Caricaturas (2)

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A ideia de que o desenvolvimento científico e tecnológico implica um desenvolvimento ético, é falsa. Como se viu há uns anos na Libéria, é possível cortar um homem aos pedaços, castrá-lo, e matá-lo e filmar tudo com uma câmara Sony, para ser visto na televisão.
As câmaras de gás e os gulags são tão modernos como os atentados do 11 de Setembro.
O nazismo, o neoliberalismo, o estalinismo e o Islão radical são todos muito modernos.
Os fundamentalistas islâmicos de vários matizes, apesar de reivindicarem o seu suposto anti-ocidentalismo, são mais filhos do Ocidente do que do Islão tradicional. A convicção que une todos os modernos é a possibilidade de moldar a humanidade e o planeta a golpes de míssil ou de explosões de bombistas suicidas.
Quando o Financial Times , de 4 de Setembro de 2002, pela pena impoluta de Martin Wolf, garantiu que “o 11 de Setembro foi perpetrado por fascistas islâmicos” tinha toda a razão: de facto, como notou John Gray, o Islão radical é como o fascismo, principalmente por ser inequivocamente moderno. O fundamentalismo é um sintoma da doença da qual pretende ser a cura.
É muito interessante verificar, como escreve Amin Maalouf no “Les identités meurtrières”, que num passado recente os islamistas eram vistos, no Médio Oriente, “como inimigos da nação árabe e muitas vezes como espiões do Ocidente”. Foi o falhanço dos projectos de modernização nos países árabes que levou à expansão do fundamentalismo islâmico. A base de expansão, desse movimento, baseou-se em muitos dos desiludidos do socialismo e do nacionalismo nasserista. É nas universidades e com as centenas de milhares de licenciados desempregados, que o islamismo radical ganha forma.
Como escreve, um tal Kosrokhavar, citado por Castells: “Quando o projecto de constituir indivíduos que participem plenamente na modernidade revela o seu absurdo na experiência real da vida quotidiana, a violência converte-se na única forma de autoafirmação de um novo sujeito (…)A exclusão da modernidade adquire um significado religioso: de este modo a auto-imolação converte-se na via para lutar contra a exclusão.” (Castells, Manuel: “ La Era de la Information, Volume II, El Poder de La Identidad”, pag 43.

42 thoughts on “Caricaturas (2)”

  1. Antes do John Gray, ja o Christopher Hitchens, com a subtileza de um bulldozer, tinha notado que o Islao radical e o novo fascismo – aquele fascismo que de facto “carries the torch”. Foi, alias, a incapacidade da maioria da esquerda em fazer essa ligacao, que levou ao pulo ideologico do Hitchens para o outro lado. O post esta bom, mas e preciso ter uma mentalidade muito especial para enumerar “neoliberalismo” na mesma frase de “nazismo”, “estalinismo” e “Islao radical”.

  2. Gostei da citação da citação do Castells. Faz-me lembrar o filme “Rasganço” de Raquel Freire, em que um excluído da comunidade estudantil tradicional (e praxista) de Coimbra começa a violar e violentar os corpos das estudantes que representam essas tradições. A lógica é semelhante.

    De resto concordo. Basta lembrar a “Revolução Islâmica” iraniana (ou seria persa?) contra o Xá que tentava modernizar o país pela força. Mais que religiosa, a revolução foi feita pelos “rejeitados do sistema” (expressão arriscada, eu sei) que acorreram ao primeiro vulto que viram. Por acaso saiu vencedor.

    Hoje em dia é fácil esquecer tudo isso quando vemos o sangue do ataque. É fácil esquecer que algo, seja lá o que for, levou a esse ataque e que esse “algo” não foi simplesmente um ódio ao mundo ocidental. É mais complexo que isso. E se os cartoons promoverem essa discussão, então a falta de talento (da maioria) daqueles autores terá servido para alguma coisa.

  3. Caro RPS,
    Limitei-me a acompanhar o John Gray que faz essa comparação. Mas você tem alguma razão, eu tenho uma sensibilidade especial:alterei ligeiramente as ideias do citado Gray, troquei a palavra “comunismo”, pela palavra “estalinismo”. Gostos.

  4. “A ideia de que o desenvolvimento científico e tecnológico implica um desenvolvimento ético, é falsa.”
    (…)
    “Foi o falhanço dos projectos de modernização nos países árabes que levou à expansão do fundamentalismo islâmico.”

    Não há aqui un contrasenso?

