A história do cavaquismo está por fazer

A entrevista a Dias Loureiro – “Temos um Presidente com opinião sobre tudo menos os direitos fundamentais dos cidadãos” – oferece duas passagens geradoras de granítico silêncio no comentariado, seja à direita ou à esquerda:

- À boca pequena toda a gente diz que há uma central de informação em tal lado, as pessoas são estas e aquelas... Eu não vou dizer porque ainda vou ter outro processo a seguir, porque não posso provar também, não é? Mas nada acontece, a justiça tem sido incapaz de se investigar a ela própria nas coisas mais comezinhas.

- Cortei com um só amigo, um grande amigo. Um amigo a quem devotei uma amizade incondicional nos últimos 32 anos. Um amigo a quem dei, em tudo, o melhor de que fui capaz. Admirava-o como pessoa e como político. Continuo a admirar a sua obra política como primeiro-ministro. Falo do professor Aníbal Cavaco Silva. Da pessoa. Não lhe falei durante todo o segundo mandato presidencial e quando terminou as funções procurei-o para lhe dizer por quê me afastei dele. Disse-lhe que fui sempre leal à amizade que lhe dediquei. Disse-lhe que ele não o foi em relação à amizade que eu esperava dele. Disse-lhe que tenho a consciência tranquila. Agora a vida segue. A dele e a minha. Sem rancor. Às vezes lembrarei a mágoa.

Na primeira citação, Dias Loureiro está a declarar que tem conhecimento dos nomes dos agentes de Justiça que cometem crimes em conluio com jornalistas e órgãos de comunicação social. E acrescenta que essa informação a que se refere está na posse de muitos que a repetem em círculos privados, na “boca pequena”. Na segunda citação, Dias Loureiro humilha Cavaco Silva e mostra qual dos dois é que detém o poder dentro da relação. Pista: não é o orquestrador da “Inventona de Belém”.

Antes de irmos às ilações que estas duas citações legitimam, uma nota sobre a figura. No seio do PSD sabe-se muitíssimo bem como é que o Manuel de Aguiar da Beira subiu dentro do partido. Corriam anedotas ao longo das décadas sobre os tempos de Coimbra que eram contadas por militantes e dirigentes laranjas. Este aparato sórdido, pois as histórias eram sórdidas, ligava-se com a percepção de que ele se tinha tornado na eminência parda do cavaquismo. E o que foi o cavaquismo? Foi algo sem o qual não teria nascido o BPN, por exemplo, daí a teia de relações entre os seus protagonistas, os da corte de Cavaco e os do banco, sendo que nalguns casos eram exactamente os mesmos. Donde, quando rebentou a crise do BPN, e se deu a intervenção do Ministério Público, muito boa gente jurava que seria impossível tocar em Dias Loureiro. A lógica sendo a de que, se ele caísse, inevitavelmente cairia Cavaco. E jamais a oligarquia deixaria que isso acontecesse. Os factos vieram dar razão a estas profecias, pois Dias Loureiro acaba de ver um bizarro e escandaloso despacho de arquivamento a, para todos os efeitos práticos, ilibá-lo de crimes que o Ministério Público mantém terem acontecido por sua responsabilidade, por um lado, e Cavaco permite-se gozar com o regime e a comunidade, vindo mentir pateticamente a respeito de um crime que igualmente cometeu, pelo outro. Do ponto de vista da opinião, são dois escroques. Do ponto de vista da Lei, dois inocentes. E é a Lei o que mais importa.

Voltando às ilações, a primeira consiste nesta constatação: nem quando um cidadão declara ter conhecimento da prática de crimes e de quem são os criminosos tal impele o Ministério Público a agir caso as implicações corporativas e políticas lhe desagradem. Joana Marques Vidal não quer saber se Dias Loureiro mente ou se está na posse de uma valiosíssima informação que permitiria, finalmente, apanhar um dos criminosos na origem das violações do segredo de Justiça? O corolário é o de que os partidos, o Governo e o Presidente da República ficam automaticamente na categoria de cúmplices pela sua passividade e silêncio. A segunda remete para a História de Portugal e, em particular, para a história de Cavaco Silva primeiro-ministro e Presidente da República. O que Dias Loureiro quis mostrar foi que o seu “grande amigo” o atraiçoou e que, portanto, há uma história secreta entre os dois que nunca veio a público. Conhecer essa história corresponderia a conhecer os meandros da oligarquia portuguesa dos últimos 30 anos.

8 comentários a “A história do cavaquismo está por fazer”

  1. pois é , alguém podia escrever : “contos proibidos . memórias de um psd desconhecido” porque não é justo terem só destapado os podres ao Marocas , o Múmia também merecia.

