Se pudesse escolher, Portugal empataria com o Uzbequistão. Ainda seria melhor se perdesse. Porquê? Para ver o actual vendaval de adoração saloia e choné a Ronaldo atingir o paroxismo. Aqueles que o detestam – uns porque sempre o detestaram dado serem lampiões e tripeiros, outros que nem ligam peva ao futebol mas têm gosto nessa verrina – são quem mais o adora. Autênticos idólatras.
Ronaldo está acabado, ou não devia estar na Selecção, ou só devia entrar a 10 minutos do fim e apenas se fosse preciso um milagre ou estivéssemos a ganhar por 3 ou 4? Sim, podia ser. Se fosse, não teria qualquer importância. E só isso importa: reconhecer que o futebol não tem qualquer importância que importe. É um espectáculo, um divertimento, uma cagada.
Há um outro Ronaldo à disposição dos espectadores. Esse, entrou em declínio imparável em 2018. Foi quando os bacanos no Real Madrid olharam para as estatísticas e gráficos percebendo que ele já não valia o que estava a pedir. Mudou-se para a Juventus, ainda muito acima de todos, mesmo que já na curva descendente. Três anos depois, foi para o Manchester United, e as limitações crescentes estavam cada vez mais à vista. Mas não só, no plano mental também se viam expressões de insegurança e ansiedade. Neste clube, correu tudo mal, apesar de alguns episódios maravilhosos. Um ano e pouco depois, sem nenhum clube europeu disposto a pagar-lhe pelo estatuto de outrora, e ainda menos a levar um potencial problema para os seus balneários, Ronaldo agarrou-se ao que restava da sua marca e foi para a Arábia Saudita cumprir o sonho de ser bilionário. Agora, está à espera dos mil golos para arrumar as botas.
Este Ronaldo importa na dimensão em que o futebol é também um modo de acesso ao mistério que nos cerca, que somos. É simplesmente estúpido ou odioso dizer que outro jogador português no seu lugar faria melhor (isto é, marcaria ou daria a marcar mais golos), porque tal conhecimento não existe nem pode ser testado. Eis uma verdade da ontologia de tudo e de todos: o universo é único e irrepetível. Acontece que o cabrão do espanhol que escolhe os jogadores para aparecerem em calções no relvado tem mostrado a sua preferência pelo Ronaldo. Isso é mais do que suficiente para nos podermos entregar a um sublime prazer: estarmo-nos a marimbar para o que aconteça ou deixe de acontecer com o Ronaldo, e ficarmos em êxtase se o mistério também curtir ver o fulano a marcar mais um.
Ronaldo é um idiota.
Vozinha é que é, ali do Mindelo da praia da Laginha.
Ai meu coração é tão fraco
Vai ao fundo com uma cachupa de grão
Mas é tão leve o balanço tão doce o atraco
Que me ponho a beijar o mar
No barco para S .Antão.
Cabo Verde tem mel.
É assim a mentalidade xuxo-burguesa, aqui demonstrada pelo volupi: indiferente à desigualdade, mesmo a mais extrema; desinteressada em justiça ou equidade; incapaz sequer de perceber quão transparentes são a sua cupidez, chulice, sabujice e hipocrisia.
Muitas destas criaturas dizem-se de esquerda, mas são tanto de esquerda como eu sou astronauta. A sua devoção é meramente utilitária, e a sua admiração por corruptos como o 44 ou broncos mamões como o Ronaldo, o sportswasher mais ganancioso do planeta, revela o que sempre foram – farsantes e lambe-cus. Daí também desprezarem a esquerda a sério.
Contentes na sua mediocridade venal e ‘aspiracional’, orgulhosos da sua filosofia de cordel, os volupis da vida vão-se entretendo com futeboladas e convidam-nos a “ficarmos em êxtase” com o que o bronco faz ou deixa de fazer. Fale por si, xuxa: êxtase será ver o seu regime podre e este pseudo-desporto mafioso na cadeia, e todos os mamões expropriados.