Arquivo da Categoria: Valupi

Português de lei


Fernando Venâncio (1944-2025)

O Fernando deu-nos a honra, e o subido prazer, de fazer parte do Aspirina B. A história dessa história, começada antes do começo deste pardieiro, algures nos finais de 2004, está contada aqui: O Fernando, o Jorge e o blogodrama

Não sou amigo dele, não o conhecia. Mas vim a conhecê-lo, ficámos amigos. Não há neste testemunho contradição, houve felicidade.

Para além da língua portuguesa, a sua amada Galiza também está de luto.

Carneirada

«É muito importante ter a consciência de que a maioria dos portugueses escolheu o PS para segundo partido.»

José Luís Carneiro

Aviso prévio: sou simpatizante deste cidadão, caso venha a ser secretário-geral do PS deixa-me com expectativas positivas para o que possa dar à cidade, e estas declarações que agora comento não têm qualquer importância seja para o que for (excepção para o texto aqui do pilas). Dito isto, bute lá malhar enquanto o ferro está quente.

A ideia de que o PS possa ser considerado o líder da oposição por ter mais votos do que o Chega (mais 4 313, exactamente) não é apenas esdrúxula, nem apenas absurda, é também antidemocrática. Este critério só poderia ser invocado em caso de empate no número de deputados. Não sendo o caso, espanta que os neurónios de JLC tenham sido responsáveis pelas declarações que a notícia regista. De acordo com a sua lógica, ou falta dela, a Joana Amaral Dias montada em cima dos 81 594 votos do ADN poderia exigir ficar com o lugar dado a Filipe Sousa, eleito deputado com 20 911 cruzinhas. Se o disse para que sirva de antidepressivo no partido, o tiro saiu pela culatra.

Eis o que adoraria ter ouvido da sua boca. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para ser a terceira força partidária nesta legislatura. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para ter menos deputados do que o Chega. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para deixar de poder defender a Constituição. Que o PS foi escolhido pela maioria dos portugueses para deixar de participar na escolha dos juízes do Tribunal Constitucional. E que a maioria dos portugueses talvez venha a dar ainda piores resultados eleitorais ao PS em futuras legislativas. Que a maioria dos portugueses talvez um dia deixe de querer que o PS tenha representação na Assembleia da República. E que a maioria dos portugueses confia mais no Ventura e sua gente para resolver os problemas do País do que nas pessoas ligadas ao PS — as quais andam desde Abril de 1974 a servir o Estado, o bem comum e a comunidade.

A democracia não precisa do PS, apesar do tanto que lhe deve. Ao contrário é que a coisa funciona, como tem sempre funcionado ao longo da sua história.

Ai chega Chega

Quem fez isto:

Anda agora a dizer isto:

É um singelo exemplo entre infindos. Escolho-o porque Mafalda Anjos não tem défices de cognição nem de literacias comunicacionais e políticas. A capa obtida com recurso à deturpação da mensagem — e da boa-fé — do então governante era comercialmente, corporativamente e narcisicamente irresistível. Teve profundo e extenso impacto, continua a ser citada no laranjal.

Só que, foda-se caralho, lá está: não passa de uma manipulação básica das emoções e dos ódios. Alimento do populismo que engordou por causa, principalmente, da estratégia de terra queimada seguida pela direita partidária e mediatizada desde 2004.

Curiosidades da pulharia

Dentre as caudalosas explicações que o editorialismo e o comentariado produzem em frenesim para a votação espantosa do Chega (que já o era em 2024, agora intensificada em votos e deputados, e multiplicada pela desgraça onde o PS foi parar), eis o que nunca encontramos, nunca encontraremos:

