Arquivo da Categoria: Valupi

Oásis ou tendência?

A incompetência liberta traficantes de escravos — mas com a “fuga do Sócrates” se enganam os tolos
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Texto notável por se limitar a indicar evidências correlacionadas entre si com lógica acessível a maiores de 15 anos. Imita os doutos e ilustres juízes dos nossos tribunais, indo buscar os por eles tão usados critérios das “regras da experiência comum” e do “padrão do homem médio” com que despacham sentenças.

Texto notável por não temer a pulharia e os broncos que perseguem quem ouse criticar o Ministério Público — com medo que o linchamento de Sócrates não se consume numa pena eterna.

Texto notável por aparecer no âmago do editorialismo que tem sido cúmplice do tal Ministério Público incompetente e criminoso.

Ainda não foi desta

Tinha muitas expectativas para o debate de Jorge Pinto com Ventura, depois de ele ter estado bem nos debates anteriores. A minha curiosidade remetia para a esperança de ser este candidato estreante o primeiro a mostrar como se lida com Ventura. Não foi.

Jorge Pinto, pese alguma verdura atrapalhante, confirmou ser uma fonte de salubridade e decência no espaço público, tendo conseguido reduzir Ventura à miséria política que o caracteriza. Só que isso não chega, pois o porco adora resfolegar na porqueira. A estratégia de lhe dar uns açoites, com sorte uma murraça no focinho, é inútil porque nivela por baixo o espectáculo. E nessa lógica dá a vitória ao feirante no sentido em que este ganha sempre desde que não perca.

Ora, qual a perda em causa, tratando-se de um profissional debochado da chicana? Curiosamente, o debate com Jorge Pinto teve vários momentos em que Ventura se revelou transparente nos mecanismos de defesa que o levam para as cassetes chungas do seu reportório. Infelizmente, ainda não apareceu ninguém que consiga utilizar essas fragilidades para ser eficaz neste objectivo: encurralar o pulha na sua pulhice. Exemplo mais óbvio, a temática da corrupção. Que sabe Ventura acerca do fenómeno da corrupção em Portugal? Provavelmente, quase nada. Como não sabem os profissionais da calúnia estrelas na indústria da mesma. Porque, se soubesse, não se arriscaria a fazer desse assunto uma das principais bandeiras da sua retórica. Alguém que lhe comece a pedir números, registos ao ano e à década, instrumentos policiais e judiciais para o seu combate, condenações transitadas em julgado, tipologia dos corruptores e corrompidos, sectores com mais ocorrências, valores calculados dos prejuízos e ganhos ilícitos, e o Ventura de imediato tentaria fugir do aperto. Essa fuga seria desesperada, em pânico, e essa seria uma real perda de poder político. Como isto não acontece, ele só tem que falar de corrupção e de imediato agitar o papão Sócrates. Os jornalistas que calhem estar presentes calam-se e riem, porque comungam do mesmo passatempo.

Trump provou que o seu eleitorado realmente aceita que ele dê um tiro em alguém na Quinta Avenida, caso de repente lhe apeteça, sem que isso o leve a perder votos. Quem vota Ventura está na mesma alienação, são imunes a qualquer exibição de força dos adversários no campo dos factos e da racionalidade. Já não resistirão se virem o líder gabarolas e chico-esperto como um cobarde atarantado.

Admirável Garcia Pereira

No Expresso da Meia-noite conseguiram passar os meses de Outubro e Novembro sem gastarem um segundo com as questões da Justiça — ou seja, censuraram por omissão o que se passou, e passa, com Ivo Rosa. Mas eis que entra Dezembro e tornou-se impossível continuarem calados sobre essa desgraça nacional, tamanho o escândalo, de dimensão inaudita, que atinge o Ministério Público e outros órgãos policiais e judiciais conexos. Vai daí, Sócrates.

Ninguém é obrigado a consumir produtos jornalísticos da Impresa. E quem paga as despesas da coisa tem o privilégio de cagar d’alto no código deontológico do jornalismo e demais princípios que apelem à isenção, rigor e serviço público na profissão de jornalista. Certo. Mas não deixa de surpreender o sectarismo — se não for obsessão persecutória — às escâncaras que produzem contra Sócrates. É como se ele continuasse a ser uma ameaça política aos interesses que os fulanos que regem o editorialismo da SIC e do Expresso têm por função promover. Ou então é apenas canalhice nascida da inveja e do ressentimento, agora exuberante por se exibir como linchamento de uma vítima.

