A cidade do Luís Arnaut


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Seria possível fazer um mestrado de ciência política e comunicação só com estes 20 minutos de vídeo como matéria de análise e reflexão. Trata-se de um episódio que não interessa a ninguém, no sentido em que entrou imediatamente no eterno esquecimento, mas onde podemos ver exposta em detalhe a essência da política enquanto exercício de mera luta do poder pelo poder, sem qualquer outro critério para além do da aparência de respeito pela Lei. O protagonista é José Luís Arnaut, um dos principais homens do aparelho do PSD no consulado de Durão Barroso, alguém que conhece de ginjeira todas as manhas e todos os podres do laranjal. O que confere notabilidade a esta peça é o registo do desespero cru de um político profissional, o qual entra de cabeça num exercício de pura erística ao arrepio de qualquer laivo de consciencialização ética ou moral.

Arnaut foi para a porqueira do Crespo sabendo duas coisas: (i) que o caso Relvas atinge gravemente Passos Coelho, o Governo e o PSD e (ii) que Relvas não tem defesa possível. É nestas alturas que se entende a preponderância de advogados nas organizações partidárias pois, para além dos partidos terem de elaborar legislação, na maior parte do tempo é necessário manipular o discurso dos adversários, desconstruindo argumentos e reinterpretando factos. Exactamente o que faz um causídico na defesa dos seus clientes, procurando maximizar os seus interesses através das competências e técnicas tribunícias. Não sabemos o que levou Arnaut a querer defender publicamente Relvas mas, uma vez assim decidido, o único caminho teria mesmo de ser esta mixórdia de confrangedoras, insultuosas e miseráveis hipocrisias:

– O caso Relvas não passa de uma novela, no sentido em que está a ser artificialmente alimentado, e não tem qualquer substância.

– O caso Relvas só existe por causa de um conflito no Público entre a Redacção e a Direcção.

– O caso Relvas está a ser alimentado pelos interesses instalados que são ameaçados pela reforma autárquica e também por aqueles que pretendem impedir a privatização da RTP, grupos que querem fragilizar o governante.

– Receber sugestões de nomes para as Secretas vindos de Silva Carvalho, ou de outra pessoa qualquer, é normalíssimo quando se é governante.

– Relvas não fez qualquer pressão nem qualquer ameaça, fazendo prova as suas declarações a respeito ao negá-las. Quem pretender provar o contrário que apresente a gravação da conversa.

– Relvas foi vítima de uma pressão por só lhe terem dado 32 minutos para responder às perguntas do jornal, daí resultando ter ficado indignado e com vontade de telefonar a alguém para desabafar, embora a notícia em causa a ser preparada fosse patética por não passar de fait divers.

– Sempre que se fazem reformas, aparecem ataques destes.

– Com tanto outro assunto para discutir, o País não devia perder um segundo a falar sobre este caso. Em particular, devíamos era estar a falar das PPP’s (pois aí já se pode praticar o tiro ao xuxa).

Talvez a mais sugestiva desculpa que Arnaut apresentou, das várias que disparou de rajada, seja aquela onde ele descreve a relação de Relvas com Leonete Botelho. Diz que eles eram próximos por já terem trabalhado juntos no passado, tendo ficado uma confiança que permitiria o telefonema e o seu conteúdo. Arnaut não gasta uma caloria a tentar explicar como dessa intimidade e estima teria nascido o berbicacho que pode custar a carreira política ao Ministro, apenas está preocupado em legitimar a iniciativa do telefonema e qualquer eventual excesso nele ocorrido. Acontece que a Leonete, para além desse passado com Relvas, é igualmente uma agente política que, através do jornalismo, tem vertido no espaço público leituras da situação que foram invariavelmente contrárias ao PS e favoráveis ao PSD durante a era Sócrates. Esse posicionamento ideológico, portanto, só vem reforçar a credibilidade do seu relato, se alguma credibilidade ainda estivesse a faltar perante o espectáculo de um mentiroso tão desvairado como Relvas. Ora, eis a perguntinha fatal: não teria sido precisamente essa proximidade entre os dois que permitiu ao boca suja o à-vontade para fazer a chantagem da devassa da privacidade? E continuando para bingo: se o fez agora, não o terá já feito no passado com outras pessoas?

Por mais de uma vez se ouve Arnaut dizer que a política “é isto”, esta coisa de se lançarem golpadas, conspirações, ataques contra quem governa, contra quem enfrenta as “forças instaladas”, contra quem apareça como adversário. Ele é enfático na manifestação do seu conhecimento de especialista, explicitando pedagogicamente que, afinal, todos – oposição, “interesses afectados” – estão a fazer o que devem fazer ao apontarem os canhões contra Relvas. Ou seja, Arnaut reconhece, impávido e cândido, que seria exactamente o que ele faria e recomendaria fazer caso estivesse no outro lado da barricada: destruir opositores num vale tudo feroz e interminável – isto é, “fazer política”. Que não atravesse a sua mioleira um só electrão de vergonha pelo retrato desalmado da cidade onde mora ficaria para um doutoramento em antropologia.

