10 de Junho é um dia propício, até perfeito, para falar disto: PS: romper com o passado, sem ser arrastado por ele.
Trata-se de um editorial onde Filipe Alves toma uma posição, em nome do Diário de Notícias, perante o ataque cívico, e político, a Fernanda Câncio feito por Rui Rocha a partir da tribuna do Parlamento. Sendo justo com o director do DN, ignoro se o editorial em causa foi uma iniciativa sua ou se resultou da pressão de alguém, acima ou abaixo do seu estatuto e responsabilidades. Mas esse aspecto é irrelevante face ao que mais importa.
A relação de Fernanda Câncio com a Operação Marquês é cristalina: não foi acusada, não foi arguida, não foi suspeita, foi testemunha. Isto no plano cívico. No plano político, continuou a ser o que já era antes, um alvo da direita e da indústria da calúnia, perseguição que atingiu o paroxismo de se fazerem capas e conteúdos no esgoto a céu aberto com mentiras canalhas e gravíssimas – gravidade aumentada nas potenciais consequências por causa da sua profissão como jornalista. Daqui vieram indemnizações já transitadas em bancário, mas não há dinheiro que pague, sequer atenue, os danos causados pelos assassinatos de carácter e atentados à honra vindos de partidos políticos e órgãos de comunicação social com alcance mediático nacional. Jornalistas da Cofina chegaram a requerer ao Ministério Público que fosse constituída arguida. Quem o fez e faz sabe o que fez e faz: usar a violência máxima que conseguirem atingir para infligir sofrimentos que levem o alvo a fugir ou calar-se, destruindo a sua reputação e o mais que der para apanhar no ódio rapace, seja património, subsistência e/ou saúde.
Foi esta a escolha de Rui Rocha no dia 2 de Junho na Assembleia da República. Quem for ao Canal Parlamento poderá constatar que o registo é de escárnio e deboche alarve por parte dos deputados dos partidos da direita a assistir ao número. O bacano instituiu que, para si, a Operação Marquês não é um processo judicial, onde à Justiça cumpre estabelecer a verdade dos factos. Ele está-se a marimbar para isso porque a Operação Marquês, como processo político contra o PS, desde 2014 que se oferece como arma de arremesso. Liberto dos constrangimentos da cidadania, da moral, da ética e da decência, Rui Rocha sente-se muito à-vontade para se colocar por baixo do Presidente da Assembleia da República e usar uma mera cidadã já socialmente acossada como sistemático alvo de violência política. Não adianta apontar para a contradição de o fazer como representante de um partido supostamente defensor dos ideais e valores liberais. Há é que não deixar escapar que o faz perante a cumplicidade de todos – todos – os deputados presentes nessa sessão.
Felipe Alves respondeu-lhe passados três dias. Três dias, então, em que teve tempo para pensar no que ia deixar inscrito na história do jornal que dirige acerca do episódio. Que foi isto:
– Uma repetição do discurso de criminalização do PS que Rui Rocha tinha feito. Indo mais longe do que a pulhice original, estendeu as calúnias a todos os cidadãos que tenham assumido responsabilidades no Estado como socialistas.
– Uma exploração das buscas na sede do PS para fragilizar José Luís Carneiro.
– Uma assunção implícita (explícita?) da existência da tal “síndrome de Fernanda Câncio”.
– Uma desvalorização, que na economia da prosa corresponde a um achincalho, de Fernanda Câncio como jornalista e profissional.
Este fulano é uma fraca e banal figura, nada do que diga merece gasto neuronal para ser conservado. Mas eis que ele mostra justificar o dinheiro que Marco Galinha lhe dá, outrora fogoso apoiante de Sócrates e agora um admirador de Trump. A entrada de César do Paço como accionista da Global Media, o que corresponde a colocar o DN no papo do Ventura, igualmente terá sido uma inspiração para o exercício de caça ao PS. O novo director-geral editorial da Global Media, portanto, mostrou ter talento para permanecer longos anos no cargo. Assim continue a haver quem lhe pague o serviço.
O DN terá certamente os seus defeitos – a entrada do mamão César do Paço é um deles, bem como o seu ‘Editor-Executivo Adjunto’, um tal Ricardo Simões Ferreira, que é um alucinado direitalha neoliberoca; mas ser criticado por um piaçaba xuxa é um troféu, uma medalha.
A Câncio, uma ‘jornalista de investigação’, ‘grande repórter’, etc., andou a mamar na fortuna trafulha do 44. Nada pode apagar este facto. Nunca investigou; nunca lhe pareceu estranho; nunca deu por nada. Depois fez-se de sonsa em tribunal. O que é que ela esperava? Sorte tem ela em ainda poder sair à rua: devia ser confrontada e questionada como merece. Ela e mais sonsos.
O PS é uma máfia. Sempre o foi. O PSD é outra máfia. Todo o país sabe disto. PS e PSD competem pelo poleiro e pelo pote, mas dentro dos gabinetes e dos Mercedes colaboram alegremente no saque do país. Ficam geralmente impunes, mas de vez em quando alguma figura menor ou mais alarve tem de ser punida para manter tudo na mesma, tal como o Salgado na banca.
Punida, entenda-se: vai passar uns mesitos à choça (os maiores, como o Salgado, nem isso). Depois sai e continua a ter os bens e a rica vida que roubou; nem isso lhe é tirado. Mas os carneiros e os piaçabas de cada gangue não admitem sequer isso: só a completa impunidade dos pulhas do seu gangue lhes serve. Mesmo um 44 ou um Vara têm de ser vítimas, mártires.
Daí o volupi guinchar até ao fim do mundo (ou da avença) pelo pobre 44, o pobre Ivo, a pobre Câncio – se bem que esta pisou o risco ao distanciar-se do seu ex-sugar daddy mafioso; mas o volupi ainda sente que defendê-la é defendê-lo a ele. E é pena pela Câncio, uma boa jornalista, uma mulher inteligente. Porque se foi sujar daquela maneira? Porque se arma em sonsa?