Que não teríamos chegado aqui se Passos Coelho não tivesse ido buscar Ventura à CMTV em 2017.
Que não teríamos chegados aqui se Passos Coelho não tivesse decidido colocar Ventura em Loures para testar nessa demografia e eleitorado um discurso de extrema-direita com a chancela do PSD.
Que não teríamos chegado aqui se Passos Coelho tivesse retirado Ventura da campanha em Loures quando o CDS rompeu a coligação por causa das declarações sobre a comunidade cigana.
Que não teríamos chegado aqui se Cavaco Silva e Ferreira Leite, e outras figuras gradas do PSD, tivessem apelado a que o partido não aceitasse fazer um acordo com o Chega para os Açores em 2020 — ao contrário do que realmente fizeram.
Que não teríamos chegado aqui se Rui Rio tivesse recusado esse acordo com o Chega nos Açores — ao contrário do que fez, tendo até admitido repetir o acordo no Continente.
Que não teríamos chegado aqui se o sistema partidário, o editorialismo e o comentariado tivessem tido tolerância zero para a retórica de apelo à violência política que é a constante da propaganda do Chega, e logo desde a sua origem na campanha eleitoral autárquica do PSD em Loures no ano de 2017 — ao contrário do que realmente fizeram, por considerarem que Ventura poderia ser útil para desgastar e conspurcar um PS então no Governo através das calúnias sobre corrupção.
Que não teríamos chegado aqui se ouvíssemos, ou lêssemos, Passos Coelho declarar que o Chega é uma ameaça à democracia e à liberdade — ao contrário do que realmente tem dito, aberta e intencionalmente.

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Dominguice

Embora impossível, imaginemos. Fazia-se um referendo com a seguinte questão: “Concorda que em Portugal as pessoas caucasianas devem ter mais direitos do que as não caucasianas?”. Tendo em conta o resultado eleitoral das últimas legislativas, qual seria uma previsão razoável, fundamentada, para a resposta a este referendo imaginado?

Ninguém se identifica como racista e xenófobo se interrogado na via pública. Mas pelo voto os conhecereis.

PNS, o Ruben Amorim do PS

Desde 2011 que Pedro Nuno Santos era visto como um fatal candidato vitorioso a secretário-geral do PS. Parte dessa convicção vinha da sua personalidade então carismática, parte vinha da notoriedade que lhe foi dada pela direita e seus impérios mediáticos por causa de uma declaração juvenil acerca do pagamento da dívida e das pernas dos banqueiros alemães. Precisava só de amadurecer um bocadinho. O seu papel como secretário de Estado dos assuntos parlamentares, entre 2015 e 2019, deu-lhe essa maturidade de estadista. De 2019 em diante começou a fase do estrelato, sendo crescentemente evidente que já se concebia como o sucessor de Costa a cada ano que passava.

Neste longo período de preparação à conquista do PS, o comentador Daniel Oliveira, pago pelo Balsemão, fez uma perseguição odienta a Costa. Em simultâneo, apontava PNS como sendo o messias que traria de volta o BE e o PCP para a ribalta do poder, muito provavelmente dando-lhes o merecido direito a pisarem as alcatifas dos gabinetes ministeriais. Era este o projecto, era esta a marca do homem. 2015 a 2019 ficava como a idade de ouro da esquerda pura e verdadeira, na versão deste prolixo comentador, pelo que Costa e muchachos ao serviço do capital deviam desaparecer do mapa cobertos de escarros e fezes. A pose de PNS, durante o ciclo promocional da sua pessoa, foi invariavelmente de grande cagança, ostensivamente petulante para com Costa, e nessa estratégia de “sucessor consumado” prometendo vir a ser um líder do PS fortíssimo.

Em 2023, PNS chegou lá. Primeiro sinal, de estranheza: a sua vitória sobre José Luís Carneiro, um discreto rival na compita, mostrou um PS muito mais dividido do que se antecipava. Segundo sinal, de preocupação: a frieza com que abandonou João Galamba num momento de injusto ostracismo, não o tendo convidado para as listas (algo que este até poderia depois vir a recusar), exibiu uma pulsão cínica, desleal. Seguiu-se uma campanha para as legislativas de 2024 onde a sua marca começou a ficar híbrida, porque não estabeleceu pontos de referência diferenciadores. O resultado dessas eleições disse mais da fraqueza de Montenegro como candidato a primeiro-ministro do que do poder de atracção do eleitorado de PNS, mesmo assim o acaso poderia ter-lhe dado uma simétrica vitória por migalhas sobre a AD. Menos de um ano depois, resolveu posicionar-se como um bronco político, fazendo comentários sobre a imigração que reforçaram a propaganda da direita. Não contente, partiu para um ataque ao Governo de Costa e a quem o defendeu. Chegou a ameaçar que tinha mais na manga para castigar esses seus camaradas. A sua marca entrava em dissolução, substituída por uma peçonha onde reinava esta contradição insanável: o tipo pintado como “amigo do Bloco e dos comunas” estava a querer entrar no comboio da xenofobia fazendo-se de amigo do zeitgeist. E, finalmente, aconteceu-nos o histórico 18 de Maio de 2025. Na sequência de uma campanha eleitoral com peças de comunicação inenarráveis, e debates televisivos onde não levou o rio a correr para a fonte, tendo assim reforçado a suspeita de não ter coragem política, veio o desengano: o actual líder do PS é um dos maiores logros na história da política nacional.

