Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Há no olhar de Marisa a memória dum tempo entre pedra e água. Nesse tempo tudo o que era essencial à vida (água, pão, azeite, vinho) era arrancado às pedras. Os homens tiravam as pedras da terra para a amanharem e com essas pedras construíam os muros, os redis para o gado, os abrigos dos pastores, as eiras, as cisternas, as pias e os poços rotos. Sem esquecer as presas, muros de contenção de terras onde se plantavam as oliveiras. Depois da pedra, a água. No olhar actual de Marisa passam de novo carros de bois com tonéis cheios de água. Um molho de vides, colocado em cima, evita o desperdício da água nos solavancos do caminho. A água era o bem mais precioso no tempo que o olhar de Marisa recorda. A porta da casa deixava-se sempre no trinco mas a portinhola da cisterna estava sempre fechada a cadeado. Uma enguia no fundo ajudava a matar todos os vermes. E a água sabia sempre bem. Ao lado do escritório de Marisa na cidade existe um restaurante. Nada nesse pão de forno eléctrico recorda à menina-mulher o sabor das «brindeiras» de sábado à tarde no forno da avó. O trigo e o milho eram tratados pelos homens a malhal em lenga-lengas ritmadas na «eira de poço», numa dupla inscrição de tarefas. Depois da ceifa e das descamisadas, completada a ocupação principal, surgem as primeiras chuvas de Setembro e a água, essa primeira água, não vai ainda para a cisterna. Só a segunda água entrará no reservatório. No centro comercial um pianista repete músicas de hotel, mas Marisa ouve na verdade uma canção antiga: «Fui lavar ao Rio Lima/Cheguei lá sem o sabão/Lavei a roupa com rosas/Ficou-me o cheiro na mão». O olhar de Marisa resiste ao desgaste da cidade porque tem dentro de si a memória e a força da pedra e da água.


  1. 1 luis eme

    E como é lindo o olhar de Marisa…

  2. 2 anónima

    Gostei muito de ler este texto. Dá-se o caso de eu ter fugido de casa atrás de vacas e de me esconder nos montes quando era bem pequena e passava largos tempos em casa da minha avó . Penso que é impossível pessoas com antecedentes rurais , mas com um pé na cidade , sobrevalorizarem o moderno e deixarem de pensar que uma casa de granito , árvores e animais são as melhores coisas do mundo.

  3. 3 Daniel de Sá

    E agora, José?… Se eu tivesse um brindeiro brindava com ele em honra desse olhar e de quem no-lo contou. Mas um pãozinho desses, normalmente do resto da massa do alguidar, já não se faz. Ou faz-se tão pouco que a gente nem dá por isso.
    Brindo-te com o nó na garganta com que a saudade tentou assomar-me aos olhos.

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