  5. Quando o projecto de constituir indivíduos que participem plenamente na modernidade revela o seu absurdo na experiência real da vida quotidiana, a violência converte-se na única forma de autoafirmação de um novo sujeito (…)A exclusão da modernidade adquire um significado religioso: de este modo a auto-imolação converte-se na via para lutar contra a exclusão.” (Castells, Manuel: “ La Era de la Information, Volume II, El Poder de La Identidad”, pag 43. – Nuno Ramos de Almeida.

    Estão desculpados, portanto…a culpa é da modernidade (seja o que isso for…).

  6. José Barros,
    Quer o telefone do Castells para protestar?
    Leia outra vez, acho que você é capaz de perceber.

    JCV,
    1.Não vejo sinceramente nenhuma contradição. O uso da ciência e da técnica não pressupõe nenhuma superioridade ética.
    2. O facto que as promessas do progresso nos países árabes tenham falhado proporcionou margem de crescimento ao fundamentalismo, que usa e abusa de artefactos técnicos e tem capacidade de destruir de uma forma científica.

  7. Como se a história de todas as civilizações (incluindo o Islão) não tivesse sido um choque de culturas, valores, religião, raças e influência económica… resumindo: a culpa é do ocidente e dos seus valores modernaços que inventaram todos os males do mundo (que os pobres terceiro-mundistas mais não fazem que reproduzir). Brilhante! Estamos muito mais esclarecidos!

  8. Embora os conceitos sejam distintos, o desenvolvimento da Técnica é sempre acompanhado pela modernização no seu sentido socio-político.
    Não nos agarremos às definições do dicionário.
    Vejam o caso chinês, apesar do governo fazer tudo por censurar a internet, o chineses têm aumentado a sua consciência política e capacidade contestatária.

  9. Querido Nuno, Deve ser por estares na “estranja” que fizeste essa descoberta tardia de que a modernidade (no sentido restrito de progresso tecnológico) não tem um conteúdo ético próprio, ou melhor, que há uma modernidade técnica que contraria o projecto iluminista da modernidade (não serve para “desencantar” o mundo, serve para obscurecê-lo). Peço-te desculpa, mas há muito tempo que se sabe que é assim: muito antes do Gray teorizar sobre o pós-liberalismo ou o Hitchens investigar a paternidade do Islão radical, já o Benjamin sublinhava a modernidade do fascismo. A tecnologia é axiológicamente neutra, meu caro, e pretender o contrário é um vício “cientista” que se podia entender no século XIX mas que parece ocioso repetir no século XXI (houve Auschwitz entretanto).

  10. Nuno,

    Estes gajos da direita que há vezes vêm aqui armar zaragata contigo, porque não têm nada que fazer, fariam muito melhor se te dessem um grande beijo no cú. E mereces, rapaz. Repara bem neste teu manifesto digno de ser escrito no melhor papel higiénico do Instituto Internacional da Verdade.

    Uma “pena impoluta” a escrever no Finantial (sic) Times? Chamem os bombeiros que aqui há fogo de novidade. O que a tua vista curta não alcança, porque decerto não deve agradar ao teu patrão ou mentor, porque há um, mesmo que não te apercebas, é que o fundamentalismo do Islão vem ao encontro do grande plano histórico do Ocidente manipulado pela outra grande terceira força que nem merece menção no teu anémico discurso. O Hamas, fica sabendo, como modelo, devia, na verdade e para rimar, ser chamado, Israelaz. Lê de Israelitas honestos se quizeres fazer parte do clube dos vivaços. Ou não leias e segue na esteira da mariquice da maior parte dos colunistas deste blogue que teimam em repetir as alarvices que pingam da imprensa regular dos patarecos. E, pelos vistos, os livros que tens aos pontapés lá em casa não quebram a nhurrice papagueadora da chamada esquerda informada.

    E agora até te dás ao luxo de mudares “Comunismo” em Stalinismo, porque não convem nem faz parte do programa. Se o John Gray soubesse, mandava-te prender por andares a plagiar merda à la Hitchens. Deus nosso senhor do Allah Jeohvaizado! fico parvo com a lata que tu e a Margarida demonstram quando se põem a brincar aqui na arena aos cowboys socialistas zangados. Na verdade, vocês trabalham para o monte, mas não se confessam porque se calhar nem sabem que há confissão a fazer, tal a inocência que comanda as palavras de dois militantes devotos.

    E não venhas praqui vender Al Khaedas assadas em fogareiros de Setembro. Tens tantas provas da existência da Al Khaeda como as tens dum filho que deixaste na barriga duma puta em Paris ou Amsterdam há quinze ou vinte anos.

