E se cortássemos as mãozinhas, ou que fosse só uma orelha, ao Vara?

Por que razão, no Portugal de 2017, não temos conhecimento de quem defenda a lei de talião como princípio ordenador, ou inspirador, do nosso edifício penal? Por que razão não se faz um referendo sobre a adopção de castigos como o de cortar a mão a quem rouba, ou violar os violadores, ou matar os assassinos sem ser necessário julgamento de acordo com a lógica de que ao matarem, e serem apanhados não importa como, devem igualmente morrer sem precisarmos de os ouvir ou conhecer as suas motivações e circunstâncias? Por que razão não se permite às famílias cujas crianças foram violadas e/ou torturadas fazerem justiça pelas próprias armas ou faqueiros? E por que razão os polícias, quando prendem alguém por ordem de um tribunal, seja lá qual for a causa, não passeiam esses condenados pela via pública permitindo que a população os possa seviciar com insultos, cuspidelas e excrementos, antes ou depois de serem encarcerados?

Uma das formas de medir o sucesso do nosso sistema de ensino público seria fazer estas perguntas a quem acabe os 12 anos de escolaridade obrigatória. Que respostas iríamos obter? Onde está, nos diversos currículos da escolaridade obrigatória, essa matéria, essa preparação, essa avaliação? Na impossibilidade de fazer tal experiência, há outra que se oferece viável. A de perguntar estas e outras perguntas congéneres a quem envenena o espaço público montado em órgãos de comunicação social de vasto alcance. O veneno consiste no real processo de influência sobre procuradores e juízes com vista à distorção e perversão do Estado de direito democrático; pelo caminho, ou no mínimo, conseguindo manter durante anos processos de assassinato de carácter ligados às paixões e agendas políticas. Porém, no Portugal dos últimos 10 ou 15 anos não vemos este modus faciendi distribuído com a generosidade cartesiana atribuída ao bom senso. Para começar, não temos empresas “jornalísticas” dedicadas à calúnia como negócio e arma política no espaço partidário do PS, BE e PCP. Igualmente, não nos ocorrem figuras avulsas destas mesmas áreas ideológicas cujas carreiras mediáticas consistam na exploração do cardápio populista e calunioso. Já nos terrenos do PSD, CDS, mais as suas franjas e franco-atiradores, é um fartote. Não só têm dominado, a espaços quase de forma monopolista, a comunicação social portuguesa como têm uma simbiótica relação com a luta pelo poder político.

Um dos casos mais notáveis deste ecossistema político-mediático é o de Marques Mendes. Estamos perante alguém que foi parte integrante e directiva do cavaquismo, que chegou a presidente do PSD e que desde 2011 é conselheiro de Estado. Bastaria ficarmos por este último estatuto, o de ter poder para aconselhar formalmente o Presidente da República nas mais importantes questões da chefia do Estado, para termos matéria que chegue para a seguinte constatação: a calúnia grassa inimputável e está institucionalizada como forma legítima de intervenção no espaço público, independentemente das responsabilidades assumidas no regime pelos seus autores. Dou como exemplo a sua declaração de que “a impunidade acabou”, usada no comentário ao desfecho do recurso de Armando Vara no Tribunal da Relação do Porto. Ora, a “impunidade” a que se refere, refere-se a quê, exactamente? Uma primeira definição, obrigatória, é a de que este actual conselheiro de Estado tem conhecimento da prática de crimes que ficaram sem punição. O que agora está a faltar é a identificação dos crimes e criminosos em causa, para assim podermos saber quem são os responsáveis por essa gravíssima e inadmissível violação da Lei, a dar crédito às suas palavras. Como o próprio, aparentemente, não está disponível para prestar essa informação, temos de procurar noutras fontes.

