Lágrimas de crocodilo argentino

Numa entrevista dada no domingo passado, Maradona, cada vez mais decadente, chorou lágrimas de crocodilo pelos jogadores de futebol africanos que, vítimas de supostas máfias, são “levados para a Europa para serem nacionalizados” e depois acabam a representar as selecções nacionais de França, Bélgica e Inglaterra – logo por acaso, três equipas que chegaram às meias-finais do Mundial, enquanto a Argentina ficou pelo caminho. Compreende-se a dor de cotovelo de Maradona, dado que a Argentina foi eliminada pela França, uma selecção europeia com uma maioria de jogadores de origem africana.

Meditando sobre isto, de repente dei-me conta que nunca vi nenhum negro ou mulato com a camisola da Albiceleste. Fui verificar e, de facto, em toda a América só a selecção de futebol da Argentina é 100% branca e sempre assim foi – excepto, parece, nos anos 70, quando tinha um guarda-redes suplente de origem africana.

Este chico-esperto do Maradona, que venceu a Inglaterra no Mundial de 1986 com um golo de cabeça marcado com a mão, deveria talvez explicar-nos por que razão a selecção argentina não tem nem nunca teve jogadores de origem africana. E, já agora, confessar-nos por que razão a população da Argentina, que no século XVIII chegou a contar 30-40% de negros, só tem hoje menos de meio por cento, mais exactamente, 0,37%. As razões não são bonitas, têm a ver com carne negra para canhão. Alguns falam mesmo de genocídio deliberado, por sinal cometido já após a libertação dos escravos. Portanto, mais valia que o Maradona calasse a trombeta e aprendesse a saber perder.

8 thoughts on “Lágrimas de crocodilo argentino”

  1. Deixem lá o marado do Maradona.
    Então e no Brasil não se passou nada neste fim de semana ?
    Hoje até há carta de deputados portugueses para o STJ do Brasil.
    Porreiro pá.
    Agora já só falta fazer alguma coisa para colocar a Justiça portuguesa na ordem.

  2. a argentina não usa escravos negros na sua seleção . há problema? a espanha praticamente tb ñ usa , isso de usar negros é para países ainda esclavagistas como portugal .

  3. resumo feito por um chileno : es decir, se burlan de su color de piel y su procedencia pero los hacen esclavos para que la puerca bandera de ellos quede en lo más alto a costillas de los otros.

  4. Maradona e Yazalde são mistos de indios.
    Já são tão poucos indios e ninguém sabe se emigraram ou ou que fizeram com eles.

    No Brasil os brasileiros sabem que foram os portugueses que lhe mataram os indios todos.

    Ficaram só uns tantos para os brasileiros se entreterem a liquidá-los aos poucos.

    Mas como nem uns dançam o samba, nem os outros dançam o tango…!

  5. É importante conhecer o passado para podermos compreender o presente, tanto cá, como lá!
    É curioso esse desaparecimento dos negros na Argentina no século XIX. O mesmo não se pode dizer do Brasil ou de outros países da América Latina onde os negros têm uma larga representatividade nas sociedades em que vivem.
    Curioso, também, é o facto dos governos de Lula da Silva terem tirado muitos negros da pobreza e miséria onde sempre viveram. A classe média com aspirações à classe alta é que não gostou dessa ascensão social, ou seja, da mistura. A velha classe média, empedernida e invejosa, não perdoa Lula da Silva e querem vê-lo na cadeia, para sempre.

  6. Silvia,

    Tanto quanto sei, o desaparecimento dos africanos negros, embora a sua presença em grande numero seja atestada nos séculos XVI a XVIII, é também uma caracteristica de Portugal continental, onde não subsistem nenhuns vestigios da tal população negra, salvo em raras zonas do pais (vale do Sado por exemplo). Também não sei explicar, mas as analises genéticas que conheço (que ja têm uns anos) apontam claramente neste sentido.

    Ja em relação ao Brasil, e também que eu saiba, o facto da importante população negra/india/mestiça ter uma representação proxima do zero na administração e nos lugares de chefia, é uma realidade conhecida e devidamente criticada. Lusotropicalismo ? Deixem-me rir…

    Boas

  7. O Luso-tropicalismo existiu e foi o principal parceiro e braço direito do colonialismo português.

    Tanto no Brasil como na África e na Índia.

    Sem caboverdeanos, angolanos e indianos, e brasileiros, não havia desde chefes de posto a cipaios, desde funcionários camarários a soldadesca, metropolitanos suficientes para “preencher” tanto espaço.

    Na metrópole também há mais mestiçagem do que se vê à vista desarmada, há muita gente a pensar-se branco, mas isso é só dos dentes.

    Que se veja bem ao espelho e analise as bochechas, o nariz, após uma semana de praia no Algarve.

    E se pretos puros vemos poucos, mesmo na ribeira do Sado, é porque para semear arroz vinham quase só homens Balantas e raras mulheres.

  8. “Na metrópole também há mais mestiçagem do que se vê à vista desarmada, há muita gente a pensar-se branco, mas isso é só dos dentes.”

    Assim também pensava eu, mas pelos vistos não é bem assim. A minha fonte é um artigo publicado no catalago da exposição sobre os negros em Portugal organizada em 1999 pela Comissão dos descobrimentos (http://www.worldcat.org/title/negros-em-portugal-secs-xv-a-xix-catalogo-de-exposicao-mosteiro-dos-jeronimos-23-de-setembro-de-1999-a-24-de-janeiro-de-2000/oclc/491300498), que explica que na população portuguesa actual (à data do artigo) não ha quase nenhuns indicadores de miscigenação com populações oriundas da Africa negra. Não conheço outros estudos. Possivelmente existem. Se alguém souber, por favor dê referências.

    Quanto às causas, é de facto possivel dever-se à ausência de mulheres negras no territorio metropolitano. Seja como fôr, o caso português, a confirmar-se o que diz o artigo do catalogo, conforta claramente a tese de Finley que descreve a “escravatura” como um fenomeno de massa, associado à segregação sistematica de uma população nitidamente tratada como uma espécie animal diferente, completamente incapaz de integrar a sociedade na qual trabalha. Esta tese permite identificar mais claramente o trabalho escravo, diferenciando-o das outra figuras de menorização juridica tradicionalmente associadas a certo tipo de trabalho doméstico (os fâmulos, criados e outras figuras do mesmo estilo).

    Boas

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