  11. Andronicus,
    Não sabia que eras meu filho. E desculpa lá “Finantial”, filho…
    Mas toma nota que cá o pai, não está muito nesses teus hábitos mais estranhos.

  12. No entanto, hesitaria comparar de forma impetuosa o fascismo europeu com o fascismo islamico. Uma das diferenças, apenas: o fascismo europeu é, na sua essencia, uma doutrina sobre a ‘organicidade’ da relação estado-sociedade. Pode recorrer a um conjunto diverso de ideologias (os mitos de roma, o ocultismo ariano etc )para assegurar esta a fusão totalitária da sociedade-estado. O fascismo islamico é EXPLICITAMENTE RELIGIOSO. Emana de tendencias comparáveis mas essencialmente distintas. Formalmente, ambos são dogmas. Mas são dogmas diferentes, julgo eu. Além disso, não sei, sinceramente, até que ponto é que as sociedades islâmicas viveram o nosso iluminismo e contra-iluminismo(etc) Gray, com o seu livro, pretende estabelecer um paralelismo POLÉMICO e heuristico. (Gray gosta do método polémico mas, a meu ver, por vezes abdica de alguma plausibilidade filosofica e histórica para conseguir os “efeitos pretendidos.”

  13. O fundamentalismo é seguramente condenável, mas será que o Ocidente tem tido um tratamento cordial, amistoso e em pé de igualdade para com as nações islamicas?

  14. desculpe a insistencia…mas vou-me lembrando de coisas novas)

    Segundo Adorno, e outros, o fascismo não é a negação do iluminismo, da modernidade. É o seu apogeu. (aplicação paranoica da razão instrumental á organização social. Outra coisa: o papel do “transcendental” é radicalmente diferente. O fascismo europeu é imanente-empirico, baseia-se no conceito da acção colectiva. O fascismo islamico é muito mais contemplativo. Organiza a realidade de modo diferente. desculpas, se estou a ser chato.

  15. “O nazismo, o neoliberalismo, o estalinismo e o Islão radical são todos muito modernos.”

    Eu agradecia que o NRA explicasse que crimes cometeram os neo-liberais para merecerem ser elencados com tão “ilustres” ideologias. Se isto não é pura desonestidade intelectual, então o que será?

  16. Vasco Gabriel,
    São tantos que são incontáveis. Mas o autor que eu citei, não falava em crimes, mas em relação com a modernidade e a ideia comum de progresso universal.
    Mas para começo de conversa, os milhões de pessoas que morrem de fome, num planeta onde há excesso de alimentos. Já sem falar dos milhões de mortos nas guerras coloniais, provocadas pelos avôs dos neoliberais…Enfim, tinhamos uma contabilidade para muitos anos…

  17. Sr Ezequiel,

    Não nos canse mais com os seus adornos sem maldade e aproveite para dar mais estas “pistas” ao seu admirador Nuno, para sairmos da fase enjoativa do fascismo islâmico que ele tão bem apregoa, de colaboração com o Financial Times.

    Os Judeus sabem muito bem o que é o fascismo na prática e na teoria, com pasta ou sem pasta. Participaram nos governos de Mussolini e, melhor, ou pior, que isso, cinco deles foram, de acordo com os próprios registos históricos sionistas, fundadores dos famosos Fasci di Combattimento do Movimento Mussolinista.

    Tinham vários periódicos pro-fascistas e a marinha e o exercito italianos da altura estavam a abarrotar com generais e almirantes. Só havia uma porra: os sionistas parecem que não eram lá muito populares entre a comunidade.

    Agora vá ao Teodoro para ver o que é que ele diz sobre isso, e, se não disser nada, passe a palavra ao Nuno para ele nos falar sobre a caracteristica “imanente-empírica do fascismo europeu” – whatever that crap means.

  18. Vasco Gabriel,
    Deve só falar da desonestidade, que parece que pratica; a parte do intelecto deixe para quem sabe ler.

  19. Andrónicu,

    Não eram populares…mas fundaram o fasci bla bla…(detecta a contradicção???)

    O Adorno diz que você pode ir apanhar no cuzinho, com ou sem dialectica negativa.

  20. Andrónicu,

    Não eram populares…mas fundaram o fasci bla bla…(detecta a contradicção???)

    O Adorno diz que você pode ir apanhar no cuzinho, com ou sem dialectica negativa.

  21. Só uma pergunta: Essa câmara Sony foi produzida na Libéria e com tecnologia liberiana? É que se não o foi, a teoria cai por terra. Quanto a substituir “comunismo” por “estalisnismo” compreende-se. É que o comunismo também inclui o trotskismo, e depois estava à pega com esse defensor da liberdade de expressão que é o Daniel Oliveira.