Dito isto, não o responsabilizo pelos resultados eleitorais. Só imbecis ou adversários se dedicarão a essa vingança torpe. O voto no Chega nasce de factores que transcendem a sua pessoa e o PS, implicando um ecossistema social e cognitivo tóxico; onde a informação mais eficaz está a ser produzida pela propaganda civicamente terrorista, não pelo jornalismo – e muito menos pelos discursos dos políticos que tentam falar para um eleitorado com literacia e racionalidade políticas. Responsabilizo-o é pelo que fez à sua marca, assim enfraquecendo a cidade. Tal como com Ruben Amorim, estar-se cheio de confiança garante boas entradas, não garante mais nada.

A montenegrização do regime vem aí a galope

A democracia é a pior forma de governo, indo a Churchill, por causa da sua essência caótica. À partida para as urnas, qualquer coisa pode acontecer na cachimónia dos eleitores. As sondagens são apenas induções, com a sua inerente falibilidade epistémica. E os especialistas na coisa, seja essa coisa as sondagens ou o povão, enganam-se como os néscios.

Ninguém previu o resultado mais importante saído destas eleições legislativas: o PS deixou de poder defender a Constituição. Se nas democracias os resultados eleitorais são ontologicamente bons, partidariamente há resultados para todos os gostos. No caso do PS, perder as eleições é sempre um mau resultado. Mas ficar empatado com o Chega, ou que fosse pouco acima, seria em qualquer cenário eleitoral um péssimo resultado. Vir a ficar com menos deputados do que os salazarentos, quiçá também menos votos, corresponde a uma humilhação traumática. Por cima disto, deixar de contar para uma eventual revisão constitucional é uma verdadeira, historicamente inaudita, catástrofe.

A direita não vai deixar passar a oportunidade, resta saber com que profundidade e radicalidade. Na versão mais benigna, alucinadamente ingénua, limitavam-se a varrer o Preâmbulo da Constituição, há décadas gerador de azia. Na versão mais provável, porque fundamentada em declarações públicas, esta é uma ocasião imperdível para aplicar a receita que Passos não se cansa de publicitar: “À chegada ao almoço dos ex-líderes do PSD, o antigo primeiro-ministro sublinhou a necessidade de “um espírito reformista”.

Irá o PSD juntar-se à IL e ao Chega para tal? A pressão para essa união das direitas não pode ser maior. Basta recordar que, em 2020, o santinho Rui Rio aceitou um acordo com Ventura para os Açores, depois de Cavaco e Ferreira Leite terem feito campanha pública nesse sentido. Ao tempo, Rio admitia estender o acordo a nível nacional. Donde, por maioria fanatizada de razão, a segurança social, a legislação laboral, a saúde e a escola públicas, os direitos das mulheres e das minorias, aquilo que se constitui como o legado e labor de Abril está agora nas mãos do que Montenegro quiser fazer com eles. Nada nem ninguém se lhe poderá opor.

Começa a semana com isto

NOTA

Num Estado de direito democrático — portanto, na nossa democracia — não há resultados eleitorais maus. São todos, sempre, bons. O único resultado eleitoral mau é aquele definido pela ausência de bem: a abstenção, e os votos intencionalmente inválidos e em branco. Neste platonismo, o ideal supremo é a liberdade de cada um a servir as necessidades de todos. E todos necessitamos de ter representantes políticos, ter quem Governe, ter quem permanentemente tente encontrar as melhores leis para o tempo presente e futuro, ter quem exerça, garanta e defenda a soberania.

Assim, parabéns àqueles que foram votar a 18 de Maio de 2025 com a intenção, e a esperança, de que o seu voto seja um dos símbolos maiores da sua liberdade.

