Uma mão cheia de nada

O PS de Seguro gabou-se de ter obtido uma importante vitória ao conseguir aprovar a já famosa “adenda ao tratado orçamental”. E obteve sim senhor, tendo em conta que ganhou pelo menos uma parte do ciclo noticioso agora entretido com o affair Relvas. Resta saber o que é que foi, exactamente, aprovado, que documento é esse que, segundo Seguro e Zorrinho, constituem agora a “regra de ouro” (quiçá “de platina“) para o futuro “crescimento” de Portugal. Que terá, naturalmente, que agradecer reconhecido ao PS quando o “crescimento” chegar.

E o que foi aprovado foi, essencialmente, isto (bolds meus, rasurado aquilo que não foi aprovado):

 I. Recomendar ao Governo que, em nome de Portugal, proponha e apoie medidas de natureza institucional e políticas que vinculem juridicamente os Estados Membros da União Europeia e que conformem uma agenda de crescimento e de criação de emprego na União Europeia, designadamente através da aprovação de um ato adicional ou de um tratado complementar ao tratado sobre estabilidade, coordenação e governação na união económica e monetária.

E uns excertos dessas medidas:

a) Reforço dos mecanismos de governação económica, baseada no princípio da legitimidade democrática, implicando uma maior intervenção dos parlamentos nacionais e europeu, e no aprofundamento do método comunitário de tomada de decisão

(…)

e) Criação de um Eurogrupo social que se encarregue da coordenação das políticas de emprego e sociais dos Estados da zona euro, de modo a preservar e dinamizar o modelo social europeu;

(…)

h) Construção de um sólido sistema de supervisão bancária a nível europeu e definição de um regime jurídico que imponha a separação entre bancos comerciais e bancos de investimento.

(…)

a) Tomar em conta o papel do investimento e do crescimento nos esforços de redução da dívida pública;

(…)

d) Em articulação com as alíneas anteriores, reforço da capitalização  e lançamento de obrigações pelo Banco Europeu de Investimento (BEI), aumentando a capacidade de financiamento de projetos de investimento nas áreas referidas;

e) No quadro das políticas já existentes, implementação de programas e políticas específicas de crescimento e de criação de emprego, mobilizando para isso, se necessário, novos recursos, para os Estados Membros sob assistência financeira externa;

(…)

g) Garantir que as perspetivas financeiras 2014-2020 mantenham o reforço da coesão económica e social como prioridade fundamental, a par da implementação dos objetivos reforçados, nos termos das alíneas anteriores, da estratégia Europa 2020; com vista à negociação, deve ser promovido um amplo debate nacional sobre aquelas perspetivas financeiras;

etc. etc. O documento completo pode ser lido aqui (PDF), as alterações propostas pelos partidos do governo aqui.

Boas intenções, sem dúvida. Até nos lembrarmos que foi por estas boas intenções, estas “recomendações ao governo” (não-vinculativas, ou seja, o governo está perfeitamente à vontade para as ignorar) que o PS assinou sem piar muito e em tempo recorde, o tratado orçamental (PDF) que, esse sim, nos vincula com objectivos bem concretos, e que retira grande parte das competências dos parlamentos nacionais em termos de orçamento para os entregar a um “conselho de governadores” com poderes, basicamente, ilimitados para países em incumprimento. Ou seja, por uma mão cheia de nada, nem sequer a menção das Eurobonds, este PS aprovou a entrega de uma mão cheia de tudo. Nós assinamos, e em compensação vocês, se vos apetecer e só se vos apetecer, vão defender umas balelas lá na UE que não aborreçam muito a Alemanha. Se não o fizerem, já podemos berrar mais um bocadinho, fazer outra “ruptura democrática”. Foi, em resumo, isto que foi aprovado. É esta a “vitória”.

