O único amigo de Merkel em Portugal

Nunca se tentou no Mundo um projecto de união política tão improvável como aquele que está em curso na Europa desde 1957. Nem a formação dos Estados Unidos da América, muito menos a criação da ONU, têm paralelo quanto às dificuldades organizacionais inerentes à construção da União Europeia. Isso faz da Europa o local da experiência mais vanguardista do modelo político que começou na Fenícia há perto de 3 000 anos e se consagrou historicamente na Grécia nos séculos VI e V a.C. como δημοκρατία.

A par desta evidência, temos assistido a um desprezível cortejo de simplismos intelectuais, e fragilidades psíquicas, face à actual crise financeira na UE. A repetição de que ela se vai agravando apenas por causa de uma birra alemã de uma alemã, ou o disparatar catastrófico que já vê tanques gregos, irlandeses e portugueses a atravessarem o Danúbio, são exemplos de dissonância cognitiva porque não é possível supor que as figuras que assim se expõem ao ridículo ignorem as reais razões que estão na base da actual situação política europeia e os previsíveis modos em que ela se resolverá.

Por estes singelos factos, aplaudo as palavras de Merkel:

No decurso de uma conferência de imprensa conjunta com o Presidente russo, Dmitri Medvedev, em Hannover, Merkel assegurou que «nem amanhã [quarta-feira] nem quinta-feira» vai ser possível dar um «passo espectacular» para resolver a questão do endividamento grego, por se tratar de uma questão «muito complexa».

Merkel, que avisara ainda no domingo que só se deslocaria a Bruxelas com uma real possibilidade de acordo em cima da mesa quanto ao segundo pacote financeiro que a zona euro está a desenhar para a Grécia, deixou claro que “são precisas medidas adicionais” para responder à crise das dívidas soberanas, mas “não um grande passo que solucione todos os problemas”.

Esta concordância faz de mim o único amigo que a senhora tem neste momento em Portugal.

13 thoughts on “O único amigo de Merkel em Portugal”

  1. mas quem disse que seriam portugueses, gregos e irlandeses a cruzar o Danúbio? a sua amiga (é feio um copy tratar uma mulher pelo apelido, coisa que não existe em português) Angela Merkl é que bem move o ódio contra os pretos e judeus do sul.

  2. tanques gregos, irlandeses e portugueses a atravessarem o Danúbio

    Bela imagem :’D

    No resto, tens razão, mas não havendo um rumo bem definido a partir de Quinta, temo bem que o que os políticos não decidirem, os mercados decidem por eles. O que não quer dizer que a construção europeia não continue, simplesmente a partir dos escombros do Euro.

  3. olha que a Salambô era lixada, pá! Quanto ao resto, cuidado Valupi: uma polarização da Europa em torno da Alemanha só pode gerar grandes ressonâncias com o passado, século XX e não só. Não acho nada avisado. Já não me importo que sejam os nossos principais compradores de lítio e ouro desde que bem bem negociados. Em alemão os substantivos levam maiúscula e aí está o timbre da questão.

  4. eu não sei , mas acho que o que está emergindo é alemanhaκρατία. e sim , bolas , convém ser amigo da frau .
    e ya , a demo não funcemina em micro e vai funceminar em macro ? ele há cada ingénuo.

  5. A Senhora Merkel, que para bem dela não precisará de amigos, está por estes tempos que correm transformada numa espécie de moínho-de-vento satânico, contra o qual espadeiram grotescamente os donquixotezinhos da nossa políticazinha de trazer por casa. O radioso Portugal dos Pecaninos no seu máximo esplendor (que rima razoávelmente bem com estertor e também com estupor).

  6. Nisto estou em desacordo, Val, mas não diabolizo nem embirro com Angela Merkel, nem nunca ouvi/li nada sobre tanques gregos, etc a atravessar o Danúbio. Em todo o caso, tudo isto leva tempo, haverá passos atrás, claro. O que sei é que nada do que se passou no último ano e meio é surpreendente, o dinheiro dos resgastes continua a ser pago, discordo do método.

  7. Sofia C, fazes muito bem em discordar. O disparate dos tanques é uma referência às declarações do Paulo Rangel, o qual afirmou que esta crise das dívidas poderia levar ao fim da UE e, consequentemente, a novos conflitos armados entre países europeus.

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