Breu

Não dá para escrever muito sobre este governo. Não que não haja assunto, longe disso. Aliás, o nível de disparate é tal que a tarefa é fácil. Demasiado fácil. Todos os dias, literalmente todos os dias, sabemos mais uma mentira, mais uma demonstração de ignorância, mais uma manipulação básica, mais uma hipocrisia, mais um atentado contra os interesses do país, mais um passo em direcção ao abismo que toda a gente sabe ser inevitável, e que tanta gente finge que não é. O ramalhete é completo: um primeiro-ministro que entende os interesses da Alemanha como superiores aos do seu próprio país (há um nome para este comportamento), um ministro da economia cuja absoluta ignorância, incompetência e completa falta de perfil se unem ao sorriso parvo numa combinação circense letal, um ministro das finanças que é uma caricatura do contabilista austero, um ministro da propaganda que, mais do que parecer, é a própria encarnação do vendedor de carros usados num stand manhoso do Cacém, uma ministra da justiça que representa todos os ódios e preconceitos de um sector profundamente podre, uma ministra da agricultura que, sempre que aparece, sempre que diz alguma coisa, testa a nossa capacidade de não libertar o João Braga que há em nós, um ministro da solidariedade que já se cansou do número da Vespa, a única coisa pela qual até agora se notabilizou, um ministro da educação que acha que esta se esgota no ler, escrever e fazer contas, e que de resto não tem a mínima ideia do que quer e faz questão que todos saibam. Já para não falar dos secretários de estado, que tentam por-se em bicos dos pés afirmando disparates em medida ainda maior do que os respectivos ministros, porque já perceberam onde está a bitola, e os “especialistas” e “grupos de estudo” que apenas revelam, em todo o seu esplendor, porque é que foram durante anos postos completamente à parte de qualquer intervenção na coisa pública, e de onde vinha afinal tanto ressentimento.

Estamos portanto entregues a esta matilha disforme. Se há uma demonstração inequívoca do nível básico que estas pessoas representam, é sem dúvida esta: conseguem fazer com que Cavaco Silva pareça um estadista. E sendo assim, QED.

Por isso, não dá para escrever muito sobre este governo. Não há nada de substancial a debater, nada que abra uma discussão saudável e esclarecedora, nada que desafie a inteligência, apenas uma sucessão de broncas e broncos que se levam a sério enquanto destroem alegremente o país com a sua ignorância alarve. Dá para facilitar imenso a vida ao Corporações, já que nem é preciso desenvolver muito os temas (adeus gráficos e análise em profundidade, não é Miguel?), basta escarrapachá-los no blogue de tão óbvios que são. Um governo, e uma direita, cuja primeira e muitas vezes única reacção possível ao que dizem e fazem é um rebolar de olhos, um suspiro, um incontrolável “mas como é que é possível tanta burrice?”.

Há no entanto algo que me deixa curioso: dadas as evidências acima descritas, como é que a esquerda – o PS, diga-se – está como está? Esse é o debate que nesta altura me interessa. E é o debate que, durante a noite de inverno que entretanto caiu sobre Portugal e a Europa, é essencial ter. Não por uma questão de masturbação intelectual, como a chamada “esquerda radical” tanto gosta de fazer. Mas para que haja, o mais rápido possível, uma luz ao fundo do túnel, um caminho claro, uma mensagem. Porque vamos ser francos, nesta altura não é apenas a direita que vive na escuridão. A esquerda – o PS, diga-se –  também lá está. E se mais demonstração fosse necessária, este manifesto em forma de lamento é disso prova. Tem no entanto a vantagem de ser um começo. Não do caminho a seguir, mas do reconhecimento de onde, realmente, estamos.

