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Não consegui deixar de sorrir ao escutar o discurso moderado do líder dos ismaelitas, Aga Khan, em Évora. Não tenho nada contra o conteúdo, apenas relembro uma suave ironia motivada pela história: os ismaelitas têm muitas memórias, uma das quais a fundação da chamada seita dos assassinos, alegados percursores do terrorismo. Segundo um dos livros que em tempos li sobre o assunto, Marco Pólo – O espião de Veneza de Jean Larteguy, a intenção até podia ser das mais meritórias. No romance, do autor dos Pretorianos, os assassinos opunham-se à tirania e aos métodos de guerra e correlativos massacres. Para eles, era mais ético assassinar um responsável político do que invadir uma cidade e vitimar uma população com a guerra.
No entanto, não deixa de ser uma história com leituras para os tempos de hoje. Talvez seja por isso que o Público edita o Alamut, de Vladimir Bartol, romance sobre a seita e o seu fundador Hassan Ibn Saba, e considera que para o “leitor de hoje, será difícil não associar este líder do século XI ao saudita Bin Laden”.
O escritor Amin Maalouf também usa a vida de Hassan Ibn Saba. No seu romance Samarcanda, faz cruzar a sua vida com a do poeta e pensador livre Omar Kayyam, construindo um romance parábola sobre estes dois lados da cultura muçulmana: a tolerância e a violência.
Uma das obras de referência sobre o assunto é o livro do historiador Bernard Lewis, The Assassins. Apesar de datado de 1967 continua a ser uma leitura recomendável.
Apesar dos livros, o conceito de “terrorista” continua a não reunir consenso. Nem na ONU conseguem definir a palavra. Tudo isto está obviamente sujeito a flutuações históricas e políticas. Para os norte-americanos, Bin Laden era um combatente da liberdade quando, com apoio da CIA, combatia os soviéticos no Afeganistão. É sabido e reconhecido, nomeadamente, pelo General Israelita e antigo governador de Gaza, Yitzhak Segev, que o próprio Hamas mereceu o beneplácito das autoridades israelitas durante muitos anos: Israel auxiliava o Hamas que por sua vez minava a popularidade da OLP.
No filme a “Batalha de Argel”, que foi proibido em França e na Argélia durante muitos anos, mostra-se uma escalada de repressão e tortura das autoridades francesas que coexiste com uma série de atentados contra civis da guerrilha argelina. A certa altura, os militares franceses conseguem capturar um alto dirigente da FLN que exibem numa conferência de imprensa. Um jornalista francês, profundamente enojado com a proximidade, pergunta ao argelino: “não tem vergonha de enviar as mulheres com cestos com bombas para fazer atentados contra civis franceses”. O dirigente da guerrilha responde ironicamente: “os vossos aviões bombardeiam, todos os dias, as nossas aldeias; se vocês quiserem trocar os nossos cestos pelos vossos aviões, a gente faz a troca”.


  1. 1 João Pedro

    Julgo que vários radicais islâmicos já afirmaram publicamente a sua inspiração nos assassinos. O conhecimento que tive deles vem precisamente do Samarcanda, onde o sinistro carácter de Hassan al Sabah, no seu ascetismo em Alamut, é realçado. Incrível como os ismaelitas (que têm o seu quê de epicuristas)deam em tempo origem a essa seita. já agora, se fosse possível, onde é que se arranja esse livro sobre o Marco Polo?

    (A propósito, gostava de ver os Bigornas e espalharem eses comentários na faixa de Gaza, sem anonimato; isso é que era de homem).

  2. 2 Nuno Ramos de Almeida

    João Pedro,
    Está publicado em português, em dois volumes. Salvo erro, livros do Brasil?
    Quanto muito posso-te emprestar.

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