Na procura de uma qualquer racionalidade, ou intencionalidade substantiva, nas decisões de Trump 2º, não é possível a quem estiver fora do círculo relacional mais próximo saber se ele decide por capricho ou como marioneta de terceiros. Como neste caso da Venezuela, qual poderá ser o seu interesse pessoal? Podemos oscilar entre a aparente megalomania criminosa e os milhares de milhões de dólares de lucro rapace para empresas e pessoas americanas caso se cumpra o propósito de abarbatar o petróleo. Donde, sendo impossível discernir a lógica causal, resulta desinteressante prosseguir essa via de investigação. Historiadores no futuro desenvolverão as suas teses a partir dos documentos e testemunhos recolhidos. O que tem real interesse é a reflexão sobre a evolução da democracia nos EUA. Trump foi reeleito não apesar de ser um criminoso condenado, depois de uma longa vida de abusos éticos, indecências e deboche, mas precisamente por assumir ser esse ogre infame, sórdido, ignóbil. O eleitorado deu-lhe a vitória no colégio eleitoral e no voto popular. Donde, um democrata tem de aceitar que foi a democracia que tornou possível colocar no poder o inimigo da mesma. E esta característica das democracias não é um erro – antes, e paradoxalmente, consiste na sua maior virtude. Hitler não provou a fraqueza ou disfuncionalidade das democracias, apenas a capacidade para as perverter e aniquilar.
A democracia é o melhor dos regimes porque na sua essência é ingénua e optimista, esperançosa. Os seus inimigos não sabem o que estão a perder, os miseráveis.
e na europa qual foi a evolução de democracia que fez com que quase nenhum lider tenha criticado a inescrutável lógica das prácticas bucaneiras do irmão grande, aliado eterno?
essa é que era uma reflexão potente, se calhar. porque vai-se a ver e para cada bully há sempre uma quantidade de cúmplices activos e passivos que lhe permitem manter a aparência de legitimidade no bullying. tu por exemplo, já tinhas escrito alguma coisa acerca do que acontecia na venezuela?
Para aí em agosto de 2024 pus aqui o link das atas eleitorais da Venezuela, onde sem qualquer duvida está explanada a fraude que renovou uma ditadura apoiada pelas ditaduras da China, da Russia, do Irão… as “democracias” Espanha (de Zapatero – não sei se acaba bem, é capaz de andar a dormir mal – e Sanches), Brasil… entre outros.
Na altura, se bem me lembro, foi-me apontado que estava a meter-me onde não era chamado. Em simultâneo, a socialista Marta Temido defendia os resultados das eleições na Venezuela e, hoje, lança esta pérola: “autêntica pirataria” na Venezuela e Gronelândia, pede firmeza à UE para evitar que “amanhã seja nos Açores”. Admirável, o que terá esta “democrata”(baratucha) a dizer sobre tibetanos, uigures e outros ignorados do direito internacional.
Entretanto, o direito internacional, que é uma maluca que vai com todos para a cama, passou a sofrer de amor, com saudades do tempo em que em silêncio ignorava os 8.000.000 de venezuelanos que fugiam do seu país.
P.S. Nas manifestações de maluquinhos a favor de Maduro, que vão acontecendo no mundo ocidental, não se vê 1 – venezuelano – 1! A América vive um momento de refundação e dificuldade (a Europa também, mas é mais intrinsecamente madura, embora de rastos pelo papel dos seus lideres), mas daí a ir a caminho de uma ditadura, tenham juízo.
a marta temido foi uma das maiores surpresas que tive , achava eu que era uma tolinha , mas não é nada. e sim , a pirataria judaica no caribe e por aí abaixo tem séculos , roubar é com eles .
«A democracia é o melhor dos regimes porque na sua essência é ingénua e optimista, esperançosa.»
Fantasias dum choninhas xuxa. Nada há de ingénuo na partidocracia a que chama ‘democracia’ – um mero mecanismo de rotação de tachos, emissão de cheques em branco e controlo da populaça, para que esta tenha a ilusão da escolha e não se revolte contra os mamões e donos do regime.
Além do partido que se sentará no pote, nada é decidido pelo voto: nenhuma política, nada de objectivo, nada de concreto. E até essa escolha é limitada ao Centrão podre que manterá tudo na mesma, ou agora ao chunga Chega que talvez consiga ser ainda pior. Se por acidente ou milagre se elegesse um governo de esquerda, a UE, a canalha americana e os ‘mercados’ logo nos tratavam da saúde.
Cada partido ou político promete o que lhe dá na gana; e uma vez no poleiro faz também o que lhe dá na gana, pois em ambos os casos não há qualquer validação ou responsabilização efectiva. Dizem e fazem o que querem, a única possível responsabilidade é ‘política’, i.e. porra nenhuma: apenas se piram para outro tacho, geralmente melhor, ou no público (como o Bosta) ou no privado (como tantos).
