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A Periférica acabou. Como nos anos 90 acabou a Kapa, como nos anos 70 acabou A Mosca, como nos anos 60 acabou o Almanaque. Deixando-nos a aguar por mais. Aguando eternamente. Há um mito para isto, não me recordo qual.

A Periférica era a nossa melhor revista literária? Quem o saberia afirmar, sem ofender demasiado a Ler, ou a Colóquio Letras? Mas não acabou também a Ler, metamorfoseada em volume anual? E a Colóquio Letras não se está fazendo bela e etérea? Chega de perguntas, vamos às lamentações.

Durante quatro anos, Trás-os-Montes trouxe encantado o resto do rectângulo. Produziu, num enternecedor papel reciclado, um objecto cultural que queimava nas mãos. Vinha ele das forjas de Rui Ângelo Araújo, de Carlos Chaves, de Paulo Araújo, de Vítor Lamas, de José Ferreira Borges, de Fernando Gouveia, que ainda varavam o país, arregimentando para a empresa qualquer arrojo ou não-alinhamento que se lobrigassem. Tudo benfeitores da cultura.

Como começou a coisa? Sabemo-lo agora. Foi a mais singela prenhez auditiva. «A ideia de criar uma revista de âmbito nacional», diz o editorial de despedida, «foi deixada pelo Divino Espírito Santo no voice mail do telemóvel de um de nós». E os chamados largaram tudo – remanso, carreiras, mulheres e crianças – para lançarem ao Mundo, em catorze tremendos números, o melhor que tinham e que nós não merecíamos.

Hoje perguntam-se: «Que estruturas abalámos?» E, para nos cortarem qualquer devaneio, eles próprios respondem: «Não evitámos que a “cultura” da metrópole ficasse tantas vezes contentinha-da-silva e auto-satisfeita com as palmadinhas dos amigalhaços». Assim mesmo. Com assassinas aspas e puídos clichés. Era isso o que merecíamos, com isso se nos deixa.

A Periférica acabou. Pelas mais respeitáveis razões. «Fazer uma boa Periférica», confia-se-nos, «exige talento, tempo, dedicação, atenção, treino – uma redacção em forma e altamente disponível. De todos os requisitos apenas nos sobra o talento». O talento. Para nós, o talento não era um ‘requisito’. Era tudo o que sabíamos que por ali existia.

[ Mais e melhor no site da Periférica ]

O número 14, o último, acaba de ser posto à venda. Numa boa livraria perto de si.


  1. 1 Valupi

    Bela prosa, Fernando. Como sempre. (a tua e a deles, sim)

  2. 2 João Pedro

    já adquiri a minha, para memória futura. Daquela região vêm imensas coisas óptimas que passam ao largo da vista do habitual consumidor “cosmopolita”.

  3. 3 Rui Fonseca

    Fica então por explicar, trazendo a revista «encantado o resto do rectângulo», porque acabou??

    Cheira-me a mais uma «vitória moral» que «veio incomodar muita gente».
    Rui.

  4. 4 Jorge Carvalheira

    Uma pessoa descobre um dia a Periférica, dá-se a saboreá-la, habitua-se a ela. Por um momento até o mundo parece outro.
    No dia seguinte a Periférica desaparece. Primeiro só apetece dizer asneiras. Mas a força do milagre acaba por impor-se. A senhora de Fátima também não aparece todos os dias. E dava um jeitão, oh se dava!

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