 

13 thoughts on “Breu”

  1. Caro Vega9000,
    chamar direita a este conjunto de personagens que não tem uma política definida bem sequer uma ideia concertada para onde vai acho que é uma exagero.
    A direita que eu reconheço, é uma direita culta e esclarecida que tem ideias e sabe o que quer. Não que eu concorde com ela, mas pelo menos é uma direita com valores morais e sociais bem longe da ausência deles que esta mistura de alhos e bogalhos que se transformaram em ministros e secretário de estado consegue evidenciar.
    Sobre a esquerda, ou melhor o centro-esquerda, não sei o que terá acontecido às pessoas que tinham um forte sentimento de solidariedade e se distribuíam pelo antigo socialismo democrático e pela social-democracia.
    Os interesses privados e económicos fizeram uma campanha anti-políticos que assustou toda a gente e desmotivou os mais jovens.
    Sendo o egoísmo a doença da moda, todos se estão a borrifar para o vizinho o que leva a que cada um apenas olhe para o seu umbigo pensando que está a olhar para o centro do universo.
    Há falta de políticos e de escolas para a sua formação, por isso só uma nova convulsão fará talvez fazer aparecer uma nova sociedade.
    Talvez o empobrecimento seja necessário. Talvez só quando a miséria entrar em todos os lares é que as pessoas pensarão em mudar de vida.
    Para já, e nos próximos meses ainda não será chegado o tempo, talvez mais para a Primavera, a não ser que algo se mude radicalmente na Europa e nos EUA que traga um pouco de sensatez a quem está nas cadeiras do poder.

  2. Parafraseando o velho Karl Marx, “Um espectro ameaça… o Aspirina B”! Pior (ou melhor), não apenas ameaça como já infectou completamente o blogue: o espectro da lucidez! Sendo embora escasso o consolo, face à enormidade do tsunami de trampa que nos afoga, é de algum modo reconfortante vir aqui e ver que ainda há quem consiga manter a cabeça à tona e capaz de funcionar no meio do dilúvio de merda! No cardume incluo, além do Vega9000, Valupi e outros, comentadores como o Teófilo M. Valha-me Santa Aspirina, São Jumento, Santa Câmara Corporativa e mais algumas capelinhas, para conseguir manter alguma esperança e relativa boa disposição!
    Quanto à pergunta do Vega (“Como é que a esquerda – o PS, diga-se – está como está?”), entre as muitas respostas possíveis avanço uma das mais simples e evidentes. O “Totó” Seguro é da estirpe do PPC, só que mais fraco e incompetente, e chegou a secretário-geral do PS parasitando (e por vezes cobardemente colaborando com) o enfraquecimento da liderança legítima do seu próprio partido pela campanha goebbelsiana e terrorista de que foi alvo. Em linguagem mais prosaica, digamos que andou pacientemente à babugem e lá acabou por agarrar o que a maré lhe entregou de mão beijada. Não passa de um burocrata sem alma, um funcionário de vistas curtas mas ambicioso, que andou anos cultivando uma teia mesquinha de cumplicidades ressabiadas e oportunistas, pacientemente à espera da sua hora. Sempre soube que o almejado lugar ao sol só estaria ao seu alcance à custa do sacrifício de gente com a qualidade que a si próprio falta.
    A carreira do “Totó” Seguro é a prova provada da bondade do Princípio de Peter. A criatura é fraca, mas a vaidade complexada não a impede de perceber as suas próprias limitações, o que a torna ainda mais desamável. Como muitos outros chicos-espertos, porém, alimenta a ilusão de que, com meia dúzia de soundbytes oportunistas, arrotando umas postas de pescada fedendo a lugar-comum, consegue impedir os outros de toparem o material de que é feito. Ele sabe que não tem capacidade política, nem fibra, nem visão, nem cultura, nem seja o que for que seja necessário para liderar um partido, e por maioria de razão um país, mas está-se nas tintas para isso. O que lhe importa é o seu umbigo e manter-se na ribalta tempo suficiente para alimentar a ilusão daquilo que não é e nunca será! É da “família” do oráculo de Boliqueime, só que “made in China”, com componentes e materiais ainda mais fracos e ordinários, sabe-se lá até se contaminantes!
    Com a esquerda entregue a gente desta, podemos ter a certeza de que a travessia do deserto será longa e a direita só cairá porque, como diz o Vega, a cultura do disparate é nela igualmente avassaladora. Infelizmente, porém, os custos serão enormes para os mesmos de sempre, pois para a cambada haverá sempre salva-vidas em número suficiente!

  3. Quaisquer palavras minhas ficariam a milhas da excelência do que escreve Vega9000 e dos comentários que lhe foram feitos por Teófilo M e Joaquim Camacho, sem esquecer o delicioso momento, não sei se de humor se de tristeza, que nos proporciona “edie” com o link que nos oferece.
    Por isso me limito a dizer que vou passá-los para o meu mail e difundi-los o mais profusamente que puder. É que, infelizmente, ainda há gente que se não dá bem com a Aspirina, embora vá começando a rarear! Valha-nos isso, ao menos!

