Disparates de Outono

Conta-se que, na terra mais ocidental da Europa, um dia foram ter com o primeiro-ministro e disseram ― Um jornal, outrora independente, publicou a suspeita de haver escutas em Belém a mando do Governo. A fonte é da Casa Civil, mas anónima. Que tem a dizer? O primeiro-ministro pediu uns minutos e foi consultar a sua rede de assessores, milhares espalhados em cada canto e recanto dessa terra. Perguntou-lhes pelo presidente, pelo que dizia, se confirmava ou infirmava a notícia. Mas nenhum dos assessores conseguiu encontrar algo mais sólido do que o silêncio. Então, o primeiro-ministro voltou e respondeu ― Essa notícia seria da maior gravidade, inaudita gravidade, se fosse séria. Sabemos que não é séria porque o presidente nada disse a seu respeito. Para nós, desculpem, o presidente ainda tem mais importância do que um jornal, mesmo esse que já foi independente. Assim, seria inconcebível que o nosso presidente utilizasse semelhante estratagema para denunciar a suposta situação, tal como seria inconcebível que o silêncio do presidente significasse outra coisa que não fosse ser essa notícia um dos típicos disparates de Verão. Disse. Virou costas. Deu um passo. Mas começou a pensar que a sua declaração, apesar de bem intencionada, podia ser mal interpretada. Tanta referência ao presidente, e para explicar o óbvio, até podia ser lido como sobranceria, pois tal matéria não era sequer digna de atenção. Afinal, esse era o próprio exemplo do presidente, do qual não tinha saído nem um murmúrio. Virou-se rápido e clamou ― Esperem. Olhem para esta caneta. A caneta emitia um clarão de luz que tinha poderes especiais. Ele carregou na tampa e a luz varreu a memória dos presentes. Então, ordenou ― Esqueçam o que vos disse antes. A resposta que devem publicar é só esta: “Disparates de Verão”.


As pessoas, naturalmente, ficaram muito preocupadas com a notícia. E todos esperavam que o presidente, posto que habitava em Belém, viesse esclarecer o assunto. Só que ele continuou mudo e quedo. Foi aí que algumas mentes mais ansiosas não aguentaram o nervoso e culparam o primeiro-ministro. Ele era culpado por ter dito disparates de Verão. Essas pessoas, porém, não sabiam o que devia ter sido dito em alternativa. Isso não as impedia de saber que o primeiro-ministro tinha errado. Algumas, como a Constança Cunha e Sá, sintetizavam na perfeição a posição dos ranhosos: a notícia devia ter consequências, as suspeitas eram fundadas, a culpa era do primeiro-ministro, havendo ou não escutas. Outros, como Paulo Mota Pinto, vice-presidente do PSD, enchiam piscinas de ranho com as suas teses conspirativas ao contrário. Para esta figura, que se distingue por ter um discurso onde quatro em cada duas palavras não estão em condições de salubridade para consumo público, o caso das escutas tinha origem numa afirmação que deputados do PS tinham feito. Eles tinham ousado afirmar que assessores do presidente estavam a colaborar na feitura do programa do PSD. Paulo prossegue o raciocínio do seguinte modo: ora, para os deputados socialistas estarem a afirmar tal, ou era verdade ou era mentira, e é mentira, logo, a única forma de eles estarem a mentir seria através de escutas em Belém, e foi por isso que apareceu a notícia. Esta explicação foi dada na semana passada, tendo como testemunhas o Crespo, Maria de Belém e aqui o pilas. O mesmo Paulo ainda foi capaz de protestar contra os pedidos de esclarecimento feitos ao presidente, o qual não tinha nada que estar sujeito a esses requisitos de responsabilidade e mero bom-senso, repetindo que a única coisa realmente escandalosa no episódio era aquilo dos disparates de Verão.

Dia 27 de Setembro já não estaremos no Verão ― é o que as escutas ao silêncio do presidente revelam com crescente clareza. Há cada vez mais razões, graves razões, para evitar os disparates de Outono.

One thought on “Disparates de Outono”

  1. a) em 27 de Setembro

    far-se-à a primeira volta das proximas presidenciais…

    b) Cavacu estará em jogo efectivo

    atraves da sua marionete MFL

    mas também

    pela via de todos os esqueletos cavaquistas

    que MFL teve que aceitar nas listas do PSD

    c) “Ele” tem consciencia disso

    e agita-se de jeep

    em frenesim agita pavores,

    sussurra esgares tecnico-economicos,

    teses cabalisticas

    d) sobretudo VETA

    veta tudo

    antes de entrar em presidencia de gestão…

    e) o veto é a arma dos fortes

    e “ele” quer aparentar isso…

    f) …em 27 de Setembro,

    pelas “oito da noite” in puonto…

    estaremos todos atentos às tentações de um novo caudilho

    g) às oito da noite em puonto,

    em 27 do 9, …

    abraço

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