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A figura política que realmente mudou nos últimos tempos, desde o Verão de 2008, não se chama Sócrates nem Ferreira Leite, embora tenha mudado por causa destes. É uma figura que se imagina um predestinado, que alimentou o provinciano mito da infalibilidade e cuja ambição colide com os próprios fundamentos do regime: Cavaco.

A questão do Estatuto dos Açores, que se segue à alteração de liderança no PSD e marca o fim da cooperação estratégica, foi inteiramente criada pelo Presidente da República ao não ter enviado para o Tribunal Constitucional o artigo 114º. Ninguém entendeu o porquê desse absurdo, mas foi esse absurdo que levou à mais absurda declaração presidencial de que há memória em Portugal, em 31 de Julho de 2008. Seguiram-se meses de crescente conflito entre a Presidência e o Governo/PS — com constantes e obscenas intervenções de publicistas a promover cenários catastrofistas apenas salvos por Governos de iniciativa presidencial — culminando com o discurso de Ano Novo onde se fez da campanha negra o racional estratégico para o tandem Cavaco-Manela: falar verdade.


A intervenção de Cavaco no caso PT-TVI aparece em estrito acordo com a entrevista de Ferreira Leite e com a manchete do Expresso neste sábado. O que o Presidente da República afirmou, com a sua dramatização, só tem uma leitura: Sócrates mentiu e Sócrates tinha a intenção de alterar a linha editorial da TVI através da aquisição pela PT. Apenas uma ameaça desse calibre justificaria a sua intervenção, ele próprio o vincou. Ora, independentemente dos actuais enigmas quanto ao grau de conhecimento e eventual aprovação do negócio pelo Governo, há um aspecto da jogada de Cavaco que é muito mais importante para qualquer português que os tenha no sítio (incluindo as senhoras, também com sítios onde os ter). É que se o sugerido plano para entregar a TVI às garras de Sócrates é uma pulhice para consumo de imbecis, já a capacidade de Cavaco para detectar conspirações ainda por concretizar fica gravada no mármore. Isso é uma excelente notícia, pois prova estar no topo da Nação um político bem informado, arguto, com o mais apurado sentido das responsabilidades e com a força política para salvar os interesses de Portugal e da democracia; mesmo contra uma coligação tão poderosa como o Governo português, o PS, a PT, a Prisa e o Governo espanhol. Ou seja, pensemos, quando o Presidente da República protegeu Dias Loureiro durante meses e meses, ao ponto de nem convocar o Conselho de Estado, tal atitude obedeceu aos mesmíssimos critérios de transparência e ética que, por exemplo, estiveram em vigor no BPN e SLN já quando Cavaco lá obtinha lucros bem jeitosos para si e para a sua família. Caso contrário, não só não teria tido qualquer envolvimento pessoal com uma entidade bancária que não respeitasse os seus critérios morais, como até é de admitir que a teria denunciado às autoridades se suspeitasse de violação legal. Como nada disso aconteceu, é também provável que nada de ilícito se tenha passado com o que Dias Loureiro e coleguinhas fizeram, vai na volta. A confiança em Dias Loureiro, apesar do que já era público, e os negócios com a SLN, também apesar do que já era público em 2003, revelam um padrão que não pode diferir dos critérios com que agora julgou Sócrates, Governo e os responsáveis da PT. Igualmente, as decisões de Cavaco quanto a tudo o que se passe na Madeira, incluindo ser humilhado numa visita ou ver a oposição a perder direitos constitucionais no Parlamento regional, entre tantas outras exibições de transparência e ética nos negócios da região, devem ser entendidas à luz da presciência e espírito combativo do Sr. Silva de Belém.

Se os portugueses quiserem este Presidente da República — que se atreve a citar um questionário de jornal feito na Internet para o usar como fundamento de uma decisão política ao arrepio dos interesses de todos os partidos menos do PSD (ou seja, disse que um quiz era uma sondagem) — em cooperação amorosa com uma primeira-ministra que definiu a actual crise mundial como algo que não passa de um abalozinho (afirmação que chegaria para ser obrigada a demitir-se no dia seguinte, caso o seu partido tivesse algum tipo de vergonha), é favor comprarem os bilhetes e apreciarem a actuação deste duo-maravilha a partir de 27 de Setembro.


