Cavalgar o tigre

F: A todos os palermas que apoiaram, defenderam, votaram, apoiam e defendem o pinóquio, e que hoje ainda os ouvi dizer que “isto afinal não está assim tão mal”, quero agradecer pela bela merda que fizeram.

Esta frase, de um conhecido meu, abriu ontem as hostilidades de uma informativa discussão no facebook  entre vários dos seus amigos, alguns dos quais comuns, que envolveu expressões como “filho da puta”, “era um tiro bem no meio dos olhos”, promessas de emigrar desta “choldra”, entre vários outros mimos ao primeiro-ministro. Nada que não se leia por essas caixas de comentários fora, excepto que no facebook não são anónimos, são pessoas que conheço e que são no geral, incluindo o autor da frase, homens e mulheres muito simpáticos, que não ligam muito à política (é mais comentar o tempo, o fim-de-semana e “põe isto no teu mural em homenagem às mães”). A maior parte nem se pode queixar muito, estão empregados no sector privado em PME ou multinacionais industriais, e a vida não lhes corre com demasiadas dificuldades, alguns são mesmo prósperos, e embora os respectivos sectores económicos estejam agora em crise depois de anos de euforia, o mundo ainda não desabou. Mas quando é Sócrates que vem à baila, transformam-se numa turba ululante que personaliza, numa só pessoa, o seu desprezo por uma classe inteira e pelo sistema em geral, que culpam pelo “estado a que isto chegou” e pelo medo e ansiedade que sentem quanto ao futuro.

A razão para este ódio desmedido e aberto ao chefe do governo, como nunca nenhum outro conheceu, é sobejamente conhecida: a campanha imparável nos média contra José Sócrates, esse gay falso-engenheiro mentiroso ditador corrupto manipulador que nos governa, ou tenta governar. Essa campanha de difamação tem um objectivo bem definido – tentar sujar-lhe o nome de tal maneira que se torne politicamente radioactivo e inelegível, para assim poder tentar o assalto ao poder baseado apenas numa única ideia: correr com ele de lá.

Para isso, é importante acirrar os ânimos das pessoas do chamado “pais real”, provocá-las com avisos que estão a ser burladas pelo vigarista, que os seus filhos é que vão pagar pelo encher de bolsos dos corruptos envolvidos em negociatas, que as suas vidas confortáveis vão desfazer-se. Depois, com os ânimos suficientemente atiçados pelo apelo às emoções mais básicas (gosto especialmente da chantagem sobre o futuro dos filhos, jogando com um dos instintos mais  poderosos que há), aparecer como os salvadores, os cavaleiros honestos que vão livrar o país dos seus inimigos. Os americanos chamam a esta estratégia “riding the tiger“. Cavalgar uma multidão em fúria dando a impressão de os comandar.

O que me leva à maneira como esta discussão acabou:

L: A realidade é que o gajo é um artista do pior, mas as alternativas são muito fracas. Isso é que é preocupante.

F: Não discordo…Mas este palhaço temos a certeza que é mesmo MAU!

L: Também não discordo! :)

 

O problema de montar o tigre é que, por muito poderoso que seja, e é, este tem um nível de exigência proporcional à sua fúria: tudo o que foi usado para o pôr em marcha. À mínima falha, e basta um cheirinho, uma gota de sangue de quem o monta, ele vira-se para trás e come-o vivo com a exacta ferocidade que está reservada ao seu alvo.

No caso do F., o meu conhecido, e depois de anos a vê-lo a elevar o nível de violência verbal, houve um momento preciso em que se voltou: a escolha de Nobre, outro cavaleiro de tigres, para um “tacho”. Uma negociata política. Foi a partir daí que a admiração e a esperança que Passos Coelho lhe dava se transfigurou, e passou também ele a ser vítima do escárnio e ódio. Era “mais um deles”, mas com uma diferença: à sua maneira, ele tem algum respeito pela força de Sócrates, mesmo que o odeie. O mesmo já não se passa com Passos, pelo qual neste momento é apenas desprezo, um desprezo que contamina quem está no seu círculo de amigos. E assim se vai degradando o espaço público, tirando às pessoas, que não seguem atentamente o que se passa, mas que no fundo querem acreditar nos seus representantes, qualquer hipótese de o fazer. Alheam-se do que vêm como um espaço contaminado.

Neste momento é já demasiado tarde para inverter a estratégia, como o PSD (e o BE) em breve descobrirão, mas seria bom que no futuro os líderes da oposição percebam uma coisa simples: se estás a montar o tigre, é porque estás na selva. Onde és presa, e não predador.

