Tanta, mas tanta vergonha do presidente da minha Ordem

Passa-se por muito para chegar a advogado, no meu tempo era tanto o tempo entregue em diligências inúteis, ou úteis para nos levar à loucura, mas lá se fazia, e um dia o exame final, o exame oral, depois de seis (ou oito?) escritos, depois de sessenta assinaturas de presença em actos processuais, depois da demonstração de dez intervenções (se nos chamassem, coisa insana) em tribunal, depois das oficiosas, depois de três relatórios trimestrais, depois de um relatório anual, tudo ao mesmo tempo que as aulas dadas por incompetentes, três vezes por semana, mesmo que fosse feita a prova de que não nos eram úteis as aulas, porque tínhamos um estágio à séria, num escritório onde nos ensinavam, não senhora, e eu por acaso ainda dava aulas, mas sempre se dirá que a escolha foi minha, pois foi, mas não fosse naquele ano e não haveria mais concursos por anos, tudo isto sem pontos finais, estagiar no escritório, na Ordem, correr atrás de vários tribunais, escrever 60 relatórios, mais os outros, fazer três exames de cada vez, passar a tudo, ter muito bom na oral e dizer a tremer dos joelhos, com um esgotamento, engolindo quatro pacotes de açúcar: sou advogada?
Sou, livra.
Aceitei a exigência do sistema universitário e aceitei por dois anos a exigência louca da Ordem.
Não aceito a falta de exigência do meu Bastonário, que dispara em todas as direcções, sabendo que atirando em todos, nalgum há de acertar, logo alguma audiência terá.
Não aceito o seu corporativismo, não aceito que se substitua às Universidades questionando nos exames, não o que é necessário para se ser advogado, mas o que as Universidades na sua autonomia já certificaram.
Não aceito que diga o que quer invocando a liberdade de expressão, esquecendo os seus deveres deontológicos.
Não aceito que venha à televisão dar conta do seu entusiasmo em cada caso mediático que é por ele mais mediatizado.
É o que está a fazer com Duarte Lima, atrevendo-se a ir à televisão indignar-se com o silêncio do cidadão, não porque o dito não tenha direito a ele, tem, mas porque é uma “figura pública” e o povo angustiado quer vê-lo, ouvi-lo a dar “explicações”.
Não aceito que este homem que por desgraça é meu Bastonário faça com Duarte Lima o que faz com todos os casos mediáticos: desloca o centro da questão para a sua pessoa. E vai dando conta do caso a cada dia: hoje anuncia o que vai fazer quando lhe chegar uma acusação: vai abrir um processo disciplinar, mas “não pretende afastar Lima”, diz o jornal.
Amanhã há mais para quem aguentar mais.

45 thoughts on “Tanta, mas tanta vergonha do presidente da minha Ordem”

  1. Cara Dr.ª Isabel Moreira

    Há dois aspectos a acrescentar, se me permite: o primeiro é a evolução do custo do estágio (hoje é também por razões económicas que fica vedado o acesso à profissão de advogado); o segundo é a falta de resposta dos poderes públicos aos aspectos do “memorando da troika” que apontam para a eliminação das restrições inadmissíveis ao acesso às profissões reguladas.

    Fica a exortação ao Grupo Parlamentar do PS, através desta sua ilustre representante, para que legisle nesse sentido. Os jovens portugueses não vão aguentar muito mais.

    Da mesma maneira que tive um enorme prazer em ser seu aluno, também teria em poder fazer o meu estágio sem o nível de sofrimento que aqui nos relatou.

    Cordiais cumprimentos,
    AMC

  2. Concretamente, porque é que diz que Marinho Pinto violou os seus deveres deontológicos?
    -Porque o bastonário é “mediático”?
    -Porque respondeu às perguntas que lhe fizeram?
    -Porque interrogaram o bastonário da Ordem dos Advogados sobre o facto de um advogado “mediático”, credenciado pela dita Ordem, ter sido acusado pela justiça brasileira de ter matado uma cliente alegadamente para se apropriar de bens desviados por ela de uma herança para uma conta pessoal do dito advogado?

    Então a Ordem não tem como atribuição (e como dever) zelar pela função social, dignidade e prestígio da profissão de advogado e, muito particularmente, exercer, em exclusivo, jurisdição disciplinar sobre os advogados? Então o bastonário não tem o dever de representar a Ordem perante o público e perante o Estado?

    Lendo o Estatuto da Ordem dos Advogados (que, pelas suas atribuições, não é um mero sindicato ou grupo de pressão), deparamo-nos com numerosos artigos que têm directa relevância no caso Duarte Lima, nomeadamente tudo o que respeita a deontologia profissional, incluindo os deveres do advogado para com os seus clientes. É, por isso, muito natural que se façam perguntas à Ordem sobre este caso “mediático” e igualmente natural que a Ordem lhes responda devidamente – tendo, inclusive, em consideração a mediaticidade do caso.

    Marinho Pinto respondeu ao jornalista, informando sobre as atribuições da instituição a que preside e traçando bem as fronteiras da actuação da mesma no presente momento. Tinha que responder, pois lhe perguntaram se Duarte Lima ia ser afastado da profissão. Qual era a alternativa do bastonário?
    -Virar as costas ao jornalista, que representa o público, naturalmente ignorante em relação a muitas matérias profissionais e legais?
    -Deixar entender que a Ordem dos Advogados está baralhada e perturbada com a acusação ao seu membro e não sabe o que dizer?
    -Deixar entender que a Ordem dos Advogados actua como um mero sindicato defensor dos seus membros, sejam eles de que qualidade forem?
    -Deixar entender que a Ordem não nos considera a nós, público, com direito a sermos elucidados?

  3. pois discordo completamente. acho que é um post muito infeliz. corporativista? essa afirmação é, sem dúvida, falsa.
    falou em nome dos mais desprotegidos. afrontou as magistraturas, um “estado inimputável” dentro do estado. é mentira?
    afirmou que há juízes que fazem o que bem entendem. é mentira?
    reitirou que os “pobres” são condenados por falta de recursos que sobram aos ricos, estes só muito excepcionalmente condenados. é mentira? qual foi o outro que o afirmou?
    pires de lima, um ressabiado politico? germano não sei quantas? júdice, sempre em altos negócios? rogério alves, cuja cargo era despudoradamente utilizado para publicidade em causa própria…
    cada vez fico mais espantado….

  4. Cara isabel, acho que detestar o seu bastonário é um direito seu e inalienável, mas se se envergonha deste o que dizer dos antecedentes?
    Marinho Pinto pode ser trombeteiro, azougado, excessivo e até presunçoso, mas que diz no meio das suas trombetices muitas verdades não tenha dúvidas ou então nunca exerceu a profissão regularmente.
    Será que o jrrc estará a faltar à verdade? Deve pedir-se a Marinho Pinto que seja silencioso quando a justiça parece uma casa feita de tábuas por onde os ratos se escapulem com pedaços de processos na ponta dos dentes? Deverá a presunção de inocência de Duarte Lima não ser respeitada pelo bastonário dos advogados? Deverão ser caucionados pelo mesmo bastonário os julgamentos ilegais nos jornais e na praça pública? Deverá este pactuar com a falta de formação académica adequada dos jovens advogados?
    Creio que não, e que a isabel também não defenderá que os advogados saiam da cena sempre que há borrada por eles protagonizada.
    O ilustre bastonário poderá ter uma voz incomodativa quer pela altura, quer pelo timbre, quer pela oportunidade em que a faz ouvir, mas mais vale isso, do que falar pelos cantos, alinhar em panelinhas consensuais ou servir-se do cargo para publicidade e promoção pessoal.

