“É um prazer lembrarem-se do meu nome.”

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Foi assim que o novo Camões respondeu aos jornalistas aquando da notícia do Prémio. Há que reconhecer todos os prémios como justos, inquestionáveis. Como este. Porque consistem nessa operação que Lobo Antunes sintetizou com raro a-propósito. Alguém se lembra de um nome. É só isto. Mas isso tem o reverso. Aquilo de alguém se esquecer de todos os outros nomes. Levando a supor que um prémio é ocasião de dor, desprazer. Para quem foi esquecido. Eis porque me parece grave a resposta de Lobo Antunes, por ser obscena. Por ele se mostrar tão nu.

8 thoughts on ““É um prazer lembrarem-se do meu nome.””

  1. Valupi,

    Era inevitável. Estava na vez de um português levar com o Camões. E o Antunes – celebridade mundial, e talvez um nobelizável definitivo – estava a merecê-lo.

    Mas nada disto me toca. Não compreendo nada da fama dele. Escreveu há muito dois bons livros – «Explicação dos Pássaros» e «Manual dos Inquisidores» – e passou a enganar o pagode.

    Quando o Saramago teve o Nobel, pude aparecer convicto, e mesmo entusiasmado, na TV holandesa, onde me deram dez minutos valentes. Isto, apesar das reservas que também Saramago me inspira.

    Mas não sei com que cara eu apareceria num qualquer Outubro em que caísse a sorte ao Antunes. Mais simples: não apareceria de todo. O que, vendo bem, sempre é um descanso.

  2. Fernando,

    Sem querer ser também obsceno, ou descaradamente a mentir na oração anterior, poderás revelar um bocadinho em que consiste o engano ao pagode? É que agora há a costumeira romaria dos elogios da praxe e das declarações inanes – como a de Gonçalo M. Tavares, por exemplo, que falou de “intensidade emocional e literária” das crónicas… – sendo que o desacordo só pode ser salutar. E não há melhor ocasião do que esta.

  3. Valupi,

    Numa coisa o desacordo é mínimo: como cronista, Lobo Antunes poderia considerar-se dos melhores entre nós. Único problema: o maneirismo actual do escritor, que acabou por contaminar o que tinha de melhor, as suas crónicas.

    Estou à vontade para dizê-lo: tentei como pude conseguir autorização de L.A. para o incluir de uma crónica sua na minha Antologia do Círculo de Leitores (que brevemente terá edição noutra editora, a Âncora). Não consegui, o senhor não dá licença para que o antologiem.

    Já o romancista é menos entusiasmante. Começou varrendo com estardalhaço a feira, o que foi bonito (escrevi sobre isto o texto «O jovem príncipe», encontrável em Maquinações e Bons Sentimentos, Campo das Letras), mas poucos da vintena de romances me convenceram. O Manual dos Inquisidores, de 1996, foi o último romance seu que li com prazer. Muito, mesmo.

    O homem não é parvo. Mas tornou-se inacessível à crítica, mesmo às simples reservas. E uma corte de incensadores também tapa muita coisa.

  4. Fernando,

    Muito obrigado. Sem dúvida, o narcisismo parece já mais denso do que a inspiração, massa gravítica que prende a luz.

    Mas, não será sempre assim? E, não será destino de todos os escritores? Absorvente mester de escrever. Perigoso.

  5. Valupi,

    O desmesurado contentamento de si é, de facto, o poço onde caem muitos escritores – e muitos artistas em geral… Arquitectos, dançarinos, bloguistas.

    Não há – suponho que não há – modo de evitá-lo, de evitar-no-lo. É uma doença degenerativa, que ataca sem apelo. E a vítima há-de achar-se, até, imensamente humilde…

    Explicou-me um fisioterapeuta que uma velhinha toda curvada está intimamente convencida de que anda direita!

  6. Há muitos anos descobri Lobo Antunes. Foi de um prazer sem limites a sua leitura. Combati por ele com modestas armas no tempo, já tão longínquo, em que a crítica erudita pouco lhe ligava. Deixei-o. Não estou arrependido. O seu narcisismo, encapotado de desprendimento, incomoda-me. A sua actual prosa, supostamente inovadora, enjoa e perturba. Não vou voltar aos seus antigos livros. Não se deve voltar a um local onde se foi feliz.

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