41 thoughts on “Estes muçulmanos são tramados: não respeitam a liberdade de expressão!”

  1. Semi-offtopic: é impressão minha ou a aspirina ainda não dedicou um post à questão dos cartoons?

    Comentário de: cordobes | fevereiro 2, 2006 03:43 PM

    Suponho que seja isto. Sintomático…

  2. A Igreja pode ter esperneado,mas o Godard não foi condenado à morte,nem houve boicote aos produtos franceses,nem embaixadores chamados ao Vaticano.

    A comparação é pifia.

  3. Valupi,
    Folgo ver-te recuperado da constipação.
    É de facto uma diversão, todos os fundamentalistas é que se ofendem muito.
    Eu como tenho mais de cinco anos de idade lembro-me do Mustafa Cruz Abecassis querer proibir o filme e das ameaças aos espectadores.

  4. Valupi,
    E deixa-me dizer-te que o filme era muito contido: não chegavam a representar Deus, nosso senhor, vestido de homem bomba.

  5. Obrigado, Nuno. Já sei que perdi uma festa brava.

    As diatribes do Abecassis, como bem te lembras, eram patéticas. Aliás, no dito “Ocidente cristão” sempre foi prática moderna (e antiga…) o uso do imaginário sacro para tudo e mais alguma coisa, incluindo a venda de castanhas assadas (que as cozidas não vendem). O nosso Jesus é um bacano e gosta da cultura Pop, há que lhe fazer essa justiça.

  6. Valupi,
    Irrita-me que tenhas alguma razão, mas estás a esquecer umas tantas fogueiras, antigas e algumas relativamente recentes.Ainda devemos aos árabes muçulmanos terem salvo a cultura clássica e a ciência da inquisição, mas tirando tudo isso, estou de acordo: Jesus é Pop!

  7. Eh pá, isso já foi há tanto tempo. Imaginemos alguma patifaria mais moderna: por exemplo, se um cartoonista se lembrasse de pôr um preservativo no nariz de Jesus, ou mesmo, sei lá, do Papa. Aconteceria alguma coisa?

  8. Meu caro Nuno, estás a querer ir buscar artilharia pesada para matar a mosca da fruta. A Inquisição é tanto uma expressão do catolicismo, ou do cristianismo se quisermos ser odiosos, como os “gulagui” o serão do comunismo, ou da Esquerda se quisermos ser asininos. Por essa via não há pensamento.

    Devemos muito aos árabes, como os árabes nos devem muito a nós. O que não devemos é capitular perante um bando de loucos só porque se reclamam muçulmanos, sejam árabes ou não.

    E só mais uma coisinha: o espírito científico nasceu no Ocidente, também por causa do cristianismo e do judaísmo. Eis algo que é sempre bom relembrar.

  9. Diz um: Jesus é pop; responde o outro: sim, estou de acordo, Jesus é pop. Quando é que esta malta pára de dizer disparates e de concordar só porque tem muita piada? De facto, Jesus não tem nada de pop, porque já se matou mais em nome dele que no nome de qualquer outro profeta de cinco estrelas. E não só no nome dele. De quem são palavras como estas: “Eu não vim aqui para lhes trazer paz; vim aqui para lhes trazer uma espada!”. E é isso o que os crsitãos obedientes têm feito, de Constantino a Napoleão, passando por Ricardo Coração de Leão e presidentes devotos da nação americana. Deixemo-nos de cantigas, há mais abundância de “loucos” neste lado

  10. Eu também estranhei que ainda ninguém por aqui tivesse pegado no topic. Nem que fosse com pinças, como este post. (No porto, um grupo de freiras preparava-se para uma manif contra o filme, leu-se no jornal, o que originou a organização de uma contramanif entre os punx do Rodrigues de Freitas. Se bem me lembro, elas não apareceram)

  11. Valupi,
    Nem os gulags, nem a inquisição têm pai incognito.
    Eu não pretendo perdoar fundamentalistas dos dois lados da religião: são todos uma praga!
    Isso da ciência ser uma criação exclusivamente Ocidental está um pouco simplificado. Desde os teus números, até à História, há tantos exemplos diversos. Talvez a gente conheça mais a nossa história que a deles, não é?

  12. Nuno, estamos naquela época em que todos conhecemos a história de todos. E assim como um alfabeto não faz uma literatura, um sistema numérico não faz uma equação.