  4. pois também achei boa malha, assim como bons comentários. Na minha douta ignorância tenho andado a pensar em como poderia contribuir, mas não sei, estou algo perdido e cônscio de que a verdade é paradoxal.

    Mas ainda assim hoje veio-me parar às mãos para eu brincar um meteorito de metal, mesmo! dei-lhe banho, pesei-o, etc, que não percebi se é um bébé cósmico por causa daquilo dos citrinos,

  5. hum, o Aspirina já não tem aquela verve de uma cachimbada nos sofás de couro da sociedade de Geographia e, meu caro M. confesso que tem-me feito falta nesta demanda pela cidade perdida, quiça no inframundo…

    ainda assim amanhã digo algo.

  6. vejamos, vai-se então cheirar este assunto, dando os parabéns ao autor da foto, podem apagar senão a dúvida é: será que apagará por si?

    Ainda hoje continuo a achar que o dispositivo do materialismo dialéctico tem relevância como prisma de observação, decantando as cores do espectro: as forças produtivas estão comprimidas nas relações de produção (feixes de possíveis, vigentes, …) em reunião dialéctica e portanto às tantas rebentam com as relações de produção dominantes que as constrangem, como na máxima heracliteana. Ou não, as relações de produção qual espartilho aguentam e bem.

    Os factos mostram que o capitalismo na sua expressão máxima: o capitalismo financeiro internacional sem nome venceu em grande, primeiro levou à falência os socialismos de estado de leste, e depois vai rebentando com o Estado social porque é muito caro em termos de remunerações directas e juros de capital…

    Isto numa época em que o dinheiro é digital portanto podia fluir e refluir por forma a equilibrar o vasilhame das penas de tanta gente, mas não, é isso que está a acontecer, embora por certo possamos induzir essa hipótese.

    Não esqueçam de refazer o Escudo com esses todos que estão aí guardados refundidos bonitinho, para ser muito apetecível. Indexem o valor às reservas inestimadas de lítio et al, dá idéia.

    poças, só preocupas!, ainda tenho de ir ver dos coentros, mas portanto agora com isto agora dos citrinos andarem mais depressa que a luz, podemos imaginar que já está um ramo de coentros no frigo e não se perde nada em lá ir espreitar…

    Depois ainda há aquilo da pirólise, grunf.

  7. Depois de ter ouvido hoje um Deputado do PS a Zorrar qualquer coisa como “o que o senhor Presidente da República decidir [quanto à eventual averiguação da constitucionalidade do OE2012], por nós, estará bem decidido” concluo, com alguma raiva, que este PS nas próximas eleições, por este andar, nem conseguirá sequer Segurar o patamar mínimo da sua irrelevância histórica, cujo “record” nacional foi estabelecido, com notável “brilhantismo”, em 85, por Almeida Santos: menos de 22% de votos!

    O problema é que nesse ano, e embora demasiado efémera, ainda se perfilava no horizonte do Centro-esquerda alguma esperança associada ao PRD, ao passo que hoje, à exceção da desgarrada coragem de Isabel Moreira, nada nos permite ter qualquer tipo de esperança numa solução eleitoral para o imbróglio político, mas também social, económico e financeiro em que Portugal se encontra profundamente imerso.

    AVISO:

    Por mim, se nada mudar, voltarei a ter de votar JOSÉ SÓCRATES: se ele não estiver à frente de nenhuma das listas concorrentes, escreverei o seu nome no Boletim, por cima de todos os Partidos, e porei a cruzinha num quadrado que farei à sua frente. Parece que, em rigor, se chama a isto “voto nulo” e, precisamente, será a forma mais fiel de exprimir o meu pensamento, passando um atestado de completa NULIDADE aos atuais políticos portugueses no ativo…

  8. oh júlio! tás enganado, a isabel votou contra porque ficou baralhada com o seguro e quando viu uma janelinha de oportunidade, bimba, defenestrou-se para comemorar a restauração e de seguida pediu desculpa ao chefe. o episódio da brites fica para o aniversário de aljubarrota.

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