e dura no poder, ao Partido Socialista. E, compreende-se porquê. É que este Partido quando poder e mau-grado algumas cedências aos seus principios, o que é lamentável mas tem sido impossivel de evitar, obteve sucessos na melhoria e consolidação das condições de vida do povo português. E isso é o que a “grande” esquerda não suporta. Esses são os factos que a esvaziam, logo há que os combater e prometer a lua como objectivo que nunca se alcançará, mas que mantém o pagode empolgado. No caso dos governos anteriores, e perante os sucessos conseguidos no 1º governo, na consolidação do défice e no arranque das medidas que criavam as condições para a modernização e transformação do país, anteviram a derrota de toda a sua estratégia e vai daí conluiaram-se (de facto, que não de jure) com a direita para desgastar e derrubar esse governo. Com a crise financeira e económica de 2008 como aliado, acabaram por conseguir esse objectivo. E agora? Agora armam-se em coitadinhos a lamentar por termos a direita no poder. Falsos que nem Judas, não foi isso que eles sempre quiseram? Com uma esquerda radical (e falsa) destas não é possível qualquer aproximação. O PS só em maioria absoluta conseguirá voltar ao governo e reatar as reformas necessárias para o avanço da modernização deste País e a melhoria das condições sociais do seu povo, o que, isso sim, é uma verdadeira política de esquerda.

  7. É óbvio que este PS, com a actual (in)segura direcção, também não nos vai levar a lado nenhum! Na prática está tambem, objectivamente, a apoiar esta direita que nos desgoverna

  8. Agora é tarde, José. A “festa” acabou mesmo. O palco está a ser desmontado, peça por peça. Não tenha ilusões.

  9. “reformas necessárias para o avanço da modernização deste Pais” José_: a que reformas vc se refere? especifique lá um bocadinho

  10. Gostei do seu post, José. Estamos metidos numa alhada. A “esquerda” à esquerda do PS , pela sua prática ao longo de todos estes anos, só pode ser imbecil ou idiota. Ou então é uma aliada da direita dura e pura. Os amanhãs que cantam, a esquerda com certificado de garantia, que não aceita compromissos com o capital, não passam de palavras ocas, sem qualquer substância. Andamos nisto há um ror de anos.Quando o PS é governo, é vê-los todos assanhados a desfiarem a cantilena de que o PS faz uma política de direita. Uma autentica tristeza estes “esquerdistas” de trazer por casa. Esses “senhores” ao chumbarem o PEC4 juntamente com a direitola mais reacionária após o 25 de Abril não sabiam que estavem a estender o tapete vermelho à direita mais retrógrada? Se não sabiam é porque não percebem nada de política. Dediquem-se mas é à pesca, depois da merda que fizeram. E desamparem-nos a loja.

  11. Concordando, em tudo, com o “poster”, o José, o “PP Portugal Profundo”, o Zé da Póvoa e o M. Alberto Alves, parece-me contudo evidente que não deveremos “amuar” e resumir a diversidade de proponentes e simpatizantes deste “Manifesto” à posição dogmática, irrealista e, por que não dizê-lo, suicida e irresponsável das cúpulas dirigentes do PCP e do Bloco de Esquerda.

    Como aliás é notório na patética referência da (?) “Dédé” e no textozinho do J Eduardo Brissos e respectivo comentário louvaminhoso, a “esquerda” alinhada com estes dois Partidos parlamentares já está desconfiada com este Manifesto, cheira-me porque a palavrinha “LIVRE” lhe causa evidente comichão. Por isso, há que ter calma e dar uma oportunidade a esta gente que agora se manifesta, ainda que mantenhamos o prognóstico “muito, mas mesmo muito reservado” (concordo, mas gostaria de ser surpreendido).

    Até porque, convenhamos, o Manifesto tem uma frase pelo menos bastante sábia e arrojada, com a qual não posso deixar de estar totalmente de acordo (já o leram na íntegra?), quando afirma estar contra a “política de terra queimada”. Nem é preciso ser bom entendedor para captar o que aqui há de (auto-)crítica à atitude de certa Esquerda parlamentar face à última experiência de governação socialista.

    Por outro lado, nós, Esquerda que se pretende adulta e tolerante, temos de acreditar que muitos dos que não nos acompanharam num Passado recente poderão ter aprendido algo com esta experiência da colossal derrota da Esquerda portuguesa, em Junho de 2011, e reflectir construtivamente sobre ela. Mesmo que isso leve o seu tempo.

    Até porque, para alargar o seu espaço social, eleitoral e até narrativo (e sobretudo mental), a Esquerda adulta, responsável, tolerante e construtiva tem de ir buscar mais apoio à Esquerda do PS, resgatando desse espaço todos aqueles que, muito embora acreditem que uma certa noção (demasiado idealista) de Igualdade é mais importante do que a Democracia, não estão dispostos a sacrificá-la no altar da ideologia e do dogmatismo, como fazem os crentes no Marxismo “puro”.

    Julgo mesmo que é no separar nas águas entre estes dois campos – que aliás consiste na importante linha de fractura ideológica que atravessa o BE – que poderá estar a grande superação do atual clima de ressentimento que divide irredutívelmente as duas principais concepções e narrativas anti-Direita e anti-Neoliberalismo. Que, enquanto não souberem conjungar esforços, não poderão afrontar o seu inimigo REALMENTE principal.

  12. Peço desculpa mas, relendo o meu penúltimo parágrafo, parece-me que não está totalmente claro e, por isso, devo reformulá-lo, para ficar inequívoco:

    «(…) resgatando desse espaço [à esquerda do PS] todos aqueles que, muito embora acreditem que uma certa noção (demasiado idealista) de Igualdade é mais importante do que a Democracia, não estão porém dispostos a sacrificar ESTA no altar da ideologia e do dogmatismo, como fazem os crentes no Marxismo “puro”».

    Espero que não restem dúvidas e creio sinceramente que, nesta vasta concepção, cabem até comentadores como o “rr” que, a seu tempo, me parecem resgatáveis para o campo da unidade. Até porque, não o esqueçamos, todos nunca seremos demais, os tolerantes e não-sectários, e a luta pelos nossos ideiais de Justiça, democráticos e republicanos, é uma luta sem fim…

  13. “Administrativa; justiça; educação; segurança social; saúde; energias alternativas; inovação; etc. etc.” Demasiado parecidas com as que o governo faz

  14. oh eRRo duplo! a única coisa que o governo anterior não fez, foi erradicação da estupidez, o que te permite emparelhar com o governo actual.

  15. o que é que queres saber? a orientação sexual do lambretas e do cáolho? não faço ideia, mas acho que não deves descriminar por aí.

  16. nao , isso tá mais que sabido, estava mesmo a questionar me para que lado eventuais reformas de saude e seguranca social estariam viradas.É que se for como o correia de campos então pode mudar o disco, mas o outro disco só tocará um cover..

  17. quais reformas? deves andar a sniffar gasparína, estes gajos não vão acabar com as borlas na saúde e segurança social virar misericórdia. vais continuar a descontar mas não tens direito a nada. não me digas que o louceiro & o gerómino não te explicaram as consequências da reprovação do pec4. se estás com sódades das manifestações conjuntas de comunas, anaclettes e psd contra o correia de campos posso entubar uns vídeos para curtires uma de nostalgia.

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