Seguro acusou recentemente o primeiro-ministro de ser “subserviente a Ângela Merkel“. Lamento dizê-lo, mas nesse aspecto não me parece que esteja sozinho. Até porque não sei o que é pior, se o subserviente, se o que deixa passar a subserviência em nome do “consenso” e da “responsabilidade”.

9 thoughts on “Uma mão cheia de nada”

  1. Acabo de receber no meu computador um mail que me informa que TODOS os Partidos, TODOS SEM EXCEPÇÃO votaram uma qualquer resolução segundo a qual os deputados da Assembleia da República manterão o seu direito ao Subsídio de Férias e ao Subsídio de Natal.

    Não posso, não quero acreditar que isto seja verdade! Peço por isso, em especial à Isabel Moreira que me merece toda a consideração, que venha aqui urgentemente esclarecer o que. de facto, se passa!

  2. Depois de tanta desvergonha, de tanta aviltação a este Povo, que no fundo o defeito que tem é ser demasiadamente patéta, só faltava mais esta, embora pessoalmente já não ficar chocado, depois de ter lido num Diário a Lista do Caderno de encargos para fornecer refeições para suas EXAS.
    Aspirina NÃO Pirocaina NÃO mas uma chuva de Grão (nadas).
    Obrigado pelo V. trabalho

  3. Começo a ficar muitissimo preocupado! Então será que ninguém, mas ninguém mesmo é capaz de trazer um pouco de sossego à minha alma que começa a gelar!!!!!

  4. Esperemos que agora o CÍCERO já esteja um pouco mais descansado…

    Este exemplo triste de mais uma baboseira pateta que andou a cirandar pela “net”, atingindo incautos desprevenidos como o CÍCERO, é um bom exemplo de como a “internet” e a “blogosfera” podem contribuir para propagar e ampliar, desmesuradamente, a desinformação e a boataria!

    Note-se que, para além dos tontos ou mal-intencionados promotores da absurda Petição, houve pelo menos quarenta mil descomandados mentais que não só acreditaram na palermice, em vez de se informarem convenientemente, como se dispuseram a doar um pouco do seu precioso tempo a “subscrever” a patacoada, sabendo-se lá se não estarão agora convencidos de que foi a sua “acção determinada” que impediu mais este “crime” por parte dos maldosos “políticos de todos os quadrantes”!

    Isto já para não mencionar os pobres pataratas de uma coisada chamada BLASFÉMIAS, ou coisa assim, que se têm lá nas suas casitas como muito informados e espertalhões, altamente politizados e impolutos, mas que mais uma vez demonstram não passar de uma tropa fandanga de incompetentes e ignorantes contumazes, sempre prontas a sacar da naifa para anavalhar tudo quanto mexe à sua volta que não lhes cheire a incenso e naftalina, com uma cagança estapafúrdia e insuficiente para a respectiva categoria moral e mental. E passam eles por ser a “nata” na melhor sociedade lisboeta. Se o fossem, imagine-se o contentor do lixo doméstico…

  5. Por erro meu, que tresli apressadamente em vez de ler com atenção o Artigo (http://blasfemias.net/2011/11/16/a-lenda-acerca-dos-subsidios-dos-deputados), o que acabo de fazer agora, tenho de me penitenciar totalmente pelo que comentei, pelos vistos bastante precipitadamente, no meu último parágrafo, e pedir desculpas sinceras ao BLASFÉMIAS pela minha incorrecta apreciação deste “blogue”, que aliás muito raramente leio, promentendo contudo que passarei, doravante, a lê-lo com muito mais atenção e muito menos preconceito.

    Isto das pressas na “net” é, de facto, um grande risco…

    Já agora, muito obrigado ao Vega, que permitiu não só o competente esclarecimento, como este meu erro grosseiro e a consequente aprendizagem…

  6. todos os preconceitos com o basófias são poucos, dar atenção e pedir desculpa a filhos de puta sem escrúpulos, amorims, ienas matos e mirandalhos, é compaixão a mais para a minha educação cristã, mas cada qual é livre de escolher o seu fétiche.

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