Desclicar

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Assim como se têm figuras públicas que causam espontânea alergia (no meu caso, o Jorge Gabriel, a Maria Elisa, o Carvalhas, os manos Portas, etc.), também existem certas palavras que me despertam ódios de odiação. No momento, a que encima a escala é este verbo: clicar. Como onomatopeia genérica, clique, já existia no Português muito antes do rato se ter tornado no melhor amigo dos informáticos. Como chavão inevitável na maioria da comunicação interactiva, clicar remete para o verbo inglês to click, significando neste contexto a representação da sonoridade resultante da pressão na patilha do comando do cursor. De modo que andamos constantemente a ser solicitados para clicar aqui e ali. Ambiente mental que considero pífio, um pequeno nada sintomático do pequeno nada a que alguns se reduzem.

A minha quixotesca reacção é legítima e recomenda-se. Porque a anuência face ao parasita inglês é perfídia linguística e lexical evitável. É um baixar de calças típico dos preguiçosos, dos desleixados, dos vendidos. E não só, nem especialmente, por causa da intrusão inglesa, antes por nos reduzir a um dedo mecanizado. Em vez de clicar usemos entrar, ver, saber, andar, saltar, abrir, o que nos der na real e interactiva gana. E já que se fala de verbos, ide curtir o instrumento que os irmãos brasileiros disponibilizam para gozo lusíada. É uma geringonça que não se corta perante nenhuma forma verbal, e a todas serve o cardápio completo das conjugações. É de hilariar.

7 thoughts on “Desclicar”

  1. Também tenho os meus ódios lexicais de estimação, mas uso clicar, e frequentemente. Não nego um certo incómodo, mas não existe em Português uma expressão equivalente. Porque clicar não é entrar, ver, saber, andar, saltar, abrir. Clicar é uma acção que repousa sobre o uso de um instrumento preciso. Clicar significa “pressione e largue”, o que soa muito mal em português. É demasiado longo e explicativo. Penso que a certa altura temos de aceitar estrangeirismos, se não somos capazes de criar. Os portugueses são pouco criativos, ao contrário dos brasileiros e dos africanos que inventam que se fartam, e que inventam bem, na minha opinião. Há estruturas contra-natura, mas, sabes isso tão bem como eu, a língua está em mudança permanente, e o que é contra-natura também não sobrevive. Só sobrevive o útil e o fácil. Portanto, clicar vai ficar, para teu desgosto. Digo-te outra que já entrou, para meu desgosto (até fecho os olhos para não ver o que escrevo): tar. Tás bom? Tava fixe. Acredita. Isto já está.
    Aproveito para sugerir um neologismo. Que verbo usas quando queres designar a acção de tirar a carica de uma garrafa de cerveja ou a patilha de uma lata da mesma bebida? Abrir? Não serve! Pouco expressivo. Sugiro descaricar a Superbock e despatilhar a Sagres.

  2. eu gosto de “clicar”. e nem tem que ser so’ com o rato. como diz a isabela, nao ha’ substituto rigoroso, o que faz sentido pelo lado onomatopeico. tu mesmo o dizes, ja’ existia “clique” em portugues; entao porque tem que ser olhado como estrangeirismo? sugestao: inventa outro, melhor.

  3. Valupi,

    «Clicar» veio para ficar. Desejo-te, pois, muitos decénios de desgosto. As duas comentadoras já te terão convencido da triste perspectiva.

    De resto, o verbo é adaptadíssimo à nossa fonética. «Clicaste, pá?» «Cliquei. Eu clico sempre».

    Pessoalmente, gosto da expressividade daquilo que exprime o entendimento imediato entre duas pessoas: «Fez clique».

    P.S. Detesto, sim, «checar». Que talvez alguém ache catita. Mas, lá está, quem desconvence esses milhões de utentes brasileiros!?

  4. Partilhamos uma alergia comum por algumas figuras públicas…

    Já quanto a clicar, sou gamado, em potência e em acto.

    E por falar em ‘figuras públicas’, eu não aguento que os nossos impostos sirvam para pagar uma colecção meio xungosa, que foi feita de fuga aos impostos, e outros roubos por esse joe que quero que vaia se fudê.

  5. O verbo «clicar», resultante de uma verbalização do substantivo «clique», continua a ser um léxico de origem onomotopaica.

    E é nesse aspecto que partilho parte do teu lamento, primito. O que é verdadeiramente maravilhoso nas línguas é que, como disse Saussure, nem sequer as palavras de motivação onomotopaica (isto é: que procuram foneticamente reproduzir um determinado som) são comuns nas diversas línguas.

    Um galo canta da mesma forma em Portugal ou em França. Contudo, dizemos «Cocorocó» e eles «Cocorico». Olha o ladrar de um cão, por exemplo. «Au-au», «Arf Arf», «Wof wof».

    É por isso natural, mas de lamentar, que nas palavras de origem onomotopaicas nos limitemos haja uma tão flagrante coincidência.

  6. Isabela, gostei muito do que explicaste. Obviamente, tens razão. Só que o meu protesto não ignora evidências; pelo contrário, investe contra elas, apesar de saber que para a maioria dos convivas se trata de pacíficos moinhos de vento.

    No entanto, repito: ‘clicar’ pode ser substituído. No caso de ser comando (o de se pressionar um botão físico para que se active uma ligação no ecrã – e o caso que me importa), lembro que o desfecho da acção é sempre passível de endosso. Que acontece quando se muda de página web ou se activa um qualquer ficheiro (de som, vídeo ou texto, etc.)? O que seja, é sempre traduzível num outro verbo genérico e económico: abrir, ver, puxar, saber, tocar, ligar – qualquer um que remeta para o que estiver em causa como experiência. Vantagem? Várias que sintetizo numa: maior envolvimento e plasticidade da linguagem verbal – logo, melhor experiência de comunicação.

    Engraçado é como saltas para a polaridade oposta na sugestão de neologismos. Afinal, o ‘abrir’ resolve na perfeição os comandos relativos às duas acções. Se bem intuo, acima racionalizaste o teu uso instituído, automático, e em baixo ligas-te à “poiesis” da língua…
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    susana, não é o pseudo-estrangeirismo que me incomoda, antes a preguiça mental, o chavão. E, acima de tudo, o pífio de nos estarem a pedir para “fazer um estalido”…

    Quanto à tua sugestão, já a acolhi: uso a língua portuguesa, na sua glória expressiva.
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    Fernando, não vejo mal nenhum em que se use o verbo. Nem me passaria pela cabeça querer retirar à Língua um qualquer dos seus termos. Mas, pegando no teu exemplo, o “fez clique [entre duas pessoas]” já tem semântica distinta daquilo a que aludo. É só quanto ao contexto interactivo que reajo.

    De resto, é como dizes e se observa: clicar veio para ficar. Por óbvias razões. Para o meu palato linguístico, é uma pobreza.
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    py, fazes tu muito bem em ser gamado. Prova que és generoso.
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    Primo, se bem te leio, não tens problema nenhum com os cliques. E fazes tu muito bem.

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