Em 26 de Setembro de 2012, a ministra da Justiça ao tempo, Paula Teixeira da Cruz, foi interrogada por jornalistas a respeito da abertura de um inquérito-crime às parcerias público-privadas. Nesse âmbito, a Polícia Judiciária tinha feito buscas nas casas dos ex-ministros das Obras Públicas Mário Lino e António Mendonça, e do ex-secretário de Estado Paulo Campos. Que se lembrou a senhora de dizer? Isto:

A ministra da Justiça sublinhou que «ninguém está acima da lei», que «tudo deve ser investigado» e que «acabou o tempo» em que havia «impunidade».
Fonte

Ou seja, temos uma ministra da Justiça a denunciar oficialmente a ocorrência de crimes numa passado recente anterior à sua tomada de posse no Governo. Um passado, portanto, onde havia quem estivesse acima da Lei, onde nem tudo era investigado, onde havia impunidade. Mais uma vez, a pergunta imediata a fazer é relativa à identificação desses crimes e desses criminosos que declara existirem. E, uma vez mais, não obtivemos pela denunciante a informação respectiva. Contudo, neste caso ficamos com mais elementos para inferirmos de quem se trata. Pela associação de conteúdos, é altamente provável que Teixeira da Cruz se estivesse a referir em contexto, pretexto e subtexto aos envolvidos no tal inquérito-crime (já agora, alguém sabe alguma coisa, por mínima que seja, a respeito do seu andamento?) que suscitou o interesse dos jornalistas. A ter validade esta hipótese, então podemos começar a perceber quem eram os beneficiários da “impunidade”: malta do PS, com cargos nos Governos de Sócrates. No entanto, para afastar de vez o risco de termos interpretado mal tão séria senhora, o melhor será procurarmos ainda uma outra fonte para a definitiva hermenêutica da expressão.

Essa fonte é o grupo Cofina, através do Correio da Manhã e da Sábado. Nestes dois influentes órgãos de comunicação social tem vindo a ser estabelecida sistematicamente uma doutrina holística e consistente, mas com a beleza da simplicidade, acerca do que devemos entender sempre que se utiliza a cifra “acabou a impunidade”. Trata-se da referência a um fenómeno que começou nos princípios de 2005, que implicou a cumplicidade do topo da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal de Justiça durante vários anos, e onde os governantes e suas empresas cúmplices roubaram tanto e tão desvairadamente o Estado que provocaram a bancarrota em 2011. Este é igualmente o ano em que acaba a tal impunidade, graças à eleição de um novo Governo composto por pessoas honestas e corajosas. Em síntese, como se escreve aqui para a posteridade, o “tempo da impunidade” foi um período da nossa História em que Sócrates e seu bando de ladrões tentaram impor uma cleptocracia populista. Logo, podemos a partir dessa revelação, nascida do melhor que a imprensa nacional tem para nos oferecer, recuperar as declarações de Teixeira da Cruz e Marques Mendes, entre tantos outros, e dar-lhes o alcance que elas realmente têm para quem as consegue decifrar.

Mendes, em referência a um cidadão de nome Armando Vara, despejou para cima da sua particular situação judicial concernente a um crime de tráfico de influências com um sucateiro – situação ainda não transitada em julgado – este caudal de insinuações e correlações. O à-vontade com que o fez está directamente relacionado com a sua percepção de que o mesmo Armando Vara já não goza de todos os direitos e garantias que a Constituição, o Estado de direito e os variados códigos legais instituem para os restantes cidadãos na República Portuguesa. O processo pelo qual se chega a este ponto, em que um conselheiro de Estado assume este discurso e o propaga mediaticamente, consagra a eficácia da estratégia seguida pela direita e seus braços armados na comunicação social. A um ponto tal que, do meu conhecimento, só duas pessoas em Portugal tiveram a decência e a liberdade para mostrarem a sua repulsa pela violência em curso: Miguel Sousa Tavares e Estrela Serrano.

Importa explicar o mecanismo pelo qual o ardil se mantém e replica. Importa explicar como é que se consegue, ao longo de anos, ocupar o espaço público com uma absoluta irracionalidade onde se diz ter havido ministros, procuradores e juízes a cometerem as maiores e mais obscenas ilegalidades mas, ao mesmo tempo, não ter havido nem haver deputados, procuradores, juízes, polícias, jornalistas e um Presidente da República chamado Cavaco ou Marcelo que as denunciem com provas, sequer que se queixem às autoridades ou usem o seu poder institucional para as expor e combater. Importa explicar, mas importa igualmente que quem explique o faça no local e no modo próprios, adequados à gravidade do ataque em curso. E quais serão eles? Quem o conseguirá fazer?

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16 thoughts on “E se cortássemos as mãozinhas, ou que fosse só uma orelha, ao Vara?”

  1. A opinativa Estrela Serrano, e eu!, esperávamos essa obra-prima pré-anunciada (vendo bem parece uma coisa de Nobel da Literatura, Valupi).