16 thoughts on “A cidade do Luís Arnaut”

  1. O que me ocorre dizer sobre este fulano e a sua performance no chiqueiro do Crespo é que Arnô se está a posicionar para suceder ao Relvas, nem mais. Tem o perfil para o lugar (com menos foleirice e burrice do que o Relvas, diga-se), está ligado a todos os círculos e redes do Relvas e é capaz de retomar todos os cordelinhos quando o actual n. 2 se demitir, o que é para os próximos dias.

  2. Morais Sarmento, esse é que era ideal para substituir Relvas. São igualmente broncos e desvairados e conhecem tudo e todos dentro do partido e da sociedade lusa de negócios.

  3. Seja quem fôr será sempre mais um passos perdidos. Disso não tenho dúvida. Para quem é bacalhau basta. É tudo pobre…

  4. Este pais a nivel da qualidade da democracia,está ao nivel da america latina de há uns anos atrás.É confrangedor.A minha esperança é a malta da geração rasca que está no parlamento.Podia citar varios, que já são uma certeza na vida politica nacional.Culpar a privatização da RTP,para ilibar Relvas dos seus tiques ditatoriais,só pode ser obra, de um FDP como Crespo e, que Arnaut como oportunista que é, aproveitou a boleia para cavalgar nessa ideia e na critica aos jornalistas do publico.Esta classe tambem deixa muito a desejar! uma boa parte, já há muito que arreou as calças ao capital.Parabens ao Valupi pelo post.Se não fossem os blogues,Portugal era um pais ainda mais amordaçado

  5. “a grécia é um país inventado; era uma provincia do império otomano”
    omano arnaldo na porqueira do crespo

  6. este gajo tem o cavelo muito penteadinho, mau sinal, pás, gajo que não dá puns, num é homem, carago e este tem cara de que não save o que é um peido a sério. Fogo, como pode ele saver do resto, pás? perdem tempo com este ranhoso?

  7. Estão a desmascarar-se, basta o rapaz fazer uma perninha no futebol, para ter certo de
    que com um pouco de tática e alguma estratégia chega-se lá mesmo! Desde o grito que vinha aí o Drácula nunca mais o ouvi…não passa de um mero bruaco!!!

  8. cum catano, eu prefiro falar com a bizinha de cima, pás, quéla tem mais piada a defender a do rés do chão que larga pontas de cigarro na entrada e o cão mija em tudo o que é canto e dpois diz que num é ela, carago.

  9. agora que se sabe que a chafurdice das “investigações” (termo elegante para devassa ilegal) não incidiu apenas sobre cidadãos em geral, jornalistas em particular, mas também sobre Pinto Balsemão em particularíssimo, a coisa ganha pernas para andar. Aquilo que o Público devia ter feito – apresentar queixa, abrir processo – fá-lo o tio Balsemão que não anda aqui para brincadeiras. Ora anda um ex-espião, concorrente na Ongoing a apanhar informações que o Estado paga?

    Podia-se poupar muito tempo, dinheiro, e asco, caso o Coelho fizesse aquilo que lhe compete:. demitir Relvas, que já se viu que não larga o osso de vontade própria. Mas é isso, também, o problema de Passos: não ter vontade própria; e é preciso muita (para além de vergonha na cara) para cortar o próprio bracinho.

    Este é definitivamente o pior governo que Portugal já teve: pior em competência, em visão, em dignidade, em integridade, em tudo. Este governo é a pior merda no pior contexto que podíamos (podiam)ter eleito.

  10. Depois de António Costa (e outros ilustres xuxas) inocentarem Relvas, hoje foi a vez de Marinho e Pinto afirmar com todas as letras que o ministro Relvas “é uma vítima” de forças tenebrosas. E confirma: não acredito que membro algum deste governo faça coisas dessas (nem a ministra da justiça, acrescento eu). Portanto, meus amigos, para os xuxas e para o bastonário dos advogados, os grandes filhos da puta mentirosos e caluniadores sâo a jornalista e a direcção de redacçâo do Público.
    Estes senhores “juizes” nem se dão conta que inocentando o ministro condenam sumariamente a jornalista e o jornal. E estes mesmos senhores sabem muito bem que há o precedente Rosa Mendes.
    Se alguém os entende, eu não.
    Ontem vi o frente a frente de Assis e Pires de Lima. Pires de Lima nâo só inocentou Relvas como lançou uma montanha de lama sobre Sócrates, perseguidor de jornalistas e manipulador da comunicação social (dos seus inimigos!!!). E frisou bem que enquanto Relvas agiu como simples ministro, Sócrates fez coisas execráveis aos jornalistas enquanto PM!!!
    Esperava de Assis a defesa da honra do seu camarada. Pois bem, este ilustre xuxa deixou, de raspão, uma frase que não disse coisa nenhuma e fê-lo com um ligeiro e descontraído sorriso nos lábios! Ao menos deste eu esperava um resposta indignada e esclarecedora sobres os ataques ignóbeis da comunicaçâo social, que ainda continuam. Nada de nada.
    Depois disto, Valupi, ainda estranhas políticos como Arnaut?
    E ouviste, há pouco, o Marcelo fritar Sócrates no Freeport (ainda!!!)?
    Não é um país de doidos? Não foi uma puta que pariu isto?

  11. pela primeira vez o ps tem uma estratégia correcta para correr com o relvas, só espero que não ceda a pressões (ppp e troika) e vá até ao fim, governo e cavaco de charola à conta das secretas. é ambicioso, mas é possível.

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