    A ciência (isto é, a leitura matemática dessacralizada do real com recurso exclusivo ao fundamento humano) é ocidental. Ponto final, parágrafo, fecha o livro. Mas este facto não escamoteia a história da ciência como drama epistemológico que se confunde com a actividade racional da espécie; e que, portanto, se perde na escuridão dos tempos e é uma dimensão transversal às culturas.

    O curioso, como saberás, é que no paradigma mitológico judaico (logo, também na mitologia cristã) está inscrito um dos factores que irão suscitar o advento da ciência empírica e agnóstica.

  13. fil, só para te reordar que caricaturar o Papa será o mesmo que caricaturar um lider religioso islâmico, não o Maomé. Se encontrares, por exemplo, um cartoon de Jesus Cristo a abusar de criancinhas (a propósito dos casos de pedofilia envolvendo padres católico norte-americanos) aí terás encontrado o paralelo.

  14. Tens razão Daniel, mas a verdade é que MAomé casou com uma miúda de 7 aninhos e Jesus, ao que se saiba, não. Portanto, os cartoons da pedofilia assentam melhor ao profeta. De qualquer forma é triste ver gente a branquear constantemente as atrocidades dos radicais muçulmanos contrapondo com atrocidades dos radicais cristãos ou judeus (a maior parte delas cometidas já há uns anitos valentes). No fundo mostra, não boa-vontade em relação aos muçulmanos, mas sim má vontade em relação a judeus e cristãos.

  15. O Nuno tem toda a razão, lembro-me perfeitamente como se fosse hoje. Na altura do filme, vários sacerdotes cristãos decretaram penas de morte contra o realizador e o produtor do filme. Foram queimadas bandeiras francesas, os produtos franceses foram boicotados, a bandeira de França foi colocada como tapete, alguns manifestantes foram para as embaixadas francesas pintar as paredes e disparar tiros contra as embaixadas.
    Camarada Nuno, pá, obrigado por me lembrares esses tempos de terror. Não se podia viver em França sem pensar que a qualquer momento um qualquer fundamentalista católico se faria explodir no meio de vítimas inocentes. Se não fossem visionários como tu, ainda nos arriscávamos a ter a história reescrita. Safa!

  16. Francisco, eu não abri a bouca sobre os judeus. De resto, deves falar das atrocidades de “alguns” muçulmanos. É que é na generalização, necessariamente racista, que está o ponto.

  17. Eu não disse que falas sobre os judeus mas, normalmente, o pessoal que opina mete, de um lado, os judeus e os cristãos e do outro os muçulmanos. E o meu comentário referia-se sobretudo ao post. A questão da pedofilia foi mais agit-prop. Para além disso eu não generalizei: eu refiro explicitamente os “radicais muçulmanos” e os “radicais cristãos e judeus”. Isto é, falo apenas dos “radicais” e não de toda uma comunidade de crentes. E a generalização, neste caso (existem muçulmanos brancos ou cristãos negros, por ex.), não é racista mas sim etnocentrica. Um abraço

  18. Aliás, Daniel, lembro-me de um post teu no saudoso Barnabé – o do kit da páscoa- com muito sentido de humor e que, para além dos comentários dos cromos do costume, não levou à tua prisão e tortura pela inquisição. Ou ao boicote dos produtos Barnabé. ;-) Abraço

  19. Tudo o que é racionalizável pode e deve ser discutido, incluindo princípios teológicos das várias religiões. Não o que não é racionalizável e da ordem do sobranatural, como os deuses. Aí entramos no domínio do sagrado e não há nada para criticar. Apenas para blasfemar.
    Assim nenhum muçulmano leva a mal que se discuta o porte do véu ou o jejum do Ramadam. Mas não admite (e muito bem) que se insulte Allah e o Profeta… Os deuses estão para lá da crítica. São objecto de fé e nesse aspecto todos são iguais e dignos de protecção contra blasfémias. Aí não há liberdade de expressão. Ponto de vista ecumenista, é claro… Todos, sem excepção. Será admissível que alguém (mesmo se for ateu) possa considerar públicamente Cristo um terrorista ? Não será legítima defesa abater o energúmeno que ouse vomitar tal enormidade ? Não será considerar Cristo um terrorista, um pedófilo, ou um sodomizado por um cão, uma baixeza merecedora do pior dos castigos ? O facto de no ocidente haver uma ralé anómica, sem moral nem boas maneiras que julga tudo se permitir, não faz prescrever as normas universais que proibem blasfémias (para mais gratuitas) contra divindades…