  5. Cara Isabel,

    Como licenciada em Direito que sou muito lhe agradeço o seu post. O que se passa na Ordem, actualmente, é uma vergonha e é necessário que aqueles que têm voz o denunciem. Creio que a única maneira de mudar o status quo é por via legislativa, retirando, de uma vez por todas, as competências de formação à Ordem dos Advogados. A situação é absolutamente insustentável. Apesar de não ter feito os recentes exames de aferição da Ordem dos Advogados, acompanhei de perto o calvário vivido pelos que os fizeram. Para mim, a subida dos emolumentos em 1300% (subida essa que ocorreu depois da inscrição no curso) é o menos, mas talvez porque para mim não é um factor inibitório, por, ao contrário de muitos colegas, ter um estágio remunerado. O pior é o sentimento de que ainda que saiba Direito, ainda que tenha tido boas notas, ainda que me esforce, posso ser chumbada por pessoas de competência duvidosa. Vi colegas meus que acabaram o curso com médias elevadas, que estagiam em escritórios de qualidade indiscutível, chumbarem nos exames da Ordem. Não me venham dizer que, de repente, aquelas pessoas perderam as qualidades ou que, se calhar nunca as tiveram. Que os Professores da FDL, da Católica e da Nova são um bando de incompetentes.
    Os Formadores não sabiam o que saía nos exames, muitos deles não sabiam sequer a matéria que leccionavam. Erros nos exames, nas grelhas de correcção, questões que versavam sobre matérias fora do escopo do exame em causa, parcialidades sem fim.
    É deputada pelo partido em que votei, espero que o regime de estágio não seja esquecido. Se se reputam os exames como necessários, tudo bem. Mas, por favor, que haja um mínimo de seriedade, o que está em causa é a vida das pessoas.

    Caro Jrrc,
    Ninguém disse que da boca do Bastonário só brotam imbecilidades e também ninguém fez a apologia dos anteriores.
    Diz que o Bastonário fala em nome dos desfavorecidos. Quer alguém mais desfavorecido do que os estagiários, que querem entrar numa Ordem em que o representante máximo da mesma os apelida de “manada de incompetentes”? Em que há um claro conflito de interesses por os exames e a correcção serem feitos por alguém que não quer que os estagiários entrem no mercado?

  6. O homem realmente é um espalha brasas incómodo e mal educado.

    Mas prefiro-o mil vezes às manifestações mainstream e polidinhas, xoxas e insonsas como a sua, Isabel. Hipócritas muitas vezes em nome da defesa de crápulas e mentirosos.

    Você parece uma daquelas figurinhas que engoliu o manual dos facciosos, estilo tias da linha do estoril. Enjoativa e cheia de uma caganeira mental que está longe dos atributos e qualidades que propagandeia.

  7. Nunca a ouvi comentar este livro e as suas peripécias, o autor de tantos “casos” nauseabundos, pois não senhora deputada eleita por escolha de quem?

    E depois tem a lata de vir para aqui cagar postas de moralidade balofa e hipócrita !!!!!!

    O LIVRITO DO ZÉZITO

    Cansado do seu ócio parisiense, o Zézito decidiu escrever um livro: um romance.

    Inspirado pelos “Cem Anos de Solidão” de García Márquez, que não leu, mas ouviu falar, conta a história de uma família – uma família portuguesa, com certeza.

    Tal como os Buendía, a família Pinto de Sousa vive também muitas aventuras.

    O enredo gira em torno de umas CENTENAS DE MILHÕES DE EUROS, depositados em OFFSHORES.

    Como lá foram parar? De onde vieram? É este mistério que o livro tenta desvendar.

    O nosso autor conta-nos também outras peripécias:

    – pardieiros hediondos na Guarda, assinados por um bicharel sanitário;
    – aprovações misteriosamente céleres na Câmara da Covilhã;
    – uma gasolineira trambiqueira, com 4 sócios de sucesso;
    – uma licenciatura milagrosa, a um domingo;
    – a ascensão de um vigarista de província, a mega-trafulha nacional;
    – uma urbanização no Vale da Rosa, vítima de campanhas negras;
    – um centro comercial em Alcochete, vítima das mesmas campanhas (negras);
    – uma empresa chamada Mecaso, de uma mãezinha extremosa;
    – casas de luxo compradas a offshores, a pronto, por obra e graça do Espírito Santo;
    – um aterro na Cova da Beira, com mais campanhas negras;
    – adjudicações directas (e caras) de computadores medíocres, para propaganda barata;
    – obras ruinosas, com derrapagens monumentais;
    – ex-ministros fugitivos após quedas de pontes, completamente alheios a tais obras;
    – redes de boys com tachos chorudos;
    – jornalistas incómodos afastados misteriosamente;
    – almoços com futebolistas, pagos de forma também misteriosa;
    – escutas embaraçosas abafadas, por figuras absolutamente insuspeitas;
    – a maior rede MAFIOSA de Portugal, paga por banqueiros e sucateiros;
    – mais 100 MIL MILHÕES de dívida pública, em apenas 6 ANOS;
    – a FUGA do principal responsável, sem ser responsabilizado por NADA disto.

    Este livro promete ser um best-seller.

    Aguarda-se ansiosamente a edição em Inglês Técnico.

  8. caro jrrc
    acabou de fazer o que faz MP: disparar em todas as direcções. claro que se acerta sempre em alguns melros, mas usa-se isso, depois, para uma impunidade no que ele faz enquanto bastonário. este é o ponto. e sim, o seu mandato tem sido corporativista, violador da autonomia universitária e defensor da “classe” já instalada.

  9. Cara Ana
    tem toda a razão, o ponto é esse: passar por cima das universidades para diminuir à partida, via estágio, o nº de advogados, numa restrição ao acesso à profissão escandalosa.
    E ainda com a ajuda do dinheiro, claro.

  10. cara vera lúcia
    agradeço-lhe a intensidade da escrita que dedicou numa caixa de comentários da pessoa que tanto despreza. Infelizmente, isso diz mais de si do que de mim, mas é sempre bem acolhida com os seus adjectivos.

  11. Cara Isabel,

    E arriscar-me-ia a acrescentar que a diminuição por via dos ditos exames é mais perniciosa. A questão do aumento (retroactivo) dos emolumentos pode ser (e está a ser) objecto de apreciação judicial, o que fazer quando a correcção dos exames é tão só injusta? Como provar o plano concertado para chumbar em massa? O problema é que na correcção há um elemento discricionário e por isso insusceptível de ser sindicalizado, e parece-me que é disso que a Ordem se está a valer. O Bastonário instrumentalizou a opinião pública que, características culturais dos portugueses, acha sempre que as gerações seguintes sabem menos que as anteriores.
    O que me choca é também o silêncio confrangedor das Universidades, a falta de voz daqueles que poderiam e deveriam agir. Afinal, o Bastonário também a todo o ensino superior passou um atestado de incompetência e não vi mais que uns comunicados.
    Mais uma vez, agradeço-lhe o seu post e espero (aliás em cumprimento do Memorandum) e acredito em mudanças legislativas céleres. Espero que não seja credulidade minha..

  12. Cara isabel, quando eu falei em detestar não escrevi odiar, pois muito embora haja políticamente corretos que utilizam essas habilidades linguísticas para encobrir menos nobres sentimentos não me passou pela cabeça que por causa da vergonha que sente pelas atitudes do seu presidente da Ordem, não chegaria a esse extremo.
    O ódio é sentimento que reputo de extremo e só pessoas muito especiais terão direito a ser odiadas.
    A isabel tem vergonha do seu bastonário, o que para mim apenas me disse que não gosta de ser vista ao seu lado em amena cavaqueira, que se sente humilhada em ser representada por ele nas funções de advogada, que a sua presença e discurso lhe são desagradáveis, logo detesta, não gosta, tem aversão, não suporta, antipatiza.
    Daí a odiar vai um passo muito grande, pois o ódio perturbando a razão leva-nos por vezes a cometer injustiças tremendas.
    É só.

  13. Cara Isabel,
    relendo o que escrevi noto com pesar que escrevi o seu nome por duas vezes com letra minúscula, do facto, lhe peço desculpa, pois não era minha intenção fazê-lo, mas por vezes a pressa é inimiga da correção.
    Cumprimentos.

  14. Ora, ora Isabel, não seja tão ciosa do desprezo dos outros como qualidade que a valoriza, como se de uma medalha de mérito mediático se tratasse, sei lá por que carga de água. mistérios insondáveis de políticos que têm a memória curta, a coerência pálida e a palavra mole e oportunista. técnica típica dos narizinhos empinados e presunçosos, como o seu.

    o desprezo é muito mais do que você merece, porque não a conheço de parte alguma a não ser pelas manifestações públicas, relacionadas com o partido amnésico e irresponsável onde milita. o que se trata é de um desabafo apenas, depois de já ter somado por aqui e por lá tanta verborreia de proselitismo enjoativo e hipócrita.

    cuidado com os telhaditos de vidro. passe bem

  15. Cara Isabel Moreira

    Não vejo mesmo, pois não, em que é que o alegado pedido do bastonário a Duarte Lima para que quebrasse o silêncio tenha violado qualquer norma deontológica da Ordem dos Advogados.