E se isto é assim em todas as ‘democracias’ ocidentais, até nas escandinavas, é-o duplamente nos EUA – a pseudo-democracia mais grotesca e venal de todas, no país mais ganancioso, criminoso e terrorista de todos. O Trampa não é uma excepção, um ‘glitch’ do sistema americano: é a sua consequência lógica, tal como o chunga Ventura é o resultado óbvio de cinquenta anos de partidocracia podre.
«A América vive um momento de refundação e dificuldade»
A sério, Miguel? Refundação e dificuldade? Que lindos eufemismos, que linda dança à volta de mais uma cabal demonstração de agressão imperialista, de completo desprezo por qualquer ‘direito internacional’, e da mais nua ganância por recursos, riqueza e mama sem fim.
Ai e a China, ai e a Rússia, ai e o Irão, atira o inevitável whataboutismo dos carneiros dos dois lados – e a Coreia do Norte, não se esqueça da Coreia do Norte! – sempre atentos aos crimes do lado oposto, jamais aos do seu. Que dirá se fizerem o mesmo na Gronelândia?
Há-de encontrar uma boa razão, certamente; ou então encolherá os ombros, como os xuxas cá da casa que não gostam do Trampa, mas, de cérebro bem lavado por décadas de propaganda, colonização cultural e carneirismo acrítico, também lambem o cu à canalha americana.
Trump foi eleito porque o eleitorado americano estava farto de wokismos e intervencionismos mundo fora, tocados pelos neocons, o grupo de pessoas mais perigoso do planeta. A primeira parte está a cumprir. Na segunda, cedeu, mentiu e traiu a democracia. O eleitorado não dorme.
oh miguel, mas aí é que esteve o erro pá! é que não era aqui que devias ter entregue as actas e assim, era na comissão eleitoral venezuelana e segundo consta nunca lá puseram os pés nem apresentaram nada, o que é bastante suspeito quanto à veracidade do que afirmavam.
entretanto, espero que estejas muito aziado pelo facto de esta intervenção militar de mudança de regime que tanto desejaste ter mantido precisamente o regime que saiu dessas eleições que disputas.
“um democrata tem de aceitar que foi a democracia que tornou possível colocar no poder o inimigo da mesma”
Não sei até que ponto concordo. Mais do que a democracia, o que tornou possível a re-eleição de Trump – e a eleição de outros perigosos palhaços bastante comparáveis – foi antes o desinteresse pela democracia. Ora quem não exerce um poder que lhe é dado, seja por cansaço, inapetência ou desinteresse, não pode ser apresentado como um adepto ou como um apoiante desse poder, menos ainda como a sua incarnação ou como o sinal de que esse poder está vivo. A meu ver, a questão está aí, no desinteresse e na descrença nas virtudes da democracia para resolver os problemas da comunidade, na perda de confiança nas possibilidades de a exercer realmente, para construir, e não para destruir. A mesma constatação pode ser feita em relação ao direito internacional. Pelos vistos, vai ser necessário as pessoas sofrerem na carne até se voltarem a consciencializar de que essas pequenas minudências, pelas quais lutaram umas décadas atrás, até têm a sua importância. Isto não está a ir para melhor…
Boas
ei ó joão, não é por uma vez um país não cumprir as regras e não sofrer sanções que a lei internacional ficou esvaziada, pá. quer dizer, isso é como estares a afirmar que porque não se apanhou um assassino, a lei que criminaliza o assassinato não tem valor, meu
karma police,
Como em relação à democracia, não digo que o direito internacional não existe, mas que as pessoas deixaram de considerar que ele é importante e de estar dispostas a exigir o seu cumprimento, e não digo todas as pessoas, mas um numero cada vez maior de pessoas. Para além disso, a intervenção do EUA não é um exemplo isolado, longe disso, confiram-se as intervenções recentes de Israel em Gaza, da Russia na Ucrânia, etc.
Addenda: de resto, no caso da intervenção americana, não foi apenas o direito internacional a ser espezinhado, foi também o direito interno americano, nomeadamente o direito constitucional…
boas
A sério Filipe! Ao contrario de si, eu acredito na necessidade de alguma refundação e ultrapassagem de dificuldades do mundo ocidental, que continua a ser aquele em que me parece estar uma certa reserva de base dos valores que melhor podem fazer viver em sociedade. A haver blocos de poder (que me parecem difíceis ou impossíveis de erradicar, que seja o ocidental o dominante – é que, pelo menos, nos permite estar aqui a cagar postas de pescada).
