Democracia e pulsão animal

Fernando Moreira de Sá declara que a rede de calúnias montada pelo casal Passos-Relvas incluía os blogues Albergue Espanhol, 31 da Armada, Delito de Opinião, O Insurgente, Blasfémias, Aventar, Cinco Dias e outros não nomeados. Parte destas pessoas viria a ser recrutada pelo nosso Governo liberal e foi ganhar dinheiro do Estado após terem trabalhado para conspurcar a sociedade. Ou talvez ao contrário, andaram a conspurcar a sociedade para conseguirem trabalhar a receber dinheiro do Estado. É ele quem o revela, o “nota 20 na Galiza”, e ninguém o desmentiu até ao momento em que escrevo.

A existirem socráticos neste mundo, é certo e sabido que eles estão nesses blogues. Se se fizer o levantamento de quantas vezes cada um desses autores já se referiu a Sócrates, vai-se descobrir que superam em 1000% o registo dos militantes e simpatizantes socialistas dados à escrita na Internet. Mas o que nunca se viu, ou ainda não se viu mas ainda se está para ver, foi um desses blogues, nem que fosse só um desses autores, a provar uma das suas capitosas calúnias. Obviamente, calúnia provada deixa de ser calúnia, e a irem por esse caminho perderiam os momentos de hilário convívio relatados pelo hilariante Fernando.

Veja-se a obsessão com o Câmara Corporativa, o terror dos direitolas. Na entrevista aparecem estas declarações:

Afirma na tese que os blogueres que apoiavam Passos tinham como referência o blogue Corporações, próximo do Governo de Sócrates… Porquê?

O Corporações, que só peca pelo anonimato, era o braço armado de Sócrates, na blogosfera. Tinha acesso a fontes privilegiadas e informações do foro privado dos adversários. Só podia funcionar dentro do gabinete da Presidência do Conselho de Ministros.

Ligado ao ex-ministro Pedro Silva Pereira?

Toda a gente do meio sabia. Aliás, costumávamos dizer que o Corporações “viajava” com o Sócrates e o Pedro Silva Pereira para a Venezuela porque os posts diminuíam radicalmente nessa altura…

São afirmações de arrebimbomalho. Vejamos:

– O anonimato é o estado em que se pretende ocultar a identidade. A pseudonímia é o estado em que se acrescenta uma identidade à identidade. Assim, “Miguel Torga” não pretende ocultar a identidade Adolfo Correia da Rocha, está antes a acrescentar-lhe uma nova dimensão. Isso quer dizer que o “Miguel Abrantes”, um pseudónimo, não está a impedir o acesso à identidade que o criou – está é a dominar o modo como se dá esse acesso. E é por isso que ela, a identidade primeira, é conhecida de vários cidadãos. O facto de o Fernando Moreira de Sá considerar que um autor é anónimo apesar de assinar os seus textos e ser o responsável pelo seu canal de comunicação revela algo é a respeito de si próprio. Por exemplo, que não tem pinta, ou cabeça, para sequer descobrir como ter o prazer e a honra de apertar a mão do Miguel.

– O Corporações não é conhecido por ter criado perfis falsos no Facebook, por ter feito telefonemas para os debates na TSF e na RDP ou por ter reuniões no Conselho de Ministros, entre outras pulhices. E quanto à suposta publicação de informação do foro privado por mão do Governo socialista, de que fala o Nando? Ou melhor, porque não deu nem um único exemplo? É que eu, pelo menos, gostava muito de saber mais sobre esse assunto tão grave. Agora, dizer que a inspiração para a filha-da-putice militante veio dos outros, do inimigo, indicia que a idade moral deste homem não ultrapassa os 3 anos.