  20. Disparates do ignorante Curate:

    Afirma ele que Maomé seria pedófilo, pelo facto de ter casado com Aicha de 7 anos. Ora, não tinha 7, mas nove, primeiro ponto. Segundo, e mais importante, na tradição semita (consultar a Bíblia) os casamentos podiam ser aprazados na infância dos nubentes (tal como entre nós na Idade Média, a começar pelos reis…), MAS SÓ ERAM CONSUMADOS APÓS A PUBERDADE, isto é para as mulheres a partir dos 12/13 anos… Logo, Maomé era tão “pedófilo” como todos os homens do seu tempo e muito depois dele. Seria triste que a ignorância e anti-semitismo primários do meu amigo lhe custassem a vida se tivesse a infelicidade de repetir essa blasfémia miserável (porque Maomé é um profeta, melhor, O Profeta, para 1500 milhões de pessoas) em frente de muçulmanos…

    E defender que a liberdade de expressão implica a libertinagem de ofender divindades e profetas é ser tão grunho e primata como Bush…

  21. Ó euroliberal se me queres chamar alguma coisa não te escondas atrás de um pseudónimo. és muito “linguarudo” escondidinho no teu cafofo. Um cobardolas, na realidade.
    p.s. De qualquer maneira não vejo grande diferença de 7 para 9 anos…

  22. Caro MigPT,
    Tens graça. Pelo que se vê nos Estados Unidos, com os fundamentalistas cristãos, só não matam porque ainda não podem.

    Valupi,
    Gosto particularmente do: “Ponto final, parágrafo, fecha o livro”, parece-me devidamente católico. Acho que te esqueces que o Renascimento que criou a ciência Ocidental, foi precedido de um regresso aos clássicos, apenas possível porque os árabes os tinham salvo dos santos padres medievais. A tua história das matemáticas está um pouco pobre, os arábes não inventaram só a numeração.
    Mas adiante, o que queria recordar, parece com sucesso, devido à quantidade de gente que salivou, foi que os fundamentalismos se alimentam uns aos outros, e que é fácil falar dos árabes e demonizá-los, mas que isso não resolve esta escalada cega. Eu que sou ateu, estou-me perfeitamente a borrifar se desenham o Maomé, o Cristo e o Benedito a fazer sexo em grupo, infelizmente a vossa intolerância e ruído de fundo, incomoda a minha sesta e, nos sonhos enquanto ressono, vejo o planeta a rebentar, mas isso sou eu que comi feijão na véspera…

  23. Não sou nem sequer uma diletante em História, mas foram os Árabes que salvaram a ciência da Inquisição? Estava convencida que nessa altura do campeonato os luteranos, os calvinistas…tinham dado uma ajudinha preciosa à ciência. Lendo o Amin Malouf, pareceu-me que a decadência dos povos islâmicos já tinha começado.

  24. Caro Nuno,

    Gosto sempre muito de ver esta vossa típica reacção pavloniana. Quando não sabem como argumentar atiram sempre com os americanos para a frente. Está à vista de todos que um perigoso Mórmon Americano, ou os Helderes fanáticos que nos chateiam às portas, com as suas camisinhas brancas e gravatinha são tão perigosos como um tipo que realmente acredita que se se rebentar junto aos infiéis vai para o céu onde tem 70 virgens à espera.
    Pois caríssimo, acho que você está coberto de razão. Está mesmo na cara que é tão perigoso blasfemar contra Maomé em plena Cijordânia como contra Jeová em plena Virgínia. Aliás, os últimos acontecimentos só provam isso.

  25. Caro MigPT,
    Não diminua por favor o número das virgens. Tem toda razão, é em Vila Franca de Xira que ensinam o criacionismo como matéria obrigatória. Atentados contra clínicas de aborto, só em Badajoz. Pressões contra programas, filmes; maiorias morais a atacarem quem pensa diferente deles, só mesmo em Serpa.
    Eu resolveria expeditamente o problema dos fundamentalismos cristão e muçulmano: acho que o programa de desminagem de Angola está a precisar malta que saiba correr.