    Aliás, o advogado acusado, que desde o princípio desta história tem ameaçado processar quem quer que revele pormenores do seu caso, julgou por bem vir ontem a público para quebrar, diz-se, o clamoroso silêncio que ele alimentava. Numa carta à Lusa, o sr. Lima não se defende de nada em concreto nem esclarece coisa nenhuma, apenas ataca a comunicação social e a polícia brasileira por terem divulgado detalhes da história, como se isso fosse ilegítimo, e diz que está a ser alvo de um linchamento público. Não rebate nada de concreto, mas diz que a imprensa mente e que o querem abater.

    O sr. Lima não se devia ter posto a jeito. Até hoje não explicou a história dos 5,2 milhões da herança Feteira que estavam numa conta sua na Suiça. Se a sra. Olímpia Feteira e os seus advogados não têm descoberto a coisa, ainda hoje não se sabia que cerca de 10 por cento da dita herança (tanto quanto Tomé Feteira deixou em herança à junta de freguezia da sua terra natal) estava numa conta pessoal do sr. Lima no país do segredo bancário, das vaquinhas e do chocolate.

    Ora o sr. Lima deveria talvez ter tomado a iniciativa de esclarecer a Ordem dos Advogados sobre esses valores muito avultados que lhe foram confiados (segundo a acusação, ilegitimamente) pela sua cliente sra. Rosalina Ribeiro. Com efeito, os Estatutos da Ordem estabelecem uma série de importantes normas deontológicas sobre essas precisas questões. Pois nem à Ordem dos Advogados deu o sr. Lima quaisquer explicações sobre o assunto, que se saiba.

    O sr. Lima apenas terá tratado com a Ordem, e em jeito de manobra dilatória ou escapatória, da questão do sigilo profissional. O sr. Lima escudou-se no dever de sigilo profissional para com a sua cliente para não colaborar com as autoridades judiciais brasileiras, atitude que manteve mesmo quando o cadáver dela apareceu. O sr. Lima disse que ia tratar da questão junto da Ordem, mas até hoje não esclareceu a polícia brasileira se a Ordem já o isentou ou não do sigilo profissional. Sabendo-se que a sra. Rosalina está morta e que recaem sobre o sr. Lima suspeitas de a ter matado, tal manobra afigura-se escandalosa e até macabra. Diz que não fala para não prejudicar a senhora que morreu e que ele é acusado de ter morto!!

    O sr. Lima quer um muro de silêncio em redor do caso e da sua pessoa. Se calhar, preferiria um julgamento à porta fechada. É compreensível, dado o caldinho em que se meteu. Mas o bastonário da Ordem, instituição que credencia profissionalmente o sr. Lima como advogado, não gostou do silêncio dele. Nisso o bastonário Marinho Pinto representou muito bem não só a Ordem e os advogados decentes, que espero sejam a maioria, como grande parte do público português. É que, além do mais, o sr. Lima deve milhões ao BPN, parte do buraco que teremos todos de pagar.

  16. Caro Júlio,

    Em 2 palavras: presunção de inocência. Em Portugal o silêncio é um direito do arguido (e note-se que em Portugal nem arguido Duarte Lima é). O que significa que qualquer pessoa acusada de um crime tem direito a ficar em silêncio. Ao que sei, em Portugal, há apenas um processo civil mas julgo não ser sobre esse que o Bastonário se pronunciou. Ora, no que concerne ao processo penal, Duarte Lima dirá o que entender e o Bastonário não tem de gostar ou não do silêncio de Duarte Lima, é um Direito consagrado na nossa Constituição, percebe?

  17. Mais, vai desculpar-me mas ver o Bastonário da Ordem a dizer que se emocionou a ver Duarte Lima a tocar órgão enquanto depois parece sustentar que as pessoas públicas, só por o serem, devem prescindir dos Direitos consagrados na CRP e atrevendo-se a comentar alegremente factos do processo (que foram apenas alegados e não provados porque a prova só é feita em julgamento) é, pura e simplesmente, mau demais para ser verdade.

  18. Eu, que não sou advogado mas sempre apreciei e aplaudi a capacidade de Marinho Pinto para incomodar os instalados e os intocáveis, confesso que desta vez incomodado fiquei quando o ouvi, um bocado hipocritamente, usar o expediente do “dois em um”. Sobre o silêncio de Duarte Lima, e em resposta à jornalista, disse, por um lado, que não lhe competia aconselhar Duarte Lima e sua defesa sobre a estratégia a seguir, o que é deontologicamente correcto e faz parte do senso comum. Logo a seguir afirmou que, se a coisa se passasse com ele, não ficaria calado e se defenderia na praça pública! Ou seja, um disfarçado mas nem por isso menos descarado conselho sobre a estratégia de defesa, coisa sobre a qual acabara de afirmar (por óbvias razões deontológicas) não dever pronunciar-se! Com a agravante de o “conselho” abraçar implicitamente a tese da culpabilidade do acusado, “indiciada” pelo seu silêncio. É, sem dúvida, merecedor da medalha de ouro de pirueta olímpica, ao conseguir, em 15 segundos, dizer uma coisa e o seu exacto contrário!

  19. Ana, não gostei do seu presunçoso “percebe?”, lançado displicentemente do alto da sua cátedra. A presunção da inocência não é para aqui chamada, tanto mais que Marinho Pinto, nas suas declarações, deixou perfeitamente claro esse ponto. Ninguém contestou o DIREITO do Lima a ficar calado, mas se ler o Estatuto da Ordem lá está também o DEVER do advogado de colaborar com a justiça – para mais num caso em que está em causa o assassinato de uma sua cliente e o esclarecimento das circunstâncias que antecederam o momento o crime.

    Mas o essencial nem sequer está aí.

    O facto insofismável, que você se recusa a considerar, é que o sr. Lima se tem escudado desde 2009 na Ordem dos Advogados para não colaborar com a polícia brasileira, como também se escudou publicamente na questão do sigilo profissional e nas normas da Ordem dos Advogados para não responder a dúzias de perguntas da Judite de Sousa na célebre entrevista à RTP de Agosto de 2010. O sr. Lima declarou que ia consultar a Ordem (que é, de facto, a entidade competente em matéria de dispensa do sigilo profissional), mas depois nunca mais informou as autoridades judiciais brasileiras sobre o resultado dessa hipotética démarche, apesar de a polícia brasileira o ter questionado repetidamente sobre esse ponto. Nem sequer sabemos se o sr. Lima efectuou realmente a démarche que disse que ia fazer.

    Ou seja, o sr. Lima, com o seu silêncio posterior, procedeu como se a Ordem dos Advogados o não tivesse dispensado do sigilo e o não tivesse autorizado a desvendar pormenores do seu encontro com Rosalina. Desse modo, o sr. Lima comprometeu implicitamente a dita Ordem com a sua estratégia de não-colaboração com as autoridades judiciais. É uma atitude ardilosa do advogado e inegavelmente comprometedora para a Ordem, a qual tem por isso toda a legitimidade para sacudir a falsa presunção, deixada a pairar pelo advogado, de que não teria sido dispensado por ela do sigilo profissional. Daí a legítima atitude do bastonário, incitando o advogado a quebrar o silêncio e a colaborar com a justiça brasileira. Note que o bastonário fez isso sem confirmar ou desmentir se o sr. Lima apresentou algum pedido de dispensa e sem revelar a eventual decisão do órgão competente da Ordem sobre a questão do sigilo profissional.

  20. Não sou amigo nem fã de Marinho Pinto, mas também não me deixo conduzir por antipatias ou ódios pessoais. Nunca suspendo o sentido crítico e sei muito bem que o bastonário por vezes asneia ou fala de mais. Quem é que não tem calcanhares de Aquiles?

    Não sei se é “normal” o bastonário pronunciar-se tanta vez publicamente sobre tantas questões, mas também sei que ele é muito requisitado para falar porque, ao contrário de muito boa gente que por aí anda, tem algo para dizer. Chamam-lhe displicentemente “mediático” por causa disso, mas, bem vistas as coisas, també pode ser um elogio.