    Como nunca mais chegava, ri-me um bocado de cada e de muitas vezes, confesso, por imaginar uma senhora com uma idade respeitável ansiosamente esperando as tuas “reflexões” quem sabe se agarrada ao lenço do amado fortuitamente esquecido numa dos bancos corridos da famosa, ortodoxa e mais resistente (!) das antigas capelas da socratolatria segundo ensina a gramática Plúviana (foi desta forma singela que disseste, acho: a necessitarem de reflexão, e pelo tamanho vêem-se quão profundas elas foram!).

    Infelizmente, não é sacanice minha mas não tenho tempo (nem vontade) de as ler inteirinhas.

    Hoje é sexta, amanhã vem aí uma jogatina do Glorioso contra os moços do Campo Grande, depois chega a segunda que pode ser para não sei o quê, depois vem à memória o 25 de Abril de 1974 e, lá para a semana que vem, sabes podes contar com o meu entusiástico leitorado.

    Nota, importante. Até lá fico-me pelo título, daquilo que a yo viu na Visão acho que o Armando Vara pode estar sossegado porque as suas orelhinhas estão por ora sossegadas. Já sobre a mania de pôr a mão em seara alheia tanto figurada (a mulher do outro) como literalmente (seja no Face Oculta, condenado, e na Operação Marquês, segundo o MP) não me parece que seja caso para estar em sossego.

    [Mão, orelha?! Abajo!, más abajo!, camaradas, e eu não digo mais nada.]

  2. Delambendo -se na Cruzada Marquetina Tomatina engelahada outra vez essa merda de assunto?! Lançam-se foguetes chochos todos os dias e nem sequer conseguem apanhar os Varas que estão na “lista S” e estes pois claro que ficam chateados e riem-se que nem robalos vestidos de Adidas. Ora ide lá apanhar cravos vermelhos no …

  3. Este é um pais de pequenos e vis moralistas e não de grandes almas. Só como exemplo ( mais um) o caso da rapariga que morreu no hospital de Cascais, não vacinada, cuja mãe foi apodada de tudo e contra quem valentes cobardes maiores e devidamente vacinados (principalmente contra o nojo) disseram trinta por uma linha. Afinal era mais uma notícia não confirmada, fake, para alimentar os pistoleiros do novo moralismo.
    https://zap.aeiou.pt/mae-adolescente-morreu-sarampo-nega-anti-vacinas-156746

    Mas o que interessa isso agora? Já se descarregou a verrina o que até faz bem a próstata e amanhã há joga da grande.

  4. quanto mais leio as cenas do Ignacio González González , do irmão , cunhado at all , mais me alembra do zézito . aquilo é que era um ver se te avias , com financiamentos para o partido conseguidos a la Vara. mas é giro , os jornalistas na espanha não cascam na justiça , que demora também anos a concluir processos , prende os tipos e vai dando novidades dos processos . mas eu sei o que é : o eterno problema tuga , focam-se na forma e não no conteúdo. arriba españa !! a cortar cabezas ! o pp de lá é uma espécie de ps português , caray , puja-se por uma linha e vem uma meada enredada atrás.

  5. Valupi,
    Alguém, mesmo gente comum, compreende que o BCE um banco criado da união de países que formaram a União Europeia os quais são os accionistas financiadores e os clientes do dito banco esteja dependente de “Agências de Notação” americanas para concederem crédito aos países que são os seus accionistas financiadores e clientes?
    Como entender que o banco BCE que controla as finanças dos países accionistas quase como um polícia detective farejador minucioso não conheça a situação financeira dos seus próprios sócios e remeta para outrem, estranho à UE, o aconselhamento e a responsabilidade decisória para conceder crédito aos países sócios da própria casa europeia?
    O que tem isto a ver com o post. Este caso BCE padece da mesma “absoluta irracionalidade” de que fala o Valupi.
    Bertrand Russel dizia que ao fazermos perguntas mais profundas percebemos que, um pouco abaixo da superfície das nossas pressuposições confortáveis, existe um ‘mundo muito estranho’.
    Os Sábios gregos despretensiosos descobriram a racionalidade que serviu o progresso histórico mas parece que os sábios gananciosos de hoje desconfiam do avanço da racionalidade que já não os favorece. Então estão criando um clima de irracionalidades para a vida actual que não desistem de tentar implantar no mundo como “sistema”.
    E vendem esse novo “sistema” como sendo uma modernaça revolução “anti-sistema” que o pagode papa alegre e ignorantemente. E tudo não passa de uma tentativa, mais uma, de formatizar e sistematizar um tipo do tal ‘mundo estranho’ de Russel.
    Para a vontade de poder da oligarquia terrestre a imaginação não tem limites.