Atente-se neste título: “Sócrates e escutas Influencer: isto é Justiça?”. A intenção é dupla, transmitindo uma equivalência negativa (se as escutas a Costa são motivo de crítica, o facto de Sócrates continuar a usar os seus direitos para se defender também merece crítica) e conseguindo desvalorizar o caso Influencer (ficando nivelado pelas maldades de Sócrates, portanto não justificando especial indignação nem alarme). No texto do programa, escreve-se algo tão pérfido que chega a ter o mérito de se assumir ingénuo: “Entretanto, o julgamento de Sócrates vai-nos fazendo corar de vergonha, de tantas manobras e atrasos.” A lógica é sempre, sempre e sempre a de atribuir a Sócrates a responsabilidade da “demora” em ser levado para o calabouço por estar a cometer algum tipo de ilícito moral carimbado como “manobras”. Manobras que os tribunais, coitados, não conseguem impedir visto estarem a respeitar a lei, chatice do caralho. A lei, no que toca a Sócrates, devia ser suspensa em nome da urgência popular em vê-lo destituído de direitos e de defesa por qualquer advogado, eis o sentimento içado como bandeira pela enésima vez no editorialismo “de referência”.

Assim, espanta que tenham chamado Garcia Pereira para o programa. Ângela Silva foi rápida a mostrar que o desprezava, pelo que não terá vindo dela o convite. A martelo, conseguiram meter Sócrates na conversa só para o título não acabar absurdo. Ao minuto 38, ao ouvir a Ângela clamar contra a “vergonha” de se ver Sócrates a defender a sua inocência e a pedir que o Zé Manel afiasse o dente contra os direitos e garantias dos cidadãos, Garcia Pereira explodiu de impaciência e asco. E então, finalmente, ouviu-se no Expresso da Meia-noite a denúncia do gravíssimo atentado contra o Estado de direito ocorrido na devassa a Ivo Rosa por causa do Processo Marquês. Pela honrada e corajosa boca de Garcia Pereira.

O Zé Manel, falando logo de seguida por pressão dos serviçais do mano Costa que não queriam ouvir falar em Ivo Rosa, vingou-se. Foi buscar o Face Oculta para caluniar Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento usando uma das mais estúpidas teorias da conspiração bolçadas pela direita decadente: as “escutas destruídas” onde Sócrates falava com Vara como amigos íntimos a gozarem com o quotidiano político de 2009. Só um poço sem fim de ódio mesquinho e torpe se presta a esta desamparada figura. As tais escutas apenas no plano formal foram destruídas, como a lei impunha visto terem nascido de espionagem política. Não só foram publicadas ao tempo como foi notícia que em Aveiro havia (e há) cópias integrais do que foi registado na mão de procuradores e juízes. Finalmente, tanto Pinto Monteiro como Noronha do Nascimento, nos anos seguintes, por diversas vezes disseram em entrevistas que Sócrates devia ter permitido a publicitação oficial das escutas visto elas não terem qualquer indício de crime. Mas tinham muito sumo da sua privacidade mais pícara, pelo que terá sido esse o motivo para não aceitar tamanha exposição para a história.

Que pena não se poder votar no Garcia Pereira para presidente de uma coisa qualquer, nem que fosse uma junta de freguesia ou um grupo excursionista e almoçarista.

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Dominguice

Quando até o Manuel Carvalho dá palco a perigosos socráticos como Paulo Mota Pinto, podemos ter a certeza de que algo está a mudar no que tem sido um reinado de impunidade e crime por obra e desgraça de magistrados do Ministério Público. Mas toda esta gente continua do lado do problema, mesmo os que estão do lado da solução, por falta de coragem. Se tivessem nas hostes quem praticasse a parrésia, então já se teria dito o óbvio: Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto Presidente da República, é o principal cúmplice (ou coisa pior) no golpe de Estado que levou ao derrube de um Governo com maioria absoluta — e ainda, o que prova a intenção, ao impedimento de o partido maioritário poder indicar um substituto de António Costa sem dissolução da Assembleia da República. Esse substituto poderia ter sido Centeno, mas, fosse quem fosse, a governação nos dois anos de mandato socialista que restavam teria sido de distribuição de riqueza, apaziguando alguns conflitos sociais à data ainda na fase de negociação. Os resultados eleitorais no fim desse ciclo teriam sido completamente diferentes daqueles que levaram Montenegro para o poder e deram a proto-fachos e arruaceiros o segundo lugar no Parlamento. Marcelo, supostamente um dos portugueses com mais conhecimentos no campo da jurisprudência, uma vida inteira na política ao mais alto nível relacional, quis a queda de Costa após ter reunido com a procuradora-geral da República; num processo que é mais um escândalo histórico de abuso de poder e violação do Estado de direito democrático por exclusiva responsabilidade de quem jurou defender a Constituição.

