Carta aos deputados

Reproduzo uma carta enviada aos deputados eleitos por Lisboa, de todos os grupos parlamentares:

João Araújo
Eleitor em Lisboa

Lisboa (que é onde resido e onde voto), 28 de Julho de 2013

 

Às Senhoras e aos Senhores Deputadas e Deputados à Assembleia da República

Eleitos pelo Círculo Eleitoral de Lisboa (que é onde resido e onde voto)

Assembleia  da República

Lisboa

 

Senhoras e Senhores Deputadas e Deputados à Assembleia da República

1. Sei perfeitamente que, nos termos da Lei, V. Exas. não representam apenas os eleitores de Lisboa – V. Exas. representam “a Nação” e, por isso, sou legalmente representado, não apenas por V, Exas., mas por todas a Senhoras Deputadas e por todos os Senhores Deputados que nessa Câmara se assentam. Porém, entendo que a multiplicidade de mandantes e de mandatários acaba por turvar a clareza e a responsabilidade, que devem existir, na representação, legal ou voluntária, tanto mais quando é certo que a qualidade de representantes da nação (de mim, também, portanto), surge permanentemente no Vosso discurso para o legitimarem de especial valor e de transcendente significado.

Por essas razões, porque me desagrada esta sopa, em que todos representam todos e, afinal, ninguém representa ninguém, optei por reduzir a ficção à dimensão, mais confortável, do círculo eleitoral por onde V. Exas. foram eleitos e onde eu votei. Esperando que, nesta dimensão, certamente mais aconchegada, V. Exas. se sintam mais próximos e mais responsabilizados perante mim e vinculados às instruções (não pedidos ou sugestões) que entendo transmitir-vos.

A violação por V. Exas. destas minhas instruções significará que os Vossos actos ou omissões em contrário ao que nelas Vos determino representará a quebra definitiva da relação de confiança, de cuja existência e subsistência depende o mandato.

2. E, assim, deverão V. Exas., no exercício dos poderes que eu Vos conferi, votar contra a aprovação da moção de confiança, que o Governo Vos propôs.

Conheço perfeitamente as consequências, jurídicas, políticas, económicas e financeiras, que a reprovação dessa moção poderá trazer: a queda do Governo causará a abertura de uma nova, e mais grave, crise, quando acabamos de saír de outra.

Mas, por outro lado, a aprovação dessa moção – a expressão de um juízo de confiança no Governo – constituirá uma insuportável perversão e uma patente degradação do sentido e do significado das palavras, que é o primeiro e último momento do discurso honrado.

E será, afinal, razão para a Assembleia da República deixar, ela, de merecer a confiança dos cidadãos.

3. São os seguintes os fundamentos da minha instrução:

A. O Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros não merece confiança:

  • Desempenhou funções relevantes na estrutura dirigente do Banco Português de Negócios, que contribuiu largamente para os estado de desgraça imensa do Povo;

  • Nessas funções, para além do recebimento, em termos não canónicos, de remunerações, concluiu negócios cujos elevados proveitos resultaram, iniludivelmente, da actividade criminosa desenvolvida no Banco;

  • Não goza de confiança e de consideração da maior potência mundial, com a qual Portugal mantém relações diplomáticas, cujos representantes o apresentam como negocista inescrupuloso e despesista incontinente, o que prejudica definiticvamente as suas condições para o exercício do cargo;

  • Perante as interrogações que este factos suscitaram, optou por as degradar arrogantemente para o nível da “podridão”, recusando aos eleitores a legitimidade para o escrutínio democrático dos governantes.

B. A Senhora Ministra  de Estado e das Finanças não merece confiança:

  • Sem nenhuma utilidade imediata, resolveu atacar o Governo anterior com imputações falsas. Para além de desonestidade, demonstrou insensatez, o que, certamente, não a recomenda para a função, mormente no momento actual;

  • Chamada a esclarecer a sua falta, persistiu na mentira, mesmo contra factos e provas evidentes.

C. O Senhor Vice-Primeiro Ministro não merece confiança:

Para satisfação das suas ambições pessoais, de poder e de promoção política, não hesitou em mergulhar o País numa grave crise política, com elevados, e inúteis, custos, financeiros e de dignidade das instituições, degradando para além de limites insuportáveis o valor das palavras e das declarações.

D. O Senhor Primeiro Ministro não merece confiança:

  • Por insensatez, inconsideração ou indiferença, designou para o Governo o Senhor Dr. Rui Machete, a Senhora Dra. Maria de Lurdes Albuquerque e o Senhor Dr. Paulo Portas, sem atender às razões que determinavam que não o fizesse;

  • Por insensatez, inconsideração ou indiferença, envolveu o Senhor Presidente da República na nefasta nomeação da Senhora Ministra de Estado e das Finanças, oferecendo garantias que não poderia prestar, manter e honrar.

4. Por estas razões todas, e salvo se V. Exas. puderem, com verdade, contrariar qualquer uma delas, ou todas, deverão votar contra a aprovação da moção de confiança proposta pelo Governo à Assembleia da República.

 

Creiam-se V. Exas. meus leais e humildes servidores

João Araújo

 

19 thoughts on “Carta aos deputados”

  1. carta fundamental para percebermos (posteriormente?) que os parlamentares, na sua generalidade, não representam os interesses do país, mas sim os do seu partido, mesmo que os ditos interesses estejam em conflito. Temos execpções? Temos, pois. Mas o país não se governa de excepções. Isto é ainda uma democracia ou antes uma partidocracia? Resposta óbvia, não é? E então, a revolução, caraças? (eu sei, as pessoas estão de férias; já me comentaram que agora “só haverá movimentações para outubro, após despedimento dos fp” – e se não chover, digo eu).