– O jornalista avança com o nome do Pedro Silva Pereira e o Moreira de Sá sai-se com mais uma pérola da sua miséria: “Toda a gente do meio sabia“. A gente do meio é aquela que não está nas extremidades. No meio é um gosto, um consolo, há mais fraternidade. Ele não explica como é que descobriu ser Silva Pereira o CEO do Corporações, e não explica porque também não faz a menor ideia. Se estivesse numa das extremidades, ainda podia ser que percebesse alguma coisa do que se passava. Não estando, faz fé no que ouviu, no que lhe diziam daqui e dali. Aquele pessoal do meio era de confiança. Os medianos, de resto, raramente se enganam e nunca têm dúvidas.

– E depois a Venezuela. A Venezuela, senhores ouvintes. Que raio se passaria em Caracas que afectava a normal produção de violações da privacidade no Corporações? Palavra de honra, pagava para ver o “regionalista ferrenho” a voltar a este tema de modo a esclarecer o enigma que a partir de agora me atormentará sem descanso.

Sempre achei espantoso que houvesse quem conseguisse imaginar Sócrates a desenvolver um plano de dominação e manipulação das consciências da turbamulta a partir de um singelo blogue. É quase tão fantástico como o plano para dominar a TVI através da PT. Mas seria assim: de um lado, o Correio da Manhã, a TVI do casal Moniz, o sermão dominical do Marcelo, o Público do Zé Manel, a SIC do Balsemão e do Crespo, o Expresso do Henrique Monteiro, o Sol do arquitecto, a Judite na RTP e a Renascença, fora a legião de comentadores e figuras notáveis o dia todo a espalhar veneno na comunicação social, mais as violações ao Estado de direito por via dos tribunais e as violações da Constituição na Presidência – do outro, o Corporações e os seus posts sujeitos a flutuações chavistas. Quem pensou nisto é um génio, no mínimo e só para começo da conversa.

Na primeira página dos manuais da alienação destruidora está invariavelmente a indicação para se criar um inimigo. Depois, para se descrever o inimigo como se fosse um monstro. Quando se quer levar uma pessoa a separar-se dos seus valores morais, a esquecer-se da sua natureza ética, a estilhaçar a sua noção de decência, a perverter a sua humanidade, então projecta-se no outro o mal que lhe queremos fazer. Se acreditamos na imagem que projectamos, se anularmos a nossa empatia e ficarmos reduzidos ao instinto de sobrevivência, estaremos prontos para matar – seja com armas, mãos ou palavras. Foi dessa barbárie que viemos, ao longo de dezenas ou centenas de milhares de anos, para agora desfrutarmos de um modo de convivência em paz a que chamamos civilização.

O que uma direita decadente fez a Sócrates e ao PS, e que o Fernando Moreira de Sá ilustra parcialmente com minúcia e tonteira, fica como mais uma evidência da fragilidade da democracia face à pulsão animal. A mesma pulsão que levou Passos a afundar o País no resgate, a mentir do princípio ao fim da campanha eleitoral e a prestar-se entusiasmado ao exercício de castigar os portugueses que lhe deram o poder.

22 thoughts on “Democracia e pulsão animal”

  1. Não há pior cego que aquele que não quer ver.
    Todos sabemos, hoje ainda melhor do que ontem, quais os métodos que a direita se serve para chegar ao poder.
    Já não são precisas armas. Pode-se ter todas as televisões nas mãos, todos os jornais, todas as mentiras, mas só se chega ao poder se o povo votar com eles.
    Tivesse Sócrates apoio popular e o Passos ainda era o Administrador de qualquer uma empresa de lixo.
    Talvez estas alianças entre o PS e este Governo explique muitas coisas a quem ainda não percebeu.

  2. oh joão! tamém há comunas metidos na moscambilha, certamente para controlar e esclarecer o apoio popular, não fosse a macarronada votar no socras.

  3. Magnifico cocktail, misturando alguma enfatuação (como se os blogues em geral, ou este em particular, tivéssem algum poder) com uma falta desarmante de consciência de que poderias perfeitamente enfiar a carapuça, dado o teor de grande parte dos teus posts (este incluido) e a tua lendaria propensão para a fulanização e para o escarnio, tantas vezes em detrimento do debate de ideias e da troca de informações.

