Coisas que não se ouvem na Linha de Cascais por volta das 9.30 da manhã — I

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– 40 anos…
– Hã?…
– 1968. Foi há 40 anos…
– Ah…
– Revolta nas universidades, Primavera de Praga, Maio de 68…
– Olha, já estamos na Parede.
– Que tempo, que esperança!
– Pois, pois…
– Sabias que o Tariq Ali diz que 68 só acabou em 74, com a Revolução dos Cravos?
– Esse Tariq… pfff…
– E depois a volta que aquilo deu, os russos, o De Gaulle, Nixon…
– É. É fodido.
– Podíamos ter mudado o mundo… Podíamos, pá…
– Podes é passar-me A Bola.

6 thoughts on “Coisas que não se ouvem na Linha de Cascais por volta das 9.30 da manhã — I”

  1. (Valupi, um dia vai comer ao Deck nas arcadas do Estoril e pergunta-lhes sobre o sistema de comunicações alemão que estava instalado na cave; deve ter sido magnífico esse tempo para quem gosta de aventuras, o Estoril era muito mais hot que Casablanca, entre o hotél Palácio e o Casino as mata-haris que deve ter havido por aí. Puf, tenho de regressar à assembleia, vão falar os mindinhos, té manhã)

  2. Que tempos interessantes devem ter sido esses, quando tínhamos navios nazis de manhã e aliados à tarde a abastecer no porto de Lisboa e Ian Flemming perdia mais do que contava no Casino do Estoril, o que logo o inspira a escrever sobre outro casino, o Royale, a primeira das aventuras do famoso agente do MI6, aliás o Estoril estava cheio deles, mas não só…

  3. Pois, pois, Valupi, foi a evaporação do Maio de 68 que me fez nunca mais acreditar nas revoluções juvenis. Quando chega a sua vez, fazem igual àquilo contra que ergueram as barricadas…

  4. Conheci-o bem mais tarde, mas ouvia falar dele há muito. Tinha eu 5 anos quando uma bala, talvez não tão perdida assim, lhe perfurou um pulmão. Foi em Coimbra. Maio de 69. Esquina do Gil Vicente.
    Era o meu Che Guevara privado e sempre que passava naquele sítio lembrava-me das histórias ouvidas. Primeiro em sussurros, depois cheias de cravos e a seguir temperadas com uns whiskies com gelo e música de fundo. Ele era um homem lindo e a quase tragédia deixava-se adivinhar num estar quase etéreo. A bala perdida não o perdeu, mas tinha-lhe suavizado os discursos e agudizado os traços. As revoluções já não estavam nas ruas e, quando eu já tinha tamanho para as perceber, eram romanceadas n’ O Botequim e no Procópio. O som das balas tinha ficado definitivamente lá atrás e já só se ouvia o som do gelo. Encontrei-o uma noite, pouco antes do fim, n’A Lontra. Estava sozinho e já nem o whiskey tinha gelo. Não, os pés não eram de barro, eram de Homem. Morreu há uns anos. De cancro. No mesmo pulmão por onde a bala tinha entrado e saído.
    Não fez a tal revolução mas fez, também, um pouco de mim. E eu estou a fazer, também, um pouco das minhas filhas.

  5. Pois claro, o Estoril (e a Lisboa) dos espiões da Grande Guerra. E há tão pouco material de ficção a respeito. Jóias à espera de talhe.
    __

    Daniel, é isso. Há sempre que desconfiar de qualquer revolução…
    __

    Ernesta, belo testemunho. Muito obrigado.

  6. Valupão, deixo-te uma aventura se quiseres pegar e levar tu que eu estou bazarinho…

    No forte de Sto António do Estoril desagua a ribeira de Bicesse, linda ribeirinha com aparelho romano, e foi no socalco da foz que o ditador se estatelou da cátedra.

    aquilo é a modos que das meninas de Odivelas! Anda aqui coisa

    vou ao convento de Odivelas um dia destes antes de bazar porque não resisto a cheirar

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