  26. Aretha Franklin – Respect Lyrics

    (ooh) What you want
    (ooh) Baby, I got
    (ooh) What you need
    (ooh) Do you know I got it?
    (ooh) All I’m askin’
    (ooh) Is for a little respect when you come home (just a little bit)
    Hey baby (just a little bit) when you get home
    (just a little bit) mister (just a little bit)

    I ain’t gonna do you wrong while you’re gone
    Ain’t gonna do you wrong (ooh) ‘cause I don’t wanna (ooh)
    All I’m askin’ (ooh)
    Is for a little respect when you come home (just a little bit)
    Baby (just a little bit) when you get home (just a little bit)
    Yeah (just a little bit)

    I’m about to give you all of my money
    And all I’m askin’ in return, honey
    Is to give me my profits
    When you get home (just a, just a, just a, just a)
    Yeah baby (just a, just a, just a, just a)
    When you get home (just a little bit)
    Yeah (just a little bit)

    Ooo, your kisses (ooh)
    Sweeter than honey (ooh)
    And guess what? (ooh)
    So is my money (ooh)
    All I want you to do (ooh) for me
    Is give it to me when you get home (re, re, re ,re)
    Yeah baby (re, re, re ,re)
    Whip it to me (respect, just a little bit)
    When you get home, now (just a little bit)

    R-E-S-P-E-C-T
    Find out what it means to me
    R-E-S-P-E-C-T
    Take care, TCB

    Oh (sock it to me, sock it to me,
    sock it to me, sock it to me)
    A little respect (sock it to me, sock it to me,
    sock it to me, sock it to me)
    Whoa, babe (just a little bit)
    A little respect (just a little bit)
    I get tired (just a little bit)
    Keep on tryin’ (just a little bit)
    You’re runnin’ out of foolin’ (just a little bit)
    And I ain’t lyin’ (just a little bit)
    (re, re, re, re) ‘spect
    When you come home (re, re, re ,re)
    Or you might walk in (respect, just a little bit)
    And find out I’m gone (just a little bit)
    I got to have (just a little bit)
    A little respect (just a little bit)

  27. Nuno, por razões do foro da teodiceia, não estou autorizado a discutir as origens do Renascimento com ateus gaseados.

    Perdoa-me ou absolve-me. (é opcional)

  28. Valupi,
    Deves querer dizer ateu esgazeado. Mas como tu sabes,e para ser mais preciso vou citar Ricoueur:”Só tem o direito a falar em teodicéia quando:a)o enunciado do problema do Mal repousa sob proposições qu visam a univocidade; é o caso das três asserções geralmente consideradas: Deus é todo-poderoso; a sua bondade é infinita; o mal existe;
    b)o fim da argumentação é claramente apologético: Deus não é responsável pelo Mal; c) os meios empregados devem satisfazer a lógica da não-contradição e da totalização sistemática.”(Paul Ricoueur,”O MAL, Desafio à Filosofia e Teologia”, Papirus, Campinas, 1988, pag 35).
    No entanto, num Mundo em que Deus manda é fácil acreditar no Diabo, difícil é continuar a pensar na bondade universal.
    Se o Diabo não fosse inventado, tinhamos que desistir de Deus. Estariamos de acordo com Diderot quando comentou a crueldade de Deus: “Com pai assim, mais valia ser órfão”.
    O Mal existe. A sua, aparente, irracionalidade sempre foi um mistério. Numa conhecida passagem do romance ”Irmãos Karamazov”, de Dostoievski, Ivan explica a Aliocha o que é o mal: “Imagina uma mãe assustada com o seu filho nos braços, rodeada de invasores turcos. Eles planearam uma diversão: acariciam a criança, riem para fazê-lo rir. Conseguem-no, a criança ri. Nesse momento, um turco aponta uma pistola de quatro polegadas à cara da criança. A criança ri feliz, estende as suas mãozinhas para a pistola e o turco dispara para a cara da criança e rebenta-lhe o cérebro. Artístico, não é? (…). Penso que o Diabo não existe, mas o homem criou-o, criou-o à sua imagem e semelhança”.