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Curso de ciência política

«Julgára-se que o adiamento das côrtes de 1842 restituiria a tranquillidade de que tanto careciam os animos, para dentro em pouco entrarem serenamente no debate das medidas urgentes que reclamava a reorganisação da fazenda pública. Mas, contra toda a espectativa, esse interregno como que deu maior alimento à colera dos partidos. A opposição proseguia na imprensa, taxando de violenta e inopportuna a restauração da carta; e logo que se reabriu o parlamento reconheceu-se, pela renovação das discussões irritantes, que se tinham refeito as forças para combates odientos, e não para as pugnas pacificas da civilisação e do progresso. Entre os membros da opposição que diligenciavam manter-se firmes sem ira, e fortes sem rancor, occupava Garrett um dos primeiros logares.»


Garrett : memórias biographicas_Francisco Gomes de Amorim_1884

Dominguice

Existe uma conexão entre o fanatismo e a imbecilidade? Sim, necessariamente. E entre a imbecilidade e a arrogância? Sim, fatalmente. E entre a arrogância e a violência? Sim, infelizmente.

Na virtude é que está o meio.

Declaração de voto

Em Lisboa aparecem 18 opções no boletim. A nenhuma reconheço a defesa dos meus interesses. Mas daqui não resulta que sejam todas iguais, óbvio.

Gostava de não ter de votar PS, pelas razões que me levaram a não votar em eleições passadas (excepção para 2011). Por exemplo, em 2024 votei Livre, tal como tinha feito em 2022 e antes. Não posso nestas repetir o voto porque o Rui Tavares resolveu mostrar que o Estado de direito democrático não é exactamente uma paixão sua, sequer uma matéria que lhe mereça respeito: No país do Rui Tavares

Pelo que agora vou ter de votar PS, por exclusão de partes. É ingrato dar o voto a um partido com tantas altíssimas responsabilidades não assumidas pelos seus líderes, nem por nenhum quadro com peso mediático. Refiro-me ao silêncio sobre o que se passa no Ministério Público e na Justiça penal, onde ocorrem crimes sistemáticos e há agenda política, e na Justiça civil, onde os longos prazos de resolução causam devastação económica ao País e devastação pessoal aos envolvidos.

Assim, inventei um truque. Convenci-me de que não vou votar PS, antes o meu voto vai inteirinho para a Isabel Moreira. Ela, sim, defende os meus interesses de cada vez que fala. De cada vez que pensa.

Em cartaz

Este é o cartaz mais cognitivamente estimulante da campanha, porque o mais difícil de interpretar. O protagonista está a rir, vai sem discussão, posto que exibe a cremalheira toda. Mas a mensagem leva-nos para o choro e o sofrimento de milhões. Se Portugal precisa de salvação, e a salvação virá do fulano no cartaz salvífico, então é porque o desespero no País atingiu uma dimensão infernal. Estamos fatalmente perdidos, certamente por causa dos 50 anos de democracia, como outros cartazes do mesmo fulano explicam ao povo. Portanto, vai ser preciso recorrer ao Ventura para nos salvarmos, quem mais?

Eis o berbicacho na cachimónia do votante no Chega. Ele concorda com a perdição, está pronto para enterrar o 25 de Abril, mas hesita na adesão ao riso. Fica baralhado. Do que se ri o salvador? Do mal causado pelos corruptos, ciganos e indostânicos? Das mães e filhas portuguesas violadas por monhés e dos portugueses na miséria por causa dos subsídios à ciganagem? Da pretalhada com catanas? Ou será que a coisa não está tão mal assim, e o riso é apenas um sinal secreto para mostrar aos portugueses de bem que eles estão prestes a ser chamados para chefes disto e daquilo a mando do herói no cartaz?

Dilema fodido.

Os portugueses querem dar mais 4 anos a este alicantineiro?

“[A entrevista] vai no sentido da vitimização, e isso é não responder a nada, não esclarecer nada. O senhor secretário de Estado não tem de se queixar de ser notícia, tem de se queixar do que fez ou não explicou. No PSD não nos vamos eximir de cumprir o nosso papel de oposição para que tudo isto seja compreendido e esclarecido do ponto de vista político; independentemente do que judicialmente possa acontecer.”


Montenegro, 2022