Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Já se disse tudo da literatura. Pensamos nós. Já se disse que depois dos fornos crematórios de Auchwitz não seria mais possível a poesia. O mesmo foi dito dos massacres de Shatila e Sabra. Já se disse muita coisa, mas afinal ainda está muito por dizer. Desde logo cada abordagem à literatura é feita por cada pessoa em função da sua biografia, do seu passado, das suas circunstâncias.

Recebi na minha banca de trabalho um pequeno livro de apenas 51 páginas. O título é O fio de ouro e todos os seus poemas tratam do tema da violência sobre as crianças. Chamou-me a atenção o poema «missiva ao rapaz com patas de urso» e aqui fica um pouco desse poema com toda a sua carga de testemunho transfigurado em arte: «Tão pesadas são as patas / do rapaz que me rasgou / uma costura de alfinetes / encostada ao frio / meia vergada sob o peso / do andaime das amarguras / tão grandes as tuas mãos / agarradas aos meus ombros minúsculos / tão pesadas as patas de urso / deformação genética antes do nascimento / feres-me os punhos como anilhas nas rolas / são pesadas, já disse, as tuas patas de urso / sobre mim que ocupo o espaço / entre dois dos teus dedos menores. /Todo tu és pesado a todo o meu corpo e alma / o Espírito brotou e logo foi cuspido num balde / És um rapaz já homem diferente de todos os rapazes / E tão igual a tantos homens à volta da terra / Não são as patas de urso / Eu gosto tanto dos animais! / É a força que anima as tuas patas de urso / e me sufocas os gemidos com elas e o seu peso / Se os meus gemidos se ouvisse na liberdade das árvores / Fariam chorar os pássaros adormecidos nos ninhos. / Não escolhi que sejas diferente como os monstros / não gosto da tua diferença de patas de urso. / Rapaz, tu cresceste! Nem eu sou mais uma menina com as tranças louras e longos lacinhos brancos a condizer com os sapatos»

José do Carmo Francisco


  1. 1 Monsieur Villon

    “Já se disse que depois dos fornos crematórios de Auchwitz não seria mais possível a poesia”.

    Mais campinos de barrete encarnado da Ilha de S. Miguel?

  2. 2 nm

    e o livro não tem autor?

  3. 3 jcfrancisco

    Tem autor, tem. Está no cabeçalho do texto - chama-se Fátima Murta.

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