Vinte Linhas 700

Artur Quaresma e Sócrates – entre o pó e a posteridade

Horas depois de ter sabido da morte (civil) de Artur Quaresma, soube do falecimento de Sócrates, jogador brasileiro que não foi feliz em 1986 tal como já não tinha sido em 1982. Nunca vi jogar o Quaresma no Belenenses e na selecção nacional mas li muito e ouvi ao vivo muitas histórias de amigos «azuis»: Raúl Santos, Décio de Freitas, Faro Cal, Carlos Esteves, Cristóvão Canto e Castro. Campeão nacional em 1946, Quaresma foi um jogador marcante nos «azuis» do Restelo e na «equipa de todos nós» quando havia ainda poucos jogos entre selecções. Foi colega de homens como Peyroteo e Espírito Santo. Em 1938 (30 de Janeiro) nas Salésias, num Portugal-Espanha, houve três jogadores (Quaresma, José Simões e Mariano Amaro) que se recusaram a fazer a saudação fascista. A revista Stadium retocou a foto mas a PIDE foi às Salésias e deteve Simões e Amaro, escapando Quaresma por uma unha negra.

Há um pormenor a ligar estes dois nomes (Quaresma e Sócrates) e as suas duas memórias: os dois coexistem nas páginas do meu livro «Pedro Barbosa, Jesus Correia, Vítor Damas e outros retratos» (edição Padrões Culturais). Quaresma está no poema da página 35 que celebra a vitória dos «azuis» por 2-1 em Elvas com golos de Quaresma e Rafael. N página 45 o poema «Mundial 82» recorda os melhores jogadores do Torneio: «Schachner, Maradona, Trevor Francis, Boniek, Platini, Rummenigge, Zico, Jordan, Sócrates, Falcão, Tigana e Éder além de Paolo Rossi – o homem dos golos decisivos, inesperados e impossíveis».

Quando Carlos Serafim fracturou uma perna muita gente em Belém esperava que o malogrado jogador fosse um novo Artur Quaresma. O Futebol oscila sempre entre o pó do vento e a posteridade vagarosa. Quando o trunfo é morte nós nada podemos fazer; só assistir.

4 thoughts on “Vinte Linhas 700”

  1. oh parolo! quantos exemplares é que vendeste e quem é que pagou a edição desse best seller ou foi distibuído às folhas pelos parabrisas nas parques de estacionamento dos jogos páginas 35 e 45. essa porra parecem diálogos do alzheimer com o creutzfeldt–jakob.

  2. Nao conhecia esta faceta destes 3 resistentes…
    emociona-me q assim tenha sido…
    Socrates
    alem de medico e jogador virtuoso que foi
    foi tb um resistente da ditadura militar
    Obrigado JCF por nos trazeres estes grande exemplos de civismo, patriotismo
    abraço

  3. Estava a ver que o poeta não incluía o Rossi na lista dos melhores do Mundial de 1982. Quanto a mim foi o melhor jogador desse campeonato.

    Artur Quaresma foi meu treinador nos Principiantes do Belenenses (já lá vão tantos anos) num tempo em que se começava a jogar futebol em competições oficiais aos 15 anos.

    Nunca o vi jogar, e, passados tantos anos, recordo um homem calmo e com uma grande paciência para nos aturar.

    E, com a sua experiência, incentivou-me e ensinou-me muita coisa.

    Ainda bem que evocou a sua memória.

    Que repouse em paz!

  4. Amigos Aires e Carlos Serra – Obrigado pela leitura e pelo comentário. De facto Paolo Rossi foi o melhor e por isso foi campeão do Mundo dando carradas de euforia ao Presidente Sandro Pertini na tribuna de honra.

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