    Constato ainda que o bastonário dos advogados foi reeleito com expressiva votação, apesar de frequentemente atacado por pessoas de vários quadrantes, por vezes de forma histérica.

  21. Caro Júlio,

    Se acha que “a aparência” pública da Ordem prevalece sobre os direitos constitucionais do arguido e se acha que um bastonário pode (e deve) comentar factos alegados como se estivessem provados então estamos conversados.

  22. Cara Ana,

    acho que ainda não estamos conversados, lamento. Sob pena de me repetir, vou explicar porquê.

    O bastonário da Ordem dos Advogados não é militante do clube Justiça e Liberdade, nem constitucionalista da Fac. de Direito, nem sequer juiz do TC. É bastonário. Preocupa-se com a Ordem a que preside, e faz muito bem. Faz o que lhe compete na sua esfera, o que é óptimo.

    Ora a Ordem não pode deixar-se envolver e colocar-se patetamente à mercê da estratégia dilatória, escapatória e não colaborativa do sr. Lima, se não quiser vir a ser justamente acusada de servir de apoio e alibi para as manhas de alguém que está à rasca porque se meteu voluntariamente nessa desagradável posição.

    O sr. Lima pretendeu desde o início fazer pairar privada e publicamente a ideia de que não responde às perguntas excessivamente pertinentes da polícia brasileira porque a Ordem dos Advogados o não autoriza, porque a Ordem o não dispensa do sigilo profissional. O bastonário, sem desvendar nada do que se passa dentro da Ordem, disse-lhe publicamente (se calhar também privadamente):
    – Fale, homem, defenda-se, esteja à vontade, sirva-se dos dados que tem à sua disposição.
    Muito legalista, cortês e civilizado foi o bastonário, porque se calhar o sr. Lima nem pediu realmente a tal dispensa que disse que ia pedir. Se calhar o bastonário poderia ter-lhe chamado directamente aldrabão. Palpita-me.

    Essas coisas que a Ana alega da “aparência” da Ordem e da prevalência dela sobre os direitos constitucionais – onde é que você as encontrou no que eu escrevi? Julgo que está a delirar.

    Mas lá que a senhora Ordem dos Advogados deve ser honesta e parecê-lo, não posso estar senão de acordo.

  23. Diz o comentador Júlio que “a presunção da inocência não é para aqui chamada”, podendo quem o lê pensar que tal presunção não está para ele em causa. Mas quando o mesmo Júlio refere a “estratégia dilatória, escapatória e não colaborativa do sr. Lima”, bem como “as manhas de alguém que está à rasca porque se meteu voluntariamente nessa desagradável posição”, percebe-se bem que para ele o juízo sobre Duarte Lima está feito e a presunção de inocência não vale, afinal, um caracol!
    Registe-se, ainda, a generosa “credulidade” do Júlio no que se refere às teses da sra. Olímpia Feteira, quando escreve: “Até hoje [Duarte Lima] não explicou a história dos 5,2 milhões da herança Feteira que estavam numa conta sua na Suíça. Se a sra. Olímpia Feteira e os seus advogados não têm descoberto a coisa, ainda hoje não se sabia que cerca de 10 por cento da dita herança (tanto quanto Tomé Feteira deixou em herança à junta de freguesia da sua terra natal) estava numa conta pessoal do sr. Lima no país do segredo bancário, das vaquinhas e do chocolate.”
    Eu por acaso já tinha reparado que toda a acusação da polícia brasileira reproduzia palavra por palavra as teses da D. Olímpia, a quem o cerco a Duarte Lima dá um jeitão do caraças, e ainda não consegui perceber em que se baseará a acusação da polícia para além das referidas teses, mas enfim, devem ser coincidências… Ao contrário do que dizia o pai, a sra. Olímpia Feteira não será por certo nenhuma “víbora”!
    Para memória futura, esclareço que, ao contrário da Isabel Moreira e da Ana, cujo desafecto pelo bastonário é notório, sempre apreciei muitíssimo (excepto em questões pontuais, como a presente) a coragem, frontalidade, clareza de raciocínio e argumentação do bastonário e jornalista Marinho Pinto, cuja simples existência é para mim um bálsamo.
    Em contrapartida, devo igualmente deixar claro que Duarte Lima é, e sempre foi, uma personagem que me desagrada. Estou nos antípodas politicamente, tenho-o na conta de arrivista habilidoso e vaidoso, e confesso que até fisicamente o seu aspecto um pouco gorduroso me provoca alguma repulsa. Assim, seria do meu inteiro agrado que, a ser ele o assassino, fosse por isso exemplarmente castigado, de preferência numa prisão brasileira!
    Infelizmente, nem sempre o que é do meu agrado é justo. De tudo o que sobre o assunto tenho lido e ouvido, estou convencido de que há indícios suficientes para considerar as teses da polícia brasileira como um chorrilho de asneiras, primárias e infantilóides, que dão um jeitão do caraças a algumas pessoas, e que, por isso, Duarte Lima, sobre cujas culpas em inúmeros outros assuntos tenho poucas dúvidas (offshores, BPN, método de construção da fortuna, etc.), é inocente no caso do assassínio de Rosalina Ribeiro.

  24. Está a tentar confundir as coisas, Joaquim Camacho. E fala da presunção de inocência como se esta fosse um blackout informativo, uma medida censória ou a negação da faculdade do público em apreciar factos apurados e documentados pela polícia (p. ex. os dados fornecidos pelos radares, que colocam o carro do sr. Lima em dias sucessivos na proximidade do local do crime e que provam que ele mentiu na sua primeira declaração, por fax, em Dezembro de 2010). Quando eu disse que o sr. Lima se meteu por sua própria culpa numa situação enrascante, aí tem uma prova flagrante! Não tente confundir as coisas outra vez, Joaquim Camacho, eu não disse que isso era uma prova de que ele é culpado da morte da cliente.

    A presunção de inocência é um direito indiscutível do sr. Lima. E os direitos dos outros envolvidos nesse caso, a começar pela sra. Rosalina? E o direito do público à informação? E o direito à justiça? Não contam neste caso? A presunção da inocência até à decisão do tribunal (vamos lá ver se haverá julgamento!) não invalida que constatemos que o sr. Lima tem usado vários processos para se esquivar à prestação de informações à polícia, como esta e o ministério público brasileiros o têm declarado enfaticamente. Digo “à polícia”, mas podia acrescentar “à comunicação social”, porque o sr. Lima foi voluntariamente à RTP declarar 10 ou 20 vezes que não podia responder às perguntas de Judite de Sousa. Ninguém o obrigou a ir lá. Então ele não queria ficar em silêncio?

    O primeiro processo de fuga do sr. Lima à colaboração com a justiça é o facto de se escudar no sigilo profissional para não esclarecer pormenores do caso da morte da sua cliente. A Ordem dos Advogados poderia dispensá-lo disso, bastaria pedi-lo. Pediu? O bastonário, sem revelar esse dado presumivelmente confidencial, incitou o sr. Lima a falar e a defender-se. O bastonário recusa obviamente, e com todo o direito, a estratégia do sr. Lima de envolver a Ordem dos Advogados nas razões do seu silêncio. Se o sr. Lima não quer falar, que não fale, está no seu direito, mas não diga que é por causa dos regulamentos de sigilo da Ordem! O bastonário tem absoluta razão em sacudir tal presunção. Não concorda, Joaquim Camacho?

    Segundo processo, o facto incontestável de o sr. Lima, depois de se ter prontificado a colaborar com a polícia brasileira (vide o fax), ter recusado responder à carta rogatória da polícia brasileira com 193 perguntas, queixando-se… de que ela foi tornada pública.

    Terceiro processo, as suspeições que o sr. Lima e os seus advogados têm lançado sobre as autoridades judiciais brasileiras, afirmando com o maior desplante que elas não oferecem garantias de legalidade, idoneidade e limpeza de processos. Pelos vistos o sr. Lima e o seus advogados não querem colaborar com… polícias deliquentes.

    Será que a presunção de inocência do sr. Lima nos impede de constatar as suas estranhas posições e as suas numerosas contradicções, Joaquim Camacho?

