O cachecol da Chéquia

Scolari fez muito bem a Portugal, trazendo uma arrogância que era benéfica para elevar os níveis de testosterona necessários ao esforço físico e ambição ganhadora. Mas também fez muito mal, e nesse mal todo o pior foi esta expressão que não se cansou de repetir:

Meio a zero chega.

Eis o apanágio da vitória pela vitória, não importando como, não se responsabilizando pelo espectáculo. Parece a exaltação das mais altas virtudes guerreiras, a garantia da entrega total em campo e da concentração máxima no objectivo supremo, mas não passa da expressão do erotismo dos fracos – o qual não suporta perder, assim permanecendo em perda e acabando perdido. Os fins a justificarem os meios, a fonte de todas as imoralidades desde que há consciência moral neste planeta subsumida numa singela frase do devoto da Nossa Senhora de Caravaggio.

Esta ideologia falaciosamente utilitarista, retoricamente pragmática, leva depois os oráculos da indústria futeboleira nacionalista a festejarem as incidências que sugiram debilidades dos adversários. Se fulano leva um amarelo que o obrigue a ficar de fora no próximo jogo ou se beltrano se lesiona, se o relvado prejudica o estilo deles ou favorece o nosso, soltam-se alívios e júbilos. Fica no ar a ideia de que para estes valentes quanto maior for a ajuda do destino melhor, num horizonte de realização onde o ideal seria nem jogar por o avião da selecção estrangeira se ter despenhado nas montanhas e tal levar à nossa vitória pela falta de comparência da equipa contrária.

O futebol é importante não por ser futebol mas por lhe darmos importância. Damos todos, gostemos ou não, porque a sua presença é ubíqua na sociedade e na comunidade; isto é, o futebol recolhe atenção mediática máxima, por um lado, e o futebol é uma moeda de câmbio interpessoal que permite estabelecer relações identitárias com indivíduos estranhos às nossas redes sociais de proximidade. Sendo assim, e assim é, termos visto a Selecção a comportar-se de acordo com a anedota do Juca Chaves a respeito dos escuteiros – “Você sabe o que são os escuteiros? Os escuteiros são um grupo de meninos vestidos de imbecil, comandados por um imbecil vestido de menino.” – afecta-nos culturalmente. A recusa em falar com a imprensa porque dois maduros tinham dito uns disparates é coisa de putos mimados e a boca do cachecol da Chéquia é de carroceiro depois de virar um garrafão de tinto.

Sim, daqui a um bocadinho podemos dar por nós a ver o Paulo Bento como o herói que derrotou a armada espanhola e levou o povo para uma catarse histérica. Há precisamente 50% de probabilidades de ser assim, nem mais e nem menos. Mas se não for, se arrumarmos as malas, irei ter contigo ao aeroporto, Paulinho, de cachecol da Chéquia ao pescoço, para te aplaudir e aclamar. É que o futebol não passa de mais uma metáfora do mistério que nos une no essencial: ninguém acaba derrotado quando venceu o medo de perder.

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