    O artista MC Escher é autor de várias gravuras que funcionam como quebra-cabeças. Uma das mais conhecidas é a de uma casa em que há escadarias que simultaneamente nos fazem subir e descer, na mesma direcção e sentido, dependendo da forma como as observamos. Escher destrói outros ícones na sua obra de 1921 chamada “O bode expiatório”. Aí, aparecem Deus e Demónio como dois lados de um espelho.
    Deus e o Diabo são faces da mesma moeda: um não existiria sem o outro.
    A história da nossa tomada de consciência em relação ao mal é a história da relação de uma santíssima trindade: Deus, o Diabo e o Mal.
    Na maior parte das religiões politeístas, o mal é uma questão familiar, uma espécie de Seinfeld com super poderes.
    Os deuses, na maior parte das vezes, são iguais aos humanos. Por vezes fazem o mal, outras vezes abstêm-se de o praticar. Nenhum é totalmente bom, nenhum é inteiramente mau.
    A construção de uma religião monoteísta coloca outros problemas. O início e a vida estão subordinados a uma única entidade.
    Na religião hebraica, o Deus dos judeus é simultâneamente responsável pelo bem e pelo mal.
    O Deus dos judeus é uma divindade guerreira, que proclama com orgulho: “Eu é que formo a luz e crio as trevas, que faço a paz e crio o mal; eu sou o senhor que faço todas as coisas” (Isaias: 45, 7).
    O Deus do Antigo Testamento é, aliás, particularmente implicativo e intriguista. Não só castiga com grande violência os inimigos do povo de Israel, como tem alguns acessos de prepotência contra os fiéis.
    Exemplo desse comportamento é quando Deus pede a David para que recenseie o povo de Israel, fazendo-o violar uma proibição anterior sua. Tudo no intuito de ter uma justificação para mandar castigar o seu povo. O resultado desta “justiça divina” é expedito: “Mandou o senhor a peste para Israel, desde manhã até ao tempo assinalado e morreram do povo, desde Dan até Bersabée, setenta mil homens”.
    E tendo estendido o anjo do Senhor a sua mão para Jerusalém para a destruir, o Senhor se compadeceu da sua aflição e disse ao anjo exterminador do povo: basta, detém a tua mão” (II Samuel: 24, 15-16).
    Aqui os anjos exterminadores não aparecem como seres independentes, mas como serviçais de Deus.
    O mesmo acontece noutra célebre passagem do Antigo Testamento, o “Livro de Job”, em que Satanás surge como membro do Conselho Celestial a aconselhar Deus sobre o seu subdito Job. Satanás que significa aproximadamente “o adversário”, é uma espécie de acusador do céu. Faz o papel de um Cunha Rodrigues (escrevi este texto antes do Gato Constipado) que se mantivesse mais um pedaço de eternidade no cargo. As desventuras de Job começam num encontro de trabalho de Deus com os seus.
    “Mas um certo dia, como os filhos de Deus se tivessem apresentado diante do Senhor, achou-se também entre eles Satanás.
    E o Senhor perguntou-lhe, de onde vens tu? Ele respondeu, dizendo, girei a terra e andeia-a toda. E o Senhor disse-lhe: acaso consideraste tu o meu servo Job, que não há semelhante a ele na terra, varão sincero que teme a Deus e que se afasta do mal?” (Job:1,6-8).
    Satanás responde que a vida de Job tem tantas benesses do Senhor, que tem dúvidas que Job tema e respeite Deus.
    O que leva a que Deus, invertendo o ónus da prova, dê ordem a Satanás para tornar a vida de Job insuportável, a fim de experimentar Job.
    A história é exemplar a vários títulos. Satanás aparece claramente como um “filho de Deus” (Bene ha-eloim), membro da “corte celestial” e colaborador expedito do Senhor. Mais importante, a história de Job é uma das primeiras tentativas para perceber os males sofridos por toda a humanidade: a doença, a dor, os acidentes, a desgraça, etc. E as conclusões são claras: os desígnios do Senhor são insondáveis e o sofrimento é dado aos humanos independentemente do seu comportamento. A “justiça Divina” depende da paciência , da compreensão e da resignação perante a condição humana.