  25. leitor e admirador seu desde que a descobri, tenho pena de a não poder acompanhar na violência das suas críticas a um bastonário que é, para a larga maioria que o elegeu e para muitos outros, um exemplo de aprumo e frontalidade na defesa de uma ideia de justiça que partilho. fala e escreve quando é solicitado, diz verdades como punhos, afronta interesses, ataca privilégios, é uma lufada de ar fresco que traduz um pouco do que os portugueses pensam do triste estado da justiça no nosso país. exagera? seja. mas ter ‘tanta, mas tanta vergonha’ dele? por favor! com tanta coisa e tanta gente por aí de que infelizmente temos, todos nós consigo, de ter e mostrar vergonha, por favor, não se isole e deixe o bastonário em paz. precisamos de si para coisas muito mais importantes.

  26. Caro Júlio,

    Poderá, se para isso tiver fôlego suficiente, dizer 300 vezes seguidas que “a presunção de inocência é um direito indiscutível do sr. Lima”, mas creia que ninguém acreditará na sinceridade dessa sua “profissão de fé”. Quem o lê percebe perfeitamente que ela é apenas formal, pois as reservas por si enunciadas nas linhas imediatamente a seguir e as “provas” contra Duarte Lima que abundantemente descreve em todos os seus comentários esvaziam-na completamente de sentido. É o mesmo que dizer a um tipo qualquer: “Eu nunca disse que a sua mãe é puta! Limito-me a afirmar que, de acordo com informações de que disponho, ela é vista diariamente, a várias horas do dia e da noite, a andar para baixo e para cima na zona do Intendente e que frequenta algumas pensões da zona, também várias vezes ao dia, na companhia de homens sempre diferentes.”
    Pergunta o Júlio: “A presunção de inocência é um direito indiscutível do sr. Lima. E os direitos dos outros envolvidos nesse caso, a começar pela sra. Rosalina? E o direito do público à informação?” Traduzindo: presunção da inocência muito bem, sim senhor, mas primeiro o nosso direito de espectadores do circo. As feras (correios da manha de várias tonalidades, tanto escritos como audiovisuais) têm fome e, para o espectáculo continuar, é preciso atirar-lhes de vez em quando uns petiscos. Duarte Lima é, sem dúvida, um petisco bem gordito, com potencial para alimentar fartura de matinées e soirées.
    Quanto à sua preocupação com os direitos de Rosalina Ribeiro, perdoe-me a franqueza, mas há aí uma dose de quase “perversidade” que me incomoda. A tese da polícia brasileira é que Duarte Lima cometeu um crime para encobrir outro crime, mas este último cometido por D. Rosalina (o tal suposto desvio de milhões de euros das contas conjuntas que tinha com Tomé Feteira). Ou seja: a pobre senhora, além de ter sido assassinada, é vilipendiada por quem devia castigar o autor do crime de que foi vítima, sendo, assim, duplamente vitimizada, sem qualquer hipótese de defesa. Acho que, mesmo depois de morta, tem direito ao seu bom nome, mas não vejo ninguém (nem os seus herdeiros) dar um passo para o fazer.
    Por certo concordará que entre os inúmeros defeitos de Duarte Lima não se encontra o da estupidez. Ora as “teses” da polícia brasileira não fariam dele apenas um estúpido. A terem alguma relação séria com a realidade, o homem seria um rematado atrasado mental, um perfeito idiota! Como diria o Saddam Hussein, o pai de todos os estúpidos!
    Por exemplo, quando o Júlio se refere aos supostos “factos apurados e documentados pela polícia (p. ex. os dados fornecidos pelos radares, que colocam o carro do sr. Lima em dias sucessivos na proximidade do local do crime e que provam que ele mentiu”, eu fico, mais uma vez, espantado com a sua credulidade!

    TESE 1: Afirma a polícia que, havendo tantos radares entre o Rio de Janeiro e Maricá, seria impossível a um carro fazer tal trajecto sem ser apanhado num deles! E, tendo feito o rastreio, concluiu que, na véspera do crime, foram multados cento e não sei quantos carros.
    A estrada que a RTP mostrou tem um movimento evidente que deve chegar aos milhares de automóveis diários, a polícia diz que seria impossível fazer o trajecto sem ser apanhado num radar e afinal só foram apanhados pouco mais de cem? E os outros milhares que lá passaram, que a polícia acabou de afirmar que era impossível não serem apanhados pelo menos uma vez?

    TESE 2: A polícia diz que listou, numa primeira fase, os carros multados na véspera do crime e que os investigou, tendo concluído que NENHUM DELES ERA CARRO DE ALUGUER. Em seguida, listou os carros multados no dia do crime e cotejou-os com os da véspera, para ver se algum deles tinha feito o mesmo trajecto nos dois dias. E, milagre dos milagres, HAVIA UM, E APENAS UM, nessas condições: multado na véspera e multado no dia do crime (num total de sete vezes, Felícia Cabrita dixit!). Segundo milagre: esse carro era de uma empresa de aluguer! Terei ouvido bem? Na véspera, NENHUM dos carros multados era de aluguer! Mas o que foi multado nos dois dias era-o!!! Ora se foi multado nos dois dias também foi multado na véspera! Era de aluguer? Não era de aluguer? Fui eu que pirei de vez ou será que há aqui uma sofisticada dialéctica entremeada de mecânica quântica que escapa ao meu limitado entendimento?!

    TESE 3: O carro em que Duarte Lima transportou e assassinou Rosalina Ribeiro deslocou-se a Maricá na véspera, com o perverso objectivo de fazer um reconhecimento do local do crime, e a prova disso está nas tais multas por excesso de velocidade na estrada entre o Rio de Janeiro e Maricá.
    Ora eu vi imagens da estrada e dos radares numa reportagem que a RTP transmitiu há dias. Não é uma via rápida, é uma estrada secundária normalíssima, como muitas que há no Alentejo, por exemplo, e os famigerados radares são uns autênticos monstros que se vêem a quilómetros de distância, uns postes enormes com um “apêndice” horizontal gigantesco que se debruça sobre a via! Sobressaem mais, na berma da estrada, do que um “Tyrannosaurus rex” na Rua de São Bento! É evidente para quem tenha meio dedo de testa que não foram ali colocados para multar ninguém mas sim para dissuadir, tal a sua “chocante” visibilidade! Admitindo-se que um condutor se distraia momentaneamente e seja apanhado uma vez, é completamente irrealista pôr a hipótese de que isso aconteça SETE-VEZES-SETE em pouco mais de cem quilómetros! A não ser que quem conduza o carro queira deixar, propositadamente, um rasto bem visível, tão visível que até um cego, conduzido por um cão-guia igualmente cego, perneta e desprovido do sentido do olfacto, conseguiria dar com ele! Diz o povo que quando a esmola é grande o santo desconfia. Eu, que não acredito em santos e nem baptizado sou, subscrevo a cem por cento!

    (CONTINUA)

  27. (CONTINUAÇÃO)

    TESE 4: Tendo o carro sido devolvido à empresa que o alugou lavado e sem o tapete do lado do pendura, isso indicia fortemente, na tese policial, que tal tapete foi deitado fora por ter vestígios de sangue de Rosalina Ribeiro, dado que, segundo a Polícia, ela levou pelo menos o primeiro tiro ainda dentro do carro.
    E agora pergunto eu, que, além de não ser baptizado nem pertencer ao CSI, ainda por cima sou parvo: tendo ela levado, de acordo com a polícia, um tiro no peito e outro na cabeça, o sangue não teria escorrido principalmente para o assento onde estava sentada, antes de ir parar ao tapete, que, como qualquer tapete que se preze, está no chão do carro? Ou será que o Duarte Lima também devolveu o carro sem o banco do pendura?

    TESE 5: Acha a polícia estranho que Duarte Lima tenha apanhado um avião para Belo Horizonte e depois tenha ido de carro para o Rio de Janeiro, encontrar-se com D. Rosalina. E que depois, em lugar de apanhar o avião de regresso a Portugal no Rio de Janeiro, tenha regressado a Belo Horizonte para o fazer.
    Pergunto eu: a polícia brasileira já ouviu falar em viagens de ida e volta? Se ele, à ida, desembarcou em Belo Horizonte, não é natural que inicie a viagem de regresso no mesmo local?
    A polícia não sabe, como eu sei a partir da imprensa, que a secretária de Duarte Lima estava então em Belo Horizonte (ou vivia mesmo lá) e que, além de secretária, seria, de acordo com as mesmas fontes, “amante” de Duarte Lima nessa época?

