Assunto arrumado, diz o arrumador

As eleições de 4 de outubro são, provavelmente, as mais importantes dos últimos 20 anos, depois de termos sobrevivido a um resgate de violência tão extrema como nunca tínhamos enfrentado. Importa pouco, com franqueza, voltar hoje à discussão do "de quem é a culpa". Esse foi assunto arrumado em 2011. O passado é importante apenas, e não é coisa pouca, como referência de aprendizagem para que os erros não se repitam. Mas aquilo que se vai jogar daqui a menos de uma semana é o futuro, o nosso futuro. Como crescer economicamente e criar emprego, como garantir a sustentabilidade da Segurança Social e as reformas futuras, como assegurar que ninguém que precise de cuidados de saúde ou queira estudar fique para trás, como atestar que quem carece de aceder à justiça não fica à porta de um tribunal. É isto que interessa.


Nuno Saraiva

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O meu foco no Nuno Saraiva não advém do interesse pela sua personalidade, antes de vê-lo como representativo de uma larga fatia da classe jornalística, por um lado, e de constatar a importância que esta figura adquire ao ser editorialista do DN e comentador político em várias órgãos de comunicação social, fazendo o pleno: imprensa escrita, imprensa radiofónica e imprensa televisiva. O que ele transmite reflecte um drama interior, esse esforço para utilizar o seu poder mediático em ordem a influenciar os acontecimentos políticos.

Acredito que este jornalista se reja apenas pelos ditames da sua consciência. É a partir dessa independência percebida, ou imaginada, que questiono a sua honestidade intelectual. Na passagem citada, começamos por uma ideia sem qualquer possibilidade de aferição. Dizer que as eleições de 2015 são as mais importantes dos últimos 20 anos vale menos do que dizer que as eleições de 2011, onde se elegeu um Governo cuja agenda secreta era o empobrecimento furioso e o desmantelamento do Estado social, foram as mais importantes dos últimos não sei quantos anos. Porquê? Porque, sem esse fanatismo permitido pelo logro eleitoralista, a austeridade não teria sido tão destrutiva e a recuperação teria começado mais cedo e com mais força. A mesma lógica vale para as eleições de 2009, pois foi o seu resultado e desfecho que levou a que entrássemos na maior convulsão europeia desde a criação do euro – ficando à mercê de todos os golpes, externos e internos – sem possibilidade de defesa dado que o Governo era minoritário e estava a ser boicotado pela oposição e pelo Presidente da República. Ou seja, caso em 2009 tivéssemos conseguido alcançar um Governo com maioria, provavelmente – muito e muito provavelmente – não teria havido resgate. Assim, o seu ênfase nas eleições de 2015 é falacioso e retórico, estando ao serviço do que vai dizer a seguir.

A seguir, voltamos à sua cassete: que não se fale mais do passado. Quer-se dizer, ele pode falar do passado. Para dizer que já chega. Já chega porque ficou lá para trás, em 2011. Está tão afastado que, maravilha das maravilhas, nem sequer conseguimos identificar culpados. A culpa desapareceu como desaparecem os desgostos de amor, carcomida pelo tempo. Aproveitam-se só algumas lições que o articulista não chega a articular, talvez porque remetam para um fulano preso sem acusação está quase a fazer 1 ano e os seus diabólicos comboios, mais os aeroportos, e as escolas, e os computadores. Erros que este Saraiva não quer que se repitam e que, com sorte, um dia revelará ao público quais foram caso a malta se porte bem. Sem capacidade de disfarce fica o seu pedido para não falarmos do que fez a direita para ir ao pote dando em troca o seu silêncio sobre que ele acha que fez o PS para chegarmos à “bancarrota”. O laranjal alinha neste negócio, como se regista depois de terem visto a bala de prata “Sócrates” ter explodido na cara de Passos no 1º debate com Costa.

Esta conversa do “calem-se acerca das eleições passadas” é equivalente à situação de termos de escolher entre dois cirurgiões para fazer a operação “mais importante dos últimos 20 anos”, seja a nós próprios ou a quem amemos. Entre os candidatos que nos tentam convencer a contratar os seus serviços, aparece um fulano que é conhecido por ter falsificado o seu diploma. Ele diz que se licenciou em Medicina, e que se especializou em cirurgia, mas é sabido que nem o 12º ano conseguiu acabar. Se pedirmos conselhos ao Saraiva dos conselhos eleitorais, e a outros que tais, receberemos como resposta que isso do passado desse senhor não importa nada dado que a operação em causa vai acontecer no futuro e diz respeito ao futuro. Ora, continuará o Saraiva que sabe mesmo o que é que interessa para o povinho, o futuro não tem nada a ver com o passado. Se tivesse, isso seria uma grande confusão; e não estamos em condições de alimentar essas confusões, como é notório.