  2. edie, revoluções não há. Só na cabeça da extrema-esquerda sonhadora, mas estão na idade.
    ___
    Iamkarma, o que é que é um escândalo? (Tens 1 hora p responder antes de eu apagar esse comentário)

  3. A propósito desta “garantia absoluta” que o ilustre “presidente reformado” diz ter recebido do PM relativamente à honestidade e honradez da dona Maria Luís Albuquerque, é oportuno lembrar uma outra “garantia absoluta” de lisura e honradez, dada, aliás, pelo próprio, e em que o tal “presidente reformado” disse confiar absolutamente quanto a um seu “conselheiro de estado”, um tal Dias Loureiro! Está mais que visto que o homem não só nunca se engana como nunca se deixa enganar!

  4. Revoluções não ha ??! Olha se não houvesse, seria absolutamente impossivel distinguir as ideias de que se reclama o PS da abdicação pura e simples de qualquer intento de corrigir as desigualdades sociais, que é o que caracteriza a direita. E olha que as revoluções acontecem por vezes nas alturas em que os sentados da vida renunciaram completamente a tudo o que não seja fazer render pacatamente o existente…

    Acho que nem o Seguro era capaz de proferir uma burrice como esta…

    O melhor argumento que existe contra a extrema-esquerda sonhadora, é precisamente o inverso : ha revoluções a sério ! Alias, so ha revoluções quando são a sério.

    Boas

  5. o problema é que ninguém fiscaliza o cumprimento das leis, já passou uma hora e o karmann ghia continua estacionado aí em cima, do passeio.

  6. Vega, esse argumento é tão antigo como o facto de haver revoluções. estas, no entanto, evoluem, e tomam novas formas.

    já agora, o que está a fazer aqui no aspirina aquela lista de fotos e dados de pessoas?

  7. Mas o que é que ser eleito por um círculo ou outro esbarra em concreto no pedido feito pelo eleitor? É o habitual confundir cagalhões com marmelos. Honório Novo e Ana Drago nunca estiveram no meu círculo e bem me têm sabido sempre representar. Já os Lacões e os Relvas por Santarém…

  8. “Revoluções não ha ??! Olha se não houvesse, seria absolutamente impossivel distinguir as ideias de que se reclama o PS da abdicação pura e simples de qualquer intento de corrigir as desigualdades sociais, que é o que caracteriza a direita.”

    estes gajos drogam-se e deve ser com pó de extintor. ouve lá, oh emigra! tirando as revoluções de direita, que acabam naquilo que sabemos, bota aí um exemplo de uma revolução de esquerda, dessas que corrigem desigualdades sociais e são fonte de inspiração das raqueis varelas, santas apolónias & dragoqueens. bota só um, umzinho chega, não te esqueças que até o camarada chavez desistiu da ideia e chegou pelo voto.

  9. “É o habitual confundir cagalhões com marmelos. Honório Novo e Ana Drago nunca estiveram no meu círculo e bem me têm sabido sempre representar.”

    boa caracterização e excelente identificação.

  10. Se o inacio dedicasse dois segundos da sua vida que fossem, a fazer outra coisa do que ladrar neste blogue, talvez descobrisse que a constituição que lhe garante o direito de voto começa, logo no seu preâmbulo, por mencionar uma…

    Mas numa coisa não deixa ele de ter razão, a revolução que ha de criar condições para ele aprender a ler ainda esta por vir.

    Boas

  11. a falta que faz um centro de estudos béculianos para compreensão da hermeneutica do coelho e do pinsamento escrito do viegas. aprende a pensar, depois aprende a escrever e se te sobrar tempo lê o que escreves-te para ver se percebes.
    broas com chantilly pra ti, oh duchesse emigra.

  12. i-gnatz, antecipaste-te, pá, vinha mesmo para botar essa correcção à afirmação de que não há revoluções: estamos a viver uma, precisamente. De direita liberal e transnacional E esta será a última revolução autorizada pela História e depois disto, o nada? Tá bem, é uma crença como qualquer outra.
    Elas vão “tomando novas formas e novas qualidades”.

  13. vai praqui muita confusão com o conceito de revolução.
    então, ignatz e eddie: as de esquerda não valem porque por exemplo a da Venezuela foi pelo voto, mas as de direita já valem mesmo que também tenham sido?
    ler mais, por favor.

  14. ninguém estava a falar de violência, revoluções com sangue e cabeças cortadas espetadas em sinais de trânsito proibido só na mona da comunada, mas esses não fazem revoluções, cagam postas de pescada e esperam que aconteçam revoluções de direita para poderem fazer abaixo-assinados para libertação dos presos políticos. percebeste ou queres um esquiço?

  15. com este tipo de eleiçoes,os deputados são escolhidos pelo programas elaborados pelo partido e os restantes 10% pela imagem que transmitem de mais ou menos seriedade.pelas votaçoes que temos tido ao longo destes anos,os portugueses dizem-nos que acreditam no ps e nos pulhas do psd . quanto ao pcp e bloco, à mensagem do regime que defendem os portugueses dão 2% o restante vai para os deputados,pelo trabalho de sapa que levam a cabo, e pelas promessas,nunca cobradas até hoje por viverem em estado de negaçao!

  16. Agoar que a AR votou, reler:
    “Mas, por outro lado, a aprovação dessa moção – a expressão de um juízo de confiança no Governo – constituirá uma insuportável perversão e uma patente degradação do sentido e do significado das palavras, que é o primeiro e último momento do discurso honrado.
    E será, afinal, razão para a Assembleia da República deixar, ela, de merecer a confiança dos cidadãos.”

    E deixou.

    Bem pode a Assunção berrar e falar de carrascos nas galerias, que o hemiciclo não se livra do lançamento de sapatos nem dos narizes de palhaço. E é triste.

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