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A morte dum jornalista não é notícia. A menos que tenha ganho um Pulitzer, mas então passou a ser uma personalidade. Há, todavia, excepções. Morreu o António Martins, um homem que, em 79 anos de vida, passou por todas as tecnologias, por todas as redacções, por todas as modalidades.

Trabalhei com ele entre 1996 e 2006 no «Sporting». Mas já o conhecia de «O Século», do «Diário Popular», de «A Bola», do «Record». Tenho uma história passada com ele numa manhã em Barroca de Alva. Eu estava num Sporting-União de Leiria do nacional de juvenis, ele estava num jogo do campeonato distrital. No intervalo fui espreitar um terceiro jogo, o do nacional de iniciados e verifiquei que o jornalista tinha faltado. Liguei-lhe para o telemóvel e não atendeu. Pensei logo no pior, um acidente, um problema de saúde. Não respondia. O Martins, feito o seu trabalho, veio à sala de imprensa para saber o meu resultado. Viu a minha cara, achou muito estranho o que se estava a passar. «Vamos desenrascar isso!» foi a sua resposta. Saiu disparado e foi ao autocarro do Estoril Praia. Minutos depois tinha a ficha do jogo dada pelo delegado dos «canarinhos». Foi comigo à cabina do Sporting e arranjou a ficha do delegado do Sporting. O treinador contou o jogo e nós fizemos a crónica que assinámos em equipa. Os leitores não tinham culpa de que o jornalista tivesse adormecido.

Uma segunda história tem a ver com a entrevista que lhe fiz em 2005, onde revelou o seu gosto pela pintura de Vermeer. Adorava «O soldado e a mulher risonha». Houve quem achasse insólito. Mas também um jornalista desportivo tem o direito de gostar de pintura. E gostar de Vermeer só lhe ficava bem.

Hoje vai ser cremado. Está uma bela manhã de sol. Não é a luz do mestre de Delft, mas é também uma luz feliz, uma luz que aquece o rosto e ajuda a doirar as lágrimas dos amigos.


  1. 1 pedro oliveira

    A morte de um jornalista pode não ser notícia, a morte de um amigo é sempre notícia. Excelente testemunho.

  2. 2 luis eme

    Conheci o António Martins no “Record”.

    Era um homem simples e afável, por quem sempre senti uma grande admiração e simpatia, por não ter complexos em cobrir o futebol dos pequeninos, num mundo cheio de “vedetas”…

    Os distritais e o futsal, devem-lhe muito, pois sem a sua teimosia e labor, tantos resultados que tinham ficado no lado de fora dos jornais.

    Felizmente recebeu várias provas de apreço, ainda em vida…

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