O sistema partidário, a comunicação social, a sociedade, o bom povo têm sido aliados dos criminosos do Ministério Público e dos tribunais quando o alvo foi e é Sócrates. Agora, reclamam contra os seus outrora heróis. A dissonância cognitiva que grassa neste país é visível a olho nu da galáxia de Andrómeda.

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Dominguice

No debate entre Catarina Martins e André Ventura, ao minuto 15, o chunga agitou uma folha A4 com uma notícia acerca de uma rusga contra a imigração ilegal. A imagem mostrava uma fila de supostos imigrantes ilegais que teriam sido identificados pelas autoridades. Indo em crescendo de exaltação, esticando o braço e agitando o papel na direcção de Catarina Martins, acabou a berrar que ela era culpada pela presença dos ilegais no País, e que eles deviam ir para a sua casa. E depois mandou-lhe a folha à bruta. Não é preciso queimar as pestanas num curso superior de Psicologia para reconhecermos na cena a linguagem verbal e corporal de uma ameaça física. Noutras ocasiões, ao longo dos anos, Ventura tem ensaiado este tipo de ameaças a pessoas de esquerda sem que ninguém de ninguém se oponha, sequer que o registe. Catarina Martins chamou-lhe “momento Tiktok” e desvalorizou, o jornalista presente nada disse. Quanto ao resto, sendo a única candidata na corrida alguém que tem méritos políticos e merece respeito, a sua estratégia para o debate resultou num fracasso. Lutar com o porco na pocilga, mostrando quão porco ele é, deixa o porco feliz da vida.

Haverá alguém capaz de reduzir Ventura à sua abjecção? Não se consegue com argumentos, nem com factos, nem com insultos. O tempo do debate tem de ser quase todo dedicado ao próprio Ventura enquanto fraude ambulante. Só no fim, na estocada, é que se deverá falar do papel que um Presidente da República patriota pode ter no nosso futuro imediato.

É por isso

Gouveia e Melo foi apanhado de surpresa com a pergunta de José Alberto Carvalho sobre o apoio de Sócrates à sua candidatura, reagindo contra o jornalista. Às tantas, nem sequer sabia dessa declaração por ter sido feita poucas horas antes. Se sabia, não contou que aparecesse no debate com Jorge Pinto. Seja qual for a explicação, revelou amadorismo e insegurança. Do lado do jornalista, a interrogação era perfeitamente legítima.

No dia seguinte, em Barcelos, voltou ao caso para manifestar o seu repúdio, agora contra o próprio Sócrates. O grau de amadorismo e insegurança aumentou, dado que teve tempo para ouvir a sua equipa estratégica (se é que existe) ou, no mínimo, dormir sobre o assunto. Ter alinhado com o vox populi parece lógico, pois, como Sócrates na sua entrevista igualmente reconheceu, receber o apoio do mais odiado e perseguido dos portugueses é indesejável, é tóxico, é azar. Ao mesmo tempo, Gouveia e Melo desperdiçou uma oportunidade de ouro para se revelar o líder moral (portanto, o líder político enquanto Presidente da República) de que precisamos como comunidade.

Acontece que Sócrates está coberto de razão neste imbróglio das presidenciais em 2026. Há sectarismo, partidarite ou fragilidades em Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto. Há ameaças, repulsa ou asco em Marques Mendes, Seguro e Ventura. Há inanidade em Cotrim. E depois há um balão cheio de ar que pairava dominante enquanto era só uma farda na moldura. Ao começar a falar, a densidade do que foi revelando a seu respeito levou o balão a perder altura, não sendo já possível garantir que passe à segunda volta — embora seja o cenário mais provável. Por várias razões, directamente ligadas ao seu recente posicionamento como protector da Constituição, o almirante justifica o voto daqueles que pretendam eleger quem defenda o Estado de direito democrático e reintroduza no Palácio de Belém a decência de lá ausente desde Cavaco até Marcelo.

Ventura, certamente, e Marques Mendes, provavelmente, irão usar a cartada Sócrates ao debaterem com ele. Se repetir o embaraço defensivo manifestado, vai parecer frágil. Se atacar Sócrates para se tentar safar, vai parecer vil. A beleza da situação consiste em se saber que tal desafio irá fatalmente acontecer. Gouveia e Melo vai ser confrontado por um ou dois adversários por causa do apoio daquele que continua a ser um inimigo a perseguir e abater pela direita e corporações da Justiça. Pode preparar a melhor resposta, tem tempo de sobra. Terá inteligência estratégica para tal? Não apostava os 10 euros que tenho no bolso nisso.