A única coisa que o PS sabia com certeza absoluta no dia 6 de Junho de 2011 era que as próximas eleições legislativas, ocorressem quando ocorressem, trariam de volta a acusação da “bancarrota” e o odioso pelas medidas do Memorando. Logo, a única estratégia condizente com esse cenário, ainda por cima a nascer de uma necessidade de fazer justiça perante a gravidade da traição ocorrida no chumbo do PEC, seria ir marcando o Governo implacavelmente em tudo o que fosse adesão ideológica e prática à austeridade como castigo e engenharia social. Incrivelmente, este Governo não só deu caudalosos exemplos onde se exibiu revanchista e alemão como tomou medidas que, factualmente, foram a concretização de um plano escondido para transferir riqueza do Estado, dos trabalhadores e dos cidadãos para a oligarquia. O aumento da pobreza e das desigualdades era o resultado intencionalmente procurado. Mas, paradoxalmente, chegamos a 2015 com a esquerda cúmplice da direita a fazer tiro ao PS e com a direita que afundou Portugal encoberta pela comunicação social e sem precisar de sequer ter programa. Resta um PS vítima de si próprio, pois, como Churchill poderia explicar a Costa, não há desafios e ameaças maiores do que a capacidade de uma liderança que esteja disposta a nunca se render.

É isto, Saraiva, que realmente interessa. Pelo menos, a quem se interesse por viver num país onde a pulhice não seja consentida, muito menos premiada.

19 thoughts on “Assunto arrumado, diz o arrumador”

  1. Se Costa perder, será a derrota da cobardia. Será a derrota de um partido que teve vergonha ou medo ou sei lá o quê do seu passado e da sua obra como governantes. Não estou a ver como o povo, por mais distante que ande da política, possa dar crédito a políticos envergonhados com a obra dos seus governantes. Ficarei surpreendida se Costa ganhar, mesmo por poucos, estas eleições. Tristemente, o povo deve estar convencido que vai ter de escolher entre um cobarde e um mentiroso.

  2. O que Valupi aqui diz do saraiva comentador, opinador e editorialista pode dizer-se de todos aqueles que se juntam à mesa das TVs aos sábados das 12,00 à 01,00H para tratar o mundo político pela chacota cretina, pela risada alarve ou paródia exibicionista.
    E a estes sabidões letrados que nem pensam ou falam por provérbios populares como o jerónimo mas pela vulgata opinião falsa travestida de conhecimento e, por esse engano de lustre, logo muito mais sérios e “credíveis” para o pagode, podem juntar-se os vpv, pp, mst, o mano costa, e duma maneira geral o jornalismo subserviente do dono porque “não come liberdade”.

  3. Não conheço Nuno Saraiva, não tenho memória de algo que, dele, tenha lido ou ouvido. Li agora todo o seu artigo em questão, é um apelo ao voto, é esse o seu tema, e se há alguma coisa de importante a apontar-lhe, é ser um apelo ao voto, nada mais.

  4. Eu sempre votei, e apelo a todos que votem, principalmente a todos os que são, ou aparentam ser, de esquerda, da esquerda democrática, não sectária, porque é esta que, na verdade, pode fazer uma política patriótica de esquerda.

  5. Os gregos também estarão todos preocupados com as nossas eleições? Será que o BES e o PCP conseguirão finalmente ultrapassar o PS, perguntarâo ansiosos?

  6. O INE parece que deu ao Costa a força necessária para falar em “Submarinos e BPN”. Ou será que foi o aspirina?

  7. Ó Teodoro

    Não me digas que o Cavaco e o Dias Loureiro são do PS e andaram mascarados de laranjas só para a reinação …

  8. A dedicação absoluta deste blogue ao Sócrates é muito interessante. Case study. Visita diária obrigatória.
    Hoje, as razões apresentadas para diabolizar o jornalistas não frustraram as minhas expectativas. Pegar num apelo ao voto e encontrar-lhe um ataque a Sócrates é de mais alto nível. Funcionar em circuito-fechado ganha todo um novo significado quando se lê uma coisa destas. A noção de obsessão já ficou lá atrás. Isto já é outra coisa. Continuem!

  9. Verdadeiros “case study” de obsessão a Sócrates, encontram-se, sim, mas é nalguma comunicação social, e muito condenáveis, porque, intencionalmente, mentirosos, caluniadores, difamadores.

  10. Ouvi, há pouco, surpreendida e espantada, António Costa confrontar Portas e Passos com as responsabilidades do PSD na roubalheira do BPN e Portas com os submarinos. Faltou ao Costa dizer que o governo do PS fez com o BPN a mesma coisa que a Irlanda, a Inglaterra, a Espanha e tantos outros países fizeram com os seus bancos à beira do colapso.
    No caso do BPN há a caracteristica específica de ter sido o banco dos “laranjas” e seus amigalhaços e se ter transformado num caso de polícia e não de mera falha de supervisão bancária. O laranjal unido ao CDS e apoiado vibrantemente pela esquerda verdadeira do BE e PCP, conseguiu fazer recair todo o odioso deste crime financeiro sobre o Governador do BdP (ex-SG do PS) e sobre o governo de Sócrates, esquecendo, deliberada e reiteradamente os criminosos do caso BPN, que passou a ser, simplesmente, mais um caso do PS e seus governantes. Convenhamos que a aliança entre a extrema direita aliada à extrema esquerda, e com o apoio total da comunicação social, consegue pôr Maomé a dizer maravilhas do toucinho.

  11. Os RATOS sempre gostaram muito de queijo, mas com a pressa de comer tudo, fazem os maiores buracos possíveis e ei-los a fugir…Depois esquecem-se e voltam ao mesmo, repugnantes como sempre.

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