  1. 1 Publicidade
  2. 2 jv

    Eu nunca me enganei em relação ao sr Presidente Cavaco, apesar de ao contrário dele, que tenho sempre muitas dúvidas e perceber que me engano bastantas vezes.
    O caso dos Estatutos dos Açores, foi tão flagrante que me custa peceber a reacção de tanta e muita boa gente que não soube ou não quis perceber tal evidência, era só ter enviado o tal artigo, assim como ous outros, para o Tribunal Constitucional. Quem quis provocar o confronto?
    O que se passou na Madeira, foi escandaloso, quer ao nível da sua visita que ao nível do golpe de estado efectuado na Assembeia Regional. Simplesmente vergonhosa e cobarde a sua não actuação.
    Em relação a este caso do negócio da tvi, é incrivel a dualidade de critérios de ética em relação a Sócrates e a Dias Loureiro, mesmo pessumpondo-se que os dois estivessem a mentir.
    É triste ter um Presidente da República que nem consegue sequer disfarçar o seu partidarismo.
    Quanto a Manuela Ferreira Leite, gostava que alguém aqui me apontasse uma medida por ela apresentada na sua famosa entrevista, em que realmente, não disse nada .E isto é que é realmente confrangedor para mim, é perceber claramente a alternativa que não temos, caso contrário seria tudo normal, seria a democracia a funcionar.

  3. 3 Kjung

    Só uma nota sobre o Estatuto dos Açores.
    Ao contrário do que normalmente acontece na fiscalização sucessiva da constitucionalidade, ou seja, a que é pedida depois da lei já estar em vigor, e em que normalmente o prazo de decisão do TC é de dois anos, desta vez o Tribunal Constitucional vai decidir à pressão o pedido que lhe foi feito pelo Provedor de Justiça (o famoso Nascimento Rodrigues, que quando o PS apresentava a candidatura do perigoso socialista-marxista Jorge Miranda veio alertar o país aos brados que o PS queria para si os lugares todos do aparelho de Estado). Pois desta vez o TC, aproveitando a prerrogativa de marcação de agenda do seu Presidente, vai decidir o caso dos Açores imediatamente, um verdadeiro record na prática da casa, mas a tempo de a decisão de inconstitucionalidade poder “contar” já para as próximas eleições.
    Como é típico deste PR, ele vai provavelmente ter a lata de procurar tirar dividendos da decisão, mas, na realidade, ela expõe o que era para todos evidente e que está bem salientado no post: que bastava ele ter ido para o TC quando a lei lhe foi enviada para que nem sequer tivesse chegado a existir caso…
    Lição de moral: foi notável e comovente, em todo este caso, o espírito de colaboração social-democrata entre PR, Provedor de Justiça e Presidente do Tribunal Constitucional. E isto é assim quando o PS controla tudo, o que será quando deixar de controlar…

  4. 4 Marco Alberto Alves

    O grande dilema de Cavaco é apenas este: se o Sócrates ganha, fica sem nada na mão para dar aos seus amigos do P. S. D., mas por outro lado, se a Manela ganha, o mais certo é perder ele em 2011!

    A alternativa a este dilema é um tandem radical, tudo ou nada: apostar descaradamente numa vitória do P. S. D. e na re-eleição, correndo porém o risco de… poder PERDER TUDO!!

  5. 5 Val

    jv, exacto. A democracia a funcionar seria essa competição pelas melhores propostas de governo. Mas não, estamos numa guerra suja, onde os mais fracos têm mais força do que os mais fortes.
    __

    Kjung, muito bem visto.
    __

    Marco, de facto, a sua reeleição está muito tremida, mesmo sem a Manela ao seu lado a governar o quintal. O problema é o Alegre, que não é líquido que venha a ser candidato do PS, apesar dos sinais e dos apoiantes. Em qualquer dos casos, o Alegre de 2011 já nada terá a ver com o de 2006. Já se sabe do que a casa gasta para além de qualquer dúvida.

  6. 6 Marco Alberto Alves

    O Alegre já perdeu uma vez com o Cavaco, não creio que vire a eliminatória a seu favor na segunda mão.

    A chave das presidenciais tem duas faces: o candidato do P. S. (penso que só o Ant.º Vitorino tem perfil de vencedor) e a eventualidade de um candidato à Direita de Cavaco Silva.

    Se não houver este candidato, não haverá dispersão de votos à Direita e logo, com vários candidatos prováveis à Esquerda, será difícil bater Cavaco. Excepto se o candidato do P. S. for muito bom e penetrar bem no eleitorado “centrista”. Aí haverá uma segunda volta, que Cavaco dificilmente ganhará.

    Se houver candidato à Direita de Cavaco, a dispersão dos votos nessa área forçará a uma segunda volta. E aí tudo dependerá do candidato mais votado à Esquerda. Se for do tipo Alegre, estamos bem arrumados…

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