    TESE 6: A polícia admira-se por Duarte Lima ter ido ao Brasil ENCONTRAR-SE COM ROSALINA RIBEIRO quando ela tinha regresso previsto a Portugal para dali a poucos dias.
    Ora nas imagens mostradas nas televisões com transcrição de declarações de Duarte Lima pode ler-se o seguinte: “Tendo conhecimento de que me encontrava no Brasil, manifestou interesse em encontrar-se comigo.” Tais palavras só podem significar que ele foi ao Brasil por outros motivos, telefonou a D. Rosalina depois de lá chegar, por cortesia ou para lhe perguntar se ela precisava de alguma coisa dele, e que ela manifestou então interesse num encontro. Assim sendo, o que autoriza a polícia a afirmar que ele foi ao Brasil por causa dela? O desembarque em Belo Horizonte não será, aliás, indício de que o motivo da viagem era outro (ou outros)? Negócios, outros clientes, encontro com a alegada amante, a tal secretária que estava (ou vivia) em Belo Horizonte?

    Tenho ideia de nas primeiras reportagens sobre o assunto, há meses, enviados especiais de televisões portuguesas a Maricá terem dito que, havendo embora, na altura das reportagens, um sistema de videovigilância no Hotel Jangada, perto do qual Duarte Lima dizia ter deixado D. Rosalina com uma tal Gisele, tal sistema ainda não existiria no dia do famigerado encontro, ou estaria ainda a ser instalado, ou estava desligado, ou filmava só dentro do hotel e o encontro tinha sido na rua, qualquer coisa deste género, de que não me lembro bem. De qualquer modo, do que tenho a certeza é que no dia em que Rosalina Ribeiro foi morta era materialmente impossível haver imagens que confirmassem ou infirmassem o encontro com a famigerada Gisele. Assim, como pode a polícia dizer que a prova de que Duarte Lima mente quando refere tal encontro está na ausência de imagens do acontecimento no sistema de videovigilância do hotel? É o mesmo que afirmar que o facto de não haver imagens da crucificação de Cristo no sofisticado sistema de videovigilância que os israelitas porventura terão instalado no Gólgota prova que é mentira que Jesus Cristo tenha sido aí crucificado e que terá porventura morrido devido a uma bem menos gloriosa gonorreia crónica que o levou ao suicídio na falésia do cabo da Roca!

    Há ainda outra coisa que me encanita a moleirinha, a saber: do que foi dito e escrito sobre o caso, sabe-se que D. Rosalina tinha questões porventura menos pacíficas a resolver com um tipo que explorava areias numa fazenda de Tomé Feteira em Maricá. E que a filha desse homem é advogada e se chama Michele. Não poderá haver aí uma confusão auditiva do próprio Duarte Lima, baralhando Michele com Gisele? A polícia acaso terá explorado essa eventualidade ou limitou-se a fazer de câmara de eco de Olímpia Feteira?

    Eu, se fosse o Duarte Lima e estivesse inocente, faria um esforço para fazer exactamente o que ele está a fazer: aguentava calado o mais possível, não contribuía para o circo, ia listando as incongruências de que me apercebesse, deixava-os pensar que me tinham encostado à parede, deixava-os voar, deixava-os poisar, e, quando pensassem que me tinham na mão e disparassem o tiro de misericórdia, o cano da arma estava obstruído e eles só davam por isso quando lhes rebentasse no focinho!

    Apesar de tudo, reitero o que aqui escrevi ontem: alguém disparou os dois tiros que mataram D. Rosalina e seria do meu agrado que esse alguém tivesse sido Duarte Lima, para que, por causa de hipotéticos erros cometidos em tal crime, ele pagasse não só por ele mas também por outros eventuais pecados que ontem referi e de que por certo ficará impune. Em consciência, porém, não consigo acreditar nisso, pois as bojardas que têm vindo a lume apontam gritantemente em sentido contrário.

  28. Caro Joaquim Camacho, já estou a entendê-lo. Você é daqueles Poirots que vêem sempre marosca onde mais ninguém vê e que não topam nada onde toda a gente topa. Isso é material de primeira para livros da pérfida Agatha, mas a realidade costuma ser mais comezinha.

    Com que então, a conceituada Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro tirou umas férias (não têm nada que fazer…) para tramar um advogado portuga com requintes de delinquência e malvadez policial? Se calhar cumpriram ordens de alguém aqui do torrão. Talvez do governo da época?

    Você não está aqui meramente a admitir uma possiblidade de inocência do Lima, pois ela PRESUME a culpabilidade da polícia.

    Quer negar que o Lima recebeu da rent a car aquelas multas todas para pagar na devida altura (princípios de Janeiro de 2010) e as pagou, pedindo até recibo, dizendo depois à polícia que não se lembrava da firma, a tal rent a car onde ele costumava alugar SEMPRE os carros?

    Acha plausível que a polícia tenha fabricado essa história toda dos radares, com as horas, as fotos e tudo?

    Acha também plausível que as amigas de Rosalina tenham sido manipuladas pela polícia para contradizerem flagrantemente o álibi do Lima?

    Mas que grande conspiração policial! O Felipe Ettore, ícone popular da polícia no Rio, para si virou jagunço!

    E olhe, Joaquim Camacho: essa mulher que “é vista diariamente, a várias horas do dia e da noite, a andar para baixo e para cima na zona do Intendente e que frequenta algumas pensões da zona, também várias vezes ao dia, na companhia de homens sempre diferentes”, TEM TODA A PINTA DE SER MESMO UMA PUTA. É perfeitamente compreensível que qualquer pessoa que testemunhe esses factos PRESUMA que se trata de uma puta – embora tal presunção não baste em Portugal para condenar ninguém por prostituição. Isso é outro aspecto da questão, que você não quer ou não consegue separar do resto. Temos, no caso em apreço, duas presunções: uma presunção legal de inocência e uma forte presunção de prostituição da suspeita, certo? Ora uma presunção não anula nem torna ilegítima a outra, pois não?

    Agora um conselho, se me permite esta familiaridade. A sua peculiaríssima noção de presunção de inocência, mais a sua notória inclinação para teorias da conspiração, podem ser-lhe fatais, já pensou nisso? Se você chegar a casa de noite e vir lá um tipo encapuzado com um saco às costas, uma lanterna numa mão e um pé de cabra na outra, chame logo a polícia! Olhe que não é o pai natal nem o cobrador de quotas do Sporting! Mesmo que viva no Rio de Janeiro, CHAME A POLÍCIA!