    As desventuras do povo de Israel vão alterar este tipo de compreensão. A destruição da Nação, o exílio, a escravidão e o cortejo de misérias que se seguiram vão abrir o passo a uma literatura religiosa de características apocalípticas. O “povo eleito” só entende a ausência do favor de Deus se isso for passageiro e tiver outros responsáveis. Nos escritos Apocalípticos a salvação surge depois de uma derradeira batalha contra as forças do Mal e pressupõe um processo prévio de separação de águas entre o Mal e Deus. Este caminho faz-se dando autonomia ao Diabo.
    A solução escolhida vai incorporar na religião de Israel influências de outras tradições em que o mal aparece como um princípio independente do bem. É facilmente visível a influência da religião do Zoroastro, em que a um Deus bom, Ahura Mazda, se opõe um Deus mau, Ahriman, que simbolicamente é representado por uma serpente e acompanhado por sete arqui-demónios: o erro, a heresia, a anarquia, a discórdia, a presunção, a fome e a sede.
    Os textos apocalípticos vão explicar como é que os “filhos de Deus” se vão tornar seres maléficos gozando de livre arbítrio.
    Estas histórias vão ter grande repercursão, embora sejam incorporadas de uma forma limitada no cânone bíblico. O “Livro do Apocalipse”, no Novo Testamento e algumas passagens do Antigo são registos desta influência.
    Exemplo disso é a descrição da queda de Lucifer no “Livro de Isaías”: “Como caíste do céu, ó Lucifer, tu que ao ponto do dia tão brilhante? Como caíste por terra, tu que ferias as Nações? Que dizias no teu coração: subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima dos astros de Deus, assentar-me-ei no monte do testamento aos lados do aquilão.
    Subirei acima das alturas das nuvens, serei semelhante ao Altíssimo” (Isaías: 14, 12-14).
    É interessante ver o paralelismo da história com a lenda assíria que narra a queda de Anzu, o pássaro mensageiro dos deuses, que pretendeu derrubar o poder do Deus supremo, Enlil.
    Anzul quis erguer o seu trono acima dos deuses. “Eu tirarei as tábuas dos destinados, eu dirigirei os decretos divinos, afirmarei o meu trono serei mestre das leis”.
    Dentro desta literatura apocalíptica, são de realçar os vários livros de Enoch (Enoch Etíope e o Livro dos Segredos de Enoch, também conhecido como Enoch Eslavo) que vão falar do papel da luxúria, do conhecimento e do orgulho na queda.
    Segundo os relatos, os homens ter-se-iam apaixonado pelas mulheres humanas e dessas relações teria nascido uma raça de gigantes.
    Não contentes com isto, os anjos teriam ensinado aos homens a ciência, a astronomia e a metalurgia, que estavam até então no segredo dos deuses.
    Ao pecado do sexo, do conhecimento ter-se-ia juntado a vontade de revolta.

    A presença discreta do Diabo, nos textos mais antigos da Biblia, é substituída por uma febre diabólica no Novo Testamento. O Diabo é aí nomeado 188 vezes (62 como Demónio, 36 como Satanás, 33 como Diabo, 37 vezes como Besta, 13 como Dragão, sete como Belzebuth).
    A possessão diabólica torna-se mais frequente do que a constipação.
    No Antigo Testamento só há uma referência lateral a um exorcismo (Tobias: 6, 8), mas trata-se de uma receita mágica primitiva para afastar os maus espíritos, deixar libertar no ar o cheiro de fígado de peixe queimado. Nenhum Demónio “decente” resiste a tal perfume.
    Em compensação, no Novo Testamento, Jesus Cristo exorcisa para todos os gostos e feitios: é individual, é em grupo, às segundas, quartas, sextas, sábados e domingos.
    A terra onde aparece Cristo é uma terra povoada por demónios e tentações. Os escribas bíblicos estão obcecados por aquele a que chamam o “príncipe deste mundo”.
    Cristo e Diabo chegam a ser para alguns teólogos medievais irmãos, filhos do mesmo pai.
    De qualquer forma, a linha “oficial” da igreja permite pensar que só a existência de uma ameaça “sobre-humana” justifica que Deus envie o seu filho. Só uma pretensa origem “cósmica” do Mal jutifica a natureza divina de Cristo. Esta interpretação exige uma releitura do Antigo Testamento e do episódio do “Pecado Original”.
    A falta de Adão e Eva, ao comerem o fruto da árvore do conhecimento, deixa de ser própria, para ser resultado de uma tentação maléfica. A serpente, que no “Livro do Genesis” induz Eva a comer a maçã, tem de ser identificada com o “maligno”.
    Nenhum texto do Antigo Testamento permite esta conclusão. A única passagem das “Sagradas Escrituras” que vai permitir esta ilacção é o único texto apocalíptico que a igreja deixou entrar no cânone bíblico, o “Apocalipse de S. João o Apostolo”. Aí se diz: “E foi precipitado aquele grande dragão, aquela antiga serpente, que se chama Diabo, e Satanás que seduz todo o mundo; sim, foi precipitado na terra e precipitados os seus anjos” ( Apocalipse: 12, 9).
    Esta inflação do papel do Diabo contém o risco de tornar a religião cristã dualista. Atribuindo ao Bem e ao Mal origens sobrenaturais e a Deus e ao Diabo iguais poderes.
    A predominância do Mal num mundo que Deus comanda é uma contradição insanável.
    Deus é absolutamente bom, Deus é todo poderoso, então porque é que existe o Mal?