Você vai mais pela China, a Rússia, o Irão e, pelos vistos, a Coreia do Norte. Força. Eu se fosse a si, ia lá ver primeiro antes de me entregar, não vá o teclado morder-lhe.
Quanto ao “direito internacional” está-se tudo borrifando para ele conforme conveniência, você incluído.
Então ó lides: “… era na comissão eleitoral venezuelana… “? Desculpe, eu distrai-me e esqueci-me que era válida essa possibilidade legal que teria feito toda a diferença, realmente.
Agora na próxima lide de manifestação pro-maduro perca lá 5 ou 10 minutos a procurar 1 venezuelano, desconfio que nem assim percebe.
«Você vai mais pela China, a Rússia, o Irão e, pelos vistos, a Coreia do Norte.»
É uma das diferenças entre nós, Miguel: não ‘vou’ por nenhum deles. Nem por qualquer partido, ou líder, ou outra trampa qualquer. Nem sequer pelo Ocidente, pelo menos não o seu.
A China é uma ditadura explorada por capitalistas, a Rússia uma ditadura de gangsters, o Irão uma ditadura religiosa, a Coreia do Norte uma ditadura monárquica. Todas têm algo em comum: uma pequena minoria a mamar na maioria. E é isso que também têm em comum com o seu Ocidente.
Poucos a mandar e a mamar em muitos. É esta a história do mundo, é este o grande problema do mundo. Tudo o que é demasiado grande tem de cair. O poder e a riqueza devem ser limitados. Ontem já era tarde. Quem não vê isto, ou se opõe a isto, é parte do problema. E deve cair também.
O maior obstáculo à mudança, a mundo mais igual e justo e a uma verdadeira democracia não é sequer a Rússia ou a China; é a sua cara canalha americana. A nação mais gananciosa, hipócrita, violenta, terrorista e parasita do planeta. O primeiro passo é boicotar o dólar. Ontem já era tarde.
P.S. Outro exemplo, Miguel: “US will be exempt from global tax deal targeting profits of large multinationals”
https://theguardian.com/business/2026/jan/06/us-exemption-oecd-global-tax-deal-multinational-companies
É mais que tempo de o mundo se unir contra este país-esgoto, esta chaga do planeta.
“Desculpe, eu distrai-me e esqueci-me que era válida essa possibilidade legal que teria feito toda a diferença, realmente.”
pois, os democratas nunca consideram as possibilidades democráticas, é bem sabido. quanto a não existirem venezuelanos nas manifestações de apoio ao regime de maduro, só se os milhares que vemos na venezuela forem todos emigrantes, pá!
o que não vejo é apoiantes da corina em lado nenhum. quer dizer, até o trump diz que ela não tem o respeito dos venezuelanos, imagino que não saibas mais do que ele, ou sabes? mostra aí o que sabes
O que eu sei é que você considera a “comissão eleitoral venezuelana” uma entidade democrática e chega-me.
Não se desse o caso de Valupi ter omitido a violação do Direito Internacional na invasão da Venezuela pelos EUA, cá estaria eu a bater palmas a este seu texto: pelo menos, não vinha com o estafado blá, blá, blá do ditador Maduro…, que apenas serve para branquear o crime cometido por Trump.
Acontece que a consistência dos seus valores Democrático e Humanistas, como no caso do genocídio em Gaza, revela-se nos seus específicos silêncios, complementados pelas prosas da inenarrável senhora Penélope!
Miguel Elias, concordo muito com o seu comentário das 15:17.
Vamos lá a saber:
Se os EUA intervirem militarmente na Gronelândia, será que isso constitui motivo suficiente para a Dinamarca invocar o artigo 5 dos estatutos da NATO (essa tremenda organização defensiva que ocasionalmente desenvolve fortes sentimentos de empatia para com certos e determinados povos em stress humanitário – mas só as terças, quintas e sábados) para que toda a NATO defenda um seu membro de uma agressão militar a sua soberania territorial?
Valupi, ajuda-me pah!
Lowlander,
A 1a ministra da Dinamarca ja o deixou bem claro: uma agressão por parte dos EUA seria o fim do tratado do Atlântico Norte, e seria logico que os outros Estados contratantes tirassem as mesmas conclusões (logico, mas não garantido, infelizmente). O problema é que Trump se esta a cagar para o direito internacional, como para o direito em geral, e mesmo para a simples coerência.
Boas
somos aliados deles logo na primeira vez em que violam a lei internacional, porra pá!
e a dinamarca deve ser o país charneira do mundo livre, porque quando a 1ª ministra fala, ui, a ordem nternacional treme.
miguel,
o que eu sei é que israel é uma democracia para si, e isso também é mais do que suficiente.
Exatamente. Estamos esclarecidos quanto às nossas democracias. Se me permite a apropriação, na minha as eleições são sagradas.