22 thoughts on “Cavalgar o tigre”

  1. Se se pudesse meter este post em forma de pílula, podiam fechar uns quantos cursos ditos “superiores” de ciências políticas…

  2. Excelente análise. Mas acho que da parte de muitos desses que, aparentemente, odeiam Sócrates, existe um sentimento de resentimento por ele ser o que é (primeiro ministro), e um sentimento de inveja por ele ser como é (inteligente, determinado, corajoso, trabalhador, novo, bem parecido, com um discurso fácil, claro e convincente). E eles não terem conseguido ser, não serem, nem uma coisa nem outra. o que os enxovalha.

  3. O insulto é sempre inaceitável, independentemente a quem se dirija. No caso vertente, além de inaceitável é desnecessário: a discussão sobre o “estado a que isto chegou” pode decorrer sem um único insulto e com base apenas em discussão franca e aberta; em suma, com base em factos. Sucede porém que os factos não nos chegam puros, são trabalhados conforme as conveniências (continuo no nível da generalidade, sem imputar condutas). Acho, todavia, que é esticar de mais a “plasticidade” dos factos quando se tenta justificar as declarações da troika (para dar um exemplo); isto não aconteceu neste blog, que além do mais tem a hombridade e a correcção de não censurar comentários, mas aconteceu noutras sedes. Mas infelizmente isto rapidamente deixará de ser notícia e as declarações da troika não tardarão a ser enquadradas num contexto mais vasto de jogo de interesses que explicam/justificam o que foi dito.
    A discussão reproduzida pelo autor do post refere-se, como próprio começa por esclarecer, a pessoas que não se interessam nem seguem a política. Tais pessoas existem em todos os quadrantes políticos e delas não podemos esperar se não umas generalidades, uns palpites, condimentados ou não com insultos, mas cuja exactidão se aproxima das previsões astrológicas. Fazer qualquer inferência a partir daqui é erróneo e eu poderia dar “n” exemplos de pessoas que conheço que defendem com igual ferocidade – e falta de argumentos – o incumbente.
    Preocupante mesmo é que se ache que a política é uma espécie de jogo de futebol da segunda ou terceira divisão que se segue, entre bocejos e acessos de ira clubística, num zapping incessante que para mais tempo noutros canais. Assim se perdem os factos, os argumentos e a razão.

  4. os resultados da eurosondagem publicados hoje são esclarecedores (e ainda a procissão vai no adro…)

  5. Concordo com a substância do post mas parece-me que o exercicio retorico de denunciar a irresponsabilidade dos outros acaba por situar-se ao mesmo nivel.

    A irresponsabilidade combate-se com responsabilidade. O onus de criar espaço para um debate politico sério, esclarecedor e construtivo não deve pesar apenas sobre o adversario. Nem sequer quando, como é infelizmente o caso, existem dividendos eleitorais a tirar da irresponsabilidade geral e do populismo dos outros.

    Lembro-me de ouvir, aquando do debate sobre o aborto, alguém dizer : eu defendo uma posição mas, muito acima disso, defendo que as pessoas devem votar naquilo que acreditam mesmo, apos devidamente esclarecidas, ainda que seja na posição oposta à minha.

    Nestas eleições, ninguém debate programas. So se debatem culpas e desforras. A campanha não esta a ser sobre o que devemos fazer em 2011, mas sobre o que devia ter sido feito em 2009…

    Não temos escolha, dizem-me…

    Ora bem, assim sendo, o que é que o PS se propõe fazer para que um dia venhamos de novo a ter escolha ? Encolher os ombros que isso passa ?

    Boas

  6. joao viegas tb estou curioso com os programas, mas acho que temos que esperar que comece a campanha eleitoral.

    E de alguns temos que esperar sentados…

  7. Excelente análise.

    Parece-me que vai sair hoje uma sondagem da Católica que coloca o PS em primeiro lugar na preferência de votos dos portugueses.

    Ouch!!! Isto agora é que vai ser giro.

  8. Concordo inteiramente com o João Viegas, mas acho que se esquecermos os erros do passado, dificilmente compreenderemos o presente e estaremos condenados a repeti-los no futuro. E o passado que vai a votos no próximo dia 5 de Junho não são os 37 anos de democracia, nem as maiorias absolutas do PSD, nem sequer o PS de Guterres.