    Mas, para pasmo dos povos, tu consegues sempre superar-te na caricatura que fazes de ti proprio…

    Boas

  4. “Tivesse Sócrates apoio popular…”
    Ó João, realmente deve ser penoso ter que engolir as próprias tripas!
    O Passos só chegou ao poder, nesse momento e não noutro, porque o PC preferiu atirar com o Sócrates e o PS pela borda fora, e estendeu ao Passos o tapete vermelho, de braço dado com o Relvas e a pior escumalha da direita.
    A isto chama-se trair o povo. Mas compensa, como já se viu nas últimas eleições.

  5. Há certos direitolas que são tanto à esquerda que noutros tempos iam direitinhos para o Tarrafal se não tivessem padrinhos que os mandassem para São Tomé.

  6. Ou António Figueira é do PCP ou não é. O resto é conversa. Os trafulhas do Câmara Corporativa andaram recorrentemente a acusar o PCP de colocar um homem no staff de Relvas quando afinal o homem não é do PCP.

    Há alguns auto-proclamados radicais de esquerda no 5 Dias que ocupam lá o tempo mais a criticar o PCP do que o PS e o PSD.

  7. oh joão! no pcp é tudo clandestino desde nascença, no tempo da outra senhora, a pide tinha dificuldade em provar a filiação partidária dos comunas, apesar do cunhal ter denúnciado alguns. hoje, continuamos como no princípio do século passado, quando não agrada ou dá merda, o artista já não pertencia ao partido, tinha sido expulso há bués ou é porque têm milhares de pequenos e médios simpatizantes do centralismo democrático, cuja independência se confunde com o espírito democrático do partido comunista.
    olha lá, oh palermita, a dita radicalidade do 5dias está no casal raqueleiro, que descobriu agora o que toda a gente sabe do partido comunista, os outros lá continuam de punho fechado a marrar contra o imperialismo e revolução industrial, tirando o teixeira que resolveu suicidar-se com o tavares.

  8. Os comentários do inagtz são de uma pobreza constrangedora.
    Se acreditasse na teoria da conspiração diria que é um pseudónimo do Valupi.
    Não há uma opinião discordante que não seja logo apelidada de ” direitolas” ou de “comunista”
    O que os apoiantes de Sócrates não conseguem digerir é isto.
    O SÓCRATES FOI DERROTADO PELO POVO NAS ELEIÇÕES.
    E o Povo pode votar mal, mas corrige sempre bem, como o vai fazer nas próximas eleições.

  9. “O SÓCRATES FOI DERROTADO PELO POVO NAS ELEIÇÕES.”

    depois de 6 anos de perseguição & campanhas de carácter, organizadas pela direita com colaboração da comunada, que fizeram a cabeça aos tolinhos que, agora, se encontram mais do que arrependidos da merda em que nos meteram e cujo orgulho ou clubite partidária os deixa em transe quando alguém lhes explica “os parvos que fomos”.

    “E o Povo pode votar mal, mas corrige sempre bem, como o vai fazer nas próximas eleições.”

    espero bem que sim. que dêem uma abada na direita, ponham os comunas no sítio e que acabem com essa inutilidade chamada blocode esquerda.

  10. De facto o Ignatz é f(l)ó(r)ida, “kamarada” João.

    Mas o que seria este blog sem ele?

    Eu gosto do gajo porque dá luta e sabe muitas merdas.

  11. Ó pseudónimo!
    Aqui vem-se para discutir ideias, e não para exibir focinhos em público.
    De ti não tenho nada que esconder. Mas já que falas em pseudónimos, diz-me só uma coisa: é do meu pseudónimo que falas, ou é do teu que estás a falar?! É que só no meu prédio há dez, na minha rua há cem, e no bairro há uns mil. Todos pseudónimos iguais ao teu.

  12. Também fico à espera de mais detalhes sobre a putativa inspiração do blogue CC.
    “Só podia funcionar dentro…” e “toda a gente do meio…”, é conhecimento muito vago.

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