«Dicionário excêntrico» de Amadeu Ferreira d´ Almeida
Publicado em 1961 como «Antologia do espírito», integra 4374 citações de 1072 autores e pode ser lida a partir de 23 verbetes. Estes ou outros, à escolha livre.
Açúcar – Um convidado, ao tomar o chá, pede açúcar à dona da casa. Se ela é irlandesa, entrega o açucareiro. Se é inglesa, pergunta: «Uma pedra ou duas?». Se é holandesa, diz: «Mexeu bem? O açúcar está no fundo!»
Banqueiro – Aquele que empresta o dinheiro dos outros e guarda os juros para si.
Casamento – Há muitas mulheres que no dia seguinte ao casamento ficam viúvas do marido que tinham imaginado.
Descanso – Deus criou o Universo e descansou; depois criou a mulher e desde então nem o homem nem o Universo puderam descansar.
Enganar – Se alguém me enganar uma vez, Deus o amaldiçoe; se me enganar duas, Deus o amaldiçoe e a mim também; mas se me enganar três, Deus me amaldiçoe somente.
Fazer – Uma mãe leva vinte anos em fazer do filho um homem e outra mulher faz dele um parvo em vinte minutos.
Guerra – As guerras durarão enquanto os homens forem bastante néscios para aplaudir aqueles que os conduzem à morte.
História literária – É a grande morgue onde todos procuram os mortos que amam ou de que são parentes.
Intelectuais – Os intelectuais não deviam casar-se porque não lhes dará prazer e, além disso, é melhor que não se reproduzam.
Judeu – Um homem que com uma pedra mata dois pássaros e ainda quer a pedra.
Kanguru – Único animal que duas vezes transporta o filho: primeiro no ventre, depois numa bolsa exterior.
Língua – Vittorio de Sica: É indispensável inglês para os contratos, francês para brindar com champanhe às raparigas bonitas e o italiano quando me corto a fazer a barba!
Mulher – As mulheres foram feitas para serem amadas, não para serem compreendidas.
Noivado – A noiva escolhe primeiro a madrinha, depois o enxoval, depois a igreja, depois um advogado, depois um detective…
Ouvir – Os homens foram feitos mais para ouvir do que para falar porque a natureza deu-lhe duas orelhas mas uma só boca.
Poesia – A poesia não tem presente: ou é esperança ou saudade.
Queijo – Um jantar sem queijo é como uma mulher bonita sem cabelo.
Razoável – Não peçam nunca a uma mulher para ser razoável. Ela toma isso como um insulto.
Sofrer – Quem sofre com serenidade sofre pela metade; quem muito se desespera, duplica a sua dor.
Tempo – O tempo e a maré não esperam por ninguém – mas o tempo pára sempre para uma mulher de trinta anos.
Unha – As mulheres têm duas armas que podem usar à perfeição: as línguas e as unhas.
Vestido – As mulheres não se vestem para agradar aos homens – mas sim para arreliar as mulheres.
Whisky – É uma bebida que nos alegra o coração quando a vida já o destroçou.
Xilofone – Instrumento em que os músicos aprendem a bater bifes.
Y – Se no alfabeto francês não houvesse o Y o engenheiro Eiffel não teria podido revirá-lo para fazer uma torre de ferro.
Zangar-se – É pedirmos a nós mesmos vingança pelos erros dos outros.
(Selecção de José Carmo Francisco)