    Aquilo que os teólogos calam, os selvagens perguntam. É pelo menos o que acontece a Robinson Crusoe, quando depois de explicar Deus a Sexta Feira, recebe em troca algumas interrogações.
    Se o Senhor tem o poder de destruir o Diabo e quer destruí-lo, porque é que espera pelo fim do mundo?
    A forma como os teólogos superam o dualismo é complicada e engenhosa.
    No fim dos tempos o Mal será negado. Como não se pode negar o divino, isso signífica que o Mal não faz parte do divino. E dado que em última instância o divino é tudo o que existe, então o Mal não tem identidade própria. Baseando-se na Filosofia grega, os teólogos concluem que o Mal é um “não-ser”, uma simples ausência de bondade. O Mal existe no cosmo, como os buracos do queijo Gruyère. Os buracos estão aí, mas simplesmente como não-queijo contido no queijo. Não têm qualquer existência independente do queijo. Não podem sequer ser comidos à parte.
    Para Santo Agostinho – cuja metáfora usada é uma esponja, por desconhecimento do queijo Gruyère – o Mal é um não ser, e cria-se devido ao “livre arbítrio” que Deus permite à criatura criada. O Diabo era inicialmente bom, pecou por orgulho e revoltou-se contra Deus. O Senhor permite a falta ao Diabo, porque deu aos Anjos a liberdade de escolher.
    Posteriormente, o Diabo convenceu a serpente que seduziu Eva, que comeu a maçã da árvore do conhecimento do bem e do mal, permitindo aos homens terem o livro arbítrio para fazer o bem ou o mal.
    Deus permite que escolhamos o nosso lado. Para apenas salvar os seus.

    As correntes gnósticas têm outro entendimento. O nosso mundo é mau porque o Deus que o fez é mau. A proibição que Ele decretou a Adão e Eva, interditando-os de comer os frutos da árvore do conhecimento, foi uma tentativa de manter o seu poder maléfico sobre eles. O que melhor do que a ignorância para manter o primeiro casal subjugado.
    Séculos depois, os homens revoltados vão ver os anjos caídos com outros olhos. Pelo caminho passam centenas de anos de caça às bruxas e de autos de fé. Enquanto tem o poder, a igreja, dita de Cristo, vai queimando todos os que pensam diferente.
    Da arte surgem Faustos e Don Juans. Pela sabedoria e pelo sexo, os homens vão-se libertar das grilhetas da religião, nem que tenham de vender a alma ao Diabo.
    A partir do romantismo, escritores, poetas, artistas e filósofos vão dar uma outra perspectiva do Diabo. Num mundo mau, o revoltado é aquele que recusa o estado das coisas. Os anjos caídos são aqueles que tiveram a coragem de afrontar a tirânia dos céus. Nos seus “Provérbios do Inferno”, William Blake denuncia: “as prisões são feitas com as pedras da lei, os bordéis com os tijolos da religião”.
    O Deus dos ricos, aquele que vive num mundo de guerras e misérias, não é um Deus justo. Logo, não pode ser bom.
    No pensamento romântico, o Diabo torna-se uma espécie de Prometeu agrilhoado. Condenado pelos deuses por ter tomado o partido dos fracos.
    “A sua causa confunde-se com a da humanidade humilhada, sobretudo do povo, mantido em sujeição pelos representantes na terra do Deus tirano”, escrevia Max Stirner.
    A revolta de Lucifer e dos anjos ganha contornos de rebelião, não é por acaso que o anjo mais inteligente da criação tem como divisa: “Non Servian”. Não servirás, nem amos nem senhores.
    Mikhail Bakounine, filósofo anarquista, dá-lhe honras de primeiro revoltado: “Satanás é o primeiro livre pensador e salvador deste mundo. Ele liberta Adão e imprime na sua fonte a marca da humanidade e da liberdade ao fazê-lo desobedecer”.
    O próprio Karl Marx não esconde, num poema da juventude, ser seu devedor: “Os vapores infernais sobem-me ao cérebro e invadem-me até à loucura. Até que o meu coração esteja completamente mudado. Olha esta espada: O príncipe das trevas vendeu-ma.”
    A Praxis revolucionária está tão bem contida nas famosas “Teses de Feuerbach”, como no Provérbio do Inferno de William Blake que reza: “o que deseja e não age gera pestilência”.
    A guerra dos anjos revoltados contra o poder de Deus é uma guerra perdida. Mas é um grito contra a adversidade.
    Como escrevia Giambattista de Marino, no seu Satã, ”(…) e mesmo se tombarmos vencidos, ter tentado tão alto feito é ainda um triunfo…”

    Como vês, meu caro Valupi, perdoo-te

  29. Todo o fanatismo é condenável.

    Todas as religiões têm os seus fanáticos.