  9. Como se tem tornado mais do que evidente, nenhum político do pós 25 de Abril foi submetido a uma barragem de fogo de tão extrema ferocidade, como a que todos os dias, todos os meios de Comunicação Social, todos sem excepção, atiram sobre Sócrates. Ainda ontem ouvi o pateta alegre do José Rodrigues dos Santos, na RTP1, atirar parar o ar com este mimo: “a Troika desmente com todas as letras o primeiro-ministro Sócrates! (Provávelmente está na mira de um lugar principescamente remunerado na futura RTP privatizada!)

    Nesta insana orquestra de mentiras e calúnias, tocam todos aqueles que ou foram afectados por alguma das medidas tomadas, ou querem vingar-se de algo que não lhes tenha sabido bem, ou não têm vergonha de vender a alma ao diabo para ter mais uns cobres na algibeira ou têm medo, muito medo de que, estando fora do poder, mais algumas carecas venham a ser descobertas, ou, pura e simplesmente se babam todos para, o mais depressa possível, “irem ao pote”.

    Ora foi esta abjecta barragem que aparentemente deitou por terra os portugueses e os tornou incapazes de elaborar acerca de Sócrates o mais pequeno pensamento positivo, sequer crítico. Esta é, pelo menos, a sensação que tenho quanto vejo e oiço o que se passa à minha volta.

    Perante uma campanha desta intensidade e com tais meios, pergunto-me e espanto-me: Como é possível que, na sondagem hoje publicada pela Universidade Católica, o PS apereça dois pontos acima do PSD?

    Felizmente que veio em meu auxílio o douto intelectual-mor do PSD, Vasco Graça Moura, que me explicou dever-se tão abstruso facto à circunstância de não estarem os portugueses à altura do PSD pois têm uma série de defeitos, entre os quais enumera: “a natureza calaceira dos portugueses; o seu feitio de incumpridores relapsos; a sua irresponsabilidade nas exigências desenfreadas; o corporativismo imperante nos sectores socio-profissionais; os péssimos níveis de qualificação escolar e profissional; a iliteracia generalizada e irremediável; uma certa propensão para a estupidez e a crendice fácil que explicam algumas vitórias socialistas;”

    Fiquei esclarecido e pensei: que rico MInistro de Cultura o país está a perder!

  10. Caro João Dias,

    Concordo consigo. Quando disse que não tem sentido debater culpas, isto não implica que não devamos analisar erros. Pode ser que seja subtil, mas esta distinção é que vai decidir o meu voto. Abstraindo das culpas, considera o PS que as politicas que nos levaram até aqui eram as unicas possiveis e que não houve nenhum erro, ou então que existe algo a corrigir e, nesse caso, como ?

    Boas.

  11. o único comentário é

    2. CESOP/Católica, 30 Abril – 1 Maio, N=1370, Presencial
    PS: 36% (+3)
    PSD: 34% (-5)
    CDS-PP: 10% (+3)
    CDU: 9% (+1)
    BE: 5% (-1)
    OBN: 6% (-1)

    ainda vão ter de gramar com o sócrates de novo, sweet justice

  12. Pois é. E se fosse acolhida a sugestão de Catroga e se iniciasse um processo, crime está bem de ver, a quem foi responsável por este hiato e que, face á pobreza/falta de alternativas, fez com que tudo ficasse na mesma. Não, perdão, muito pior.

  13. O caro ANIPER deve estar esquecido das machetes semanais de “O Independente” no final dos anos 80 e primeira metade dos 90…

  14. Este Artigo do Vega9000 é mesmo muito bom, parabéns.

    Infelizmente, o mal está feito: a discussão política mediática em Portugal está transformada numa feroz e sanguinária arena de gladiadores, onde as bancadas espumam de raiva e eliminaram do seu seio todo e qualquer resquício de racionalidade, ou mesmo de sanidade mental.

    E torna-se imperioso reverter urgentemente esta situação, até porque, como se vai UMA VEZ MAIS comprovar a 5 de Junho, ela não rende os dividendos eleitorais que o forte investimento efectuado à partida garantiria. Mas isto implica, como dizem alguns comentadores, não esquecer quem é o infractor, nem quais as suas motivações. A campanha abjecta contra Sócrates tem culpados e a culpa não deve morrer solteira.

    Só depois de erradicado este tumor maligno do espaço da nossa discussão pública e devolvida a serenidade à “plateia” será tempo de voltar a debater as propostas, as políticas, os programas e até, se tempo houver para isso, as ideologias.