Está em causa, assim que os cães se aproximem com a bocarra aberta, dizer heroicamente o seguinte:

"Senhor Ventura/Mendes, o engenheiro Sócrates é um cidadão com liberdade política. Lamento não me ter ficado por esta declaração quando primeiro tomei conhecimento das suas palavras a meu respeito. Errei ao reagir sem pensar. E agradeço-lhe dar-me agora a oportunidade de me corrigir em público. O senhor está a falar para aqueles que odeiam o engenheiro Sócrates ou que não precisam dos tribunais para saber se alguém é inocente ou culpado de algum crime. Esse é o seu rebanho. Eu quero falar para aqueles que precisam dos tribunais para protegerem os direitos de todos. O engenheiro Sócrates faz parte destes todos, é nosso concidadão, tem direitos iguais aos seus e aos meus. Se vier a ser condenado por corrupção cometida enquanto primeiro-ministro, num processo justo, e transitando essa sentença em julgado, será trágico para o Partido Socialista, trágico para a democracia portuguesa. Mas se vier a ser absolvido de corrupção, ou se a Justiça, por qualquer razão, não conseguir sentenciá-lo condenado ou absolvido, essa será uma tragédia muito maior, uma das páginas mais negras da nossa História. Porque então a vítima da acção do Estado deixaria de ser apenas o engenheiro Sócrates, e demais cidadãos acusados na Operação Marquês, passaria a ser o próprio Estado — isto é, a nossa comunidade, a nossa capacidade para vivermos juntos em paz, com ordem, livres. O senhor, pelos vistos, não está preocupado com esta segunda possibilidade. O cidadão e a pessoa Sócrates só lhe interessam para atiçar o ódio, para colher a ignorância em seu proveito. É por isso que o senhor não merece ser o próximo Presidente da nossa República."

O presidente do conselho vai acabar com a corrupção

Muito me ri a ver o debate entre o Ventura e Mendes. Até que deixei de rir.

Ventura é asqueroso, e ele aposta nisso. Ainda não apareceu quem saiba lidar com a porqueira em que transforma qualquer debate. Por isso continua a repetir a técnica feirante que cativa os grunhos e os néscios. Só que ele não é pior do que Marques Mendes, seja qual for o critério de análise. Qualquer.

Marques Mendes é uma personalidade política mais insidiosa, mais perigosa, do que Ventura. O debate entre os dois exibiu essa diferença de forma inequívoca. E foi quando tal ficou patente que deixei de rir.

Há um momento em que Ventura diz isto: “Está lá Ferro Rodrigues! [no Manifesto dos 50] Sabe bem, sabe bem, como eu também sei, o papel que Ferro Rodrigues teve nos últimos anos — como aliás Paulo Pedroso e outros.” Qual foi o papel de Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e “outros” nos últimos anos? Só há uma hermenêutica possível destas palavras: o chegano está a insinuar que Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e “outros” cometeram crimes de “pedofilia” e obstrução ou manipulação da justiça. Porque é isso que anda a repetir impunemente há anos. Ora, o super-Mendes ouviu a abjecta calúnia e calou. Portanto, consentiu-a, confirmou que também sabia. Se “sabia” tanto como Ventura é indiferente, o seu silêncio estabeleceu pragmaticamente que sabia o “essencial” da referência feita com nomes explícitos. O mais certo é ter tido conversas com Ventura onde alinhou nessa ignomínia, e o calhordas estava enfaticamente a lembrá-lo disso.

Muito bem. Imaginemos agora uma situação qualquer em que Marques Mendes se cruze socialmente com Ferro Rodrigues e/ou Paulo Pedroso. De certeza absoluta que os trataria com os códigos da proximidade pessoal que tiver com cada qual, com os salamaleques da praxe. Provavelmente, poderá até ter intimidade com Ferro Rodrigues, dado o trajecto político paralelo de tantas décadas. Porém, frente a Ventura não foi capaz de defender o seu bom nome, a sua honra. E isto, sendo grave, não é tão grave como a consequência última do seu silêncio: estando no estatuto de candidato presidencial, num debate em que o rival na campanha viola a decência e o Estado de direito democrático, Marques Mendes não foi capaz de defender a Constituição. Pelo contrário, deixou-se pintar como cúmplice do ataque à mesma. Porque a Constituição existe, entre outras coisas, para defender o bom nome e a honra de todos nós de pulhas como o Ventura.

Estranho? Nem um nanómetro. Minutos depois, picado pela cassete da corrupção virada contra si, foi buscar Joana Marques Vidal para mostrar que era ele o rei da pulharia. E largou esta maravilha: “Joana Marques Vidal teve uma coragem impressionante no combate à corrupção! Designadamente no caso José Sócrates. Poucas pessoas, poucos procuradores-gerais da República, teriam aquela atitude. Eu estou do lado das pessoas que combatem mesmo a corrupção.