  2. Primeira parte : non sequitur .
    A minha interpretação é a de que ele se refere a uma falta de manifestação pública de apoio e solidariedade .
    Segunda parte : V. parece ignorar que existe a figura jurídica da prescrição, por via da qual, decorrido certo tempo, eventuais ilegalidades e crimes, já nem podem sequer ser submetidos a julgamento, quanto mais investigados . Seria pura perda de tempo . E um absurdo .
    Daí, que a farpa na Procuradora-Geral, peque por inoportunidade .
    Aliás, Freitas dixit, qualquer alusão a factos prescritos, de que possa resultar prejuízo para o bom nome, etc. dos visados, é passível de queixa crime por parte dos mesmos .
    Em resumo : as coisas consolidam-se tortas, na esfera jurídica. Tal como um osso fracturado e não tratado, se consolida enviesado .
    Passa a ser matéria para ” o julgamento da história ” coisa muito do agrado de vários delinquentes políticos.

  3. eu gostei mais destes bocados

    ” Eu conheço muitos magistrados, alguns telefonaram-me ontem, são meus amigos de há muito tempo, aliás ontem estive a receber mensagens até à uma da manhã. Há sempre lados bons nas coisas. ”

    “m de Portugal. E ontem aconteceu-me isso, pessoas que me telefonaram, magistrados, etc., mas não vou dizer aquilo que me disseram. Há em Portugal muito bons magistrados, até diria que na generalidade são ótimos magistrados, ótimos, trabalham, têm as coisas em dia, esforçam-se, não tenho a mínima dúvida disso. Conheço alguns que foram meus colegas de curso, conheço muita gente nessa área como deve imaginar, em todos os rankings da magistratura, ótimos, excelentes profissionais, dedicados trabalhadores, com um sentido apurado de justiça…”

    E eu se não tivesse medo , muito medo ,( tenho uns negócios esquisitos , pedi aqui e ali uns favores , meti umas massas no panama ,vou a uns almoços temáticos sado masoquistas e assim umas cenas ) fazia uma vaquinha com o correio da manhã e diria que foram esses “amigos ” magistrados que o ensinaram a escapar entre os pingos da chuva. mas como tenho medo , não digo.

  4. O cavaquismo está-se desmoronando caso a caso; foi o seu ministro das finanças cadilhe o primeiro a afirmar que o tal “monstro” que assombrava cavaco não era mais que o monstro que ele, o próprio cavaco, criara.
    Mais recentemente foi o lima, seu principal concelheiro político, que escarrapachou preto no branco que a ordem para avançar para a intentona das “escutas a Belém” tinha vindo directamente do “alto” da chefia do palácio de Belém.
    Agora é o dias loureiro que, de certo modo, dá à língua para indiciar a existência de uma central de informação para desinformar e que, eventualmente, também esconde cavaco na deslealdade deste para com loureiro.
    A somar a tudo isto está a desconfiança generalizada e sempre em crescendo do povão relativamente a cavavo o qual lhe atribui uma popularidade abaixo de cão.
    Portanto toda a miséria que foram os (in)consulados cavaquistas estão prestes a vir à tona e então conhecer-se-á a tal oligarquia dos últimos 30 anos.
    Nessa altura , certamente, também se saberá acerca da inaudita pressão que cavaco fez para o “novo aeroporto” ser transferido da OTA para Alcochete onde, mais tarde, se soube que os seus amigos do BPN já haviam comprado milhares de hectares de terras.
    E também, e isso Sócrates um dia contá-lo-á, qual a dimensão de pressão exercida pelo presidôncio cavaco (assim mesmo ignatz) para que o BPN fosse nacionalizado: o presidôncio era o “grande economista” e simultâneamente o “grande amigo” dos “grandes banqueiros” do “exemplar banco” onde, para além do grosso do cavaquistão que o dirigia, “grandes” do PSD tinham muita massa a render juros anormais, como balsemão e outros.
    É uma vasta e sórdida história recente e dias loureiro é a pessoa que melhor a pode contar pois está por dentro dela desde o primeiro dia.
    Precisamente, é nessa elite oligárquica cavaquista, que reside a escola e fonte de corrupção quase generalizada que se instalou e ainda grassa pelo país. E, ainda agora, essa velha entourage oligárquica protege e mantém na obscuridade os verdadeiros fautores de actos corruptos e servem-se de bodes expiatórios para desviar as atenções da bela vida de ricos knorr (instantâneo) que ostentam.
    A crise universal que rebentou em 2008 e ainda anda por aí em força e, prestes a tornar-se em fogo violento,
    foi o pretexto ideal aproveitado pela oligarquia interna corrupta para culpar a política e os políticos inconvenientes das malfeitorias próprios por um lado e, por outro, carregar também os pobres portugueses de culpas morais a expiar por viverem acima das possibilidades ou, como diz agora o snob holandês, viverem no bordel entre copos e mulheres.
    Podem esconder ainda muito tempo mas não escaparão. Cavaco esteve à frente da construção da coisa e agora também vai à frente na desintegração da coisa.

