É a família, estúpido

A brigada dos imbecis exultou com um facto que nem os deuses podem alterar: a família é a família é a família e volta a ser a família. Quem é que, uma única vez que fosse, não se serviu da família, ou serviu a família, em matéria de favores? Estranho, impiedoso, cruel seria aquele que recusasse ajudar um familiar em Portugal. Afinal, vegetamos numa sociedade pobre, de extremos de poder e estatuto, onde as instituições são disfuncionais, a cultura é provinciana, a cunha vale mais do que o carácter. Os que já concluíram pela culpa de Sócrates, pois, foram rápidos a transportarem-se para uma situação análoga onde se aproveitariam ao máximo das oportunidades. Ter um sobrinho ministro numa área que interfere em negócios milionários de terrenos? Ui, ui, só um acabado taralhouco é que não trataria da vidinha. E quem seria o político tão otário que recusasse 4 milhões? É óbvio que os aceitou, concluem os imbecis explicando como teriam eles feito a coisa. A projecção egóica corre solta, pintam o apetecido bode expiatório com as troca-tintas que guardam em casa.

Ora, as relações familiares distinguem-se de todas as outras pelo facto de serem apriorísticas e necessárias. Ninguém escolhe a família, à excepção dos cônjuges. E a família implica, ou suscita, as mais melindrosas promiscuidades. Não há função onde a família possa ser mais perigosa do que no exercício de cargos políticos. Quão maior a responsabilidade do cargo, maior a carga explosiva potencial. Neste caso, um tio e um primo arrivistas chegam e sobram para salpicarem de nódoas indeléveis o Primeiro-Ministro. Vários serão aqueles que, perante os factos já conhecidos, não precisarão da verdade para nada, pouco importando que Sócrates esteja completamente inocente. Esses irão até ficar indispostos e violentos calhando a investigação confirmar que o suspeito não passa de uma vítima. Dirão que a declaração de inocência é prova da sua culpa. A inocência será vista como a prova que faltava, a prova final. Esta patarata patologia já tem nome: Síndrome Pacheco Pereira. Caracteriza-se por uma alternância de estados eufóricos com estados depressivos sendo, tecnicamente, um distúrbio bipolar de origem ideológica. É o que justifica, por exemplo, um completo apagamento da ofensa de Manuela Ferreira Leite a um jornalista, a uma empresa e ao Governo. Estes são os sintomas de uma funda depressão. Simetricamente, considerar que as autoridades policiais, judiciais e autárquicas que investigaram (ou investigam) os casos da licenciatura e casas de Sócrates, juntamente com os responsáveis académicos e técnicos respectivos, e ainda o próprio, estejam todos a mentir, eis um sintoma de euforia. O entusiasmo com que se desabona a honra de tanta gente, e de tantas instituições, exprime um napoleónico delírio de grandeza.

Seja como for, pelo menos de uma coisa Sócrates não vai conseguir escapar: aquele tio e aquele primo não podem ser demitidos nem despedidos. É ter esperança que voltem a atacar.

18 thoughts on “É a família, estúpido”

  1. e só quem não passou por uma crise, (de krinein certo Valupi?) é que não sabe que encontrará de entre os seus próximos, incluindo família, alguns dos piores inimigos. Lamento se isto parece cruel, mas aprendi com a vida, e pelo que vejo no CM online todos os dias é afinal um lugar comum,

  2. no entanto Valupi é preciso não esquecer que o sistema democrático, PS incluído, não deixou passar o pacote Cravinho anti-corrupção. E porquê? Formalmente porque o crime de enriquecimento ilícito que aí figurava imputava aos detentores de património a necessidade de justificá-lo em face das declarações de rendimentos.

    Ora, para mim nada mais natural que assim fosse, mas não, foi considerado inversão do ónus da prova e seria anti-constitucional. Na prática o sistema não se aguentava, todos os departamentos de urbanismo das câmaras devem ter histórias sem fim, só para dar um exemplo. Enfim…

  3. mas afinal fui ver e portanto com baktron resolve-se:

    «IMBECIL – do Latim imbecillis, “fraco”. O significado original é “sem apoio”, formado a partir do prefixo negativo in- e de bacillus, diminutivo de baculus “bastão, cajado”. Uma explicação literal do nome seria “aquele que não possui um cajado onde se apoiar”. O Latim baculus parece ser aparentado ao grego baktron “bastão, cajado”»

  4. valupi, vais ter alguma dificuldade a adaptares-te ao twitter, não consegues resumir uma ideia a menos de 150 caracteres?

  5. E em África é a familia estendida, mais a aldeia. Uanhenga Xitu (Mendes de Carvalho) escreveu um romance “O Ministro”, onde fala dos desapontamentos que um Ministro vai infligindo à familia, e aos conterrâneos da sua aldeia de nascimento, ao recusar os favores a que todos se achavam no direito por terem um familiar, ou conterrâneo, Ministro.

  6. Continuas a ler o Pacheco Pereira. Balha-te Deus. Esse gajo é o maior bluff português dos últimos 30 anos. Além de absolutamente tendencioso e de ter inclinação para queimador de livros, aquela mente é o vazio absoluto e total. Se lhe tirarem o PC, o Cunhal e a esquerda para dar largas à sua sanha, o gajo chora como um bébé e caga na fralda.

  7. Este “exsocialista” da treta deve ser dos tais que esperavam amancebar uma migalha de poder e foderam-se. Vais ter que penar mais 4 anos, pixote.

  8. só agora é que vi do Ricardo Costa no expresso uma coisa meio venenosa de dia 24. Deve ser o esboço da luta de sucessão dentro do PS. Enfim, as time goes by,

  9. Z, quanto ao pacote Cravinho, a verdade é a de que há questões jurídicas que possibilitam diferente entendimento do que seja lícito. Enfim, todo o direito é uma enorme narrativa, sempre a ser reescrita. Mas algumas soluções foram aceites, outras foram acrescentadas. Mais importante, agora, era saber da actividade das novas instâncias fiscalizadoras.
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    Ibn, embora te custe, tens de continuar a tentar ler textos com mais de 150 caracteres. Daqui a uns anos estarás agradecido por este conselho.
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    formigas, é isso mesmo.
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    Nik, o Pacheco é só a figura mais prolixa, agressiva e tóxica da oposição. Isto, claro, se excluirmos a esquerda imbecil.
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    Exsocialista, larga o vinho.

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