Estamos perante uma tripla no totobola da canalhice: 1. O cidadão actualmente inocente, de seu nome José Sócrates, já transitou em julgado como condenado por corrupção no charco moral que preenche a consciência deste também conselheiro de Estado. X. Um número indeterminado de ex-procuradores-gerais da República ficam carimbados como cobardes (ou será que é como íntegros?) na comparação com a falecida Vidal. 2. Combater “mesmo” a corrupção para esta luminária, pelos vistos, consiste em montar um processo judicial contra um adversário político, pejado de crimes originados no Ministério Público, cuja acusação foi declarada fantasiosa por um juiz que esteve quase 4 anos a analisar toda a prova e todos os testemunhos recolhidos, num processo que já leva 12 anos sem que ninguém tenha conseguido identificar o acto de corrupção que teria valido 10, 20 ou 30 milhões de euros.

Marques Mendes declarou que a “Justiça estava doente” e anunciou que “era preciso acabar com os diagnósticos e ter iniciativa, ter acção, e ter soluções“. Donde, assumiu solenemente, quando for Presidente vai fazer um Conselho de Estado sobre a corrupção — aquele tipo de corrupção que a Joana Marques Vidal ensinou a apanhar e tratar. Os conselhos de Estado servem para alguma coisa mais a não ser despachar diagnósticos sujeitos a dever de sigilo por 30 anos? Não, mas é esta a iniciativa que o Mendes considera urgente. Porquê? Porque ele e o amigo Marcelo transformaram os Conselhos de Estado em palcos de intriga e chicana. Se lá chegar, talvez alguém da imprensa lhe possa perguntar se Portugal está finalmente em condições de apanhar a “rede que durante vinte anos, ou mais, tentou controlar o Partido Socialista, a banca, a comunicação social, as grandes empresas (tipo a antiga PT) e a Justiça“.

Ronaldo traidor

O que se passou em Portugal à pala da ida de Ronaldo à Casa Branca na comitiva do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman merecia estudos académicos. Não me é possível dar conta aqui do maremoto de nacionalismo pindérico e pelintra que inundou o editorialismo e o comentariado. Para minha agonia, pessoas de quem sou enraizado fã alinharam nisto. Umas por puro tribalismo clubístico, outras por contágio emocional.

Tendo que escolher um exemplo, vou para um dos meus alvos favoritos: o Pacheco. No Princípio da Incerteza, num relambório trôpego, declarou sentir “vergonha” pela “traição ao País” cometida pelo futebolista. ‘Tá claro que a expressão “traição ao país”, na economia do discurso deste guarda pretoriano da moral, não quer dizer rigorosamente patavina. É uma junção de palavras com menos densidade do que o ar, destinada a desaparecer do alcance da inteligência assim que é lançada boca fora. Mas presta-se a uma ironia cheia de significado, tão oportuna que desconfio da intervenção de um dos deuses do Olimpo na sua confecção.

Sucedeu que Alexandra Leitão, comentando de seguida, escolheu como tema de intervenção inicial a questão das escutas a Costa não validadas pelo Supremo Tribunal de Justiça. Por causa desta problemática, fez uma alusão a Ivo Rosa. E depois disse esta coisa notável, ou mesmo espantosa: “Tivemos também recentemente, embora aqui não tenhamos falado — e por isso é que eu também achei que era altura de trazer, porque na altura não falámos (não calhou!) — da questão de ter sido investigado o juiz Ivo Rosa…

Não é lindão?! A tal questão do juiz Ivo Rosa tem estado na berlinda desde o início de Outubro, com múltiplos e crescentemente gravosos episódios, e nós estamos no final de Novembro. Neste programa não tiveram tempo para falar disso, porque “não calhou”, mas tiveram tempo para discutir a mudança da hora. Calhou.

A forma tíbia como Alexandra Leitão aludiu aos crimes cometidos no Ministério Público com a anuência da hierarquia merecia um texto dedicado, contudo não sendo uma traição ao País. O silêncio do Pacheco, tanto na CNN como no Público, face aos desmandos, abusos e crimes de procuradores também não será uma traição ao País. E a impunidade e soberba como o Estado de direito é violado — é ridicularizado — por quem o jurou defender numa primeiríssima linha de defesa, e é pago para esse fim, estará muuuuuuuuuuito longe de ser uma traição ao País.

Traição, traição a valer é a do Ronaldo. Nunca devia ter saído do Sporting, o traidor.