  5. e como podemos saber dessa história? teria de haver um infiltrado que fizesse um livro, havendo segredos na política – que é pública – é porque já remete para a intimidade, sobre a vida privada deles. :-)

  6. Valupi-Valupi, se o Dias Loureiro diz que perdeu um “amigo” ganhou outro.
    Tu, lamentavelmente, que ginasta pelo menos não queres parecer mas que és visto com um ginasta desajeitado e assim te confessas.
    Azarucho, há cambalhotas na vida que não se perdoam quando a gente se vê ao espelho
    (foi o caso de anteontem com a Série “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…”,
    vê-se como uns quinze minutinhos roubados a outrem te perturbaram).

    _______

    Nota. Olha lá, e o que é que disse o endireita?

  7. Venha o livro!
    Palpita-me que Cavaco já não vai publicar o 2º volume das Histórias da Maria ou Histórias da Treta, ou lá como se chama “aquilo” das 5ªs feiras.
    O relato das negociatas OTA/Alcochete (quem foram os tais compradores dos terrenos?) seria de “suspense”.

  8. Li agora o post e achei-o mal-enjorcado, a sério. Vi que cumpria um objectivo, e este passava por tentares limpar as mãos. Cito-te, à lupa: «Do ponto de vista da opinião, são dois escroques. Do ponto de vista da Lei, dois inocentes. E é a Lei o que mais importa.», wow!, não sabia que o Aspirina B se tinha transformado na série extra do Diário da República oficial.

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    Entretanto, tanto mar.

    «Para a direção da Sábado, é nomeado o jornalista Eduardo Dâmaso, até aqui diretor-adjunto do Correio da Manhã. Eduardo Dâmaso terá como diretor-adjunto o jornalista João Carlos Silva. A nova direção da Sábado responde diretamente ao novo publisher do grupo Cofina.»

    28.03.2017 19:15 por CM. Cofina news, pois.

    Valupi, antigamente tão lesto em trazeres notícias sobre o universo da Cofina, não disseste nada desta vez? Ou não sabias?

    Cofina news, bis.

    Aqui, a cores: https://imgs.vercapas.com/covers/sabado/sabado-2017-04-06-4a44dc.jpg

    Li quase nada mas, aparentemente, o que a Sábado desta semana diz é que a famosa Quinta dos Muros Altos, em Sintra, por artes mágicas e através do maravilhoso mundo do pilim que jorra em grande quantidade nos canais das offshores existentes por esse mundo fora deixou de ser propriedade e passou a ser, de facto, propriedade-propriedade de uma empresa detida pelo engenheiro Carlos Santos Silva (uma tal Cosmatic foi comprada pela Airlie, o artificialismo da nomenclatura poderia inspirar um tratado), perdão de José Paulo Pinto de Sousa, o primo Gordo, primeiramente, perdão de Joaquim Barroca, perdão de Rui Mão de Ferro (?!) que, entre outras coisas notáveis, congeminou o sucesso comercial do best-seller em que se transformou uma tese defendida na SciencesPo e que veio, entretanto, queixar-se por carta dirigida ao MP ainda mais notavelmente que não tinha dinheiro para pagar ao… jardineiro porque, afinal, não passa de um simples testa-de-ferro do engenheiro Carlos Santos Silva e desconhece o verdadeiro proprietário da offshore em forma de empresa virtual.
    Ou seja, a quinta será do ex-PM. E esta?

    Nota, arqueológica. Soube-se no longínquo ano de 1994, através dos queridos do Indy, que a dita propriedade sintrense, famosa e formosa por seus múltiplos encantos era propriedade de um conhecido senhor de nome Domingos Duarte Lima, entretanto caído em desgraça.

    Nota, contemporânea. Está visto, senhores. De facto, se o universo do velho PSD cavaquista surgiu sussurrado com um singelo post sobre o Manuel Dias Loureiro, de futuro eu o digo em diante, presumivelmente, o cofre laranja passará a estar ainda com mais força na ordem do dia aqio no Aspirina B através da gentileza do quarteto de artistas da companhia de variedades Valupi e Penélope e Penélope e Valupi. Porquê?, porque sim.

    (não há dia que não me surpreenda com a chegada da primavera, confesso).

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