Cineterapia


Good Bye Lenin!_Wolfgang Becker

Apesar do Verão, apesar de Julho, apesar da lógica que leva a considerar uma excelente ideia projectar filmes ao ar livre, a noite de 14 de Julho quis imitar o clima de Berlim algures no Outono. Depois de ter passado por lá armado em valente, só com uma camisola pintarola neste corpinho de Adónis, desatei a correr até casa para me equipar com camisolão, blusão da vela e gorro de montanha. Ao voltar, espalhados pelo relvado, vi casais e grupos debaixo de mantas e cobertores. E ainda não tinham chegado as rajadas de vento mais fortes.

Na Quinta das Conchas venta bem. Mas até há poucos anos, 2005, havia a protecção de uma densa mancha de arvoredo a partir da inclinação. Este foi um espaço selvagem durante toda a minha infância e adolescência. Era o território dos índios da Musgueira. E nós, os betinhos dos prédios, não ousávamos ultrapassar o vasto relvado pantanoso onde nem futebol se conseguia jogar em condições. Rugby sim, e correr também, mas havia sempre a ameaça dos musgas que utilizavam a quinta como caminho de fuga quando roubavam alguém nas ruas próximas. Sabiam-se numa zona não policiada e dominavam aquela pequena-grande selva. O espaço foi completamente requalificado pela Câmara Municipal de Lisboa e oferece agora condições soberbas – tanto em instalações, desenho de trajectos e segurança – para a sua frequência por crianças, idosos, famílias. É uma jóia de bem-estar.

Foi aqui, em 2008, que alguém tomou a feliz decisão de começar a passar filmes à borla: CineConchas. A iniciativa vai no quarto ano consecutivo e regista crescente popularidade. O entusiasmo, carinho e profissionalismo da equipa organizadora pode e deve ser desfrutado através das suas próprias palavras. São testemunhos inspiradores, que permitem ver estes eventos a partir do esforço e cuidado de quem os concebe e produz. O que encontramos no bondoso website do CineConchas revela um cunho de pessoal compromisso com vista ao sucesso da acção que fica como exemplo perfeito do potencial da participação cívica e do poder autárquico.

E o filme? É mais um daqueles, ainda raros, que nos sabem falar daquilo que a Europa tem de melhor: a liberdade. É por aí, por esse ideal conquistado com sangue ao longo de séculos de uma História comum, que começa a união europeia. É por isso que temos orgulho em sermos europeus.

10 thoughts on “Cineterapia”

  1. que se lixe o filme e o corpo de Adónis: eu adorei foi a tua história em corpo michelin e até te vi, porque gosto de fazer histórias de histórias, com uma mantinha polar bem fúcsia.:-)

  2. Não, todos os anos digo que vou e depois esqueço-me, tenho péssima memória para essas coisas. Este ano queria ir ver A rede social, que não vi, mas não vou estar cá neste fim-de-semana. Fica para o ano, suponho.
    Reconheci imediatamente o “espaço selvagem” da nossa infância pelos vistos comum, território índio realmente. Deles, e das famosas manas, que concerteza também te recordas. Pensar que esteve para ser atravessado por uma via rápida…

  3. Não faço a menor ideia de quem sejam essa manas, mas estou disponível, e com interesse não pequeno, para conhecer as razões da sua fama.

  4. Bom, se não as conheces nem ouviste falar, ou estamos em espaços temporais diferentes ou estavas bastante acima de mim no nível de bétice (S. João de Brito?). As manas eram duas loiras vistosas da Musgueira que combinaram o seu gosto pelos passeios na Quinta das conchas com uma preferência pelos soldados do quartel que existia em frente, com resultados previsíveis na sua, digamos, reputação. Toda a gente, sobretudo entre a população imberbe escolar, as conhecia. Mas eram de fugir. ;)

  5. Sim, andei no S. João de Brito, mas a razão principal para não conhecer esse duo reside no facto de não morar perto da Quinta o suficiente para fazer ela parte do meu quotidiano, só de visitas ocasionais, embora frequentes no tempo longo.

  6. As minhas também não eram frequentes, era território arriscado, e absolutamente proibido a partir do fim da tarde. E os jogos de bola eram no jardim em frente a casa, sempre cheio de miúdos da praceta. Hoje, é um deserto.

  7. «Adeus, Lenine» é um Filme soberbo. Tanto me falam desse Parque das Conchas, que terei de ir um dia conhecer essa maravilha. Deve ser das poucas coisas que os meus dois filhos já conhecem, com 5 e 2 anos (através dos passeios dos seus Infantários), e o pai ainda não…

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