Ruínas e arbustos

O plano de austeridade de José Sócrates foi feito para responder às mudanças do mundo na semana de 7 de Maio, para defender a Europa e para suster os ataques sistémicos ao euro que se iniciaram na Grécia e ameaçavam varrer o continente. Quem ouviu ontem o primeiro-ministro ficou mais sábio e feliz por viver num país assim, sem os problemas “gravíssimos” de países como a Irlanda, que sabe responder aos desafios do mundo com generosidade e abnegação. Se o país vai pagar mais impostos, não é por causa da ruína das contas públicas. Na sua visão pessoalíssima, José Sócrates disse-nos que a crise só é nossa apenas porque é da Europa.

MANUEL CARVALHO quarta-feira, 19 Maio 2010, às 00h00

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Manuel Carvalho é jornalista. Este naco de prosa apresenta-se como uma notícia. Mas uma notícia com cheirinho. O autor, jornalista a representar a imprensa, acrescenta três ideias espertalhonas: (i) a de que as contas públicas estão em ruínas nos idos de Maio de 2010, (ii) a de que a crise não é europeia porra nenhuma e (iii) a de que Sócrates é mentiroso.

Que diria este Manuel se por alguma manigância do destino tivesse de se apresentar perante uma plateia e declarar se continuava a assinar por baixo o servicinho despachado há três anos? O que serve para ele servirá para dezenas e dezenas de outros jornalistas. As suas peças competiam entre si para serem o mais venenosas que fosse possível, de modo a criar na opinião pública um estado de confusão, desconfiança e saturação que conduziria ao sacrifício colectivo da vítima. A vítima era Sócrates, claro, a vítima era o PS, pois sim, mas a vítima era também Portugal – como hoje todos sabemos, e como alguns logo o souberam.

O Governo em 2010 não tinha qualquer possibilidade de escapar à mudança de política que a Alemanha impôs e que os parceiros europeus legitimaram. Teria de se adaptar e foi isso que fez da forma mais inteligente para a economia nacional que as circunstâncias permitiam. Porém, reconhecer a evidência inerente ao contexto não equivale a proclamar a santidade desse Executivo. A governação é uma das actividades mais complexas a que os bípedes implumes se podem dedicar, dificuldade multiplicada pela novidade e dimensão das crises internacionais actuais, pelo que os erros e deficiências são inevitáveis. Só que, e seja à direita ou à esquerda, não aparece ninguém a dizer qual teria sido a sua alternativa governativa em 2010, ou 2009, ou 2008, ou logo em 2005. O exercício é evitado para se evitar cair no ridículo. E poder-se continuar a difamar a bel-prazer.

Não é preciso ser ou ter sido apoiante do PS, muito menos gostar ou ter gostado de Sócrates, para reconhecer que a situação internacional a partir de 2009 exigia um compromisso nacional com vista à protecção do bem comum. Esse compromisso não anularia as diferenças de projecto e ideologia na disputa eleitoral, pois a democracia é a invariável prioridade do contrato social. A razão pela qual não se obteve um acordo patriótico não se encontra olhando para os conteúdos das campanhas negras que, finalmente, obtiveram sucesso em Junho de 2011. Para encontrar a origem do nosso falhanço vergonhoso basta puxar pela mão por detrás do arbusto.

9 thoughts on “Ruínas e arbustos”

  1. manuel carvalho, é um escriva ao serviço dos social fascistas do pcp.li todos os seus comentarios no publico e ouvi -os na rtp um nojo. no tempo do salazarismos havia alguns manueis caralhos que eram pagos à linha para dizer coisas agradaveis sobre o patronato no regime salazarista.que os pariu.por terem levado o pais a esta situaçao.(ainda ontem alguem de direita disse que o problema não é a divida publica mas a externa) deviam ajoelhar-se na frente de 300 mil “peregrinos” mas à vez!

  2. Exacissimamente, Valupi. A democracia deixou crescer no seu seio e elevou aos píncaros o monstro Cavaquista mais quem o pariu.

  3. Já o disse anteriormente, mas nunca é demais repetir: a sua Aspirina B é das poucas coisas que diariamente me regulariza o fluxo gástrico. :-)
    Bom fim de semana,

    Jorge

  4. Valupi, sou mais seu leitor (assíduo) do que comentador.
    Porém hoje não resisti ao seu excelente “post”, com especial ênfase para o último parágrafo , em cuja linha vai também um “post” que ontem deixei no Bolgue deste seu admirador e aprendiz de escriba. Parabéns.

  5. Basta puxar pela mão que sai detrás do arbusto, pois é, mas o Tó-Tó Seguro não se atreve a tanto.

    E com isso torna-se ele também co-responsável por esta situação aberrante, indigna e difícilmente suportável, com decência e bons modos, durante muito mais horas.

  6. Ao mesmo tempo que Manuel Carvalho escrevia tal prosa (que mostra que não percebia coisíssima nenhuma do que se estava a passar com a nossa dívida) aparecia este artigo na Forbes:

    http://www.forbes.com/2010/04/30/sovereign-debt-subprime-smart-money-markets-greece-lenzner-streettalk.html

    Como se pode ler, o jornalismo “popular” de Wall Street — ou, como lhes chama Paul Craig Roberts, as “presstitutes” de Wall Street — estava, então, em modo de campanha suja contra a periferia da Europa, que os interesses americanos viam como a parte vulnerável da Zona Euro. É aí que aparece a “investigação” falsificada de Reinhart e Rogoff, com o objectivo de denegrir a situação financeira dos países do Sul (que, então, chamavam de PIGS). Veja-se como o artigo da Forbes cita o “trabalho” desses dois autores. A campanha suja teve enorme sucesso, pois criou expectativas que os mercados financeiros não podiam ignorar; daí que os investidores institucionais estavam a largar a nossa denegrida dívida. A Europa do Norte deixou-se (ou melhor, teve enorme prazer em) ir na conversa, por preconceitos ideológicos e raciais e interesses mesquinhos. Só que agora tem em mãos um problema bastante sério, pois ou deixa cair a actual arquitectura do euro, ou caso decida defendê-la efectivamente isso vai-lhe custar agora muito mais do que em 2010.

    O artigo da Forbes, em 2010, oferecia como profecia (para que se realizasse a si própria!) o que hoje acontece aos nosso títulos de dívida pública: são “lixo”, isto é, são detidos por vulture funds e outros interesses especulativos. Isso explica as enormes oscilações dos juros a que assistimos por via de uma comédia política que ainda nem foi dada por concluida.

    Interessante também foi ver Passos Coelho falar de murros no estômago, no momento em que a nossa dívida caiu oficialmente no lixo. Isso também mostra que nunca percebeu nada! Mesmo nada, do mal extremo que fizera ao país.

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