    Defender o primado da razão por contraponto ao primado da fé, é fazer do homem senhor do seu destino , não o acorrentando a crenças, que por muito respeitáveis são correntes que o prendem ao obscurantismo, e não o libertam para procurar conscientemente o seu rumo.

    A LIBERDADE é um bem demasiado precioso que tem de ser defendido diariamente e com toda a força.

    A liberdade de expressão é parte dessa liberdade, querer sua limitação a propósito de poder ofender crenças, é na pratica aceitar a censura.

    Nesta batalha contra o fanatismo , se verá quem quer que a humanidade avance livremente, e quem quer sujeita-la ás grilhetas obscurantistas.

  30. Depois fica toda a gente muito espantada e escandalizada quando uns aviões entram por um edifício matando milhares de pessoas. Num desses edifícios até lá podem estar os donos e responsáveis da tal comunicação dita livre e aí o dinheirinho que ganharam com as suas audiências não chega para os livrar da morte. A eles e a todos os outros do tal mundo livre. A mim custou-me ver o regozijo com que alguns árabes exibiram a sua satisfação com a queda das Torres Gémeas de Nova York. O mundo ocidental sentiu-se gozado, ficou ferido e reagiu. Com raiva também. E quando é que isto pára? Fomentando assim mais ódios, talvez nunca mais.

  31. Nuno,

    Depois deste teu giro enorme pela Bíblia e outros locais de interesse, a distribuires sandes de queijo com buracos (na minha só me calharam os buracos)noto com tristeza que não fazes a menor alusão ao papel do Diabo na filosofia da Maçonaria. Se quizeres ser democrático, vai à Internet e colhe citações do fundador da Klux e eminente maçon e general Albert Pike sobre a matéria. Depois podemos falar quando eu voltar do supermercado. Ou será que estarei a condenar esta thread a mais um fecho prematuro?

  32. Daniel,
    o link do papa era apenas para aligeirar a caixa. A comparação do “descendente de Pedro” com Jesus é tão errada neste caso, como a comparação de Maomé com Jesus, porque não só não se proíbe como se incita a amostragem da imagem do profeta, ao contrário do Islão. E o mal “lesa Islão” não são os retratos-de- Maomé-terrorista, o mal foi APENAS retratar Maomé, ponto.
    O mal seriam coisas
    como estas. Encontradas rapidamente no Google.

  33. Caro Andronicus,
    Vou seguir o conselho, até porque vamos proximamente discutir “o Mal”, a partir de um post sobre um livro que o António Figueira vai comentar, e a questão interessa-me.
    Não consigo é escrever hoje.

  34. Na minha opinião estes extremistas islâmicos têm tanta razão quanto os afáveis cristãos que metem bombas em clinicas de aborto, ou que recusam esse direito ás mulheres! O próprio governo de Washington veio a correr a dar o seu apoio aos muçulmanos ofendidos, como se dá bem Bush a atacar a liberdade de imprensa…

  35. What Would Jesus Do?: Picture this: A cartoon of Jesus, with his pants down, smiling, raping a little boy. The caption above it reads “Got Catholicism?” : I wonder if people around the world would just consider this free speech?

  36. O pensamento politicamente correcto:

    1) um jornal escreve um artigo contra os “pretos”: é processado por racismo. Não pode escrever.

    2) um jornal escreve um artigo contra os judeus: é processado por anti-semitismo. Não pode escrever.

    3) um jornal escreve um artigo insultando todos os muçulmanos através do seu Profeta: ah, aí aplica-se o principio da liberdade de imprensa. Pode escrever…

  37. Jacobinismo anti-islâmico ?

    Já pensaram os nossos colaboracionistas caseiros com o eixo busho-blairdalhoco, que os jornais dos EU e do Reino Unido não alinharam na provocação blasfema ? Então já não seguem os vossos bem amados líderes ? Logo agora que eles tem razão ? Sim, nem tudo é mau na tradição anglo-saxónica. Eles têm um conceito a que atribuem muito valor, o common sense, que julgam dever temperar todas as posições políticas. E defender “à outrance” a liberdade de expressão, sejam quais forem as ofensas e fossos daí resultantes, tem muito pouco a ver com a sabedoria anglo-saxónica. Releva antes do mais puro jacobinismo “sans culotte”. Quelle horreur !

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