  22. Senhor Zicas,

    Não vejo bla bla de contradição. É só na sua cabecinha de filosofador parlapatão que sionismo se confunde com judaismo ou com qualquer outra corrente politicamente organizada dentro do mesmo. E não recebo ordens nem sugestões de parvalhões com banha de porco na cabeça como o senhor quando me apetecer levar no cú – sob ou dispensando a influência do Adorno ou dos outros ilustres judeus da escola de Franco Forte. Vir com essa língua de puta apanhada de surpresa revela uma distinta falta de respeito pelos mortos que parece admirar. E revela também a falsidade das suas intenções e a hipocrisia que o animou quando muito deslambidamente resolveu participar nesta discussão. Auguro-lhe uma carreira brilhante em qualquer lista fascista ou sionista de junta de freguesia a norte do rio Tejo.

  23. Ó Andronicus,

    Não estou a perceber bem. Mas afinal se havia, se houve, entusiasmo de grande parte dos judeus italianos em relação ao fascismo do Duce, como é que as coisas andavam por cá no tempo do salazarismo-fascismo? Sim, porque esse periodo de 1922 a trinta e tantos, quando o antigo sargento pôs e dispôs na Italia sem preocupações anti-semíticas, também deve ter forçado o Salazar, já que o homem admirava o Mussolini, a uma aitude de condescendência e simpatia em relação aos judeus portugueses, especialmente os de massa. Um período aliás que coincide com o nascimento do partido comunista e a mania que eles tinham de atacar principalmente o Banco Espirito Santo.

    Seria porque esse banco cheirava mais a Vaticano ou seria porque o dinheiro dos outros bancos era menos sujo que o daquele? Há coisas do caraças. Ou haverá por aqui um pouco de história que não foi escrita ou simplesmente abafada? Já tinha pensado nisto muitas vezes, mas nunca disse nada com medo de ofender as margaridas em flor.

  24. Tio Tadeu,

    Não vá sem resposta. Já o farmacêutico da minha terra, um Ezequiel com problemas de sinusite, também costumava ter conversas com o meu pai a esse respeito, sentados em duas cadeirinhas mesmo por debaixo da prateleira das pomadas puxa-e-sara e poções revigorantes à base de rosmaninho para problemas de presbitia. Olhe, ainda bem que estamos a falar nisto porque me lembrei mesmo agora que tenho de comprar um ramo de flores. Mas não deixo de dizer que o Andrónicos veio levantar uma lebrona do caraças, quando toda a malta estava a soprar o siroco fascista das arábias do Financial Times. Bom, saúde é o que eu desejo e paz neste mundo das instruções primárias.

  25. Oh Tio Tadeu, essa é do caraças: descobriste então o missing link (anteriormente “abafado”, claro está) entre o fascismo, o anti-semitismo e o PCP! Brilhante! E tens pensado nisso muitas vezes, dizes tu? Porreiro! E conversas com o caralho, também tens tido? (sem ofensa, claro)

  26. Unreconstructed,

    Adorei a maneira como me despachaste. E sim, converso bastante com esse marmelo desmazelado. De facto, meu caro Unreconstructed, é o meu melhor amigo e confidente desde os cinco anos de idade. Mas não precisavas de ser tão abrupto e reforçador da tendência para má educação neste blogue. Primeiro foi o Ezequiel bíblico a mandar o pobre do Andrónicus a comer no tunel masculino do amor e agora és tu, completamente ressequido de ideias e argumentos, a falares de gajos com cabeças semelhantes aos capacetes da Wermacht. Parinho de nabos de Caneças.

    But I have one or two ideas that may – just – save you from utter ignorance and keep you abreast of the competition. The first one is advising you to stop being shy. Be brave, man, push aside any fear of flying above the squadron leaders. Then go for a long journey of adventure on the internet and find the LIGHT, the BIG ONE, that will dazzle you and cure your pathetic beliefs in infantile leftwing stories. If this is beyond your reach either because you are “un-reconstructed” or drink too many bicas with friends like you, then, I am afraid, we have to resort to extreme measures. And I cannot think of any better idea than the one involving your asking for the hand of adorable Ezequiel and marry her straight away while the hard-on has still some life and heat in it. I believe that the union of the Lusitanian Right and Left in sacred matrimony will save the political day for many like you and produce the most social-democrat baby in the world. Then go for it, make him the next prime minister and stop calling your old comrades in the party.

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