  29. Caro Júlio, tem-me faltado tempo, mas não queria deixá-lo sem resposta, pois apesar da discordância merece-me mais respeito do que, por exemplo, um idiota anónimo e cobarde (como aliás são por definição os anónimos), que algures neste espaço me chama “Camacho Lima”. O pobre atrasado mental parece acreditar que eu sou o Duarte Lima escondido atrás de um pseudónimo, à procura de defesa nas caixas de comentários dos blogues!
    A minha “peculiaríssima noção de presunção de inocência” leva-me, naturalmente, a duvidar da culpabilidade de terceiros até ao momento em que dela me apresentem provas insofismáveis, analisadas, pesadas, contraditadas. Ao contrário, a linha de pensamento que o Júlio sintetiza na fórmula “a realidade costuma ser mais comezinha” tende, se levada a sério, a tornar obsoletos não só os julgamentos como até o simples direito de defesa dos acusados. Em vez de “o juiz decidiu, está decidido”, teríamos o muito mais eficaz e económico “a polícia disse, está dito”, espete-se com o acusado no xilindró, deite-se fora a chave e poupe-se despesa desnecessária ao erário público!
    Rotular é fácil, tão fácil que há até máquinas que o fazem em série e em fracções de segundo. Pensar é coisa diferente, simultaneamente bênção e maldição, própria desse bicho esquisito que se chama homem, que tanto o conduz a momentos de glória como o afunda nas mais profundas trevas. O Tribunal do Santo Ofício também dispensava dúvidas e direitos de acusados e supliciados. E para testemunhar a “glória” dos seus juízos não faltavam espectadores entusiasmados nos autos-de-fé. Calculo que o seu único incómodo acontecesse naqueles azarados momentos em que uma chuvada inoportuna atrasava a assadura do herege!
    Este é o país em que milhões acreditam que a mãezinha do Jota Cristo se deu ao incómodo de sair esvoaçando do seu condomínio de luxo no Olimpo para ir ao cu de Judas fazer o pino em cima de uma oliveira raquítica e vaticinar a conversão da Rússia comunista a três criancinhas que do comunismo e da Rússia sabiam tanto como eu sei a cor das cuecas da luminária de Boliqueime aquando da sua recente visita à Sala Oval!
    Já vi que você gosta de respostas simples a perguntas simples, do género “de que cor é o cavalo branco de Napoleão?”, e que quem sugira que nem tudo é assim tão linear é um maluquinho das teorias da conspiração! Por isso é para si tão fácil rotular-me como tal, tão fácil como “dispensar” o Duarte Lima não só do direito à presunção de inocência como do simples direito à defesa. Tudo o que ele diz nesse sentido parece ser, no seu entendimento, uma “conspiração” para alijar responsabilidades e culpabilizar outros. Ou seja, o direito que é reconhecido a esses outros é negado ao Lima. Misteriosos são os caminhos do senhor!
    Os maluquinhos das teorias da conspiração fixam-se habitualmente nos mesmos alvos, marram quase sempre em “conspiradores” bem definidos, sejam eles pessoas, grupos (religiosos ou outros), associações ou organizações mais ou menos secretas, serviços de informações, etc. Têm o Bilderberg, as maçonarias, a CIA, o KGB (agora FSB) e mais a pata que os pôs, mas cada maluquinho tem geralmente um número limitado de “conspiradores” preferidos. E, nas elucubrações que ora lhes fritam, ora lhes afogam as moleirinhas, acabam sempre por encostar os seus ódios de estimação a esses “conspiradores” profissionais. Tendo eu pelo Duarte Lima (e por todos os Duartes Limas do planeta) um profundo desamor, e sendo talvez exagerado dizer que é um dos meus “odiozinhos de estimação”, pode crer que, fosse eu um fã de teorias da conspiração e a criatura seria a minha escolha preferencial para uma carrada de pecados de que não se conhece o pecador!
    Não sei aonde foi você pescar essa descoberta de que o Felipe Ettore é um “ícone popular da polícia no Rio”, ou essa outra magnífica tirada sobre a “conceituada Divisão de Homicídios do Rio de Janeiro” (talvez no correio da manha), mas acaso ouviu falar, por exemplo, no massacre da Candelária? De qualquer modo, eu prefiro pescar com a minha cana.
    No que respeita à ida a Maricá na véspera do crime, vi há dias num noticiário que no pedido de habeas corpus o Lima confirma que é verdade, sim senhor, que foi lá, coisa que eu desconhecia. Ora, confirmando-se que ele passou mesmo naquela estrada e foi multado uma carrada de vezes, e sendo os radares uns monstros enormes impossíveis de passar despercebidos, era igualmente impossível que ele não soubesse que ia ser multado. Assim, impõe-se a seguinte pergunta: por que razão alguém que planeia um homicídio para o dia seguinte deixa voluntariamente, na véspera, um rasto tão visível até ao local do crime? Será o Duarte Lima atrasado mental?
    Outra pergunta: acha crível que o sangue resultante do tiro que Rosalina terá levado no peito, ainda dentro do carro (segundo a polícia), tenha escorrido para o tapete sem sujar o assento?
    Acha razoável apresentar como prova de que Lima mente em relação à tal Gisele a alegada ausência de imagens da mesma e de D. Rosalina feitas por um sistema de videovigilância que, à época, estava materialmente impossibilitado de filmar imagens fosse o que fosse no local em causa?
    As questões que levanto nas “teses 5 e 6” do meu comentário anterior mantêm-se inalteradas.
    A RTP-1 anunciou para daqui a pouco, a seguir ao Telejornal, uma entrevista com Olímpia Feteira, que não quero perder e que lhe aconselho vivamente. Da amostra que eles apresentaram, digo-lhe que a classificação de víbora que o pai lhe aplicou é capaz de pecar por defeito! A mulher é de uma impiedade e crueldade de arrepiar! Em relação a Rosalina Ribeiro, que teve a morte desgraçada que sabemos, pronuncia-se assim: “Eu preferia a Rosalina viva, para a ver no xadrez.” Trata-se, sem dúvida, de uma fortíssima candidata a substituta do Freddy Krueger na próxima sequela dos filmes de terror em que é figura central!

  30. Caro Joaquim Camacho, o que é que o massacre da Candelária tem a ver com a Divisao de Homicídios do Rio e com o Felipe Ettore? Essa só pode ser para rir! Você é que parece que não faz a mínima ideia do que aquilo foi. Já ouviu falar da Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro? É que foram alguns, aliás poucos, membros e ex-membros dessa polícia que foram os responsáveis do massacre. De resto, a Polícia Militar nada tem a ver nem com a Polícia Civil (a que pertence a dita divisão de homicídios) nem com a Polícia Federal do RJ. E os autores do massacre, actuando como um grupo de extermínio restrito e secreto, totalmente à margem das chefias, foram condenados, um deles a 300 anos de cadeia, outro a 200, outro a 45. Quanto ao prestígio adquirido no combate ao crime pelo Felipe Ettore, leia por exemplo o DN, se acha mais confiável. Ou então consulte a imprensa e os blogues brasileiros.
    Como lhe tentei explicar, a admissão (ou presunção) de inocência não exclui a admissão da culpabilidade, que se chama vulgarmente suspeita. É muito simples. Estou certo que você, quando lhe apetece, também entende isso.
    Quanto ao resto, nem vale a pena gastar latim. Desesperado com a questão dos radares, você pergunta se o Duarte Lima seria atrasado mental para se deixar apanhar assim… E por aí se fica. Como argumento, não vale rigorosamente nada, concordará. Quantos criminosos com longo currículo não se deixaram um dia apanhar por menos? E o suspeito Duarte Lima, sem grande experiência no ramo (presumo!), deve conhecer bastante mal o Brasil e o Rio em particular.
    Com o que me diz sobre a Olímpia fico, então, convencido que o Joaquim Camacho resolveu mesmo tomar partido pelo Lima. Você não quer analisar factos, quer julgar pessoas e tomar partido contra algumas. Faz isso à revelia dos factos conhecidos, que você põe em dúvida selectivamente e quando lhe apetece. Divirta-se! Mas desconfio que vai ter mais surpresas. Por mim esta conversa perdeu o interesse.