  6. Era pura perda de tempo, não dava nem para chispe nem para orelheira .
    O resto, naturalmente, não leio .

  7. boa ideia era condená-los à morte ou a prisão perpétua como fazem na China. a corrupção descia logo para valores mínimos. grandes problemas requerem grandes soluções :) com pensos rápidos e castigos nas urnas não vamos lá.

  8. Li e não achei nada de jeito, a opinativa Estrela Serrano deve ter ficado opinativa-desiludida.
    O que é perigoso, Valupi. Ainda para mais, porque esperou ansiosamente acho (o que não era o meu caso, cujas expectativas reconheça-se que são poucas).

    Conselho à borla, ouve lá:
    – Se eu fosse a ti ligava-lhe não vás ficar com um peso na consciência, quem te avisa.

  9. e se a Cidade fosse um talho, o povo – cortador de carnes verdes especializado, fanado de moral, intelectualidade e evolução social – viveria feliz no reino animal da barbaria. podia-se, até, fazer viver o canibalismo para que a retaliação ganhasse mais sabor. :-)

  10. Valupi, a opiniativa Estrela Serrano para não se aborrecer acabou com os comentários no seu blogue.

    Aborrecer-se com os leitores? Não me parece, ali há qualquer coisa very sentimental. Senão vejamos [se não vejamos, n.d.r.], como diz disparatadamente o outro: o facto coincidiu com um eventual desalento depois de ler a tua longa “reflexão” sobre alguns membros humanos-taurinos-sexuais (sendo que por consequência a Olinda te passou a ver como marchante e, ainda mais consequentemente, o Aspirina B como um talho) a propósito do fado do Armandinho acompanhado à viola por Luís Marques Mendes e na braguesa por Paula Teixeira da Cunha e mais o Aníbal algarvio a dedilhar o cavaquinho é claro (e poderíamos continuar a juntar mais gente até se encher o salão de festas). Post sem pileira nenhuma, uma especialidade.

    Ora, isto dá que pensa. Olha o peso na consciência. Já lhe ligaste, entretanto?

  11. o miguel sousa tavares não é compadre do salgado ? coitado , a vergonha que a filha/o vai passar quando o sogro for de cana.

  12. Paula Teixeira da Cruz, em vez de cunha que dá sempre jeito (dentro dos sapatos do Mendes, do Vitorino, do Rangel e do Bono para fazerem peito aos homúnculos ou para abrirem o leque perante as gaijas, por exemplo).

    É compadre é, mas no Aspirina B não é de certeza.
    Quem a sabe toda é o José Diogo Quintela que escreveu, em tempos, uma crónica na revista do Público que deixou o MST desvairado com isso. Eu tenho-a, cool.
    Aqui, ei-lo: https://www.youtube.com/watch?v=H7cTAkLL_aU
    (em homenagem ao Zé Diogo e ao proselitismo Pachequiano, vulgo alcoolismo da troupe do Aspirina B)

  13. http://josepaulofafe.com/jose-diogo-quintela-vs-miguel-sousa/ , aqui e o tipo acertou em cheio.

    Contactado pela SÁBADO esta tarde, Miguel Sousa Tavares reagiu de forma dura:

    Leu a crónica que José Diogo Quintela escreveu sobre si?
    Sim, mandaram-se isso.
    E o que é que tem a dizer?
    Apenas isto: ele é um falhado, um medíocre, que se quer promover às minhas custas.
    Mas sobre a insinuação de que…
    … É só isso que tenho a reagir: é um falhado, um medíocre, que se quer promover às minhas custas, mas não lhe vou fazer isso.
    Quintela diz…
    … estou-me nas tintas. Ele que que fale do sócio dele da panificação, o Dias Loureiro.

    MST na Sábado, percebi agora que o Valupi é o elemento unificador (ama o Miguel mas também o Manuel, quem diria?).

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