Dominguice

Leitão Amaro declarou que o tal vídeo onde é protagonista de actos heróicos, vídeo que apareceu na sua conta do Instagram, “não devia ter sido publicado“. Mais esclareceu que ele foi retirado por ter sido “entendido de uma forma que não era a forma pretendida“, causando “más interpretações e sentimentos de incompreensão“. Ou seja, um problema de hermenêutica levou ao apagamento chocantemente prematuro de uma obra que foi produzida com o talento e empenho de vários profissionais da imagem e do som. Estamos perante duas ideias que não aparentam ter conexão entre si. Por um lado, há a reacção infeliz do público, manifestamente incapaz de atingir a sofisticação e beleza da narrativa e suas ponderosas mensagens. Por outro, fica o enigma a respeito de quem terá violado a conta de Instagram do ministro, indo lá colocar cinema de autor com nenhum apelo comercial. Ainda mais intrigante é a seguinte hipótese, suscitada pelas ambíguas palavras de Leitão Amaro: a de que a ideia original talvez fosse a de nunca publicar o vídeo, ficando a peça para fruição privada no seu círculo familiar e de amigos. Seriam os únicos a poder aplaudir a estrela em mangas de camisa. Projecto boicotado com a publicação.

Tenho uma outra hipótese explicativa, que me parece muito mais realista dada a reconhecida seriedade, honestidade e coragem do senhor em causa. Que é esta: Leitão Amaro não fazia a menor ideia de que estavam a fazer o tal vídeo acerca da sua pessoa ao leme da governação no meio da tempestade, ele nem sequer conhecia o marmanjo que estava a filmar com o telemóvel. E daí o seu nervosismo, as unhacas roídas, os telefonemas para este e aquele na ânsia de querer saber quem era o gajo do telemóvel que não o largava e que raio fazia ele no seu gabinete. Acima de tudo, uma dúvida dilacerante ocupava o seu espírito e enchia-lhe de aflição o peito, como as imagens captadas exibem com impressionante comoção. Esta: “Se isto é mesmo para um vídeo catita, será que vou aparecer a cores ou a preto e branco?”

2 thoughts on “Dominguice”

  1. ri-me e como não sabia do contexto do meu riso, só sabia do riso que advinha das palavras, fui-me inteirar. agora rio-me e arroto de riso

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