    Até lá, fazer de conta que o tele-móvel não está a zumbir frenéticamente na fila de trás não servirá de nada para me deixar ouvir os pianíssimos do oboé..

  15. «Entre 1993 e 2008 duplicou a proporção do rendimento total auferido pelos 5% da população mais pobre». — revista Visão, citando um estudo.
    São noticias como esta que os “furiosos” de Sócrates e dos governos socialistas não conseguem “engolir”!
    Claro que “assino por baixo” o seu post, Vega 9000, mas acho é que a mentalidade dos portugueses ainda está muito “formatada” pelos anos de salazarismo em que vivemos – o argumento contra o individuo é a regra, a excepação é ser capaz de contra-argumentar, sobretudo quando os factos provam que não temos razão.
    Para a direita, a imagem do socialista Mário Soares, senhor doutor advogado, era – e ainda é – “aceitável”, pois ele sempre “fez politica” com um sorriso na cara gordinha e manejando muitos cordéis nos bastidores dessa mesma direita… Ora agora aparece um Sócrates, sem “estatuto social” reconhecido por essa direita – e nem por alguns barões da própria esquerda, com forte personalidade e superior inteligência e cativa, pelo discurso e pela acção, as pessoas que não vivem da politica, e essa direita e todos os que não têm “chefe” que lhe possam contrapôr espumam de raiva, só podem!!!

  16. Ja agora, com a minha habitual equanimidade, venho por este comentario dar a conhecer que, pela parte que me toca, as alarvidades burgessas acerca da “falsa licenciatura” de Socrates, assim de resto como as criticas idiotas e profundamente reaccionarias contra a reforma da avaliação de professores, NAO fazem parte dos argumentos que me poderiam levar a não votar no PS.

    Na certeza de vos ter deixado complematente descansados a este respeito, desejo-vos uma optima tarde.

    PS : para os amadores, saliente-se que a frase do primeiro paragrafo acima, que é uma so, esta estruturada à volta de uma dupla negação.

  17. Já de madrugada, logo após o post ser publicado, transcrevi-o num email para a minha lista de amigos – é pena, de facto que este povo ainda acredite facilmente em certos “senhores”, que não passam de charlatães ávidos de dinheiro fácil, que não olham a meios para atingirem os seus fins, o beato-sonso-cavaco incluído!

  18. “Não há ajudas externas para os mensageiros. A sua crise é a da credibilidade. Não noticiam, palpitam. Não comentam, desdenham. Erram na gramática e na deontologia. Ninguém os quer matar, são eles que se suicidam.” in outrosdireitos.blogspot.com

  19. Gosto de ouvir os conselhos dos mais velhos, dos mais experientes e de quem sabe mais do que eu. Não sou apologista do insulto porque o ser humano recebeu ensinamentos para ser diferente dos restantes animais. Discordo de muitos mas respeito o seu ponto de vista. Quando acho que devo confrontar esse ponto de vista, confronto-o, mas sempre com respeito, nunca o fazendo com impropérios, ataques pessoais, dignidade e ofender a sua mãe por que entendo que todos temos telhados de vidro.
    Sinto orgulho no ensinamento que tive por parte de meu pai. Homem que lutou a custo para fazer face à vida, com pouca instrução literária – fez a quarta classe já homem, tinha uma caligrafia e uma memória de fazer inveja a qualquer um – mas com muita experiência, esta ganha na escola da vida, aliás, para mim a maior universidade do mundo. Não basta saber falar bem se não se tiver conteúdo.
    Acompanhei meu pai em vários passeios a pé – não para me demonstrar a história da cereja e da ferradura. Gostava de os fazer e levar-me a sítios para mim desconhecidos e de difícil acesso, tais como ao alto dos montes e dali fazer-me compreender o estar acima de qualquer coisa. Dizer-me que o que se avistava dali para o que estava em baixo tinha a mesma dimensão se visto em sentido contrário. Também dizia que só há escorregadelas – trambolhões – de cima para baixo e não de baixo para cima, ainda me lembro de me dizer: é como a água, só corre para baixo.
    Há pessoas que subiram aos montes mas cedo esquecem os difíceis acessos. Não se lembram dos que não conseguiram chegar lá e vêem-nos de lá de cima mais pequenos, não iguais. Mas não se lembram que os que estão em baixo se caírem a escorregadela é menor, ao contrário, os de lá de cima vem por ali abaixo e não sabem onde vão parar.

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