  31. O Júlio sabe tudo sobre as diferentes bófias brasileiras, assunto sobre o qual confesso os meus conhecimentos limitados, não deixando de saber, porém, que a Candelária não foi caso isolado, que polícias corruptos, mafiosos e/ou simplesmente bandidos existem em todas as polícias brasileiras e que o “fabrico” de heróis à la Filipe (ou Felipe) Ettore é coisa de rotina dos dois lados do Atlântico. Cá não temos o Filipe Ettore mas temos o Gonçalo Amaral, ex-polícia reciclado em “escritor” que terá por certo desvendado inúmeros crimes excepto talvez, por azar, aqueles que o tornaram conhecido, condenado por falso depoimento num caso de tortura a uma mulher acusada de ter matado a filha e grande herói mediático com lugar cativo em tudo quanto é talk-show para atrasados mentais. Diga-se, aliás, que polícias “escritores” temos cardumes inteiros, tal como cardumes temos de polícias “jornalistas”, polícias “cronistas”, polícias “argumentistas” e sei lá que mais! Claro que depois os sindicatos dos ditos se queixam de que há falta de polícias “polícias”, mas quem é que liga a pormenores desses?
    Ingrediente necessário e suficiente para o fabrico de tais heróis policiais é a existência de jornalistas (ou “jornalistas”) que, lá como cá, precisam deles como de pão para a boca, mercenários acéfalos que, para encher o espaço que o editor lhes atribui, dependem dos faits-divers muitas vezes fantasiosos e intriguistas que polícias e magistrados com agendas próprias lhes sopram por debaixo da mesa. Eles sabem bem de mais que, no dia em que se lembrem de pôr minimamente em causa o que a “fonte” lhes soprou e apresentem a “notícia” com dois miligramas de reserva (mesmo que percebam que se trata de um autêntico disparate ou uma refinada aldrabice), a dita “fonte” seca enquanto o Diabo esfrega um olho e terão de esfolar o triplo a multiplicar por dez se quiserem ter assunto sobre o qual escrever! E o que falta por aí é jornalistas “disponíveis”, “maleáveis” e de espírito “aberto” para preencher as vagas dos que se atrevam a sonhar que têm espinha! Já viu um ninho com pardalitos recém-nascidos, de pescoço esticado e bico aberto, à espera da minhoca que a mãe pardoca lhes traz? Pode crer que é a imagem que me ocorre com a maior parte do “jornalismo” que nos coube em sorte. Por isso, tal como no Brasil, também por cá temos fartura de panegíricos jornalísticos sobre “superpolícias”, “superjuízes” e mais uma carrada de outros super uma porra qualquer, criaturas de currículos heróicos e imaculados cujas gestas enchem páginas e fazem ejacular idiotas, pela pena de gente que de jornalismo de investigação sabe tanto como eu continuo sem saber a cor das cuecas do oráculo de Boliqueime! Não sabem, não querem saber e têm raiva a quem sabe, o que se vê pelo modo como odeiam e ajudam a queimar os poucos de entre eles que se podem considerar jornalistas de investigação a sério, marginalizados, vilipendiados, ostracizados, até mesmo “desterrados”! E é esse jornalismo, o de cá e o de lá, que forma as certezas que o Júlio acredita serem resultado de uma informação séria.
    Você não tem dúvidas sobre a culpabilidade do Duarte Lima. Eu até gostaria de não ter, mas tenho, e, por mais simpático, cool e mainstream que isso me pudesse tornar perante a “onda” justiceira que nos afoga em jornais e televisões, a consciência não me permite alinhar no aplauso ao auto-de-fé. É claro que continuo aberto a que me provem que estou errado. Se isso acontecer, a única coisa que me vai chatear é o facto de me ter enganado tão redondamente, pois para o Duarte Lima estou-me nas tintas. Agora o que sem dúvida tem uma certa graça é essa sua tirada em que me imagina “desesperado com a questão dos radares”. Calcule que nem vou dormir esta noite, desesperado como estou!
    Quanto à Olímpia Feteira, apesar de o pai a classificar como “víbora” e de ser uma criatura demasiado desagradável para o meu gosto, de uma impiedade que chega a ser obscena, também não me parece que tenha tido nada a ver com a morte de Rosalina Ribeiro, apesar do óbvio prazer que o facto lhe provocou. Como ela disse, ao que julgo bem, o reconhecimento, por um tribunal português, da união de facto de Rosalina com Tomé Feteira prejudicaria apenas os herdeiros da mulher legítima deste, uma senhora chamada Adelaide, mantendo inalterada a parte de Olímpia. Eu, se fosse polícia, era nesse “lote” que ia procurar, mas não descuraria mais investigações sobre a questão do negócio de exploração de areias em Maricá e um eventual contencioso com isso relacionado.

  32. Joaquim, polícia para você é “bófia” e é suspeita. Os seus juízos por atacado sobre a polícia e os polícias, de cá e de lá, mostram que tem visível alergia a essa corporação e que está sempre pronto a imaginá-la a delinquir e a conspirar, de mão dadas, aliás, com outra corporação, a dos jornalistas, que você também despreza por atacado, cá e lá, com poucas excepções. Não discuto com quem pensa assim.

    A “onda justiceira” de que você fala, em relação com o suspeito Duarte Lima, para já não falar da ridícula expressão auto-da-fé, totalmente desadequada neste caso, são outros erros de percepção seus, outros enviezamentos curiosos de uma capacidade de ajuizar com isenção que me parece afectada.

    Já tinha posto ponto final nesta conversa, volto a fazê-lo. Nem me dou ao trabalho de rebater o que você diz sobre o que eu acho e o que eu penso. Não vale a pena.

  33. Júlio, você é que alardeou uma familiaridade com todas as divisões e divisõezinhas das polícias brasileiras que parecia até querer sugerir intimidade, e o entusiasmo implícito quase me levou a imaginar super-heróis à prova de tudo e mais alguma coisa, capas esvoaçando, donzelas salvas in extremis, vilões borrados de medo.
    Confesso a minha aversão pelos bófias, mas creia que é compensada quanto baste pela consideração e admiração que tenho pelos polícias sérios e a sério, dignos desse nome, que também existem. São, infelizmente, bastante menos do que o desejável. Das poucas vezes em que precisei de um, saiu-me geralmente um bófia, sempre com a mesma desculpa: “O que é que o senhor quer que eu faça? Temos falta de pessoal.” É como diz o Marinho Pinto: esquadras superlotadas de polícias durante o dia, polindo paredes e cadeiras com suas magníficas bundas, e quando são precisos para aquilo para que são pagos, por mim e por si… estão no vale dos lençóis, recuperando forças para mais uma jornada de polimento.
    Quanto a autos-de-fé, os actuais só diferem dos promovidos pelo Santo Ofício na ausência formal de corpos queimados, pois o espírito que anima e entusiasma a assistência, a que chamei “onda justiceira”, é igual. O que é preciso é espectáculo!
    Por último, os jornalistas. Trabalhei num jornal durante 35 anos, 27 como revisor e sete como jornalista copy desk. Tive o privilégio de trabalhar com bons jornalistas, óptimos jornalistas e jornalistas excepcionais, tenho como amigos a maior parte deles e conheço bem as limitações a que são sujeitos e os milagres que apesar disso conseguem!
    Mas conheço também os outros, os que envergonham a profissão, que cada vez mais são multidão e me dão vómitos: os comodistas, os acéfalos, os mercenários que pululam nos correios da manha, os que fazem fretes aos variados poderes, os que obedecem a agendas pessoais de odiozinhos obscenos e perseguem as suas vítimas com os truques mais vis e desleais que imaginar se possa, à la guedes! Desprezo “jornalistas”, orgulho-me dos jornalistas que conseguem continuar a sê-lo! Como pode ver, o seu “tiro” saiu ao lado.
    É dos poderes fácticos que atrás refiro, nomeadamente aqueles de que fala o Marinho Pinto, que não gosto, especialistas que se tornaram em açambarcar lugares ao sol para as suas corporaçõezinhas, projectando egoisticamente sombras que nos trazem a todos pálidos como nórdicos em início de férias.
    Resta-me dizer-lhe que, apesar de como copy desk o meu trabalho ser em grande medida coincidente com o de revisor, que me orgulho de ter sido, também assinei trabalhos como jornalista, com carteira profissional actualizada. Resultaram todos eles, porém, de iniciativa e investigação própria, trabalhosa e demorada, e fizeram aquilo que em princípio é suposto o jornalismo fazer: apontar problemas e incomodar intocáveis. Pode crer que me orgulho deles.

  34. É isso mesmo caro Joaquim Camacho – os jornais verdadeiros existem para dizer aquilo que o Estado não deseja que seja dito.

  35. Caro jcfrancisco, receio que “jornais verdadeiros” seja uma designação um tanto desactualizada, tantos os condicionalismos que os afectam e lhes distorcem o que ainda possam ter de “alma” própria, se assim se lhe pode chamar. Mais que de “jornais verdadeiros”, eu prefiro honrar os “verdadeiros jornalistas” que ainda existem e vão valorizando pontualmente, com a sua própria alma, os jornais em que trabalham, mas olhe que não têm tarefa fácil. Reformado mas não “desligado”, continuo a orgulhar-me deles, mesmo dos que não conheço pessoalmente.
    Não são apenas os bons jornalistas, porém, que enriquecem os jornais. No meu jornal de toda a vida conheci gente de altíssima qualidade, da Direcção à Tipografia, do Centro de Documentação à Redacção, e na Revisão, escola de rigor onde me orgulho de ter “estudado” e conhecido os melhores do ramo, trabalhei com um que o meu amigo referiu há alguns meses aqui no Aspirina, o poeta Fernando Pinto Ribeiro. Tínhamos por vezes discussões animadas, ele numa fase eme-erre-pum-pum avessa a derivas heterodoxas, eu esquerdelho indiferenciado e avesso a ortodoxias clubísticas, mas foram tempos entusiasmantes, vivos que nos sentíamos todos, desejando, mais do que imaginando, futuros radiosos que afinal nunca haveriam de chegar.
    Nunca mais o vi, só aqui soube que tinha morrido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.