Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



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sobre um óleo de António Carmo

Não sei dançar. Nunca senti no meu corpo o motor do ritmo, a locomotiva que prolonga e amplia, nos salões ou nos jardins, a alegria de uma música vivida a dois.

Não sei dançar. Nem sei se alguma vez entrarei na difícil empresa de celebrar uma festa situada entre os pés ligeiros, soltos, e o olhar que os comanda, firme.

Não sei dançar. Nunca dancei, mas, ao ver o teu olhar dentro da luz do óleo de um quadro, entre a casa à direita e a árvore à esquerda, com a viola campaniça ao centro, então, só então, sabendo que és mesmo tu, serei capaz de, tímido e receoso, te pedir em voz muito baixa: «Dança comigo!»

Não, como é lógico, para dançar, mas, apenas e só, para juntar as minhas mãos às tuas e, em silêncio, esperar que a música da viola campaniça atravesse toda a linha do horizonte da planície e venha depositar a teus pés todo o perfume das searas e da terra.

José do Carmo Francisco


  1. 1 luis eme

    Dançar é mais fácil que escrever com esta qualidade e beleza…

  2. 2 z

    Que bonito texto. Sem ofensa, poderia ser dedicado por muitos a muit@s, parabéns a quem o escreveu.

    Daqui a dois dias vou partir a ver se vejo baleias…

    Só espero que não me salte uma para cima, mas um golfinho não me importava nada, ainda tenho que ir um dia nadar com golfinho,

  3. 3 Daniel de Sá

    Meu Caro José do Carmo Francisco
    Eis mais uma coisa que nos une: nenhum de nós sabe dançar. A única “lição” que tive durou cerca de três segundos. Eu disse “segundos”, sim. Foi no salão do Clube Asas do Atlântico, em Santa Maria, aquele mesmo onde ouvi o golo do Joaquim José, no Barreiro, que deu ao Sporting a possibilidade de ganhar o primeiro campeonato verde de que me recordo. Estávamos a ouvir como sempre a emissão do “Asas”, e uma colega minha prometeu que, quando desse uma música apropriada, me ensinaria a dançar. Às tantas, chama-me para o meio do salão, pega em mim e eu dei três passos supostamente de dança. Então ela diz-me de repente: “Senta-te, senta-te. Isto é um tango e estás dançando uma valsa.”
    Dediquei-me à escrita.
    Um abraço.
    Daniel

  4. 4 claudia

    Uma dança assim até vale a pena.

  5. 5 lelia nunes

    Uma escrita assim tão dadivosa é música e com ela dança-se em todos os ritmos na magia dos sons.
    Maurice Béjart, dançarino e coreógrafo francês, diz que dançar é vida. Danças quando escreves, quando trabalhas e lavras a terra, quando amas - a dança dos corpos,danças sempre, num grande palco que tem por cenário o céu, a terra, o mar,a natureza. Este é o grande bailado da vida.
    Adoro dançá-lo. Danças comigo?

  6. 6 Jorge Carvalheira

    Sorte a tua, JCF, que encontraste esse olhar dentro do óleo dum quadro!
    E sorte nossa, ainda maior, que assim no-lo contas!

  7. 7 jcfrancisco

    Sorte é ter leitores atentos e que valem a pena. Sorte a minha…

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